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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

"A vida é sempre a perder"

Sorrir e chorar.jpg

 

Há dias em que acordo triste, mas mesmo triste. E quero que a tristeza se vá embora mas não consigo, ela agarra-se-me às pernas, ao corpo todo, à alma e não deixa de me enevoar o dia. Já compreendi que o segredo é não lutar contra ela. É deixá-la vir, pousar, fazer-me pensar, chorar, e depois seguir em frente, quando puder ser. Quando der. Toda a vida me foi ensinado a não ficar a alimentar os meus monstros. A não pensar nisso. A não mexer nas feridas. Poderá servir para outras pessoas mas para mim - aprendi - não. Há dias em que acordo triste e não merece a pena contrariar. Porque tenho razões para estar triste. Porque perdi uma pessoa fundamental na minha vida, porque tenho outras dores de que não quero falar, e porque não sou de borracha. Tenho um coração a bater aqui dentro, felizmente. 

Não quero ter o fatalismo da canção "Homem do Leme", dos Xutos, que nos diz que "a vida é sempre a perder". Mas o pior é que é verdade. Vamos perdendo. Capacidades, energia, saúde, pessoas. Pessoas que são nossas, tão nossas, que é como se fizessem parte do nosso corpo e, por isso, quando as perdemos são pedaços de nós que nos são amputados. Não é fatalismo, é a realidade: a vida é mesmo sempre a perder. Claro que vamos ganhando também, senão mais valia desistir. Vamos ao tapete, levantamo-nos, vamos ao tapete de novo. Somos duros na queda. Conseguimos mais do que achávamos que éramos capazes.  

O mais estranho de tudo é esta montanha russa de emoções, que nos põe tristes - mas mesmo tristes - num dia, e a rir a bandeiras despregadas no dia seguinte. A sentirmos que é tudo cinzento num dia, e a acharmos que é tudo colorido no dia a seguir. É quase uma esquizofrenia, mas a vida também é assim. Já dizia o Herman: a vida é como os interruptores, umas vezes para cima, outras para baixo. Ele disse-o na galhofa mas é também na galhofa que se dizem coisas acertadas. O importante é mesmo aprendermos e aceitarmos que é assim. Não embandeirarmos em arco com os dias felizes (não deixando, no entando, de os sorver até ao último segundo), mas também não chutarmos para canto os dias tristes. Tudo faz parte. Tudo. O bom, o mau, o assim-assim. 

Eu estou a aprender isto agora. Sim, só aos 44 anos. A vida foi branda comigo e tinha as minhas neuras, sim, mas não dias tristes, mesmo tristes. Quando eles chegaram, comecei por querer à força enxotá-los. Agora deixo-me simplesmente estar. Nesses dias evito vir aqui porque ninguém tem grande pachorra para gente triste. Não esqueço alguém que disse a uma amiga em luto: "O quê? Ainda estás assim? Ele já morreu há um mês!" A mim também já disseram coisas parecidas. Nos dias tristes não apareço, faz de conta que está tudo bem. Não está e não faz mal que não esteja. A seguir virão momentos bons, óptimos, incríveis. Porque a vida é mesmo assim, quase sinistra nesta ambivalência. E é preciso aprender a aceitá-la como ela é.

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