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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Gestos que me conquistam

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Boooom... e lembram-se daquela acção "Olhar por Moçambique" de que aqui falei? Sobre recolher óculos que tivessem aí por casa para depois ganharem nova vida e irem para aquele país africano, direitinhos para quem mais precisa? Pois bem, no dia 6 partiu para Moçambique uma equipa de profissionais da MultiOpticas, incluindo optometristas e técnicos, que estão a realizar rastreios visuais nas escolas da região de Nampula e a distribuir às crianças e às famílias que deles necessitem os óculos recolhidos já recuperados e os modelos oferecidos pela MultiOpticas (por cada par óculos recolhidos a MultiOpticas ofereceu um par novo). Só tenho pena de não me ter colado a esta equipa e ir lá, ver isto tudo acontecer. Deve ser mágico devolver a visão plena a quem a tenha deficitária. Deve ser incrível ver óculos que já não serviam para nada ganharem nova vida.

A HELPO é a parceira perfeita no terreno, tendo já vários anos de experiência na região. A MultiOpticas associou-se também ao empreendedor, viajante e orador, André Leonardo, que irá dar uma palestra e promover ações na Universidade de Nampula para os alunos do curso de optometria. A MultiOpticas irá ainda apoiar esta população em idade escolar com a oferta de 2 bolsas de estágio a alunos de Optometria do 3º ano e equipamentos à Universidade do Lúrio. 

A visão é o sentido que mais prezo. Esquecemo-nos tantas vezes da sorte que temos por possuirmos esta capacidade, de ver tudo o que nos rodeia, que muitas vezes nem o valorizamos como devíamos. Não ver de todo, ou ver mal torna a vida muito, mas mesmo muito mais dura. Consegue-se, claro, mas é incomparável com o privilégio de ver bem. Por isso, o meu muito obrigada à MultiOpticas por estar a ajudar estas pessoas, permitindo que vejam a vida... com outros olhos!

Hoje celebra-se o Dia Mundial da Visão e nunca é demais lembrar que as consultas visuais são sempre gratuitas na MultiOpticas e estão disponíveis nas mais de 200 lojas por todo o país. Pessoalmente acho isto notável. Porque nem todas as pessoas que marcam uma consulta para avaliar a sua visão vão efetivamente precisar de óculos. E mesmo as que vão precisar de óculos irão comprá-las na MultiOpticas. Pelo que... só a existência deste serviço gratuito já é coisa para me aquecer o coração.  

Podem seguir a Missão Olhar por Moçambique nas redes sociais da MultiOpticas ou aqui.  

Para marcar uma consulta gratuita podem fazê-lo aqui 

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Histórias Viradas do Avesso

Acabou de nascer o meu novo livro. Chama-se "Histórias Viradas do Avesso" e estou mesmo feliz com ele. Está mesmo querido, muito por culpa da Célia Fernandes, que fez umas ilustrações mesmo catitas para as minhas histórias malucas. Um grande beijinho para ela e parabéns pelo bom trabalho!

Como nem todas as pessoas que me lêem aqui acompanham o meu Instagram, passo a explicar um pouco como nasceu este novo "filho".

Um dia, já nem sei bem como, pensei: será que consigo criar histórias para crianças e lê-las no Instagram, naquele minuto único que a rede social nos permite para fazermos vídeos? (bom, claro que depois há o IGTV e as Stories mas a ideia era mesmo cingir ao 1 minuto que se pode ter no Feed). Vai daí e comecei a inventar histórias, a escrevê-las e a lê-las, em vídeo. Leio à noite, como se fossem histórias daquelas que se lêem antes dos miúdos irem para a cama, e leio-as com o Mateus e a Mada ao meu lado, captando as expressões naturais de quem está a descobrir uma história pela primeira vez. Chamei a esta rubrica "Histórias num Minuto".

À medida que ia fazendo isto, houve quem começasse a pedir para que reunisse todos os contos num livro. "Para quando um livro com estas histórias?" era quase sempre a pergunta em todos os vídeos. A editora Zero a Oito gostou da ideia e vai daí... nasceu este livro com mais de 50 destas histórias curtinhas, mas quase sempre com uma lição. A minha ideia é mostrar que todos temas, mesmo os que podem ser considerados mais sensíveis, são na verdade tão simples que podem ser abordados num único e singelo minuto. Nós, os adultos é que tendemos a complicar. Da igualdade de género ao racismo, passando pela deficiência, sem esquecer a homossexualidade, o divórcio, o medo, a maldade, a falta de tempo, o vício dos telemóveis, a falta de auto-estima... tudo isto e muito mais é abordado neste livro, em histórias que podem efectivamente ser lidas num minuto, mas que ganham ainda mais se forem lidas com outro fôlego, e ainda mais ganham se puderem ser conversadas a seguir. Também podem ser lidas duas ou três ou mais de seguida, porque são mesmo curtinhas e, assim, sempre se prolonga mais um pouco aquele momento gostoso entre pais e filhos (ou avós e netos, ou seja quem for que vai ler as histórias às crianças).

E pronto. Ele aqui está. À venda das livrarias e grandes superfícies e também na Wook. Lindinho de sua mãe. 

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Em breve digo quando e onde será o lançamento. Gostava muito de vos ter por lá. 

Lembram-se do Campabilities?

Lembram-se de uma reportagem que fiz e publiquei AQUI sobre um extraordinário campo de férias para crianças e jovens cegos e para crianças e jovens que vêem? Em que os visuais são os monitores dos cegos? Em que existe uma ligação absolutamente notável entre uns e outros, em que os que vêem percebem que, afinal, e em muitos casos, não ver é só não enxergar com os olhos mas que os outros sentidos, a força de vontade e o coração fazem o resto? Se não leram... convido-vos a ler.

Nessa reportagem, falei das dificuldades com que se debate a AAMA, a associação responsável por estes campos. Tudo é pago e os apoios escasseiam. Gostava muito que viessem comigo a este jantar de angariação de fundos. Será que há por aí quem queira juntar-se a mim à mesa, para apoiar a AAMA e ver se os campos de férias (entre todas as iniciativas que têm em mãos) continuam. Relembro que a AAMA é uma associação sem fins lucrativos (IPSS- Instituição Particular de Solidariedade Social), que apoia crianças, jovens e adultos com deficiência e outras necessidades especiais, no âmbito desportivo, terapêutico, recreativo, educacional e formativo. Alguém se junta? Jantamos?

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Clubes de Leitura de Lisboa e Porto: Crime e Castigo de Dostoiévski e outras obras

Quer em Lisboa, quer no Porto houve um sentimento generalizado de uma certa estranheza em relação ao clássico "Crime e Castigo", de Fiodor Dostoiévski. A esmagadora maioria não leu, deixou a meio, desistiu, revirou os olhos. Nos dois grupos de Muitos confessaram que só terminaram por se terem comprometido no Clube, mas que se não fosse isso não lhe teriam dado uma segunda oportunidade.

No Porto já não me lembro bem se houve alguém que tenha gostado mesmo muito (não sei dos apontamentos, raios partam!) mas em Lisboa houve, a Beatriz Palhais. O que mais a impressionou foi o modo como o autor nos arrasta para a confusão mental do protagonista, o delírio, as suas decisões que oscilam a cada instante, a instabilidade sufocante que nos contagia. Ela tem razão. Dostoiévski consegue fazer um verdadeiro ensaio sobre a psicologia humana, levando-nos a cogitar sobre as questões morais, éticas, sobre a culpa, sobre o facto de Raskolnikov defender que o assassinato de uma pessoa reles pode ser moralmente acertado se o objetivo for nobre. Por outro lado, o que se demonstra é que, talvez se estivesse isolado do mundo, o protagonista conseguisse refugiar-se no seu pressuposto moral de ter liquidado alguém que não andava cá a fazer nada. O "pior" é que vive em sociedade, uma sociedade que julga, que recrimina. E é pelo julgamento alheio que Raskolnikov mais teme, não tanto pelo seu próprio.

Entretanto, no Porto, já houve novo encontro, desta vez para analisar vários livros, já que a leitura era livre.

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- "Não se Encontra o Que se Procura", Miguel Sousa Tavares. A Conceição garante que é um excelente livro para se mudar a opinião sobre Miguel Sousa Tavares, caso a opinião não seja muito boa. "Eu sempre o achei um arrogante e ao ler este livro passei a gostar dele. Há aqui o mostrar de um outro lado, de que gostei."

- "O Estrangeiro", Albert Camus - Já foi uma das leituras "obrigatórias" do clube de leitura de lisboa e dividiu a audiência. Eu adorei, mas houve muita gente que não gostou nada. A estranheza do protagonista, para quem tudo parecia rigorosamente indiferente mexeu muito comigo (positivamente), mas também mexeu com os nervos de muita gente. A Conceição gostou muito.

- "Ao Sol de Tânger", Christine Mangan - A história de duas amigas. Uma visita a outra, em Tânger, para onde foi viver. A visita é inesperada e traz consigo histórias do passado. E de repente tudo é enigma e dúvida e inquietação.

- "A Origem", Dan Brown - Perguntas e respostas fundamentais da existência humana, através da chave de sempre de Dan Brown: um professor de História que desvenda segredos obscuros para conseguir apurar a verdade sobre o passado e sobre o futuro da Humanidade.

- "Pequenos Fogos em Todo o Lado", Celeste Ng - Uma mulher chega com a sua filha adolescente a uma cidade perfeita, desenhada a régua e esquadro. Tudo ali bate certo, tudo tem regras, tudo funciona como um relógio suiço. Só que...  por vezes a ordem pode ser transtornada pela vida. E talvez a ordem não seja assim tão real. Um livro lindíssimo que nos fala sobre o julgamento da vida dos outros e sobre a justificação sobre aquilo que somos. A Cláudia adorou.

- "O Estranho Caso do Cão Morto", Mark Haddon - Chistopher Boone é o narrador deste magnífico romance, tem apenas 15 anos e sofre de autismo. O livro é impressionante porque é escrito como se fosse o olhar de um autista, com a sua visão directa, sem filtros ou nuances. Um assasinato despertá-lo-á para uma longa odisseia que o irá ajudar a descobrir qual o seu verdadeiro papel no mundo.

- "A Máquina do Tempo", H.G. Wells - Um cientista tem uma máquina que lhe permite viajar no tempo. No futuro, ele vislumbra uma trágica sociedade dividida em dois: os preguiçosos e pacíficos Eloi e os bárbaros e predadores Morlocks. Uma crítica social sobre as consequências do fosso crescente entre classes e para a exploração e miséria humanas. 

- "Lá, onde o Vento Chora", Delia Owens - Kya tem 6 anos quando vê a mãe sair de casa para não mais voltar. A menina cresce e aprende a viver sozinha, totalmente isolada. Quando o charmoso Chase Andrews aparece morto, todos os dedos apontam na direção de Kya, a miúda do pantanal. E o impensável acontece. A autora relembra-nos, neste romance de estreia, que somos formatados pelas crianças que fomos. 

- "A Luz da Guerra", Michael Ondaatje - A história começa no final da 2ª Guerra Mundial. Nathaniel, de 14 anos e a sua irmã mais velha, Rachel, são abandonados pelos pais que saem do país para ir trabalhar e os deixam à guarda do "Traça" e outros criminosos. A história trata o crescimento destes dois miúdos, os traumas e as misteriosas razões para terem partido. Que atroz realidade está Nathaniel para descobrir?

- "O Caminho Perfeito", José Luís Peixoto - Auto-biografia que viaja entre os relatos íntimos e uma viagem à Tailândia. O turismo e a viagem interior. A cultura, sociedade, história e as memórias pessoais. 

- "A Missão", Ferreira de Castro - Passa-se no sul de França, durante a ocupação alemã. Há dois edifícios iguais, um é uma fábrica, o outro é um edifício onde vivem missionários. Até que surge um dilema moral: devem pintar no telhado a palavra "missão" para escaparem ao bombardeamento? Se sim, é certo que a fábrica será bombardeada, com todas as mortes e destruição familiar inerentes. Mas se não pintarem a palavra, eles também poderão morrer, perdendo-se assim um capital de apoio aos desvalidos da guerra e de salvação das almas. O Paulo adjectivou este livro de notável e fascinante. Uma relíquia.

- "Mulheres que Correm com os Lobos", Clarissa Pinkola Estés - Existe no interior de cada mulher uma força poderosa. A autora pega em lendas, contos populares e histórias, e demonstra essa força, por vezes escondida, por vezes abafada pela sociedade. A Inês está a ler este livro, que lhe está a dar força para um momento muito particular da sua vida, que teve a generosidade de partilhar connosco. 

- "Deixa-me Mentir", Clare Mackintosh - O Diogo não adorou, o que me deixou a mim um pouco desiludida (se bem que vou ter de ler primeiro, para ver se concordo com ele). É que Clare Mackintosh escreveu um livro com um título péssimo em português mas que foi um thriller que adorei ("Deixei-te ir"). A história é sobre uma mulher que julgava que os pais se tinham suicidado mas que, entretanto, recebe um bilhete que diz o contrário. Um livro cheio de reviravoltas em que nada é o que parece. O Diogo diz que o livro às tantas vai perdendo o gás, quase como se a autora tivesse sentido vontade de acabar com aquilo depressa (como me revejo!)

- "Números que Contam Histórias", André Rodrigues - Um livro de cultura geral em que os números são as personagens de histórias verídicas. Exemplos? Sabia que, se o ser humano conseguisse utilizar o cérebro na capacidade máxima, armazenaria 4,7 mil milhões de livros? Ou que a Rússia é tão grande que tem 11 fusos horários, o que faz com que de um lado do país haja habitantes que se sentam à mesa para jantar quando do outro há gente a despertar de uma noite de sono? Um livro repleto de curiosidades... com números.

- "Harry Potter e os Talismãs da Morte" e "Os Contos de Beedle, o Bardo", J.K. Rowling - Nunca é tarde para ler os livros de Harry Potter e o Diogo até queria que fosse o nosso livro único numa das próximas edições. Está em análise. :)

- "A Fábrica das Bonecas", Elizabeth Macneal - Íris sonha ser artista e, um dia, acaba a ser convidada por um pintor para ser modelo. Ela aceita, com a condição de que o pintor também a ensine a pintar. De repente, o mundo de Íris transforma-se numa experiência dominada pelo amor e pela arte. Mas... (há sempre um mas) tudo pode ruir porque há encontros que podem mudar tudo, ainda que pareçam não ter qualquer importância.

 

Prémio para o Diogo que, como sempre, levou uma mochila cheia de livros (e também porque passou uma hora e meia no trânsito para conseguir chegar ao clube )

Obrigada ao Brown's Hotel, em Lisboa, que nos recebe sempre tão bem na capital.

Obrigada ao Vila Galé Porto, que nos recebe sempre tão bem na invicta.

E, claro, obrigada à MultiOpticas, que apoia estas iniciativas literárias, sempre de olhos postos nos nossos. 

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"Aquela coisa", todas as noites

Há coisas que acontecem na nossa vida sem que saibamos muito bem como acontecem. Simplesmente sucedem e, no lugar de questionarmos ou rejeitarmos esse acontecimento, por muito peculiar ou inusitado que nos pareça, aceitamos.

Foi o que se passou com a minha filha Madalena. A Mada acredita em Deus, gosta de rezar e isso, para mim, nunca foi uma questão. É óvio que me surpreendeu, que ainda estou para perceber como é que isto aconteceu, mas aceito, ajudo, estou cá para a apoiar naquilo que faz sentido para ela, ainda que me seja estranho, ainda que não me esteja entranhado, ainda que não saiba bem como fazer.

Assim, instituímos o ritual de rezar todas as noites. E, assim, nasceu mais um potencial "beato". O Mateus. Quando nos deitamos e ela está cravejada de sono, capaz de se virar para a parede e dormir, é ele quem lembra:

- Então e aquela coisa?

- Que coisa?

- Rezar!

E lá rezamos. Um Pai Nosso (que ele já sabe, apesar de ser hilariante ouvi-lo porque falha quase todas as terminações), um "Anjo da Guarda, minha companhia, guardai minha alma, de noite e de dia", um pedido de saúde para toda a família e amigos e um agradecimento pelo tanto que temos. Segue-se o melhor e o pior do dia, de cada um de nós os três. E é amoroso ouvi-los dizer coisas como: "O pior foi quando a mãe ralhou" ou "o melhor foi quando joguei à bola com a mãe no recreio, quando me foi buscar", "o melhor foi o passeio de bicicleta de manhã". 

Há coisas que acontecem na nossa vida sem que saibamos muito bem como acontecem. "Aquela coisa" que fazemos todas as noites aconteceu-nos e, acreditem ou não, tem sido uma pequena delícia. Porque fazemos a revisão do dia, agradecemos, pedimos (mas só saúde que é, como se sabe, o que realmente interessa). "Aquela coisa" foi das melhores que nos aconteceu. A ponto de já não imaginar melhor maneira de adormecer.

Eleições

1- Não percebo quem não vota. Juro. Acho um desrespeito para com a democracia e não há opinião diferente que me faça mudar de opinião. Estão descontentes votem em branco, mas não desprezem um direito que tantos adorariam ter e não têm. Não votar é como deixar comida no prato e deitar para o lixo quando há tanta gente a passar fome.

2 - Gostei que os pequenos partidos tivessem crescido nestas eleições, é sinal de que a democracia está viva e há vontade de alterar o bipartidarismo enfadonho. 

3 - Excepto... quando se trata do Chega. Aqui em casa chamamos-lhe o "Chega, Basta, Larga-me, Baza!" Assusta-me que tenham eleito um deputado. Os extremos assustam-me. A extrema direita arrepia-me (e não é aquele arrepio bom). 

4 - Não percebo quem não vota. Não votar é o mesmo que dizer "estou-me nas tintas para tudo".

4 - Os pequenos partidos estão a comer terreno aos grandes, o que é bom porque já todos começamos a ficar cansados dos grandes, que já mostraram tudo o que podiam ter feito e não fizeram ou tudo o que podiam não ter feito e fizeram. Excepto quando se trata de partidos extremistas, que podem de facto aproveitar a brecha dos desiludidos e angariar um espaço, o que é perigoso para a democracia.

6 - Já disse que não percebo quem não vota? Ah, pronto. Então não vou voltar a dizer que não percebo mesmo quem não vota.

 

Este mundo já não era para gordas. Agora já nem para boas é

Um conhecido ginásio digital, desses que prometem que, se cumprirmos religiosamente (bom, talvez não como a maioria dos religiosos católicos, que se confessam não praticantes, mas sim como a minoria, que efectivamente pratica sem falhar) os treinos, ficamos incríveis, magros, tonificados, com o chamado "corpo perfeito", publicou há dias uma foto de um antes e de um depois. Ou seja, uma foto de uma mulher supostamente antes de se ter metido na aventura do ginásio digital, e a foto alegadamente da mesma mulher depois de ter cumprido o rigoroso plano de treinos da plataforma digital. Ora... o que eu vi foi uma mulher jeitosona, dona de umas pernas torneadas, com um rabinho bastante gostoso, uma cintura definida, um tronco esguio (ok, talvez com uma micro-borreguinha a espreitar ali onde as calças apertam) ser substituída por uma mulher cujas pernas sumiram nas calças, sem rabo, sem borrega de qualquer espécie, sem formas. O que eu vi, nestas supostamente apelativas fotos do antes e do depois, foi uma boazona, com curvas, dar lugar a uma magricela, sem qualquer ondulação feminina, que é aquilo que nos diferencia dos homens, vá, além do sexo propriamente dito. Olhei para as duas imagens e conclui que entre uma e outra, prefiro claramente a de antes. A que tinha um ar saudável, não a que tem um ar faminto. Atenção! Eu tenho borregas de que gostava de me livrar! Mas... eu tenho-as, efectivamente, e são visíveis a olho nu. Não carecem de uma lupa, como as da senhora da foto da esquerda. Aliás, tomara eu estar como a senhora da esquerda. Atenção de novo! Não quero ofender as magricelas (entre ser como sou e ser magricela preferia ser magricela; só que.. entre ser como sou e ser como a senhora da esquerda preferia ser a da esquerda). De qualquer modo, nos comentários, havia muita gente a aplaudir a beleza da segunda, a enorme conquista, uau!, brutal, boa, parabéns, bom trabalho! De facto, continuamos a valorizar a magreza, em detrimento do equilíbrio. Uma mulher já não podia ser gorda, agora já nem sequer pode ser boa. Caneco. É duro ser gaja.

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15 anos

Faz hoje 15 anos que a D. Emília trabalha connosco. Quinze anos. Quando chegou a nossa casa, a nossa casa ainda era no Príncipe Real, na mesma rua onde ela morava. Quando chegou a nossa casa, éramos nós dois, o Manel com 3 anos e o Martim dentro da minha barriga. Quando mudámos de casa, um ano depois, pensámos que ela não iria aguentar muito. Afinal, uma coisa era sair de casa, descer a rua e estar no trabalho, outra coisa era ter de apanhar dois autocarros e ir para a outra ponta da cidade. Afinal, os anos passaram, a nossa D. Emília resistiu, mudou de casa para mais perto de nós, e continua connosco. É o meu braço direito, é ela que encontra tudo o que não sei onde está, é ela que repõe todos os dias a normalidade, a limpeza, a harmonia. Não deve ser fácil deitar todos os dias a mão ao caos e transformá-lo em ordem. É ela que me lembra que é dia de música, é dia de explicação, é dia disto e daquilo. É o meu horário, o meu relógio, o meu calendário. Quando chegou a nossa casa, éramos 3. Hoje somos 6 e um cão. Não consigo imaginar-me sem a nossa santa Emília. Se a vida se apertar, preferirei abdicar de muita coisa, dela não. 

Obrigada, do fundo do coração, por esta década e meia de dedicação. 

O proibido loden verde

Freitas do Amaral morreu ontem e, além de dizer o que já muito se disse, sobre o facto de ter sido um dos fundadores da democracia portuguesa, relembro a campanha para as presidenciais de 1986 e o seu mítico loden verde. A minha mãe era PS, os amigos da minha mãe eram PS, e eu a filha dos amigos da minha mãe suspirávamos em segredo por aquele loden verde. Creio que terá sido das primeiras peças de roupa que desejei ter, assim mesmo muito, como mais tarde quis ter as calças Uniform, El Charro, Chevignon e os blusões Duffy. Mas aquele loden verde... aquele era proibido. Porque querê-lo era como se nos tivéssemos passado para "o inimigo". Vesti-lo era fazer um statement, era ser Freitas, era ser CDS, cruzes credo. No Colégio Moderno, onde eu andei do 5º ao 12º ano, andávamos com os crachás a dizer "Soares é fixe". E eu achava que era, gostava dele, identificava-me com os ideais mais à esquerda do que à direita. Havia muita gente com os crachás. Mas também havia muitos colegas com o loden. E entre os crachás e o loden... caraças, só pensava que podíamos ter tido mais sorte no símbolo da nossa ideologia. 

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Freitas do Amaral: 1941-2019