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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

15 anos

Faz hoje 15 anos que a D. Emília trabalha connosco. Quinze anos. Quando chegou a nossa casa, a nossa casa ainda era no Príncipe Real, na mesma rua onde ela morava. Quando chegou a nossa casa, éramos nós dois, o Manel com 3 anos e o Martim dentro da minha barriga. Quando mudámos de casa, um ano depois, pensámos que ela não iria aguentar muito. Afinal, uma coisa era sair de casa, descer a rua e estar no trabalho, outra coisa era ter de apanhar dois autocarros e ir para a outra ponta da cidade. Afinal, os anos passaram, a nossa D. Emília resistiu, mudou de casa para mais perto de nós, e continua connosco. É o meu braço direito, é ela que encontra tudo o que não sei onde está, é ela que repõe todos os dias a normalidade, a limpeza, a harmonia. Não deve ser fácil deitar todos os dias a mão ao caos e transformá-lo em ordem. É ela que me lembra que é dia de música, é dia de explicação, é dia disto e daquilo. É o meu horário, o meu relógio, o meu calendário. Quando chegou a nossa casa, éramos 3. Hoje somos 6 e um cão. Não consigo imaginar-me sem a nossa santa Emília. Se a vida se apertar, preferirei abdicar de muita coisa, dela não. 

Obrigada, do fundo do coração, por esta década e meia de dedicação. 

O proibido loden verde

Freitas do Amaral morreu ontem e, além de dizer o que já muito se disse, sobre o facto de ter sido um dos fundadores da democracia portuguesa, relembro a campanha para as presidenciais de 1986 e o seu mítico loden verde. A minha mãe era PS, os amigos da minha mãe eram PS, e eu a filha dos amigos da minha mãe suspirávamos em segredo por aquele loden verde. Creio que terá sido das primeiras peças de roupa que desejei ter, assim mesmo muito, como mais tarde quis ter as calças Uniform, El Charro, Chevignon e os blusões Duffy. Mas aquele loden verde... aquele era proibido. Porque querê-lo era como se nos tivéssemos passado para "o inimigo". Vesti-lo era fazer um statement, era ser Freitas, era ser CDS, cruzes credo. No Colégio Moderno, onde eu andei do 5º ao 12º ano, andávamos com os crachás a dizer "Soares é fixe". E eu achava que era, gostava dele, identificava-me com os ideais mais à esquerda do que à direita. Havia muita gente com os crachás. Mas também havia muitos colegas com o loden. E entre os crachás e o loden... caraças, só pensava que podíamos ter tido mais sorte no símbolo da nossa ideologia. 

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Freitas do Amaral: 1941-2019

Mãelabarista*

Este ano está a ser mais difícil de gerir o equilíbrio entre a minha vida e a vida dos meus filhos. Dou por mim - como agora, neste preciso momento - a escrever em vãos de escada, em salas de espera, em cafés próximos do instituto de música, da escola, disto, daquilo. Agora, por exemplo, escrevo sentada numas escadas de pedra, à porta do instituto onde oiço a voz da Madalena misturada com as outras vozes do coro, a tentarem sair afinadinhas, ao mesmo tempo que o piano entoa uma música que me embala. Há uma hora estava numa sala de espera enquanto escutava a Mada tocar piano e ao fundo alguém tocar violino, e ainda o som de um clarinete a sair de uma outra sala. Recuando mais um pouco, era ver-me a pedalar a toda a mecha para ir buscar a Mada à escola, e depois era ver-nos às duas, a todo o gás, a pedalar de regresso a casa. Fiz almoço para 5 (peitos de frango assados no forno com arroz e salada) em 30 minutos, porque às quartas almoçam 5, mas às quintas e sextas almoçam 4, e à segunda e terça almoçam 3. Daqui a nada tenho de fazer o jantar para 6, desse nunca me livro, excepto quando chego mais tarde que o Ricardo, e ele se adianta. Ainda haverá banhos e trabalhos de casa e o coro só termina às 20h. 

Este ano sinto que não estou a conseguir ser produtiva nas minhas coisas, nos meus projectos, e isso desespera-me mas, por outro lado, quero acreditar que estou a fazer algo importante para estas 4 alminhas que decidi pôr no mundo, apoiando, ajudando numa certa ordem e disciplina diárias que nunca impus, eu que sempre fui mais de deixar rolar (e nem sempre com bons resultados). Ter uma família numerosa implica algumas cedências, repito de mim para mim sempre que adio, sine die, as minhas coisas.

Gosto particularmente da rotina de levar a Mada de bicicleta para a escola. Lá vamos os três (o Mateus no atrelado), a conversar, a ver a vida em redor, a rir. Depois, no regresso, como é cedo ainda para levar o Mati para a escola, vou uma meia hora com ele para o café. Ele pede todos os dias um bolo e acaba invariavelmente a comer uma peça de fruta, excepto à sexta, em que o deixo comer um pastel de nata. Eu bebo um ou dois cafés e jogo à bola com ele (sim, no café, que tem uma zona especial para as crianças). Esse momento é outro daqueles em que sinto mesmo que tento muita sorte. A felicidade dele, enquanto jogamos à bola naquela meia hora matinal, não tem preço.

Já a rotina de ir buscar a Mada à escola não é tão boa porque me calha demasiado cedo, mesmo a meio da tarde para me cortar o ritmo, e lá vou eu de bicicleta, e lá vimos nós de bicicleta, mas já estou em campo para ver se em dois dias da semana a ocupo com um desporto que a escola vai oferecer, e assim ela mexe-se mais um bocado, e eu trabalho mais um pouco. Quando a chuva se juntar a esta equação vai ser hilariante, a sério, vai. Mas eu sou teimosa que nem uma mula, e não vai ser uma chuvinha que nos vai acabar com as viagens sustentáveis, saudáveis e divertidas. Ou então vai, e vou maldizer a vida, e achar que falhei, e a seguir desculpo-me, que sou só uma mãe como as outras. Logo se vê.

Também esta decisão de acompanhar de perto o Martim e pô-lo todos os dias a rever a matéria que deu, é algo que me tira anos de vida. É a primeira vez que estou na luta para que cumpra este ritual diário - e é uma luta, por Deus, se é! Mas quero muito acreditar que deste modo será mais difícil cair na situação em que caiu no ano lectivo passado, em que esteve vai não vai para se espalhar ao comprido. Só que toca-me ao final do dia, quando os outros todos já estão, quando há banhos e jantares e tudo a bombar ao mesmo tempo. 

A vida de uma mãe freelancer é uma vida espectacular. Não a trocava por nada. Nada, nada, nada. Se algum dia tiver de voltar para um trabalho, com um chefe, com um horário rígido, com um local fixo para onde ir todos os dias, acho que será o pior dia da minha existência. Poder decidir quando e onde e como se trabalha é de uma liberdade insuperável. Mas (e parece ter de haver sempre um mas, é a velha história de não haver bela sem senão) é também uma vida exigente. Porventura mais exigente, mas não quero pôr a tónica no "mais", porque fazer isto tudo não tendo a liberdade que tenho também é do cacete. Já tive essa vida e era muito difícil. Por isso reformulo: não será mais exigente, será apenas exigente de um modo distinto e particular. Porque não me posso esquecer de mim, de que também eu tenho de produzir, também eu preciso existir, mas também não posso simplesmente descartar os miúdos e as suas (muitas) necessidades. Há um equilíbrio que é preciso ter e manter e este ano, não sei bem porquê, está a ser mais difícil (e demorado) encontrá-lo. Sinto-me uma malabarista, acho que nos sentimos todas. Somos mãelabaristas.

 

*Texto escrito ontem pelas 19h, nas escadas do instituto de música, enquanto ouvia a Mada e os colegas de coro a fazerem exercícios vocais (creio que ainda vou escrever muita prosa naquelas escadas)

Agora deu-lhe para isto

E que bem que lhe deu. 

Fui ontem ver o espectáculo de piquena Pipoca e devo dizer que a miúda é grande. Nada que eu não soubesse mas pronto. Conheci-a jornalista, depois acompanhei o momento em que se tornou exclusivamente blogger de mega sucesso e agora é vê-la desfilar inteligência e sarcasmo pelos palcos de todo o país. Bom, e a desfilar aquele corpinho também, raça da criatura que está boa comá Nutella (esqueçam lá o milho, nunca percebi esta comparação). A Pipoca é um bocado como o Midas: tudo aquilo em que toca vira ouro. Até enerva. Se não foram ver... esqueçam. Está tudo esgotado. Para a próxima mexam-se. Mas para a próxima também já deve ser no Altice Arena, de maneira que já vai haver mais bilhetes. Parabéns, caraças! You rock!

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Mateus, o inglês (Parte II)

Ontem, a meio de coisa nenhuma, o Mateus disse:

- I'm wonderful.

- Hein? O que disseste, Mati?

- I'm wonderful.

- Awwwwwwwwwmmmm, yes you are, sweetie!

Ele sorriu, todo esborrachado por mim, e atirou:

- E... I'm hungry. Quero comer. 

 

Traduzindo: sou incrível e maravilhoso mas agora alimenta-me, se não te importas.

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Os heróis deviam poder cruzar a meta

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Na semana passada conheci os Iron Brothers. Entrevistei o Miguel e fiquei deslumbrada com a sua força, com o poder do seu amor pelo irmão, com a garra com que contou todos os feitos e todos os projectos futuros. O feito que ele tinha para este domingo pode não ter sido alcançado em pleno, mas foi um feito do caraças, ainda assim. O feito era completar o Half IronMan de Cascais, mas o Miguel e o Pedro foram desclassificados por não terem chegado no tempo limite a um determinado ponto onde tinha de se chegar a determinada hora. Foi muito doloroso acompanhar o desalento dos irmãos, que tanto se esforçaram por conseguir esta proeza. O Miguel, de uma forma suprema, mas o Pedro também, porque não é fácil ir tanto tempo na mesma posição, ao calor, sujeito a todas as trepidações e curvas e balanços. Custa-me um bocadinho que o tempo de cut-off seja igual para eles, que partem no fim de toda a gente, ou seja às 8:01 da manhã. Mas enfim... são regras (se bem que ainda ontem os irmãos Pease fizeram o 70.3 de Augusta, EUA, em 9h11m15s - é a mesma marca IronMan mas aparentemente com regras distintas).

Foi lindo assistir a toda a prova, foi lindo assistir à não desistência deles, mesmo depois de se saberem desclassificados. Podiam ter ido para casa mas... isso não era de campeões. Se era para fazer, era para fazer até ao fim! E assim foi. Até ao fim. Ou devo dizer... até quase ao fim. Porque os dois irmãos foram impedidos de cruzar a meta pela organização. E isso deixou-me triste. 

Não esqueço o apoio que a equipa IronMan deu ao Team Vasco, foram incríveis nas menções que foram fazendo aos microfones, achei lindíssimo o cuidado que tiveram e as frases como "Vasco, you will me missed" comoveram todos os amigos e família que ali estavam naquela homenagem. Foi muito bonito mesmo. Acho que a prova estava bem organizada, acho mesmo espectacular o facto da marca IronMan organizar uma prova em Portugal. Mas (e é uma pena ter de pôr aqui um mas) o facto de não terem deixado aqueles dois irmãos cruzarem a meta foi uma atitude quanto a mim incompreensível. O motivo apresentado foi o facto de estarem desclassificados mas... daí até não os terem deixado cruzar a meta, numa altura em que já quase não estava ninguém a passá-la (pelo que a eventual desculpa de que iam "atrapalhar", estando desclassificados), é simplesmente pouco humano. O Miguel fez um esforço brutal para conseguir fazer esta prova, o Pedro (seu irmão com paralisia cerebral) estava felicíssimo por participar. Ambos tiveram um grande desgosto ao não conseguirem chegar a tempo ao cut-off. Mas ainda assim continuaram porque desistir não era opção. Fizeram a natação, a bicicleta, a corrida TODA. E depois não puderam cruzar a meta? Tiveram de ir ali pelo corredor lateral, como se fossem clandestinos? Depois de se saber desclassificado, o Miguel não queria medalhas, não queria constar das classificações. Só queria que o Pedro passasse pela emoção de entrar naquele corredor a ser aplaudido, e agora é inevitável que sinta que foi por sua causa que isso não aconteceu. E é cruel. E injusto. Então e todos os que também foram desclassificados e cruzaram a meta? Eu conheço alguns... porque é que esses não foram impedidos e os irmãos foram? Não percebo.

Os Iron Brothers não mereciam. Foi pena. As organizações de provas também têm muito para aprender no que diz respeito à inclusão. Temos todos, na verdade. E estas situações são típicas de quem vai à frente, de quem faz pela primeira vez, de quem abre caminho para os próximos. Mas, como prefiro ver o copo meio cheio, acredito que há sempre aprendizagens que se tiram do que não corre bem. Aposto que para a próxima a atitude já será outra. Acredito mesmo.

Foi bonita, a festa. Foi mesmo bonita

Ontem foi um dia que nunca mais vou esquecer. Acho que nenhum dos que ontem teve o privilégio de lá estar vai perder da memória aquilo que ontem se viveu. Ontem foi dia de alguns fazerem o Half IronMan, outros fazerem a prova em estafetas (foi o meu caso, fiz parte da Team Vasco, com a Raquel e o Paulo - eu nadei 1900 metros, o Paulo pedalou 90km e a Raquel correu 21km), outros estarem todo o dia a apoiar (e quando digo todo o dia é mesmo toooodo o dia, das 6h da manhã até às 6h da tarde, 12 horas de claque fortíssima - são os maiores!).

Ontem foi o dia da superação. Uma nota para a Madalena, que completou o seu primeiro Half Ironman (parabéns, sua valente), outra para o meu marido, que fez 90km de bicicleta com muito pouco treino, para homenagear o amigo na Team Brinca (estou orgulhosíssima, caneco, que herói!), e outra para o Zé Carlos. O Zé Carlos esteve em todo o lado ao mesmo tempo, como Nosso Senhor, ora a homeagear o seu amigo Vasco, ora a acompanhar os Iron Brothers. Fez todo o percurso ao lado deles, a puxar por eles, ao mesmo tempo que o seu coração se multiplicava, entre eles e a homenagem ao Vasco. É simplesmente o maior e eu sinto-me muito sortuda por ser sua amiga, palavra de honra. 

(bom, e a propósito da prova dos Iron Brothers, sobre os quais falei aqui na semana passada, farei um post mais tarde). 

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Ontem foi o dia de lembrar quem nunca será esqucecido. Foi o dia do Vasco. Foi o dia da Raquel. Foi dia de dar tudo por quem nos diz tanto. 

A todos, muito obrigada por tudo! 

(algumas fotos (as melhores) são da Cristina Segurado. Obrigada pela grande reportagem fotográfica)

 

 

ATENÇÃO!

A pedido de muitas leitoras, o Clube de Leitura, que era hoje, passou para a próxima quinta-feira, dia 3 de Outubro!

Não vão até ao Brown's Hotel, que dão com o nariz na porta!

Ou então vão, tomem um copo, jantem, fiquem por lá a dormir, que é bem giro!

 

Burro velho aprende línguas (e muitas outras matérias)*

Este é o segundo ano que a minha mãe está a frequentar a Universidade Sénior e eu não podia estar mais contente com tudo o que ela me vai contando. Para começar, não podia estar mais contente com ela, com a minha mãe. A minha mãe, que é tradutora de alemão, trabalha há vários anos sozinha e não é propriamente daquelas pessoas muuuuuito dadas aos outros, no sentido de ter um milhão de amigos e convívios e cenas várias. É, de resto, mais para o reservada, fechada, metida consigo. De modo que, se me tivessem dito, há uns anos, que ela havia de ir para a universidade sénior e que até havia de ir a convívios e passeios com os novos colegas... eu era menina para acusar o mensageiro do futuro de ser um bêbado inveterado. E no entanto... lá anda ela, toda satisfeita da vida, cada dia com novas histórias, cada dia com um novo brilho nos olhos, cada dia com diferentes aprendizagens.

Este ano, além das Artes, da Filosofia e de mais umas disciplinas, a minha mãe escolheu Teatro (mais uma daquelas escolhas que julgaria absolutamente impossível) e Desenvolvimento Pessoal (WHAT?? A MINHA MÃE? Really???). E sabem que mais: está a adorar ambas. Até parece mais nova, o raça da rapariga! Mais alegre, mais solta, mais aberta a compreender-se e - quiçá - a modificar-se. Prova provada de que nunca é tarde para fazermos coisas que nos desafiam, prova provada de que nunca é tarde para aprender.

A minha mãe tem quase 74 anos e continua a surpreender-me e, mais importante ainda, a surpreender-se. 

 

*Este título (antes que me apedrejem e digam que estou a chamar burra e velha à senhora minha mãe) é uma ironia ao ditado popular que diz justamente o contrário: "Burro velho não aprende línguas". Podeis respirar e... guardar a pedra.