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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Covid que te pariu!

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Nos últimos anos temos recebido uma autêntica lavagem ao cérebro sobre ambiente, alterações climáticas, poluição, aquecimento global, buraco na camada do ozono, raios UV, derretimento das calotas polares, oceanos de plástico, lixo, reciclagem, fim do mundo iminente. Mudámos os nossos hábitos, fizemos das tripas coração para usar sacos de papel, de pano, levar o carrinho das compras em vez dos sacos, andámos carregados para contentores de reciclagem que ficam por vezes absurdamente longe das nossas casas, apanhámos lixo que não era nosso e colocámos no recipiente correcto, largámos os cotonetes, as palhinhas, diabolizámos os plásticos. Fizemos a nossa parte. E, muitos de nós, fizemo-lo com o empenho e a certeza de estarmos a fazer a coisa certa em nome de um planeta em claro sofrimento. 

Só que entretanto veio a Covid-19 em jeito de pandemia. E pronto. Acabou tudo. Em nome da segurança, hotéis passaram a ter produtos embalados em celofane nos buffets, supermercados voltaram aos produtos dentro de caixas de plástico e agora soube de dezenas de escolas a pedirem que não se levem mochilas mas sim sacos de plástico que possam ir para o lixo e até garrafas de plástico que tenham o mesmo destino (felizmente nenhuma das escolas que os meus filhos frequentam). Tudo porque querem evitar o leva-e-traz com a consequente viagem de eventuais vírus. Compreendo os medos mas acho um absurdo. O plástico, que até há pouco tempo era o nosso inimigo mortal, voltou sem problemas? O nosso único mal é o novo coronavírus? Não há mais nada?

Além desta questão, outra: durante anos ensinaram-nos a ser solidários. A não deitar fora o que já não queríamos mas a dar a quem possa usar. E nós cumprimos. Reunimos o que não queremos, vamos levar, ficamos felizes por poder contribuir para uma melhoria na vida de alguém. Bom, aparentemente também isso está em vias de mudar. Fiz arrumações cá em casa e tenho 8 sacos de roupa em optimo estado para entregar a quem precise. Já liguei para a Junta, já liguei para instituições. A resposta? Sempre a mesma. "Não estamos a receber". A culpa adivinha-se depressa: Covid. Portanto, por causa do bicho, quantas pessoas há que não vão beneficiar de roupa e de brinquedos e outros bens? 

Já para não falar nas consultas adiadas, nas pessoas que não vão ao médico controlar as suas doenças crónicas ou agudas com medo de apanhar a bicheza do momento, com o consequente aumento da mortalidade e morbilidade na população.

Compreendendo eu tudo, porque tendo a ser dada à tentativa de compreender sempre o outro lado, acho que há aqui um acumular de incongruências que me levam a temer todo o rol de consequências nefastas desta pandemia que eu ainda nem sequer assimilei. Julgo que estamos a retroceder décadas. Financeira, social, ambiental e culturalmente. Covid que te pariu.

Colégio/ Escola Pública

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É uma pergunta recorrente que me fazem: "colégio ou escola pública?" E também: "Como geres o facto de teres uns filhos no colégio e outros na escola pública?"

Vamos a isto, então. Quando tivemos o Manel e o Martim nem sequer considerávamos a possibilidade "escola pública". Três principais razões para isso:

1 - Ambos andámos a vida inteira em colégios e não queríamos dar menos do que os nossos pais nos deram a nós (o que assenta no pressuposto errado de que a escola pública é menos que os colégios, o que nem sempre é verdade).

2 - Tínhamos ambos preconceitos em relação à escola pública (como, de resto, é fácil perceber pelo ponto anterior).

3 - Podíamos pagar.

Depois, tivemos a terceira filha e metemo-la também no colégio. Ainda conseguíamos aguentá-los financeiramente mas já considerávamos a possibilidade de fazer a mudança. Porquê? Porque sentíamos que, se era verdade que podíamos mantê-los a todos no colégio, a verdade também era que não poderíamos fazer muitas das coisas que queríamos, se os mantivessemos: viagens em família, idas ao teatro, a concertos, experiências especiais que são caras (e a massa estaria toda alocada ao colégio). Ponderávamos mudá-los mas a ideia custava tanto como se os estivéssemos a meter num instituto correccional (tais eram as ideias que tínhamos impressas na cabeça). Houve um ano que os inscrevi e eles entraram. Fiquei com o coração tão apertado que não fui capaz de levar a matrícula adiante. Ficariam mais um ano no colégio. No ano seguinte, voltei a tentar. Só o Manel ficou colocado. E então, depois de muitas conversações e depois de bem medidos os prós e os contras, decidimos que ele iria sair do colégio e entrar na escola perto de casa. 

E foi então que o meu preconceito começou paulatinamente a ser destruído. A escola do Manel foi uma muito agradável surpresa. O director de turma era muito atento e enviava emails com frequência, a comunicação casa-escola nunca foi tão directa e acessível, nunca tive aquelas cenas de professores a faltar e sem substituto, e o Manel houve um dia que disse: "Parece que me abriram as janelas, mãe. Agora respiro!"

No ano seguinte, voltei a tentar. Só entrou a Mada (para outra escola do mesmo agrupamento, não para a do irmão). Então, lá foi ela. Mais um passo no caminho de um voto de confiança dado à escola pública, mais um passo contra um dos meus derradeiros preconceitos. E voltou a correr maravilhosamente. A escola era óptima, com direito a horta e grandes janelas e muita luz. A educadora que lhe tocou era simplesmente maravilhosa (beijinho, educadora Manuela, onde quer que esteja!) e ela adaptou-se de imediato e nós também. 

Acho que ainda tentámos mais uma vez que o Martim entrasse mas não conseguimos (nem com dois irmãos no mesmo agrupamento). E então desistimos. Achámos que era mais benéfico para o Martim continuar no seu colégio de sempre (onde andava desde os 3 anos). Pelas suas características, por ser muito introvertido, por estar com os seus amigos de sempre, por haver ali uma rédea curta que considerámos importante manter durante alguns anos mais críticos. Deixámos o Manel e a Mada na escola pública e o Martim no colégio. Nunca me pesou na consciência por achar que estava a dar mais a um do que aos outros, porque quando os outros começaram na escola pública depressa tirei da ideia que tinham menos do que ele. Poderá haver colégios que oferecem uma panóplia de actividades e viagens e eventos desportivos que, efectivamente, as escolas não oferecem. Mas, tirando isso, a matéria é a mesma. As orientações programáticas são definidas pelo Ministério e todos acabam por aprender as mesmas coisas. A questão prende-se mais com a exigência e com um certo "nivelar por baixo" que algumas escolas públicas praticam, por terem alunos que provêm de famílias complicadas, muito desestruturadas, e com muitas dificuldades. Acontece que, aqui onde vivo, tenho a sorte de ter escolas maioritariamente frequentadas por miúdos como os meus filhos. Uns com mais condições, outros com menos, mas diria que está ela por ela. Provavelmente, se vivesse numa zona em que a escola fosse maioritariamente frequentada por miúdos de bairros onde a polícia passa a vida a prender pessoas, teria de pensar duas vezes (ou três) antes de os meter lá. Precisamente por esse "nivelar por baixo" a que os professores são obrigados, se não querem ter só chumbos nas suas turmas (e, vezes demais, cargas de pancada dos pais como consequência).

Entretanto tivemos o Mateus, que foi para um colégio maravilhoso chamado Tutor T (e que foi, sem sombra de dúvida, a melhor escolinha onde já tive crianças). Ou seja: passámos a ter 2 filhos em colégios, e 2 filhos em escolas públicas. 

Este vai ser o ano de viragem total. Tentámos colocar o Martim na escola pública mas como escolhemos apenas 3 escolas, todas elas fora da nossa área de residência, não tínhamos qualquer expectativa que entrasse. Acontece que... entrou. Achámos que tinha chegado a uma idade (15 anos - 10º ano) em que já tem uma maturidade diferente para não precisar tanto da rigidez do colégio, por um lado, e também não sentir tanto a falta da grupeta de amigos que tem desde o infantário. De resto, eles combinam frequentemente encontros e deslocam-se perfeitamente de metro e de bicicleta para irem ter uns com os outros, de maneira que pode sempre manter essas relações e, ao mesmo tempo, ganhar outros amigos. Também creio que será importante, agora que escolheu a área, ir para uma escola em que pode "começar do zero", onde ninguém o conhece, com um novo estímulo. Assim como se fosse um livro em branco, onde pode escrever da melhor forma possível, sem o olhar dos outros a condicionar. Acho mesmo que pode ser bom para ele.

O Mateus também sai da Tutor T este ano, e isso sim está a custar. Só quem teve um filho neste colégio pode perceber como custa tirá-los de lá. Mas é giro: já não é por ir para a escola pública (porque já não tenho esse preconceito). É mesmo por sair daquele ninho bom, uma espécie de família para onde ia todos os dias, quase como a extensão da sua casa, do seu conforto, do seu porto seguro. 

E é isto. Até podíamos ter mantido todos no colégio. Conseguíamos, com esforço. Mas não tínhamos ido com eles a Madrid, a Nova Iorque, aos Alpes para fazerem ski, ao Brasil, a Marrocos. Não lhes tínhamos proporcionado uma série de experiências enriquecedoras (nomeadamente um gap year ao Manel, com direito a um mês inteiro na ilha do Príncipe e um mês inteiro em Nova Iorque). Não tínhamos feito, nós os dois, as nossas viagens a dois. E, para nós, tudo isso faz também parte da educação que lhes queremos transmitir. A educação, para nós, não se esgota na escola. Nada contra quem aposta tudo na educação curricular (até porque há quem não viva em zonas com boas escolas públicas). Nada mesmo. É uma opção tão válida como outra qualquer e, se não tivéssemos tido sorte, o mais certo era ser essa também a nossa escolha. Felizmente correu bem. Esperemos que continue assim.

 

Regresso às aulas em tempo de pandemia

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Ponto prévio: sou obviamente parte interessadíssima em controlar a disseminação da Covid-19 e não embarco em nenhuma teoria chalupa da conspiração do tipo "isto é tudo um esquema para nos manter manietados", e que "a vacina vai ser um chip que nos vão introduzir no cérebro para nos monitorizar", ou outras convicções do mesmo grau de alucinação que já vi por aí. A todo esse pessoal: as melhoras. 

Feito o ponto prévio, e sublinhando desde já que não saberia como agir se estivesse na DGS ou no Ministério da Educação perante uma pandemia e que acredito ser um trabalho mesmo complexo, dizer que estou muito preocupada com algumas coisas que tenho lido sobre o regresso às aulas e que temo que a escola deixe de ser um espaço de liberdade e de comunhão e partilha para passar a assemelhar-se muito a um estabelecimento prisional.

A começar pelo primeiro dia de aulas. Para muitos já foi e já se confrontaram com isso, mas eu estou só na parte do sofrer por antecipação. Deixar uma criança à porta, numa escola onde entra pela primeira vez, deixá-la com um estranho que a recebe de máscara, e a leva para um sítio que nunca viu cheio de gente que nunca vislumbrou parece-me verdadeiramente assustador. Acho que seria importante haver um espaço de entrega das crianças à sua educadora, feita com serenidade e segurança, e não - como já ouvi que ia ser - à entrada, a quem estiver na porta, seja um segurança, uma auxiliar, seja quem for. Durante anos frisou-se o importantíssimo papel dos pais nesta ponte, para que a criança se sentisse segura, e agora estamos a cortar toda esta importância por um "bem" maior. Repito: compreendo perfeitamente que uma situação excepcional implique medidas excepcionais, mas não deixo de me inquietar com tudo isto. 

Outra das normas será a imposição de distanciamento físico entre crianças. Como assim? Quando o Joãozinho se aproximar da Luisinha alguém grita? Usam uma vareta comprida para os afastar, tipo gado? Vai ser cada um a brincar por si? 

Também já li que há escolas que vão reduzir os intervalos para 5 minutos e que não vão permitir idas à casa de banho durante os intervalos mas apenas durante as aulas. Say WHAAAAAT? Portanto, deixa ver se percebi: se um dos meus filhos tiver uma dor de barriga durante um intervalo tem de se aguentar estoicamente até que a próxima aula comece. O que vale é que não será uma longa espera: 5 minutos de intervalo? A sério? Cinco minutos?

Estou com muito medo de que, uma vez mais, não se esteja a ter em conta a saúde mental, como se nós fôssemos apenas corpo, e como se os males da alma não nos afectassem também o corpo - como se isto não estivesse tudo ligado. Conciliar a segurança física com a segurança emocional é um desafio, sem dúvida, mas era importante que não se perdesse de vista. A bem das crianças. A bem de todos nós.

Histórias da Quarentena #5

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Conheceram-se no hospital onde ambas trabalham. Ali, em ambiente hospitalar, recebem casos complexos, difíceis, desafiantes. Mas elas queriam fazer mais, chegar mais longe. De experiências trocadas, partilhas feitas, desabafos, ambas sentiram que podiam aproveitar melhor as suas competências. Mas foi com a chegada da Covid-19 e todas as suas consequências psico-emocionais que as duas especialistas tiveram ainda mais a certeza do desejo de ajudarem mais e melhor. Com outro tempo, outro espaço. E se a união faz a força, e se duas cabeças pensam melhor do que uma, juntaram o sonho à vontade e decidiram abrir a sua própria clínica.

Diana Cruz, psicóloga clínica, e Catarina Ribeiro, neuropsicóloga, nunca pensaram que fosse preciso uma pandemia para que finalmente decidissem arregaçar as mangas e dar um passo em frente, no sentido de abrirem um espaço privado, para lá do trabalho que já desenvolviam quer no hospital quer em outras clínicas. Mas foi assim que aconteceu. "Sentimos que há muitas pessoas descompensadas com tudo isto. Que o confinamento foi mau para muitas pessoas, que o desconfinamento foi péssimo para outras, que há medos que se tornam enormes e que bloqueiam vidas. E também percebemos, por outro lado, que muitas pessoas que até aqui tinham sentido o estigma de recorrer a um psicólogo, agora sentem que o seu pedido de ajuda é justificado por algo maior, algo que é comum à Humanidade, e que nos perturba a todos, a uns mais, a outros menos. E de repente achámos que esta era uma excelente oportunidade para ter em consultório pessoas que ainda tinham o preconceito, e puxar por esse fio, sendo que a pandemia é o pretexto, mas depois há uma série de sub-camadas que podem ser esmiuçadas e, assim, ajudarmos estas pessoas (e as que já eram abertas às terapia, claro) a viverem vidas mais equilibradas."

Depois de muitas conversas uma com a outra, falaram também com a família. Diana disse que, em casa, já esperavam que mais dia menos dia se metesse num projecto seu. Catarina também não encontrou resistências. E depressa começaram à procura de um espaço e não tarda estavam com o sítio escolhido em obras. "Queríamos que fosse um consultório confortável, aconchegado, que garantisse a confidencialidade dos nossos pacientes... que fosse assim uma espécie de uterozinho" - explica Diana Cruz. "O primeiro consultório em que trabalhei, com 2005, de um psicólogo sénior que me ensinou imenso, era exactamente o protótipo do que eu queria. E acho que conseguimos fazer um ninho parecido, ali na Praça de Alvalade (Lisboa), onde estamos a prestar serviços diferenciados nas áreas da Psicoterapia, da Neuropsicologia e da Terapia Familiar." O projecto de Diana e Catarina foi batizado por MITO, "porque mitos são, no fundo, narrativas simbólicas que evoluem no tempo e dão sentido de pertença e significado às pessoas, tal como as psicoterapias." 

Mas a ideia não se ficou por aqui. Quando o novo espaço já estava em obras e o entusiasmo de ambas estava ao rubro, Catarina pensou que não seria mal pensado se agradecessem ao "universo" por tudo o que lhes estava a dar. Ambas riem da expressão, se bem que a verdade é muito essa: devolver a sorte, retribuir os fortúnios. E foi então que surgiu a ideia de dar aos outros um pouco das duas. "Decidimos oferecer consultas a pacientes recuperados de Covid-19 ou pessoas em luto por causa da pandemia. Achamos que esta doença trouxe consigo muitas dificuldades psicológicas e queremos fazer a nossa quota parte. Sabemos que há por aí muitos ex-doentes que ficaram com mazelas emocionais, seja por terem estado entre a vida e a morte, seja por terem lutado sozinhos, e também estamos em crer que surgirão lutos patológicos, porque as pessoas não puderam despedir-se condignamente dos seus. Fizemos ambas voluntariado durante o período crítico do confinamento, ficámos no atendimento telefónico ao fim-de-semana e feriados, mas queremos fazer mais. E esta é a oportunidade para o fazer. Claro que não vamos poder oferecer consultas a todas as pessoas que nos aparecerem, somos só duas, não dá para tudo. Mas queremos pedir para que nos enviem a sua candidatura por email, e depois nós escolhemos um determinado número de pessoas que acompanharemos por mês, durante um determinado período de tempo."

E assim fica a informação: se vivem em Lisboa, tiveram a doença e ainda não recuperaram psicologicamente, ou se perderam alguém e sentem que não conseguiram fazer o luto, a Diana e a Catarina aguardam o vosso contacto. O email é mito.na.pandemia@gmail.com. Pode ser que consigam ser uns dos escolhidos. Quanto a todos os outros, que se sentem perdidos, incompreendidos, deprimidos, quem sabe se não encontram junto delas o apoio que faltava? Porque as dores da alma não devem ser negligenciadas, tal como as dores do corpo. Porque não há qualquer vergonha em pedir ajuda para curar a mente, assim como não há embaraço em curar uma perna partida. 

MITO: Praça de Alvalade nº6
2º fte, sala 6
1700-036 Lisboa

 

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Férias. Tão bom que foi

Uma vez escrevi aqui, há uns anos valentes, sobre a profunda tristeza que baixava em mim quando as férias terminavam. Alguém aproveitou para dizer que talvez a minha vida de todos os dias não fosse feliz, daí que valorizasse tanto as férias, já que ela (essa pessoa que comentou) voltava sempre feliz para o seu quotidiano, por saber que essa era a regra e as férias a excepção, e ela (a comentadora) era feliz na regra e na excepção.

Aquilo deu-me que pensar e marcou-me, como se pode ver, uma vez que já se passaram anos e ainda escrevo sobre isso. Pensei muito sobre a possibilidade de ela ter razão. Seria o meu quotidiano triste? Que diabo! Analisei, escrutinei, esmiucei. E concluí que não. Não se trata de uma infelicidade na regra. Trata-se de um encontro maior com uma ideia de felicidade, na excepção. O dia-a-dia pode ser tormentoso e quem disser que é feliz todos os dias está a mentir. Não pode. Ninguém é. A vida mói, massacra, esmigalha. Os afazeres, os horários, os almoços e lanches e jantares que não se preparam sozinhos, os regressos às aulas com as inseguranças e medos e angústias deles e nossas. Os dias chuvosos, os dias em que nada corre bem, o trabalho a complicar-se, os conflitos fora e dentro de casa, e agora também a pandemia a pesar na já complicada equação da vida. A monotonia que consegue esmagar: acordar, banho, pequenos-almoços, levar à escola, trabalhar, fazer o almoço, ir buscar à escola, lanches, banhos, estudos, jantar, dormir, acordar, banho, pequenos-almoços, levar à escola, fazer o almoço, ir buscar à escola, lanches, banhos, estudos, jantar, dormir, e repeat. Às vezes é difícil encontrar laivos de felicidade nesta linha de montagem, mas é essa - talvez - a maior sabedoria de todas. Encontrá-los. Tentar encontrá-los todos os dias. Um sorriso, uma mão quentinha na nossa, um jantar com amigos, um telefonema que nos encheu a alma, um sucesso de um filho, uma conquista nossa, uma roupa que nos fica bem, uma corrida que nos fez sentir melhores. 

Nas férias, não há sabedoria nenhuma em encontrar a felicidade. Ela entra-nos pelos olhos, atira-se a nós como gato a bofe, espeta-se-nos na cara, agarra-se-nos às pernas. Estamos com os nossos, na praia, com tempo, com sol, com mar, com mergulhos e gargalhadas. Os problemas ficam em casa, no trabalho, longe da vista e do coração. As férias são como uma brecha no tempo e no espaço, uma espécie de suspensão do normal e elevação exclusiva do prazer. 

Por isso, não, a leitora não tinha razão. O meu quotidiano não é infeliz. Tem é momentos menos felizes, como todos os quotidianos. E as férias são só alegria e, por isso, voltar dói sempre um bocadinho. 

A família cresceu

Para quem não me segue no Instagram ou no Facebook, a novidade ainda não terá chegado. Em bom rigor, a novidade aconteceu há pouco tempo (apesar da decisão já ter sido tomada há um mês), e ao meu cérebro chegou mesmo ainda mais recentemente (demorou a cair-me a ficha).

No dia 21 de Julho, saí de casa de manhã para ir dar a voltinha costumeira com o Mojito, quando vi à porta de casa um certo aparato: havia um cão, havia um polícia, uma senhora com uma criança, uma lata de comida, uma tigela de água. Estavam todos com aquela postura corporal de quem tem algo em mãos que não sabe ainda como resolver mas, nem sei porquê (provavelmente era o meu instinto a dizer-me para não me meter em sarilhos), não perguntei o que se passava e continuei na minha vidinha.

Dei a volta com o Mojito, de caminho ainda tomei café com a minha mãe, e quando regressei já só estava a senhora e a criança e... o cão. A senhora tinha um olhar perdido, o telemóvel na mão, e aí já não consegui ignorar. Perguntei o que se passava, se precisava de ajuda, e é então que a senhora me explica que tinha encontrado aquela cadelinha, que estava perdida e assustada, mas que não a podia levar para casa porque tinha um cão bebé que ainda nem tinha tomado as vacinas. A senhora estava mesmo à toa, sem saber o que fazer, porque tinha de se ir embora mas não estava a imaginar-se a deixar ali a bicha. Foi então que me cheguei à frente: a minha casa era mesmo ali, eu tinha plataformas digitais que chegam a muita gente (para procurar os eventuais donos) e então levei-a.

Pus a foto nas redes e aguardei. Foi então que começou o massacre.

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A minha filha Mada (que alterou o seu nome na minha lista de contactos para "filha lindinha") estava em casa dos avós, de férias, e iniciou um verdadeiro ataque, com centenas de mensagens onde pedia, implorava, descabelava-se por uma cadela. Primeiro achei graça, achei que lhe passava, achei que quando os donos aparecessem ela ia acabar por desistir. Tremendo engano. Os donos apareceram, levaram-na, e a torrente de mensagens continuou.

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Uma nota: "Nós pensámos em ter uma cabra" deve ser traduzido para "ela pensou em ter uma cabra e eu diverti-me a imaginar a bicha aos pinotes por todo o lado". 

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De repente, sem perceber bem como, já havia um autêntico movimento #teamMada e havia gente a enviar fotografias de cães bebés, cães adultos, cães pretos, brancos, castanhos, cães de pelo curto, médio e comprido. Cães de olhar triste, de quem já viveu o horror, cães mais felizes, cães de orelha murcha, cães atrevidos. De repente, já o tema não parecia estranho e estava eu própria a ver os cães e a ter vontade de os trazer a todos para casa. De repente estava na Associação Java, na Lourinhã, onde a Mada tinha visto a foto de uma cadelinha com cerca de 3 anos e outras fotos de cães bebés, e foi então que se deu o encontro das duas, o olhar tristíssimo da Molly a arrebatar o coração da Mada, que sentiu uma espécie de chamamento para lhe mudar a vida, o destino, o futuro. De repente, o Ricardo já não dizia nada e até mostrava um sorriso de abertura, coisa nunca antes pensada ou imaginada, e de repente estávamos a dizer na associação que sim, ficávamos com a Molly, íamos só de férias e quando voltássemos íamos buscá-la. 

E assim foi. Durante as férias, o amor foi sendo alimentado pelas fotografias e vídeos que as queridíssimas voluntárias da associação enviavam (obrigada Sofia, obrigada Cláudia). 

A Molly veio para casa este domingo, dia 30 de Agosto. É uma cadelinha muito traumatizada. Estava há um ano no canil, e foi encontrada ali perto, ao abandono (não sei em que estado). Não sei que diabo lhe fizeram, mas palavra de honra que gostava que essa criatura do demónio recebesse sofrimento em dobro. A Molly tem medo da própria sombra, baba-se muito (sinal de stress), deita-se quando alguém se aproxima, e quando vai à rua está desatinada a olhar para todos os lados, como se temesse que a ameaça chegasse a qualquer momento. Só fez xixi na terça-feira de manhã (relembro que chegou no domingo) e cocó também, ambos na rua. Fiz uma festa. Escolheu o hall para se refugiar, porque é o lugar da casa mais parecido com a "assoalhada" onde ela vivia. É um quadrado pequeno, longe do nosso olhar, encostado à porta da rua. Levámos para lá a cama dela e respeitamos o seu espaço. Ainda assim, de vez em quando vamos até lá para uma sessão de mimos. Quando ouve o Mojito, levanta-se, espreita e, às vezes, aparece no corredor e cruza a sala e até já foi ao terraço (mas sempre por brevíssimos instantes - mal se dá por ela já está de regresso ao seu micro-lugar).

O Mojito ignora-a e tem medo dela (tem medo dos cães em geral e só confia mesmo quando tem provas de que é para confiar) e ontem estava particularmente stressado (andava de um lado para o outro, babava-se, espreguiçava-se a toda a hora - tudo sinais de inquietação). Ela mete-se com ele amistosamente quando estão ambos de pé, nos passeios ou nos raros momentos em que ela se aventura pela casa. Mas quando está deitada e estamos a mimá-la e ele aparece... rosna-lhe e ameaça morder. A primeira vez que aconteceu fiquei destroçada e fui a correr confortar o Mojito. Senti que tinha trazido para casa uma ameaça ao nosso cão e doeu-me. Mas rapidamente fui ler e percebi que isto é só medo. Que a melhor defesa é o ataque. E que mal ela perceba que nenhum de nós, seja cão ou humano, lhe quer fazer mal, tudo ficará bem. Entretanto, estamos a reforçar a confiança do Mojito, dentro dos nossos conhecimentos (felizmente aprendemos algumas coisas nestes 6 anos com ele), e estou certa de que vai entender que o amor não se divide, multiplica-se. Tenho 4 filhos e sei bem que há sempre ciumeiras, com os cães não há-de ser muito diferente. Com equilíbrio e amor, suponho que tudo vá ao sítio.  

Quanto à Mada... acho que vai conseguir tudo o que quiser da vida, por exaustão. Nunca conheci outra pessoa assim. É a maior chata persistente do mundo.

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