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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Estado de Emergência

Não há muito que vos possa dizer. Comecei por achar que isto era uma cena tipo gripe das aves, uma daquelas epidemias que parece que anunciam o fim do mundo mas afinal não passam de uma montanha a parir um rato, e quando dei por ela já o cenário era catastrófico e estava fechada em casa com os putos todos, as escolas fechadas, tudo de máscara, e o Presidente da República a anunciar o Estado de Emergência. Acho que, tirando algumas pessoas naturalmente mais assustadiças, fomos todos indo nesta onda, primeiro mais a brincar e depois, quando a onda se tornou vagalhão, já todos mais sérios e a tentar nadar para terra.

Estamos fechados em casa desde que o primeiro-ministro declarou, a uma quinta-feira, que as escolas iam fechar na segunda. No dia seguinte já não mandei ninguém à escola porque podia e porque achei que não fazia sentido irem mais um dia, apesar de a Madalena até ter teste (mas o que é um teste perante o cenário que se começava então a desenhar?).

Tirando algumas trapalhadas, como a de se proibir que atracassem navios e desembarcassem passageiros que, depois, foram sair em Espanha e vieram para Portugal de camioneta, ou a de simplesmente proibir os cruzeiros e manter a chegada de aviões de todo o mundo, acho que Portugal tem estado a gerir este assunto muito bem. Já sei que há sempre quem discorde, muitas vezes por razões que fazem sentido e que a maioria não alcança, e que têm directamente que ver com as suas actividades profissionais, outras vezes apenas por motivos políticos, mas acho que temos feito uma contenção ajuizada, sem exageros, passo a passo, até porque a maioria dos portugueses tem respondido com um sentido cívico bastante impressionante. 

Ontem, a mensagem do Presidente da República foi ouvida cá em casa em silêncio, com a seriedade que o momento pedia, e pareceu-me uma mensagem muito ponderada, a apelar sobretudo à calma, à paciência, à resiliência. E a não esquecer a Economia, e a importância de não a deixar morrer em tempo de guerra, porque é de facto uma guerra que vivemos. Emocionou-me também como a maioria dos partidos do Parlamento deram força ao Governo e ao Primeiro-Ministro, desejando que não lhe falte a coragem (e lia-se, em alguns rostos, o alívio por não serem eles a terem de lidar com isto).

Tenho estado em contacto com amigos, alguns estão bem, outros nem por isso. Há quem já manifeste claros sinais de ansiedade, diria mesmo que quase depressão. A ideia de estar fechado, muitas vezes sozinho, sem poder estar com outras pessoas, nem sequer visitar os pais, tem dado cabo da cabeça de muito boa gente.

Nós por cá estamos a aguentar-nos bem, acho até que mesmo muito bem para o caos que podia ter-se instalado. Temos momentos tresloucados, em que sinto que vamos todos ensandecer, mas instituímos algumas regras e rotinas, para que não ficássemos todos à deriva neste túnel onde entrámos e de onde não sabemos quando e como iremos sair.

Para começar, as camas. Quando se acorda, é obrigatório fazer as camas. Vou ser cruxificada por revelar isto mas, até este momento acontecer, só mesmo ao fim-de-semana é que os obrigávamos a fazer as camas, mesmo sabendo que estávamos a fazer mal. No livro "Becoming", da Michelle Obama, a páginas tantas ela contava que, quando chegou à Casa Branca, com dezenas de empregados para tudo e mais alguma coisa, nunca deixou de obrigar as filhas a fazerem as suas camas de manhã. Achei tão acertado que quis fazer igual. Mas... as manhãs aqui em casa, em tempo de vida normal, são tão desesperantes (pelo menos até sairmos de casa, depois é o momento do nosso passeio de bicicleta até à escola e aí dá-se o cool down), é tão difícil despachar toda a gente a tempo e horas, que as camas acabam sempre a ser feitas pela nossa D. Emília. E sim, sei que estou a fazer um mau trabalho, que é mesmo importante criar essa disciplina, que eles vão crescer e é crucial que não saiam de casa sem deixar as suas camas feitas. Bom, isto tudo para dizer que a Quarentena trouxe isso às nossas vidas. Sem a urgência de sair de casa para chegar a horas à escola, todos começam por fazer as suas camas. Quando isto acabar, não haverá desculpas e passará a ser uma regra. It's a promise!

Depois, pomo-los a fazer os trabalhos que as escolas mandam e a entrar nas aulas em life stream às horas certas. Às vezes é uma confusão de ecrãs e fios e livros e apontamentos. No dia em que a Madalena teve a sua primeira aula em directo, eu estava um bocadinho nervosa, confesso. Isto de ser uma quase-anciã traz alguma nervoseira sempre que se experimenta algo tecnológico pela primeira vez. À hora certa, lá estávamos, mas... aqui a chalupa esqueceu-se da password que tinha criado para a plataforma, sendo que... a tinha criado no dia anterior! O que se passou a seguir foi uma verdadeira histeria: todos a dar bitaites, todos aos gritos a explicar como se fazia, todos a roubar o rato para fazerem o que achavam que estava certo, para a miúda conseguir entrar na aula que, entretanto, já tinha começado há uns 10 minutos. De repente, parecia que aquilo era a coisa mais importante das nossas vidas. Quando finalmente se conseguiu, foi uma alegria: a professora e os colegas todos no ecrã, a Mada idem, a tentar ficar séria enquanto o irmão Martim rastejava por debaixo da sua cadeira, ou fazia palhaçadas atrás do computador, numa tentativa de lhe desmanchar o ar composto perante a aula inteira. Nisto, o pai deu-lhe um berro, que só por acaso não se ouviu na aula inteira (felizmente a professora tinha desactivado todos os microfones e só activava o de quem pusesse o dedo no ar para falar). 

Como dispensámos a nossa D. Emília (leia-se: mandámo-la resguardar-se na sua casa, obviamente sem perder o ordenado, era o que mais faltava, está connosco há 16 anos, é como se fosse da família - e só explico isto porque houve alguém no Instagram que perguntou se lhe pagávamos tendo-lhe dito para não vir até ordem em contrário), somos nós que fazemos tudo em casa. Bem sei, estamos na mesmíssima situação em que muito boa gente (a maioria) vive todos os dias, mas claro que quando não se está acostumado a fazer toda a parte doméstica, sobretudo quando se tem uma família grande que agora está SEMPRE em casa... é mais uma coisa a que temos de nos acostumar. Por isso, além de passarmos o dia a orientar os miúdos nos trabalhos, nos estudos, nas aulas virtuais, nas brincadeiras (o Mateus, coitado, acaba muitas vezes meio desorientado no meio de todos os que carecem de uma atenção particular por causa dos seus trabalhos), temos pequenos-almoços para 6, almoços para 6, lanches para 6, jantares para 6. Roupa para lavar, estender, passar. Loiça, muita loiça. Aspirar o chão. Limpar o pó (ainda não aconteceu), manter a casa arrumada. E... também temos de trabalhar. Sim, porque estamos em casa mas não podemos deixar de trabalhar. 

Ao fim do dia temos ido passear o cão e levamos os dois mais novos, de bicicleta, para uma volta de uma hora. Não falamos com ninguém, não nos aproximamos de ninguém, não paramos para nos sentar em parte alguma, não tocamos em nada. É só caminhar enquanto eles pedalam e o cão corre. Enquanto não nos limitarem também isto, achámos por bem manter este "passeio higiénico", a bem da nossa saúde mental.

Tenho pensado muito no depois. No rombo da Economia. Na quantidade de pequenas e médias empresas que vão sucumbir a isto. No dominó catastrófico que pode acontecer, a todos os níveis. Penso nas agências de viagens, nas companhias aéreas, nos cabeleireiros, nos pequenos (e grandes) centros de estética, nos cafés, nos restaurantes, em todo o comércio (sobretudo as lojas que pagam rendas absurdas e que, agora, não têm qualquer entrada de dinheiro). Penso no turismo, no sector imobiliário, nas clínicas, nos artistas que cancelam espectáculos e em tudo o que isso implica... Penso em quem vai ter de desmarcar casamentos, e em todos os envolvidos na organização de casamentos: os caterings, as quintas, os fotógrafos, as floristas, as lojas de vestidos. Penso nos meus amigos fotógrafos (de casamentos ou não), nos que fazem vídeos, nos que organizam eventos, sejam eles quais forem. Penso nas marcas, mesmo as grandes e com quem trabalho, mas ainda mais as pequenas, que tanto se esforçam para se manter à tona de água e que agora... não sei.

Penso também no agora, claro: nos médicos, nos enfermeiros, nos auxiliares, nos bombeiros, nos farmacêuticos. Estes, que estão na linha da frente, e que nos salvam desta ameaça feroz mas também de todas as outras (porque as outras doenças não fizeram uma trégua, continuam a ter de ser atendidas). Penso nos seus filhos, que não podem estar com os pais o tempo que gostariam (e às vezes ficam mesmo afastados por razões de segurança). Penso nos polícias, nos que nos fornecem a gasolina e outros bens essenciais, nos que estão nos mini e supermercados. Nas obras que continuam. Nos que se mantêm a trabalhar nos seus locais de trabalho costumeiros, arriscando mais do que os que se resguardam em casa (apesar de os que podem resguardar-se em casa fazerem muito bem em cumprir o conselho). Penso nos avós, mais sozinhos que nunca, quando mais precisavam de companhia. Penso nos que sofrem de depressão, agora muito mais susceptíveis a quebrar.

Espero que isto passe depressa. E que saiamos disto o melhor que conseguirmos. E que aprendamos lições novas e encontremos coisas boas, no meio deste caos. Porque nada é 100% mau, nem nada é 100% bom. E também nada dura para sempre. 

Força aí, minhas pessoas! (Para quem escreveu, na primeira linha, que não havia muito para vos dizer... vai aqui um grande lençol! 😬)