Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Não vivo numa casa. Vivo numa espécie de hostel

Gosto desta casa em que nunca se sabe bem quem entra, quem sai, quem está. À hora do almoço, por exemplo, quando oiço a chave na porta não sei se é o Ricardo, se é o Manel, se é a D. Emília. O almoço é feito sempre na perspectiva de poder comer mais um, ou dois. Ao fim do dia, a minha casa é muito mais uma residencial do que uma casa. Entra o Martim. Entra o Manel. A seguir vem a Madalena e o Mateus. Sai o Manel para a explicação. Sai o Martim para a guitarra. Podem chegar amigos de um ou de outro. "Está cá o Manel?", pergunto eu, porque já perdi a conta. O Manel não responde. "O Manel já saiu para a explicação", relembra a D. Emília. Chega o Ricardo. Sai a Madalena para o atletismo. Sai o Martim para passear o Mojito. Entram todos os que estavam fora. E o jantar começa, na algazarra costumeira.

familia.jpg

 

Rota da Saúde #3: Os brinquedos influenciam o futuro das crianças?

lego.jpg

Quando a McDonald’s Portugal decidiu passar a oferecer brinquedos unissexo nos menus Happy Meal, as caixas de comentários à notícia encheram-se de opiniões de pais a favor e contra a decisão. Para uns era uma decisão ridícula, uma cedência ao politicamente correcto, para outros era apenas o assumir de que os tempos mudaram e essa ideia do rosa para as meninas e o azul para os meninos já não faz sentido. 

Sandra Borges, pedopsiquiatra no Hospital Lusíadas Porto, refere que a discussão não é nova e que divide a própria comunidade científica: “As questões relacionadas com as diferenças de género e entre os cérebros masculino e feminino são ainda muito polémicas. Alguns estudos referem interações neuronais entre hemisférios específicas do cérebro feminino, outros sugerem que apenas existem diferentes tipos de cérebros independentemente do género”.

Para a médica, a questão é bem mais simples do que parece: “O mais importante é a criança ter acesso a estímulos variados e poder escolher com liberdade se quer brincar com a bola, o bebé ou o carrinho”. Ou seja, se o seu menino gosta de brincar com bonecas não vem daí mal ao mundo, e se a sua filha gosta de brincar com carrinhos é deixá-la à vontade. O importante é essa liberdade de escolha e perceber que não são os brinquedos que definem o género ou a orientação sexual.

Brincar é muito importante e os estudos científicos comprovam-no. Os brinquedos estimulam o desenvolvimento, quer no que diz respeito à motricidade e ao raciocínio, quer no que concerce o treino das competências sociais. Para a pedopsiquiatra Sandra Borges, avessa a condicionalismos de marketing e consciente do papel didático dos brinquedos, a questão não deve ser sobrevalorizada. Muitas vezes, “menos é mais”, e é importante que os pais tenham noção de que com os objetos do dia a dia e até “num passeio no parque, a brincar com pedrinhas e folhinhas, se podem trabalhar as mesmas competências”, afirma. Seja como for, para a especialista a decisão da McDonald’s “faz todo o sentido”, e é positivo que os pais exerçam um papel regulador, assegurando que no quarto do filho existe uma cozinha ou há dinossauros na estante cor-de-rosa da filha. Não adianta ter Barbies de todas as cores se o comportamento dos próprios pais e da sociedade denota uma postura racista – “as crianças são peritas a detetar incongruências”, alerta. 

Ver o artigo completo AQUI.

(esta rubrica é uma parceria com a Lusíadas Saúde)

Casas onde a Cocó não se Importava de Morar #98

São 275m2 de esplendor. Esta casa pombalina fica no Chiado, num prédio com elevador (porém em garagem). A sala de estar tem 51m2, a sala de jantar com lareira mede 35m2. A cozinha é mais modesta (8m2). Tem dus suites, 1 suite com closet, 1 escritório, 1 wc social, um páteo com 22m2. Os azulejos são do século XVIII, os tectos trabalhados são lindos de cair no chão, tem ar condicionado e vidros duplos. Custa 1.700.000 euros.

chiado1.jpg

chiado2.jpg

chiado3.jpg

chiado4.jpg

chiado7.jpg 

chiado9.jpg

chiado10.jpg

chiado11.jpg

chiado12.jpg

chiado13.jpg

chiado14.jpg

chiado15.jpg

chiado17.jpg

chiado16.jpg 

Arrecadação: um buraco-negro de saudade

Ontem foi dia de arregaçar as mangas (literalmente) e mergulhar (literalmente, de novo) na arrecadação.

A minha arrecadação é mais que uma arrecadação. É um salto no tempo. É uma espécie de buraco negro, onde se entra de uma maneira e de onde não se sai igual. Por razões várias, tenho evitado lá ir. Umas vezes porque não tenho tempo, outras porque aquilo está tão cheio que procurar seja o que for se reveste de dificuldade extrema, e as restantes por receio desse contacto com o meu lado nostálgico (que não é bem um lado, é o meu ser inteiro que é nostálgico).

Andávamos para lá ir há que tempos e, um certo dia até chegámos à porta com a determinação de nos atirarmos àquilo mas, perante o cenário dantesco (caixotes empilhados, cadeiras, brinquedos, roupa, malas, sacos, até ao tecto), fechámos a porta em silêncio e voltámos para casa.

Ambos tínhamos acordado que a empreitada devia ser feita num dia escuro e chuvoso, para não sentirmos que estávamos a desperciçar o sol e todas as possibilidades que oferece no exterior, de maneira que ontem pareceu-nos perfeito.

Correu tudo muito bem, despachámos 7 sacos de roupa de bebé para a Ajuda de Mãe (Marisa, não te preocupes, ainda cá ficaram 3 ou 4), mas... e o que me doeu encontrar o bibe do Manel, de quando andava na Academia dos Miúdos (3 anos)? E quando encontrei o bibe do Martim? E quando o Ricardo puxou o cordel à caixa de música que embalava o Manel? Meus amigos, foi um fartar vilanagem. O que eu chorei, meus amigos. O-que-eu-chorei! É que nem foi chorar, foi mesmo soluçar. 

E ainda não cheguei às agendas, aos cadernos, às cartas, aos dossiers, às fotografias, aos DNAs...

É melhor levar uma garrafa de vinho, quando chegar a essa parte.

Eu bem vos dizia que a minha arrecadação não é apenas uma arrecadação. É uma máquina infernal que nos catapulta para o passado deixando-nos um nó na garganta gigante quando voltamos ao presente. 

Agora que penso nisso, não sei se lá volto.

Sem bateria, sem pilha, sem memória. Socorrooooooo

A minha mota, de não ser usada há tanto tempo (chuva, férias, mais chuva), deixou de funcionar. Pode ser amuo, pode ter falecido, pode ser só bateria. Pedi a um amigo de adolescência que tem não sei quantas motas - e que mora perto de mim - se vinha cá com um daqueles aparelhos de ressuscitar baterias, assim uma espécie de desfibrilhador que reanima estes corações já cansados. Ele foi amoroso e às 10h da matina estava à minha porta. Saí, entrei com ele no carro, abri-lhe o portão que dá acesso às garagens, descemos e, quando ia abrir o portão da minha garagem... nada. A luz do comando acendia mas nada de abrir o portão. Pedi-lhe para esperar, fui a correr à volta, entrei no prédio, desci, e esperava abrir a maldita porta à mão, da parte de dentro. Quando estou a chegar, vejo o portão a abrir-se. Era o meu vizinho do primeiro andar que vinha a chegar. O meu amigo aproveitou, entrou também, e lá tentou ressuscitar a mota. Não conseguiu. Disse então que levava a bateria e ia fazer não sei quê com ela, a ver se voltava à vida. Meteu-se no carro, eu tentei abrir o portão manualmente e... não consegui. Pedi-lhe um minuto, subi, toquei à campainha do meu vizinho, expliquei-lhe que o meu comando estava avariado, ele desceu porque tinha o comando no carro, e abriu-me o portão. Como o meu amigo ia voltar, aproveitei para pedir o comando emprestado (para não continuar o vai-e-vem tresloucado). Sim senhor, tudo muito bem. O meu amigo saiu, eu vim para casa. A seguir, telefonema dele. "Estou cá em cima, tens de me abrir o portão que dá para a rua". Ah, claro, tinha-me esquecido desse. Saí a correr e lá fui abrir o segundo portão. Voltei para casa. Daí a uma hora, talvez não tanto, ele voltou. Descemos. A bateria continuou sem funcionar, pelo que vou ter de comprar outra. Ele disse que bastava fotografá-la e ir comprar uma igual. Saco do telefone, ele ajeita a bateria para que eu capte a informação importante e... "Armazenamento cheio". Não podia acreditar. Nem uma mísera foto o desgraçado me deixou tirar. O meu amigo fotografou com o telefone dele e enviou-me as fotos. Foi-se embora e eu aposto que deve estar até agora a achar que tudo na minha vida está sem bateria (ou memória). Não está longe da verdade. 😂

Conta-me #9

"Temos de falar", disse-me ela. Confesso que pensava que esta era uma daquelas frases que só tinha saída nos filmes. De tal maneira que, mal a escutei, apeteceu-me traduzi-la para inglês, "we need to talk", mas achei que ela estava com uma expressão demasiado séria para achar graça. Não sei porquê, talvez já o esperasse, mas assim que ela disse "temos de falar" percebi que a minha vida estava à beira do precipício. Faltava só o encostozinho final para que se desfizesse em mil pedaços, no fundo do desfiladeiro. Fechei os olhos, cerrei os punhos e os dentes, voltei-me para ela com o ar mais descontraído e surpreendido que consegui e perguntei, desejando ter ouvido mal: "Temos?" 

Tínhamos. Ou melhor, ela tinha. Tinha que me falar no Artur. Tinha que me dizer que lhe custava muito toda a situação, que eu tinha sido sempre um marido incrível, que era um excelente pai, que não havia razão de queixa, mas. Há sempre um "mas" que se segue a um "temos de falar". E o "mas" na minha vida tem nome. Chama-se Artur. 

Durante meses ouvi-a falar com entusiasmo no Artur. O novo chefe. Tão engraçado, sempre espirituoso, a fazer rir o gabinete inteiro. "Olha só esta piada que o Artur hoje contou". E eu olhava. E ouvia. E esboçava um sorriso forçado. Não sei porquê, talvez fosse um sexto sentido, nunca achei graça ao Artur, nunca me consegui rir com a vontade com que ela se ria, "não é a melhor piada de sempre?", perguntava ela a limpar as lágrimas. É, é, respondia eu com o sorriso mais esforçado que conseguia montar.

O Artur. Sempre solícito, a trazer o café à sua mesa com um brigadeiro. "Já viste a minha sorte, ter um chefe assim?" Então não?, retribuía eu. O Artur que a tinha convidado para almoçar, não apenas a ela, claro, mas à secção inteira. O Artur e os seus olhos verdes. O Artur e o seu perfume inebriante. Não, talvez ela não o tenha dito assim, mas falou qualquer coisa sobre o perfume, sou capaz de apostar. O Artur que lhe dava boleia no seu carro alemão com estofos em pele e tantos botões no painel que mais parecia um avião. "Às vezes até acho que vai levantar voo". Pois.

E a Paula cada vez mais distante, mais calada. A Paula sempre de olhos no telemóvel, a levá-lo consigo para toda a parte, até mesmo para a casa de banho, nunca se esquecendo dele em lado algum. E eu a convidá-la para sair, para um programa, um jantar a dois, sem os miúdos, um cinema a seguir, e ela sempre cansada, sempre aborrecida, sempre longe. 

Acho que no início dei o desconto. O Artur lá devia ter os seus encantos e estar casado não causa cegueira, de maneira que compreendi o entusiasmo, sangue novo num gabinete bafiento era caso para deixar o mulherio inquieto. Eu próprio já tive as minhas paixonetas, coisas platónicas evidentemente, mas que diabo, sou homem! Assim de repente lembro-me da Anabela, por exemplo. Que mulherão. Quando entrou pela primeira vez na empresa julguei que ia ter um ataque cardíaco. Suores frios, uma pontada no peito, tonturas, as pupilas dilatadas. Lembro-me do Aníbal vir ter comigo e dizer "Estás bem, Carlos?" E eu sem conseguir balbuciar uma palavra, "Estás lívido, homem! É preciso chamar um médico?". Ainda hoje nos rimos disso. Que brasa, a Anabela. Mas pronto, foi fogo de vista. O passar dos dias tornou-a menos vistosa, os defeitos começaram a vir ao de cima, e o coração amainou. Como ela, outras. Mas nada de duradouro, nada de sério, nada que pusesse em causa a Paula e a nossa vida em comum. São 24 anos de casamento. Cinco de namoro. Dois filhos. Jamais me passaria pela cabeça outro cenário que não fosse o de envelhecermos juntos. 

Mas. Lá veio o mas. O Artur. Quando finalmente decidi procurar a figura no Facebook compreendi ainda melhor o arrebatamento. Tipo alto, cabelo grisalho, olhos verdes, boa pinta. Engoli em seco mas não fiz mais nada que isso. Continuei apenas a ouvi-la descrever, uma após outra, as aventuras do Artur, as piadas do Artur, as boleias do Artur. Fui parvo. Deixei-me ir e quando percebi era tarde. Quando percebi estava a escutar o tão temido (e tão dolorosamente cliché) "Temos que falar".

E assim foi. 24 anos de casamento, cinco de namoro, dois filhos, tudo por água abaixo. Depois do "Temos que falar", ela falou no Artur e no quão apaixonados estavam, eu ouvi calado e quieto, ela levantou-se enxugando as lágrimas, fez umas malas apressadamente, e saiu deixando-me num misto de choque e confirmação do que, na verdade, já intuía. Talvez não pensasse que tivesse coragem de o fazer pelos miúdos. Mas os miúdos já estão crescidos, ambos na faculdade, com as suas próprias vidas. Se fossem mais novos era capaz de não ter coragem mas assim... Assim foi só dar-me o encostozinho que faltava para me atirar do precipício.

Estou sentado nesta cadeira há horas. Sei-o porque cheguei eram seis e meia e agora já a escuridão invadiu toda a cozinha. Não tenho fome, não tenho sede, não tenho nada para fazer. O Aníbal diz-me "Tens de sair, Carlos. Tens de vir com a malta, pá. Arranjar umas gajas." Dá-me vontade de rir. Gajas. Sou fiel à Paula há 29 anos, nem consigo imaginar-me com outra mulher, nem mesmo quando me escondo perto do serviço dela para a ver chegar no carro-avião do Artur. Da primeira vez nem a reconheci. Mudou o cabelo, está mais magra, parece mais nova, toda maquilhada. Toda sorrisos, toda encostos, toda... nem sei quê. A minha Paula. Tão feliz, apesar de tudo o que a separação lhe trouxe: os meus pais deixaram de lhe falar, a mãe dela deixou de lhe falar, os filhos deixaram de lhe falar. Eu não acho bem, já lhes tentei explicar que isto são coisas que acontecem, que ninguém controla o coração, mas ninguém quis saber. Eu também já não quero saber. Ela própria não parece muito interessada no assunto.

Perguntam-me se não tenho vontade de partir a tromba ao Artur. Tenho. Então não? Uma pêra bem dada naquele focinho sorridente. Sonho com isso praticamente todas as noites. Não foi uma vez nem duas que acordei com a mão esmurrada por ter batido com ela em cheio na parede. Mas depois falta-me a coragem. O mais certo era o Artur acabar comigo em três tempos, obrigando-me a engolir o escassíssimo orgulho que ainda me resta. 

É evidente que tenho que me recompor. Tenho de recomeçar. Tenho 50 anos, ainda posso ter uma vida, ainda posso ter, como diz o Aníbal, "umas gajas". É evidente que sim. Talvez comece por vender a casa, porque ainda durmo e acordo na cama onde dormíamos e acordávamos juntos, porque ainda janto na mesa onde jantávamos juntos, porque ainda a vejo em todas as assoalhadas. É. Talvez tenha de começar por aí. Assim arranje coragem e forças. Para já, sento-me horas nesta cadeira, em silêncio, à espera que o resto do dia passe. À espera de me esquecer. Dela, dele, dos dois. De mim com ela. De mim sem ela. De mim com este vazio. À espera de recomeçar.

homem.jpg

 

Não seja porcalhão. Apanhe o cocó do seu cão.

A escola Tutor T (creche e Jardim de Infância) é, como já aqui disse, mais do que uma escola. É um projecto inserido numa comunidade, que procura estabelecer laços e não viver fechada sobre si mesma. Não é raro haver actividades que incluem a vizinhança, mesmo as pessoas que não têm filhos a frequentar a escola. Ainda no ano passado houve leituras no Jardim das Musas, e todos foram convidados a participar. 

Ora, justamente por isto, por a escola pretender ter um papel activo na comunidade, decidiu "arregaçar as mangas". Como utente do Jardim das Musas, e assistindo à crescente acumulação de dejetos de cão sibre a relva, a escola resolveu elaborar um cartaz de sensibilização pública, pedindo a todos que apanhem os dejectos dos seus animais.

"Acreditamos que seja também missão da escola cuidar da comunidade da qual faz parte e, claro, orgulhosamente dar a cara e o nome pelas causas que lhe parecem justas e dignas para a promoção da qualidade do seu Bairro."

Ora, tendo este blogue o nome que tem, e vivendo a sua autora neste mesmíssimo bairro (e tendo, no seu agregado familiar, um cão), não podia deixar de divulgar o cartaz. Sou incapaz de deixar um cocó do Mojtito ali plantado na rua, no jardim, num canteiro, onde for. Não compreendo quem ache normal encher de caca um jardim onde as crianças podiam brincar, saltar e rebolar na relva. Apanhar cocó não é a tarefa mais cool da vida mas é absolutamente necessária. 

Jardim das Musas.jpg

 

Pálpebras coleccionadoras

É esquisito mas verdadeiro. As minhas pálpebras gostam de coleccionar cenas. Açambarcam. Guardam. Têm vida própria. A primeira vez que isto aconteceu, senti um raspar no olho horrível. Foi no Verão, tinha ido à praia. Achei que era areia, pus soro, pestanejei mil vezes. Nada. No dia seguinte fui à urgência e o oftalmologista removeu uma mini-concha do interior da minha pálpebra. Deve ter achado que era bonita e tratou de a guardar, lixando-me a córnea. Andei 7 dias a antibiótico, um ou dois dias de olho tapado, óculos por duas semanas. 

Desta vez foi ao retirar as lentes, à noite, para ir dormir. Uma sensação de ter algo no olho, pensei que fosse uma pestana, ali andei eu a olhar para o chão e a piscar como se tivesse um tique irritante. Nada. Pus soro, soprei, chamei o Ricardo que inspeccionou, soprou, nada. Dormi pessimamente, sempre com aquela sensação. No dia seguinte acordei na mesma e foi então que me lembrei do evento anterior. Seria a açambarcadora da pálpebra a coleccionar lixarada? Vai daí e fiz a experiência: apesar de me doer o olho, meti as lentes. E, claro, passou. Porque o que quer que lá estivesse passou a roçar na lente e não no olho, de cada vez que eu pestanejava. Marquei consulta urgente para o primeiro oftalmologista que tinha vaga. E fui ontem à consulta. Dormi na noite de terça para quarta com a lente porque, quando a tentei tirar à noite, ia ensandecendo com a sensação de ter um vidro a cortar o olho. Antes a lente! 

Quando cheguei à consulta, o médico mandou-me tirar as lentes. Depois, rectificou: só precisava de ter removido a do olho afectado (mas já era tarde - uso lentes diárias e já tinha mandado as duas para o lixo). Senti logo que o que quer que lá tivesse estado já tinha saído, mas a dor no olho era evidente. O médico pôs um corante no meu olho e depois analisou criteriosamente, por detrás de uma máquina que deve ter aumentado o meu olho para um tamanho gigantesco. Revirou-me a pálpebra e confirmou que já lá não estava o causador do dano. Mas o dano era evidente: algumas lesões na córnea.

E pronto. Saí de lá como uma toupeira. De olho direito tapado e o esquerdo - que é o que vê pior - sem lente. Nem sei como cheguei a casa (apesar de ter ido a pé, garanto que não foi fácil). Uma sensação de bebedeira e de ressaca ao mesmo tempo: tonta, desequilibrada, enjoada. 

Hoje já estou sem a pala à Camões, felizmente. E dou muito valor a todos os que não vêem de todo ou vêem muito mal. Como sempre, só damos valor ao que temos quando deixamos de ter. E a visão é, sem dúvida, o sentido que mais prezo. Isto é só uma coisinha sem importância, nem consigo imaginar um problema maior com os olhos (um grande beijinho para a Soraia, a quem aconteceu uma coisa bem grave num olho mas que vai conseguir continuar a ver a beleza da vida por inteiro).

Tenho antibiótico para os próximos 7 dias e nada de lentes de contacto. Raios partam as minhas pálpebras coleccionadoras e os sarilhos que me trazem as suas colecções.

Será que o Universo nos envia "sinais"?

Já toda a gente deve ter ouvido aquela história dos sinais que o Universo supostamente nos envia. Há quem aposte que isto é verdade mas que nós, ocupados com as nossas vidinhas, somos incapazes - na maioria das vezes - de os entender. Que se estivéssemos mais atentos íamos conseguir ouvir as mensagens que tem para nos dar. Há quem garanta ter escutado os avisos do Universo e escapado de boa a fatalidades. Há quem consiga vislumbrar os sinais do Universo depois da desgraça acontecida numa espécie de luz descoberta tardiamente ("agora percebo tudo...."), há quem não acredite em porcaria alguma.

Eu sou mais deste último género, porém... como já por várias vezes aqui disse, sou uma céptica atenta. Até na questão de Deus, sou uma ateia expectante. Não acredito em nada mas... vai que? Deixo sempre uma porta encostada, até porque adoraria acreditar em qualquer coisinha que não fosse isto de andarmos para aqui sozinhos sem nada nem ninguém que nos acuda, nem nenhum objectivo extra que torne a morte menos insuportável. 

Posto isto, é como digo: ando atenta. Assim, quando, acabada de chegar a Paris, recebo um telefonema da minha mãe a dizer que o estore da sala tinha entrado em curto-circuito, mandando o quadro abaixo, e logo a seguir recebo outro telefonema da minha sogra a dizer que o Mateus estava muito mal disposto e com febre... juro que pensei: serão estes dois sinais do Universo para que não vamos à maratona? Será que vai haver um atentado e vamos pelos ares? Ainda engoli em seco, pensei "deixa-te de parvoíces, mulher", e na própria manhã procurei abstrair-me desse pensamento do demo.

Como não aconteceu nada (apesar de não termos dado ouvido aos supostos sinais) imagino que não tenha passado de um azar. Ou melhor, dois. Por isso, um recado para a minha irmã: é provável que todos os atrasos e demais cenas na compra da tua nova casa (nomeadamente aquela porta que se fechou na tua cara, sem que houvesse sequer uma aragem por perto) não passem disso mesmo: azares, contratempos, chatices. O Universo tem demasiadas pessoas para conseguir enviar sinais personalizados a cada um, imagino. 

Pág. 1/3