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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Mãelabarista*

Este ano está a ser mais difícil de gerir o equilíbrio entre a minha vida e a vida dos meus filhos. Dou por mim - como agora, neste preciso momento - a escrever em vãos de escada, em salas de espera, em cafés próximos do instituto de música, da escola, disto, daquilo. Agora, por exemplo, escrevo sentada numas escadas de pedra, à porta do instituto onde oiço a voz da Madalena misturada com as outras vozes do coro, a tentarem sair afinadinhas, ao mesmo tempo que o piano entoa uma música que me embala. Há uma hora estava numa sala de espera enquanto escutava a Mada tocar piano e ao fundo alguém tocar violino, e ainda o som de um clarinete a sair de uma outra sala. Recuando mais um pouco, era ver-me a pedalar a toda a mecha para ir buscar a Mada à escola, e depois era ver-nos às duas, a todo o gás, a pedalar de regresso a casa. Fiz almoço para 5 (peitos de frango assados no forno com arroz e salada) em 30 minutos, porque às quartas almoçam 5, mas às quintas e sextas almoçam 4, e à segunda e terça almoçam 3. Daqui a nada tenho de fazer o jantar para 6, desse nunca me livro, excepto quando chego mais tarde que o Ricardo, e ele se adianta. Ainda haverá banhos e trabalhos de casa e o coro só termina às 20h. 

Este ano sinto que não estou a conseguir ser produtiva nas minhas coisas, nos meus projectos, e isso desespera-me mas, por outro lado, quero acreditar que estou a fazer algo importante para estas 4 alminhas que decidi pôr no mundo, apoiando, ajudando numa certa ordem e disciplina diárias que nunca impus, eu que sempre fui mais de deixar rolar (e nem sempre com bons resultados). Ter uma família numerosa implica algumas cedências, repito de mim para mim sempre que adio, sine die, as minhas coisas.

Gosto particularmente da rotina de levar a Mada de bicicleta para a escola. Lá vamos os três (o Mateus no atrelado), a conversar, a ver a vida em redor, a rir. Depois, no regresso, como é cedo ainda para levar o Mati para a escola, vou uma meia hora com ele para o café. Ele pede todos os dias um bolo e acaba invariavelmente a comer uma peça de fruta, excepto à sexta, em que o deixo comer um pastel de nata. Eu bebo um ou dois cafés e jogo à bola com ele (sim, no café, que tem uma zona especial para as crianças). Esse momento é outro daqueles em que sinto mesmo que tento muita sorte. A felicidade dele, enquanto jogamos à bola naquela meia hora matinal, não tem preço.

Já a rotina de ir buscar a Mada à escola não é tão boa porque me calha demasiado cedo, mesmo a meio da tarde para me cortar o ritmo, e lá vou eu de bicicleta, e lá vimos nós de bicicleta, mas já estou em campo para ver se em dois dias da semana a ocupo com um desporto que a escola vai oferecer, e assim ela mexe-se mais um bocado, e eu trabalho mais um pouco. Quando a chuva se juntar a esta equação vai ser hilariante, a sério, vai. Mas eu sou teimosa que nem uma mula, e não vai ser uma chuvinha que nos vai acabar com as viagens sustentáveis, saudáveis e divertidas. Ou então vai, e vou maldizer a vida, e achar que falhei, e a seguir desculpo-me, que sou só uma mãe como as outras. Logo se vê.

Também esta decisão de acompanhar de perto o Martim e pô-lo todos os dias a rever a matéria que deu, é algo que me tira anos de vida. É a primeira vez que estou na luta para que cumpra este ritual diário - e é uma luta, por Deus, se é! Mas quero muito acreditar que deste modo será mais difícil cair na situação em que caiu no ano lectivo passado, em que esteve vai não vai para se espalhar ao comprido. Só que toca-me ao final do dia, quando os outros todos já estão, quando há banhos e jantares e tudo a bombar ao mesmo tempo. 

A vida de uma mãe freelancer é uma vida espectacular. Não a trocava por nada. Nada, nada, nada. Se algum dia tiver de voltar para um trabalho, com um chefe, com um horário rígido, com um local fixo para onde ir todos os dias, acho que será o pior dia da minha existência. Poder decidir quando e onde e como se trabalha é de uma liberdade insuperável. Mas (e parece ter de haver sempre um mas, é a velha história de não haver bela sem senão) é também uma vida exigente. Porventura mais exigente, mas não quero pôr a tónica no "mais", porque fazer isto tudo não tendo a liberdade que tenho também é do cacete. Já tive essa vida e era muito difícil. Por isso reformulo: não será mais exigente, será apenas exigente de um modo distinto e particular. Porque não me posso esquecer de mim, de que também eu tenho de produzir, também eu preciso existir, mas também não posso simplesmente descartar os miúdos e as suas (muitas) necessidades. Há um equilíbrio que é preciso ter e manter e este ano, não sei bem porquê, está a ser mais difícil (e demorado) encontrá-lo. Sinto-me uma malabarista, acho que nos sentimos todas. Somos mãelabaristas.

 

*Texto escrito ontem pelas 19h, nas escadas do instituto de música, enquanto ouvia a Mada e os colegas de coro a fazerem exercícios vocais (creio que ainda vou escrever muita prosa naquelas escadas)

Agora deu-lhe para isto

E que bem que lhe deu. 

Fui ontem ver o espectáculo de piquena Pipoca e devo dizer que a miúda é grande. Nada que eu não soubesse mas pronto. Conheci-a jornalista, depois acompanhei o momento em que se tornou exclusivamente blogger de mega sucesso e agora é vê-la desfilar inteligência e sarcasmo pelos palcos de todo o país. Bom, e a desfilar aquele corpinho também, raça da criatura que está boa comá Nutella (esqueçam lá o milho, nunca percebi esta comparação). A Pipoca é um bocado como o Midas: tudo aquilo em que toca vira ouro. Até enerva. Se não foram ver... esqueçam. Está tudo esgotado. Para a próxima mexam-se. Mas para a próxima também já deve ser no Altice Arena, de maneira que já vai haver mais bilhetes. Parabéns, caraças! You rock!

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Mateus, o inglês (Parte II)

Ontem, a meio de coisa nenhuma, o Mateus disse:

- I'm wonderful.

- Hein? O que disseste, Mati?

- I'm wonderful.

- Awwwwwwwwwmmmm, yes you are, sweetie!

Ele sorriu, todo esborrachado por mim, e atirou:

- E... I'm hungry. Quero comer. 

 

Traduzindo: sou incrível e maravilhoso mas agora alimenta-me, se não te importas.

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Os heróis deviam poder cruzar a meta

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Na semana passada conheci os Iron Brothers. Entrevistei o Miguel e fiquei deslumbrada com a sua força, com o poder do seu amor pelo irmão, com a garra com que contou todos os feitos e todos os projectos futuros. O feito que ele tinha para este domingo pode não ter sido alcançado em pleno, mas foi um feito do caraças, ainda assim. O feito era completar o Half IronMan de Cascais, mas o Miguel e o Pedro foram desclassificados por não terem chegado no tempo limite a um determinado ponto onde tinha de se chegar a determinada hora. Foi muito doloroso acompanhar o desalento dos irmãos, que tanto se esforçaram por conseguir esta proeza. O Miguel, de uma forma suprema, mas o Pedro também, porque não é fácil ir tanto tempo na mesma posição, ao calor, sujeito a todas as trepidações e curvas e balanços. Custa-me um bocadinho que o tempo de cut-off seja igual para eles, que partem no fim de toda a gente, ou seja às 8:01 da manhã. Mas enfim... são regras (se bem que ainda ontem os irmãos Pease fizeram o 70.3 de Augusta, EUA, em 9h11m15s - é a mesma marca IronMan mas aparentemente com regras distintas).

Foi lindo assistir a toda a prova, foi lindo assistir à não desistência deles, mesmo depois de se saberem desclassificados. Podiam ter ido para casa mas... isso não era de campeões. Se era para fazer, era para fazer até ao fim! E assim foi. Até ao fim. Ou devo dizer... até quase ao fim. Porque os dois irmãos foram impedidos de cruzar a meta pela organização. E isso deixou-me triste. 

Não esqueço o apoio que a equipa IronMan deu ao Team Vasco, foram incríveis nas menções que foram fazendo aos microfones, achei lindíssimo o cuidado que tiveram e as frases como "Vasco, you will me missed" comoveram todos os amigos e família que ali estavam naquela homenagem. Foi muito bonito mesmo. Acho que a prova estava bem organizada, acho mesmo espectacular o facto da marca IronMan organizar uma prova em Portugal. Mas (e é uma pena ter de pôr aqui um mas) o facto de não terem deixado aqueles dois irmãos cruzarem a meta foi uma atitude quanto a mim incompreensível. O motivo apresentado foi o facto de estarem desclassificados mas... daí até não os terem deixado cruzar a meta, numa altura em que já quase não estava ninguém a passá-la (pelo que a eventual desculpa de que iam "atrapalhar", estando desclassificados), é simplesmente pouco humano. O Miguel fez um esforço brutal para conseguir fazer esta prova, o Pedro (seu irmão com paralisia cerebral) estava felicíssimo por participar. Ambos tiveram um grande desgosto ao não conseguirem chegar a tempo ao cut-off. Mas ainda assim continuaram porque desistir não era opção. Fizeram a natação, a bicicleta, a corrida TODA. E depois não puderam cruzar a meta? Tiveram de ir ali pelo corredor lateral, como se fossem clandestinos? Depois de se saber desclassificado, o Miguel não queria medalhas, não queria constar das classificações. Só queria que o Pedro passasse pela emoção de entrar naquele corredor a ser aplaudido, e agora é inevitável que sinta que foi por sua causa que isso não aconteceu. E é cruel. E injusto. Então e todos os que também foram desclassificados e cruzaram a meta? Eu conheço alguns... porque é que esses não foram impedidos e os irmãos foram? Não percebo.

Os Iron Brothers não mereciam. Foi pena. As organizações de provas também têm muito para aprender no que diz respeito à inclusão. Temos todos, na verdade. E estas situações são típicas de quem vai à frente, de quem faz pela primeira vez, de quem abre caminho para os próximos. Mas, como prefiro ver o copo meio cheio, acredito que há sempre aprendizagens que se tiram do que não corre bem. Aposto que para a próxima a atitude já será outra. Acredito mesmo.

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