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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Camp Abilities agora em "revista" (porque tenho um marido incrível)

Eu, o Martim, a Mada e o Mateus estamos em Monchique. Ontem à noite fui dormir às 23h e desejei que corresse bem o treino de rolos que o Ricardo, em Lisboa, disse que ia fazer. Hoje de manhã tinha uma mensagem dele, enviada ontem à meia noite e meia, com um link com a minha reportagem sobe o Camp Abilities em formato revista. "Esta foi a minha bicicleta desde que cheguei a casa até agora. Não está brilhante mas se achares bem acho que vai facilitar a leitura". 

Nem tenho palavras.  Obrigada é pouco mas já é um começo. 

 (não, ele não tem irmãos...)

CLIQUEM NA IMAGEM PARA VEREM A "REVISTA" TODA.

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Uma coisa importante que não disse mas que preciso dizer: esta colónia carece de muita ajuda. Há por aí tantas empresas que se podiam associar... os contactos da associação estão no fim. Terei todo o gosto em dizer que são as maiores por terem apoiado a AAMA e este campo de férias que faz mesmo, mesmo a diferença.

 

Camp Abilities: "Aqui aprendemos que é possível ver sem olhos"

Marta está sentada em cima da prancha. Tem os olhos postos no mar, dir-se-ia que o contempla. E é verdade. Só que não é com os olhos. Marta tem 14 anos e nasceu cega. "Nasci com amaurose congénita de Leber e por isso nunca vi. A vida sempre foi assim para mim." Talvez por isso ou porque os pais sempre a ensinaram a ser tão autónoma como se visse, é fácil esquecermo-nos que Marta não contempla o mar com os olhos, mas com o corpo inteiro. E ainda mais fácil se torna esse engano quando a vemos em cima da prancha, a apanhar ondas, com a destreza que os visuais creem ser só sua, numa arrogância que rima com ignorância. Marta é campeã europeia de surf adaptado e é a terceira melhor do mundo inteiro. 

Ao seu lado, na praia do Castelo, há muitos cegos e outros tantos normo-visuais (que serão designados, a partir daqui, apenas por visuais) prontos a experimentar uma aula de surf. Alguns pela primeira vez, outros a repetir. Ao todo são 44 crianças e jovens que participam num campo de férias completamente diferente de todos os outros. Chama-se Camp Abilities Portugal e é uma adaptação de um modelo americano de colónias de férias para jovens com deficiência visual com apoio individual. A diferença é que o campo originalmente criado por Lauren Lieberman em 1996, em Nova Iorque, tem um monitor adulto para cada criança cega. A colónia criada pela AAMA (Associação de Actividade Motora Adaptada) em 2015 tem uma criança visual por cada criança cega. É o primeiro campo do país em que os monitores são crianças e é essa diferença que faz desta colónia um lugar mágico. Não só os miúdos cegos sentem uma maior proximidade com os seus monitores, com toda a envolvência que essa empatia promove, como os miúdos que vêem recebem ali grandes lições que levam para a vida. Dos 44 participantes, 22 são cegos, 22 são visuais. Há 11 rapazes e 11 raparigas cegos; 11 rapazes e 11 raparigas visuais. Os cegos podem repetir a experiência até ao ano em que perfaçam 18 anos. Os outros só podem ir uma vez.

Guilherme, 16 anos, é o monitor da tarde de Abulai, de 13 anos (os monitores mudam duas vezes por dia para que todos se dêem e para que ninguém fique preso a um companheiro com quem não sinta empatia ou, pelo contrário, para que não se formem relações tão intensas que não sobre espaço para novas interacções). Estão ainda na areia, a aprender os movimentos necessários antes de se fazerem ao mar. Pega-lhe na mão, cuidadosamente, e leva-o a sentir a prancha de surf. A superfície, o rebordo, o bico. Explica-lhe os movimentos, conduz o seu corpo pouco hábil levando-o deitar-se, levantar-se, dobrar os joelhos para ficar em posição de equilíbrio. Abulai responde com a cabeça que sim ou que não às perguntas que lhe são feitas. Abulai não fala. Ou melhor, fala com dificuldade mas no campo optou pelo mutismo total. Não proferiu uma única palavra. Rita Costa, presidente da AAMA e mentora do Camp Abilities Portugal, explica que não é o primeiro: "Temos aí outro miúdo que no primeiro campo não abriu a boca, no segundo campo disse umas palavras, e hoje fala pelos cotovelos. Há crianças e jovens que têm pouca interacção, pouco estímulo na vida de todos os dias, e que reagem assim, à defesa." O silêncio como uma espécie de concha protectora. 

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Na água, Abulai sorri. O corpo, pouco acostumado à vastidão da água, começou por estar retraído, mas foi-se soltando como num regresso a um meio familiar, seguro. Parece um contrasenso, porque o mar é tudo menos segurança e familiaridade. Mas para Abulai e para muitos cegos a sensação de liberdade do mar traz consigo paz e remanso. Abulai desliza pelas ondas até à areia com uma expressão de alegria que já ninguém lhe tira. Ao lado havia miúdos cegos que nunca tinham ido à praia. Claudina, de 15 anos, por exemplo. Depois da aula de surf, Claudina pediu se podia ir ao mar, sem prancha, "tomar banho com o corpo todo". Mamadu, 8 anos, também nunca tinha ido à praia e, ao sentir o mar nos pés, exclamou: "Ah! Mas isto é mesmo muita água! Muita água..."

Nas ondas, Marta mostra como se faz. Os que a podem ver olham-na com espanto e respeito. Os cegos ouvem os relatos sobre os feitos da companheira de campo e alguns hão-de pensar que se ela consegue eles também podem conseguir. "O surf surgiu na minha vida há dois anos. Sou de Viana do Castelo e costumava andar de skate à porta do café da minha mãe. Uns professores do Surf Clube de Viana viram-me e disseram que se sabia andar tão bem de skate podia tentar o surf. Eu, que sempre gostei de desporto, aceitei o desafio. Comecei a treinar e rapidamente fui chamada à Selecção. E foi assim que me tornei campeã." Para quem não sabe, fica a explicação: o surf adaptado é igualzinho ao surf "normal". A única diferença é que, nas provas, o treinador está com os atletas dentro de água, para ser os seus olhos (mas não lhes pode tocar). Tudo o resto é igual. "A minha mãe não consegue ver as minhas provas e fica muito aflita. Mas foram eles, foram os meus pais que me deram toda esta autonomia. Quando eu nasci e eles perceberam que eu era cega quiseram que tivesse as mesmas oportunidades que a minha irmã, que é visual. Sempre fiz tudo: equitação, natação, goalball... sou aluna de mérito e excelência na escola e a minha disciplina preferida é a Matemática. Gostava de ir para Ciências mas, assim como os meus pais me ensinaram que podia ser uma pessoa normal, também me ensinaram desde sempre que não podia fazer tudo, tudo o que quisesse. Ser médica, por exemplo, não está ao meu alcance. Os professores dizem-nos sempre que se tivermos boas notas podemos ser tudo. Nós, cegos, não podemos. Mesmo com as melhores notas. E isso é frustrante. Mas pronto, é a vida. Agora tenho de escolher, dentro da área de Ciências, algo de que goste e que seja simultaneamente possível."

Nem todos os cegos no campo de férias têm a autonomia da Marta. Há aqueles que, nascidos em famílias menos favorecidas, são menos estimulados, há os que são demasiado protegidos porque os pais têm medo do que lhes possa acontecer, há os que, além da deficiência visual, têm outros problemas de desenvolvimento. É também por isso que o autêntico "Tetris" que a equipa de 7 coordenadores faz diariamente, para conjugar pares de cegos/visuais, é tão importante. "É crucial saber 'casar' uns e outros. Um exemplo: se de manhã um visual tem pela frente um cego difícil, pouco autónomo ou mais fechado, tentamos à tarde pô-lo com um cego totalmente diferente. Para que ninguém sinta que isto é mais do que consegue aguentar. Para não ser demasiado desgastante, frustrante", explica Rita Costa.

Mas a chave de tudo está na escolha das crianças que irão ser monitoras. Alguns pais não percebem, julgam que basta querer que os filhos vão, ou que basta os próprios filhos manifestarem o desejo de frequentar o campo. É um bom princípio, sem dúvida. Mas não basta. Há uma primeira entrevista, que pode ser logo eliminatória (ou não), e um teste na piscina. "Os visuais têm de ser mesmo miúdos muito especiais. Não quer dizer que os que não ficam não sejam óptimos miúdos, cheios de qualidades. Mas para fazerem esta colónia têm de ter uma responsabilidade acima da média. Têm de ser generosos, simpáticos, descomplicados e têm de gostar muito de desporto uma vez que este campo é de desporto adaptado. Preferencialmente devem ser miúdos já com experiências várias de outros campos de férias. Os pais às vezes lidam mal com a rejeição dos filhos. Ficam ofendidos, acham que é inacreditável, quem é que eu me julgo para excluir assim miúdos que eles acham perfeitos? Tento explicar. Por vezes é apenas uma questão de maturidade, no ano seguinte muitos estão prontos. Outros nunca estarão."

Os que passam na entrevista nem sempre são bem sucedidos no teste da piscina. Os coordenadores observam o modo como os visuais se relacionam com os cegos no balneário, o modo como oferecem ajuda (ou não), como resolvem problemas que surgem, como o contacto com a intimidade. A sua e a do outro: "Na piscina, cerca de 50% de visuais são excluídos. Uns porque desistem, compreendem que aquilo não é para eles, outros porque falham no teste. Há imensos miúdos que bloqueiam, sobretudo no balneário. Tenho notado que há muitas crianças e jovens com muitas dificuldades na relação com o corpo. Não conseguem expôr-se em frente aos outros e congelam quando têm de ajudar os cegos a vestirem-se ou a despirem-se. Além disto, as actividades na piscina são exigentes, obrigam a uma proximidade e a uma interacção que, tratando-se de estranhos, é vista como intrusiva por alguns."

Vasco tem 14 anos e falhou duas vezes.

 

100 Lugares para conhecer Portugal com as suas crianças

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Passear com os filhos é construir memórias. Como poderia eu esquecer tantas viagens que fiz com a minha mãe, dentro e fora do país? A mais incrível de todas foi a viagem que fizemos pela Europa, só as duas, conhecendo (ou reencontrando) tantos países e tantos locais que me marcaram tanto. Por isso, quando fui mãe quis repetir o que foi importante para mim e mostrar-lhes o nosso país e também todos os bocadinhos de mundo que lhes conseguir mostrar. Por cá já fomos juntos para o Algarve (todos os anos), já fomos imensas vezes para o Alentejo, para a Madeira, para os Açores, para Trás-os-Montes, para o Minho, para o Douro... Às vezes eles protestam. Que estão fartos de andar de carro, que ver igrejas e espigueiros e miradouros. Mas depois as memórias que construímos são aquelas que ficam: "Lembram-se daquela vez quando fomos a uma piscina de água termal quente no meio de um frio desgraçado? E o fumo que aquilo deitava!!!!", "Lembram-se quando descemos nos cestos, na Madeira?", "E daquela vez que..." É sempre assim. Uma família que passeia junta unifica-se, aprende, deslumbra-se ao mesmo tempo, ri, sente nervoso miudinho com algumas peripécias que o desconhecido sempre traz. 

O jornalista Paulo Nogueira acabou de publicar um guia completo de lugares em Portugal a visitar com os filhos. Está dividido por regiões e é perfeito para levar no carro, quando se vai de viagem para qualquer sítio, para ir fazendo um "check" em todas as sugestões. Ou então para ter em casa e tirar ideias para o fim-de-semana, naqueles dias em que nos falta imaginação para saber o que fazer com eles. Porque mesmo quando torcem o nariz... acabam sempre por deixar imprimir novas memórias que os acompanharão para sempre. 

Férias da miudagem

Não é fácil lidar com tantas férias dos miúdos. Odeio dizer "no meu tempo" porque isso implica uma espécie de assunção de que este já não é o meu tempo (e se estou viva, este tempo é ainda meu também, homessa!), mas cá vai: "No meu tempo" gerir as férias não era assim tão complicado porque ficava com a minha avó a tomar conta de mim ou então passava os dias na rua com os meus amigos. Esta malta é mais complicada. A cena de brincar na rua está afastada e o pior é que mesmo que não estivesse acho que tinha de os empurrar para a rua porque o que mais querem é... ficar em casa a jogar ou a ver vídeos. Raça de gente mais esquisita. No outro dia o Martim contava-me que tem amigos que faltam aos jantares de aniversário porque preferem ficar a jogar. Say WHATTTTT???? 

Em bom rigor, se os deixasse ficariam todo o santo dia de roda de jogos e vídeos e telefones e o demo. Por isso, enquanto não vão para as semanas de férias com os avós, têm actividades programadas. A Madalena e o Martim estiveram uma semana num campo de férias (Sniper) e aí bem que podiam sonhar com as tecnologias que o que tinham era aventura ao ar livre e 30 minutos de telefones por dia. Na semana passada, ela foi para uma escola de surf e ele pediu muito para ficar em casa. Para não ficar todo o dia agarrado às máquinas, teve de fazer 1 hora de bicicleta por dia, ler um determinado número de páginas de um livro, teve de aprender uma música e saber tocá-la na guitarra no final da semana. E, entretanto, tem ido e continuará a ir esta semana fazer voluntariado umas horas por dia. Está entusiasmado como há muito não o via (de facto não há maior verdade do que aquela que diz que recebemos muito mais do que damos quando nos damos aos outros). 

Esta semana a Madalena também fica por casa e também terá actividades para fazer. Lamento mas era isso ou transformarem-se em pequenos zombies. Se uma pessoa não contraria esta tendência qualquer dia, além do osso a mais nas costas e de um polegar maior, ainda são capazes de deixar de saber falar.

E vocês? Também na luta para entreter criaturas desocupadas?

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Mateus, o rebaptizador

Hoje dormiram cá em casa três irmãos, amigos dos meus filhos todos (ou não fossem filhos de grandes amigos nossos). De manhã, antes de os levar a todos para o surf, estavam à mesa a tomar o pequeno-almoço quando a Mada perguntou ao Mateus:

- Como é que ele se chama? - apontando para um dos irmãos.

- Gonçalo.

- Boa! E ela? - direccionando o dedo para a Francisca.

Ele ficou a olhar para ela, com os olhos semicerrados. A Francisca decidiu ajudar:

- Ki...

- Kiwi!

Estivemos a rir até sair de casa. 

Clube de Leitura do Porto by MultiOpticas: foi na sexta-feira e houve... espíritos à solta

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Desta vez a leitura era livre, por isso acumularam-se sugestões de novos livros que vieram somar-se às sugestões de Lisboa, numa bola de neve literária que promete continuar, para desespero daqueles que, como eu, gostavam de conseguir ler este mundo e o outro. 

A Marta apareceu pela primeira vez, confessando que os filhos e a falta de tempo a têm roubado aos livros mas pode ser que o clube a traga de novo para junto das leituras, que tanta falta lhe fazem. Sendo assim trouxe um livro que já leu há algum tempo mas de que gostou mesmo muito: "O Czar do Amor e do Tecno", de Anthony Marra. "Passa-se na Rússia de Estaline, em 1937, e vai até à guerra da Tchechénia, com o comunismo sempre muito presente." 

A Anabela trouxe "A Balada de Adam Henry", de Ian McEwan. "Adam é um rapaz com leucemia e tem de fazer um tratamento que, posteriormente, irá requerer a realização de transfusões de sangue. Só que os pais são Testemunhas de Jeová e não o permitem. O hospital pede intervenção judicial e é toda a história em redor deste dilema moral, ético e religioso, e é muito interessante."

A Raquel leu "As Regras da Cortesia", de Amor Towles. "Passa-se em Nova Iorque, no final dos anos 30. É a história de uma rapariga de origens modestas, que partilha um quarto com outra rapariga, numa residência para mulheres. Uma noite vão até um clube de jazz, conhecem um homem da alta finança com quem travam amizade e o livro conta a história da introdução das duas raparigas modestas numa esfera social que não é a sua mas que, na América daquele tempo, podia passar a ser. O velho sonho americano e a respectiva mobilidade social, com todas as suas facetas. Gostei. Às vezes parecia um pouco inverosímil mas, de facto, a américa tem  - ou tinha - muito disto."

O Diogo falou-nos de "Escrito na Água", de Paula Hawkins. "Não achei particularmente bem escrito. Acho que a construção das personagens podia ter sido feita de uma forma mais profunda e a história podia ter sido melhor trabalhada." Em seguida, contou sobre "O Homem dos Sussurros", de Alex North. "É um livro que condensa vários géneros: ele é thriller, mas também tem um pouco de terror. É policial mas também se pode dizer que é um romance. O tema da paternidade é muito bem trabalhado, no sentido de como um pai sozinho se sente a educar um filho, com todas as dúvidas e receios... gostei muito e recomendo!" Os últimos dois livros que leu e de que falou eram infanto-juvenis (porque o Diogo tem um blogue onde fala de livros e, por isso, toca todos os géneros e targets: No Conforto dos Livros): "Tiro Certeiro", de Robert Muchamore e "O Príncipe Caspian" (o segundo das Crónicas de Narnia), de C.S. Lewis.

A Conceição mais uma vez fez-nos rir. Disse que andou à procura na estante do livro mais fininho que encontrou, porque tem estado com os netos e com pouco tempo livre para ler. Então, encontrou "Olhos de Cão Azul", um livro de Gabriel Garcia Marquez que se lembrava de ter lido havia muitos, muitos anos, e de não ter gostado. Na etiqueta, o preço: 1.610 escudos! Foi, de facto, há muito tempo. Então e desta vez? Gostou? "Não! Não gostei nada na mesma. Mas pronto, cumpri: li e posso dizer-vos que, apesar de ter escrito livros fantásticos, este não é nada bom. Pelo menos para mim!"

A Mariana leu "Só o Amor é Real", de Brian Weiss, um psiquiatra que passou a acreditar em reencarnação ao fazer hipnose aos seus pacientes. "Alguns doentes começaram a falar línguas que desconheciam, línguas antigas, que inclusivamente já tinham deixado de ser usadas, pelo que só podiam conhecer se tivessem vivido noutro tempo. Os relatos são impressionantes e fizeram-me pensar." Mariana também leu "O Jogo do Anjo", de Carlos Ruiz Zafon, que a cativou pelo brilhantismo da escrita. "É a história de um rapaz que tem uma infância difícil e cujo pai proibe de ler, para que não tenha ideias de prosseguir com os estudos, porque não há dinheiro para isso. Mas o rapaz lê às escondidas e, entretanto, com a morte do pai arranja um tutor que não só lhe permite ler como estudar. Torna-se escritor e faz livros por encomenda. Entretanto, há um homem que lhe faz uma encomenda muito interessante mas a história parece-lhe obscura e ele vai investigar... Gostei muito, não só da história como da escrita. Dava por mim a rir sozinha com a forma como ele descrevia as coisas." A Mariana, que é bastante eclética, leu também "A Casa de Charles Street", de Danielle Steel. 

Foi com o livro "Só o Amor é Real" e os relatos de vidas passadas que começaram as nossas conversas paralelas sobre espíritos. Uns acreditam, outros não, outros preferem manter-se na dúvida. Falámos do jogo do copo e de estranhas coincidências. E também da hipnose e do perigo de ser feita por quem não sabe muito do assunto (há relatos de pessoas que enlouqueceram e a Marta conhece muito bem um desses casos).

O Paulo e a Cristina vieram a convite da Cláudia e não trouxeram livros mas o Paulo aproveitou para falar do livro "A Horse Walks into a Bar", de David Grossman, um livro que o marcou muito. "O narrador recebe um convite para estar num determinado stand up e conta a história da sua vida. É - como muitos cómicos - uma pessoa amargurada e o livro é todo sobre esta euforia-disforia-espectáculo. Achei muito interessante toda essa montanha russa emocional e a reacção do público que está ali para rir." A Raquel também o leu e aproveitou para dizer que sentiu falta de um "grand finale" que o livro parecia prometer mas nunca chegou a cumprir.

A Cláudia leu "Uma Educação", de Tara Westover, um livro que é a biografia da autora, que nasceu e foi criada numa família mormon e que teve de romper com a família para poder ter aquilo que lhe faltava: educação (entre outras coisas, nomeadamente, acesso à Medicina, que os pais consideravam ser um dos instrumentos do diabo). O livro é impressionante e a caminhada da autora não deixa de surpreender quem lê (terminei agora de ler o meu e não podia concordar mais). Outro livro que leu foi "Ao Fechar a Porta", de B.A. Paris. Achou um thriller vibrante mas pareceu-lhe que as críticas prometiam mais do que o que o livro é. Por fim, relatou-nos como foi a leitura de "Só o Tempo Dirá", de Jeffrey Archer, o primeiro volume do sucesso mundial "As Crónicas de Clifton", a história de um jovem nos anos 20, que não conheceu o pai e a quem foi contada uma história sobre o pai que - vem a descobrir mais tarde - não corresponde à verdade". Cláudia gostou muito e recomenda.

A Sofia, que está de partida para uma acção de voluntariado na Índia, leu "A Fome", do jornalista Martin Caparrós. O livro analisa a origem da fome nas diferentes regiões do mundo, das mais pobres às mais ricas: Índia, Argentina, Sudão do Sul, Estados Unidos da América. "É um livro muito cru, em que não há paninhos quentes. Ele é directo, cru, violento, até. Não é um livro para ler, é um livro para ir lendo. E aprendendo muito."

A Lígia, que também foi uma estreante no Clube, leu imensos livros. "Jogos Cruéis", de Jodi Picoult. É a história de como uma paixoneta juvenil pode tramar a vida de um homem inocente, que se vê enredado numa série de mentiras que lhe custam a liberdade e a vida, pelo menos a vida tal como a conhecia. A Lígia também leu "A Avó que Percorreu o Mundo de Bicicleta", Gabri Ródenas, que é no fundo um livro de auto-ajuda, que procura dar algumas lições de ânimo, esperança e amor; "A Força do Amor", de Angela Hart (sobre famílias de acolhimento e a forma como crianças vítimas de abandono testam as novas famílias até ao limite do impossível, para se certificarem de que aquele amor é real); "Tu Sabes que Queres", de Kristen Roupenian, um livro de contos essencialmente sombrios.

O Pedro leu 84 páginas do livro "Nome de Guerra", de Almada Negreiros. "É a história de um miúdo da província que é mandado para a cidade para se fazer homem e que, no processo, conhece Judite, que é bem capaz de cumprir os propósitos de quem enviou o rapaz para a cidade." Pedro falou também de uma série (possivelmente responsável por não ter terminado o livro, este mês): Bonus Family. Uma série sueca que é uma espécie de novela mas... em muito, muito bom. 

A Joana trouxe-nos "O Tatuador de Auschwitz", de Heather Morris, o relato verdadeiro de Lale Sokolov, incumbido da tarefa de tatuar os prisioneiros em Auschwitz. Um dia, na fila para ser tatuada, Sokolov vê Gita e... foi amor à primeira vista. O livro conta então a determinação do tatuador em sobreviver, bem como em fazer sobreviver o amor da sua vida. Este romance é baseado em entrevistas que o autor fez ao longo de diveresos anos à Sokolov, vítima do Holocausto e tatuador em Auschwitz-Birkenau.

"A Paciente Silenciosa", de Alex Michaelides foi a leitura da Verónica. "De todos os thrillers que li até hoje, este foi sem dúvida o mais surpreendente de todos. Alicia é uma pintora famosa e o livro começa quando ela está numa instituição psiquiátrica onde só estão pessoas que cometeram crimes horríveis. Ela está nessa casa porque foi encontrada ao lado do marido morto com vários tiros e, portanto, é a principal suspeita. Ela nunca fala, nem sequer para se defender. Até que entra em cena um psicoterapeuta criminal que acredita ir conseguir fazê-la desvendar o mistério. Fui, ao longo do livro, imaginando desfechos mas o final é absolutamente surpreendente." Verónica também leu "Persuasão", o último romance de Jane Austen, e gostou muito. Por fim, leu "Entre as Mentiras", de Michelle Adams, que não lhe encheu as medidas: "Talvez por ter grandes expectativas não fiquei tão agradada quanto esperava. É a história de uma mulher que tem um acidente e perde a memória. Não se lembra de nada nem de ninguém mas sente que lhe escondem coisas."

A Sara leu "Crónica de Uma Morte Anunciada", de Gabriel Garcia Marquez: "Há um assassinato e do que mais gostei foi de perceber como cada pessoa da aldeia tem uma percepção totalmente distinta da mesma realidade. Porque é mesmo assim: a memória é aquilo que cada um é, aquilo que cada um quer que seja, aquilo que cada um traz. Achei muito curioso."

Eu li "29 Segundos", de T.M. Logan e é a história de uma mulher que é assediada pelo chefe, que é um porcalhão. Um dia ela tem a oportunidade de ver desaparecer uma pessoa de quem não goste. Basta-lhe fazer um telefonema, que dura apenas... 29 segundos. Li depressa, nos voos para as Maldivas, mas achei as críticas e as frases estrategicamente colocadas na badana da contra-capa do livro manifestamente exageradas ("Incrível! A sensação de impotência torna-se quase insuportável. Prepare-se para ranger os dentes e roer as unhas quase até ao amargo desenlace"). O outro livro que li foi "Os Homens que Odeiam as Mulheres", de Stieg Larsson. Como tendo a escapar às grandes modas, escapei desta saga durante muito tempo. Mas agora que comecei a trilogia de Larsson (entretanto transformada numa pentalogia, porque foi continuada por outro autor, uma vez que Stieg Larsson morreu subitamente, não tendo conhecido o retumbante sucesso que a sua obra teve em todo o mundo) vejo que devia ter começado mais cedo. Adorei este livro. É um thriller mas muito bem construído. As personagens são solidamente construídas, a teia de acontecimentos muito bem pensada, com todo um esquema de corrupção económica que exigiu investigação e conhecimento. Mesmo, mesmo bom.

 

Obrigada à MultiOpticas pelo extraordinário apoio. Batem forte cá dentro!

Obrigada ao Vila Galé Porto por nos acolher sempre tão bem!

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Sou madrinha... de um bolo

Quando me convidaram para ser madrinha de um bolo fiquei um bocado de cara à banda. Como assim? Madrinha de um bolo? Eu até já tenho 3 magníficos docinhos como afilhados mas um bolo ainda não constava no rol. Foi desta. Sou madrinha do Bolo de Tacho de Monchique, que é finalista distrital das 7 Maravilhas Doces de Portugal.

Sobre o bolo-afilhado: reza a história que foram os frades Franciscanos do Convento de Nossa Senhora do Desterro que, no século XVII, criaram este bolo usando produtos locais. Por inicialmente ir ao forno em tachos, passou a ser conhecido por Bolo de Tacho. Também é conhecido por Bolo de Milho ou Bolo de Maio por ser feito especialmente para o dia 1 de Maio (Dia do Trabalhador).

E agora o que gostava era que votassem no meu afilhado. Afinal, "quem meus filhos ama minha boca adoça", e o mesmo pode ser válido para os afilhados, que são filhos do coração. Além do mais, a parte do "minha boca adoça" não podia calhar melhor quando se é madrinha de... um bolo!

Para votar basta ligar: 760 107 134 (0,60€ + IVA). 

VAI BOLO DE TACHOOOOOOOOOOO!

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Chernobyl

Se andam à procura de uma boa série, podem ver esta (entre tantas, tantas outras). Chernobyl é uma série opressiva (da HBO) que sufoca, que angustia, que nos amachuca pelo cinzento, pela banda sonora que esmaga. Se preferem coisinhas leves e contentes não vejam. Mas se gostam de sentir o peso do que vêem, agravado pelo facto de ser uma história real (ainda que ficcionada), então vejam Chernobyl. Eu adorei. Senti a densidade no lombo mas adorei.

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A adolescência não é para meninos

Tenho tido muita sorte com as adolescências cá de casa. Além de respostas tortas (devidamente cortadas com olhares fulminantes ou repreensões certeiras) e uma ou outra parvoíce sem importância tem sido muito fácil e até divertido assistir ao crescimento desta malta. Lembro-me de me exasperar com o poder de argumentação do Manel, que me levava a querer estrangulá-lo (só por segundos, calma), e de achar enervante o tempo que passava ao telefone com a namorada e do certo ar de enfado que punha quando se tratava de nos oferecer algum do seu precioso tempo, mas tirando isso... tudo na maior.

O Martim tem sido uma paz de alma. Não é propriamente um fã de escola e de estudo (também me lembro de não ser assim a minha coisa preferida do mundo) mas tem cumprido, com a minha ajuda, porque tenho sempre sentido que lhe sou útil e que, sem algum apoio, se perde em distracções. Este ano, decidi não ajudar. Disse-lhe que estava crescido e que era chegada a hora de voar sozinho. O primeiro período correu tão bem que respirei fundo.  Boas notas, impecável. "Ufff! Estava tão farta de estudar, caraças. Estou livre!", pensei. Só que o tempo foi passando e a sua dedicação ao estudo foi caindo como se fosse o caudal de um rio ao chegar a uma catarata. Sempre que se lhe perguntava se já tinha feito os trabalhos a resposta era "já". Sempre que se lhe perguntava se já tinha estudado a sua resposta era "sim". Sabia sempre tudo. Estava sempre tudo bem. Fui assistindo e pensei: "Eu até posso agarrá-lo já mas... vou ver no que isto dá." Deixei-o cair de propósito. Afinal, quantas vezes é nas quedas que mais aprendemos? No meio do processo, fomos chamados à escola, queriam saber se havia alguma alteração alguma coisa de que não estivessem a par. A derrapagem era evidente, as notas no final do período tiveram o efeito do caudal do rio a despencar no fim da catarata (do Iguaçu). 

A conversa, nesse final de período, foi clara: eu estou e empenho-me se tu estiveres e te empenhares. Se não te quiseres empenhar desistimos já os dois. Baixamos os braços. Entregamos os pontos. Ele comprometeu-se. E cumpriu. Estudámos para caraças. Quem me acompanha no Instagram viu os stories com o estudo, viu quando pedi fichas e testes, houve quem enviasse muito material, PDFs, vídeos, exercícios. Muito, muito, muito obrigada a todos. O Martim passou o Cabo das Tormentas e rebaptizou-o de Cabo da Boa Esperança. Com ajuda? Sim. Por que não? Devia tê-lo deixado chumbar o ano? Aprender à sua custa? Ficar para trás quando a única coisa que o travou foi a sua imaturidade? Quando tinha os professores a dizerem que ele era um miúdo muito participativo nas aulas, interessado, e que nem queriam acreditar nos resultados dos testes? Devia ter continuado impávida, ou oferecer a minha ajuda, depois do susto? A resposta para mim foi evidente. E será sempre evidente. Quis que aprendesse, que levasse um susto, mas que depois conseguisse, com o seu esforço, reverter a situação.

Creio que levou com ele uma lição importante para a vida: sem trabalho... poucos são os que conseguem (que também os há, raio dos bichos). E levou outra: com trabalho, árduo, sério, consistente... só alguns não chegam lá. E ele chegou, com algumas notas verdadeiramente impressionantes (para quem tinha feito o disparate que ele fez). A recuperação foi notável mas não foi um milagre. Foi apenas e só trabalho. A adolescência também nos prega partidas destas. Não é nenhum bicho de sete cabeças nem tem de ser um tabu ou uma vergonha. São percalços. A vida está cheia deles. Há os que sucumbem e há os que lutam. É bom quando se luta e, no final, se vence. Parabéns, Martim. 

 

É tão certo como dois e dois serem quatro

Todos os anos este post vê a luz do dia e verá por mais uns anos, enquanto tiver filhos em idade de fazerem campos de férias. Sim, vou falar do Sniper, o campo de férias para onde os meus filhos vão todos os anos uma semana. Não por ser uma borla, que não é, mas porque eles merecem cada linha. Este ano o Manel já não foi (já no ano passado não tinha ido) porque está a estudar para um exame que ditará a entrada na universidade. Além disso, começa já a ter a sua própria agenda com os amigos, e é natural que queira experimentar coisas novas. O Martim foi muuuuuito contrariado. Não porque não goste de ir mas porque está a viver uma fase em que tudo é uma contrariedade. Tudo menos passar horas a jogar, claro está. Mas o nosso papel de pais é justamente contrariar a tendência para a inércia e para a total imersão no mundo electrónico. Mal estaria eu da cabeça se cedesse ao "não quero ir, estou farto, vou todos os anos". Está bem, abelha, o que tu queres sei eu. Foi. Ele e a Mada. E o Mateus só não teve guia de marcha porque ainda não tem idade (é a partir dos 6 anos).

Não há experiência melhor para as crianças do que um campo de férias. Fazem amizades, praticam uma série de actividades espectaculares, divertem-se ao ar livre, longe dos telemóveis (que são permitidos apenas meia hora por dia) e dos computadores (que não existem). Eles sujam-se, ganham autonomia, entre-ajudam-se. Aprendem a lidar com pessoas diferentes, com educações diferentes e pancadas parecidas mas também distintas das suas. Constroem, caminham, dormem no meio da serra. Fazem escalada, rapel, slide, atravessam um rio a caminhar (com água pelo pescoço, os mais pequenos, pela cintura os mais crescidos), vão a uma gruta, caminham quilómetros até chegarem ao local da serra onde constroem um abrigo para pernoitar. Jogam matraquilhos humanos, paintball, fazem karaoke... eu sei lá. São tantas actividades que nem sei se me lembro de todas. A liderar tudo isto está o Nuno Avelar de Sousa que sabe mais sobre a cabeça da miudagem a dormir do que a maioria de nós acordados. Que aproveita para conversar com alguns sobre a vida, sobre as dúvidas e angústias e revoltas que alguns manifestam (ou mesmo que não manifestem ele lá encontra maneira de as descobrir e lidar com elas).

No primeiro dia que falei com o Martim ao telefone falou emburrado, como se estivesse preso ou coisa que o valha. Depois? Depois já era só alegria. No final perguntei se valeu a pena. Que sim. Claro que sim. Por isso é que quando me dizem "O meu filho não vai porque não quer" penso que é pena que não vão na mesma. Às vezes - a maioria - temos de sair do nosso ambiente, onde nos sentimos seguros e confiantes, para descobrir novas aventuras que nos fazem mesmo bem. Às vezes custa. Não apetece. Mete medo, esse desconhecido. Rejeitamo-lo porque tudo o que não conhecemos nos traz uma certa insegurança. Mas depois... Depois é quase sempre o melhor que podíamos ter feito.

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