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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Querem um livro para rir do princípio ao fim? Ei-lo

Os últimos tempos têm sido conturbados de várias formas e, por isso, por muito que me tenha genuinamente querido entregar à leitura do clássico de Victor Hugo, Os Miseráveis, tive mesmo de deixar a leitura para o mês que vem. 2020 arrancou com o meu filho mais velho a partir para São Tomé onde viveu um mês, a voltar uma semana e a tornar a partir para Nova Iorque (onde vai permanecer outro mês), mas também com sessões de quimioterapia de alguém muito próximo, e ainda com a minha própria cirurgia que, não sendo motivada por doença (se bem que aquela barriga pendurada a que chamava de medusa mais parecia uma doença), foi algo que andou a dominar grande parte dos meus pensamentos (para quem ainda não sabe, fiz uma abdominoplastia há uma semana).

Em Janeiro consegui ler dois livros do João Tordo mas entretanto cruzou-se no meu caminho um livro sobre parentalidade. Recebo pelo menos um por mês sobre este tema. Como tenho grande respeito pelos livros (e sou uma acumuladora em potencial), meto-os na prateleira, mas não os leio. Não é por mal. Mas, caraças, levo 18 anos de maternidade e vi multiplicarem-se livros sobre parentalidade como cogumelos. Alguns deles, cogumelos venenosos, com as suas teorias culpabilizantes para os pais, com as suas obsessões insuportáveis sobre "como criar o ser humano mais perfeito à face da terra", com as suas merdinhas para as quais não tenho a mínima paciência.

Vejamos: eu admiro o esforço que existiu no sentido de se compreender a criança e as suas necessidades. Antes, os miúdos eram uma espécie de coisa sem sentimentos que se deixava crescer sem levar em linha de conta o pensamento e as emoções, resultando daí muito adulto traumatizado com o que foi ouvindo, sentindo e experimentando. Não sou do Paleolítico e sei muito bem que houve estudiosos que fizeram um excelente trabalho para ajudar pais em apuros com essa mui nobre missão de criar um ser humano. Mas... (tinha de vir um "mas") é importante saber separar o trigo do joio e a verdade é que a maioria dos livros não passa de balelas, umas pertencentes ao puro senso-comum, outras verdadeiros atentados à educação de crianças (a menos que queiramos criar déspotas intragáveis que pegarão na metralhadora mais próxima sempre que alguém lhes atirar com um "não").

Bom, mas este livro de parentalidade que me chegou cá a casa chamou-me a atenção por ser diferente dos outros.  A começar pelo título: "Como Não Estragar Completamente Os Filhos -  Manuel para Pais que não acreditam em manuais para pais" (Editora ASA). Ok, James Breakwell... ganhaste a minha atenção.

Seguiram-se dias de puro prazer e diversão. Cheguei a gargalhar alto numa sala de quimioterapia, o que, não sendo proibido nem sequer eticamente incorrecto, parece sempre despropositado e até desconfortável. Nessas alturas, optei por ler à pessoa que acompanho os excertos causadores do espalhafato, de forma bem audível, não só para justificar a minha boa disposição numa sala onde ela não abunda, mas também para levar um pouco de humor aos que, ali por perto, pudessem usufruir dele.

O autor, pai de quatro filhas, oferece-nos então esta espécie de guia para a parentalidade pelo menor esforço. Diz ele (e eu tendo - tanto! - a concordar) que o mundo dos pais se divide entre os que são super-esforçados por acreditarem estar em vias de formar criaturas praticamente aladas, de tão perfeitas, e os outros, os que rapidamente se apercebem que isto mais coisa menos coisa vai dar ao mesmo e, por isso, mais vale não nos cansarmos em demasia. Chorei a rir com tantas passagens e identifiquei-me tanto, que senti uma rara vontade de lhe escrever um email a agradecer: "Caro James, este livro podia ter sido escrito por mim. Pena não ter sido, que deve estar a vender como pãezinhos quentes e dava-me um jeitão receber o dinheiro dos direitos de autor."

Há partes hilariantes como aquela em que o autor explica que, enquanto os filhos são bebés, nada do que façamos pode fazer assim TAAAAAANTA diferença no adulto que eles venham a ser. Ok, a mama é melhor do que o biberão. Mas quando um bebé amamentado se transforma num adulto bem sucedido é muito pouco provável que traga esse assunto à baila: "O que é estranho é que nenhum cientista numa cerimónia de entrega de prémios jamais agradeceu à mãe por o ter amamentado. Ou por ter usado leite artificial. Ou pelo que quer que ela tenha feito antes de o cientista ter idade para se lembrar, porque, bom, porque não se lembra. Inúmeros fatores contribuíram para conduzir aquele cientista àquele palco, mas nenhum deles pode ser relacionado com as decisões aparentemente de vida ou de morte com que os pais de bebés se torturam todos os dias. Por maior que seja o seu erro, uma decisão de parentalidade errada não transforma um potencial académico num vagabundo que conversa com gatos." Tão isto, meus amigos. Tão isto!

Quando vejo os pais em transe sem saber se escolhem o carrinho A ou B, se optam pela papa X ou Z, atormentados com a cama, com a mama, com as fraldas, com a música para adormecer, com os brinquedos mais didáticos... tenho vontade de rir. É óbvio que também já terei feito figurinhas semelhantes aquando do primeiro filho (poucas, juro, sempre tendi para uma enorme descontracção), é certo que os pais só querem mesmo falhar o menos possível mas... calma, minha gente. Muita calma nessa hora.

James Breakwell continua a descrever todo o seu plano maquiavélico para lidar com a parentalidade pelo menor esforço, sem esquecer nenhum detalhe: das brincadeiras, aos "perigos" da televisão, dos vídeojogos e dos écrãs em geral (que ele desmonta de forma deliciosamente jocosa), ao excesso de actividades extra-curriculares ("Da próxima vez que não lhe apetecer ir a um recital, lembre-se de que nenhuma criança se inscreveu sozinha em aulas de piano. Foi você que causou a sua própria infelicidade. O karma faz-se sempe ouvir e, regra geral, é desafinado."), à paranóia (muito americana) do desporto ("Se a única forma que o seu filho tem de fazer amigos é o desporto, tem problemas maiores do que próximo jogo. A maioria das carreiras atléticas acaba quando termina o ensino secundário. O seu filho tem uma vida difícil pela frente se só consegue realcionar-se com outras pessoas a jogar à bola ou a correr. Do ponto de vista social, não está mais avançado do que um golden retriever. Ensine-o a sentar-se."), à escolha da escola, da universidade, aos amigos. 

Chorei a rir várias vezes e senti-me tão aliviada! Acho mesmo que este livro devia ser obrigatório. Entregue nas maternidades a cada puérpera e a cada recém-pai. Só saíam do hospital depois de o lerem, de o sublinharem e... de se rirem com ele. Se não se rissem e começassem a levantar o lábio enfurecido, prova provada de que estavam a ir pelo caminho dos pais super-esforçados... não tinham ordem de soltura para irem para casa.

Os miúdos de hoje são super-hiper-mega-ultra protegidos. Os pais dão em malucos para proporcionar a Suas Altezas todas as benesses que elas evidentemente merecem. Medo. Medo das gerações que estamos a criar. Medo do cansaço de tanta perfeição. Leiam. Leiam mesmo! Relaxem. Divirtam-se! Ser mãe e pai é a melhor das viagens. Escusa é de ser a travessia do Cabo das Tormentas.

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Fui (finalmente) à faca - Parte I

Os meus amigos e pessoas próximas sabem como há muito, muito tempo que não lido bem com o meu corpo. Ah, e tal, vivemos numa época em que proliferam os hashtags que prometem mulheres reais e libertadas das opressões sociais com o corpo e mais não sei o quê; é verdade que até já há manequins rechonchudas para combater a obsessão com os corpos magros; até há campanhas baseadas em "mulheres reais". Tudo certo. Mas isto é uma cena que vem de dentro. Que ou se sente ou não se sente. E se é verdade  que conheço muitas mulheres redondinhas que lidam perfeitamente com o seu corpo, vê-se que existe ali um match perfeito entre o corpo e a alma, e não anda para ali tudo à batatada, também não é menos verdade que conheço muita gente que tem verdadeiro ódio ao seu corpo. E depois há os que nada fazem para combater esse ódio e também há os que até fazem alguma coisa mas... nada parece ser suficiente.

Vamos lá ver: eu tendo a oscilar entre ser uma boa menina, evitar as batatas fritas e encher o prato de salada, fazer desporto à bruta (esta é a boa menina), e depois esticar-me à grande para comezainas bem temperadas e ainda melhor regadas, sem mexer o rabo do sofá (esta é a má menina). Matem-me. Gosto de viver, gosto de comer, gosto de beber. A genética? Uma trampa: vai-me tudo para a barriga, de tal modo que costumo dizer que tenho corpo de aranha: pernas e braços magros e depois aquela maldita carcaça. 

As quatro cesarianas deram cabo do resto. Fiquei com uma espécie de medusa agarrada a mim, um bicho mole pendurado no meu baixo ventre, tão pendurado que é costume ser designado por "avental". Ora, este avental impedia-me, por exemplo, de usar calças com uma camisa por dentro. Tão simples como isto. Uma t-shirt por dentro, uma camisola fininha, nada. Já nem falo de vestidos justos (e mesmo os vestidos mais ou menos normais tinham sempre de levar uma cinta), já nem falo de biquíni, que abandonei há anos. 

Ora, claro que quando emagrecia muito, a medusa emagrecia comigo. Ficava mais pequena, sem dúvida. Mas... nunca por nunca me largava! No meu pico de forma, em que treinava uma média de três vezes por semana (cerca de 150km/200km por mês), quando me estava a preparar para a minha primeira maratona, a minha medusa reduziu. Porém... manteve-se sempre por perto. E eu continuei sem usar uma camisa por dentro das calças. E a embrulhar-me na toalha quando saía do mar. E a cruzar os braços em frente ao corpo quando era convidada para falar em público ou na televisão. E a vestir o roupeiro inteiro antes de sair de casa e - tantas vezes - sentir que nada, mas mesmo nada iria conseguir disfarçar aquilo que ali tinha e que, pertencendo-me, não me pertencia. Tudo isto apesar de comer e treinar como uma atleta de alta competição (acreditem, já fui uma, e aquilo que fiz para essa maratona aproximou-se muito desse tipo de preparação). E, sim, muitas vezes acho que desmotivei de treinar porque... se a medusa não me abandonava nem com aquele esforço todo, para quê continuar? Não sou uma Patrocínio, intrinsecamente apaixonada por exercício, e por isso, sim, acho que muito do abandono de uma vida mais activa teve que ver com esta coisa que nunca me largou.

Durante muito tempo, adiei a cirurgia por causa dos filhos. Queríamos ter um quarto filho, esperámos que ele viesse, demorou a vir, lá veio. E, como somos malucos, demos por nós a pensar como seria giro se viesse um quinto filho. O desejo não era o mesmo que tínhamos sentido para o quarto, é verdade. O Mateus parecia uma peça do puzzle que nos faltava e, quando chegou, sentimos que o puzzle estava pronto. Mas, passado algum tempo, achámos que podia ser giro fazer um upgrade ao puzzle, e deixámos passar o tempo, a ver se acontecia ou não. Não aconteceu. 

Trabalhar o tema "fim dos filhos" na minha cabeça, na nossa cabeça, não foi fácil. Se é um facto que nos sentimos preenchidos com esta família querida e numerosa que temos, também custava muito pensar "acabou-se, nunca mais vamos ter aquela explosão de felicidade ao sentir o nosso recém-nascido nos braços". Tudo isto careceu de tempo. De reflexão. De muita conversa. Interior e com o homem que escolhi e que me escolheu.

Trabalhar o medo de morrer foi o passo seguinte. Sou hipocondríaca e, além do mais, fui jornalista muitos anos e encontrei, pela minha profissão, casos terríveis. Fiz inclusivamente uma reportagem no Diário de Notícias sobre pequenas (e supostamente insignificantes) cirurgias que correram mal. Assim, não fica mais fácil. 

Bom, por ser hipocondríaca, por gostar muito de viver e da minha vida, e por ser talvez excessivamente informada foi essencial saber o máximo sobre o médico certo a escolher. E demorei. Li muito. Ouvi testemunhos. Pesquisei. Fui a uma consulta na Up Clinic, que já seguia via Instagram, e achava que tinha uma grande pinta. Acreditem: os olhos também comem. E entre entregarmo-nos a um médico que nos recebe num gabinete esconso e com humidade no tecto, e escolhermos um que nos recebe numa clínica linda de morrer, para onde podia perfeitamente mudar-me no dia seguinte, com marido, filhos e mobília (parece mesmo uma das Casas onde a Cocó Não Se Importava de Morar), é muito mais provável que optemos pela segunda opção.

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Tinha amigas que já tinham sido operadas pelo Dr. Tiago Baptista Fernandes e quis lá ir conhecê-lo. Interessava-me perceber se, além de bom médico (que tinha várias fontes a confirmar que era), também era um bom ser humano. Na consulta não deu propriamente para lhe tirar a ficha de personalidade e avaliar as ondas electromagnéticas da bondade, mas pelo menos era simpático e acessível e descomplicado (e giro, vá, não que isso interesse muito, até porque na maior parte do tempo da nossa relação, um de nós está a dormir). Falámos de preços e não é barato. Mas se fosse barato eu desconfiava. Afinal, estamos a falar de uma cirurgia de 6 horas e meia, em que há uma série de gente envolvida, e em que um médico especialista abre uma barriga, aspira gordices, cose abdominais que estão de costas voltadas há anos, distantes e zangados, remove pele em excesso, e ainda reduz maminhas... malta, não há milagres. O total ficava em cerca de 14 mil euros. Tive uma atenção porque estou a trabalhar com a clínica, como em breve poderão ver, mas paguei - eu sei que isto é uma coisa que causa muita comichão a muita gente, o facto de "nós" nunca pagarmos nada. Descansem, pois, neste caso.

Marquei a data. Nem quis acreditar quando marquei a data. Passei o verão a falar disso, a pensar nisso. A temer, a querer, a pensar de novo. Decidi que, além da abdominoplastia iria fazer também uma redução mamária. Bem sei que anda meio mundo a pô-las e eu a querer tirar, que raio de vida que nunca ninguém está contente. Mas lembro-me de ser adolescente e enfaixar as mamas para disfarçar o tamanho, e nunca comprei outro soutien que não fosse redutor. Não tenho assim um exagero mas nunca gostei delas grandes.  E já que ia estar anestesiada... então que reparássemos também aqui algo que nunca apreciei em mim.

Só que a vida é assim mesmo, uma caixinha de surpresas, e entretanto veio um cancro em alguém muito próximo. E a primeira data que tinha ficado marcada, para 13 de Janeiro, teve de ser adiada porque essa pessoa tinha uma sessão de quimioterapia no dia 16 e eu queria lá estar. E, manifestamente, em três dias não iria estar em condições para acompanhar a minha pessoa na químio. Por isso, e porque avisei com a devida antecedência, adiámos para dia 18 de Fevereiro. Fiz imensos exames para que o médico tivesse a certeza de que estava tudo bem para ser operada: mamografia, ecografia mamária, análises, electrocardiograma, ecografia abdominal, raio x ao tórax, pulmões e coração, raio x à coluna. Ainda tive mais uma consulta com o Dr. Tiago, porque já tinha passado bastante tempo desde a primeira e basicamente queria ir lá dizer-lhe que tinha medo. Ele riu-se mas não desvalorizou. Quem é que não tem um bocadinho de medo de ir para um bloco operatório? Mas transmitiu segurança, explicou que faz disto com a mesma regularidade com que eu... limpo rabos a filhos, mais coisa menos coisa. Depois... depois foi preparar tudo para que os dias em que estivesse off fossem o menos difíceis possível. Combinei com a minha mãe que ela levaria os miúdos à escola no dia da cirurgia e nos dias seguintes e pronto. Estava mesmo a acontecer.

Na véspera... novo revés. Se fosse acreditar em sinais do universo, em calhando tinha desistido. A minha mãe adoeceu e fiquei ali num impasse, sem saber o que fazer. Liguei ao meu pai mas, de repente, a meio do telefonema, percebi o quão absurdo tudo aquilo era: ele teria de vestir o Mateus, teria de dar o pequeno-almoço ao Mateus e à Mada, teria de levar ambos a duas escolas diferentes. Não é que não desse para fazer, mas tudo combinado com apenas horas de antecedência ia ser o caos. Comecei a panicar e, quando desliguei, lavada em lágrimas (estava emocional, nervosíssima e sou naturalmente dada a chorar), disse ao Ricardo: "Prefiro que fiques com os miúdos e trates tu de tudo do que estar eu lá, à beira de entrar para o bloco, em transe com o que se estará a passar em casa". 

E assim foi. No dia 18, terça-feira, apanhei um Uber para o Hospital St Louis, no Bairro Alto. Ia eu, a minha mochila, e o meu enorme, enormíssimo pavor. Entrei para o quarto, deram-me a bata azul para vestir, umas meias de compressão, uma touca verde. Daí a pouco entrou o Dr. Tiago. Parecia que era dia de festa! Todo ele animação! Vinha fazer os desenhos no meu corpo, como se fosse um alfaiate a desenhar o tecido que iria cortar por medida, ou um escultor perante a matéria-prima a que vai dar forma. Os olhos, o sorriso, a felicidade em cada risco, em cada traço, é algo que não vou esquecer. É algo que só acontece quando realmente se ama o que se faz.

Ele saiu, despediu-se com um "até já!" e a seguir vieram buscar-me. Quando entrei no bloco, fiquei a ver aquela gente toda à minha volta e o pavor transformou-se em pânico. O que é que estou aqui a fazer? E se eu morro? E se eu ficar com a minha barriga em avental, porra, qual é o mal? Lágrimas, lágrimas, lágrimas. O anestesista, que era uma simpatia, olhou para mim e disse que já ia dar-me uma coisa que me ia acalmar. Acordei 6 horas e meia depois (ou sete, não sei bem). 

 

(to be continued...)