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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Um pai é todas as profissões do mundo

Ontem o meu pai e a boadrasta vieram cá lanchar, numa espécie de comemoração do Dia do Pai antecipada.

Entretanto o Manel teve de sair, que tinha um jogo de futebol marcado com os amigos, e lá foi ele à sua vida.

De repente, liga. Tinha saído do autocarro e deixado a carteira lá dentro. Meio à toa, sem saber muito bem o que fazer. 

O Ricardo saiu de casa, apanhou-o na paragem, fotografou o percurso do autocarro que estava afixado, e foi fazendo o percurso do autocarro, tentando apanhá-lo. Calculou os tempos, coisa e tal, e às tantas topa-o. Podia ser o mesmo ou não mas, pelos minutos que já tinham passado, e pelo facto de já estar a voltar no sentido contrário, achou que era. Fez sinais de luzes, o atravessou-se à frente, explicou o sucedido. O motorista foi impecável, sorriu, disse "talvez esteja com sorte porque isto está absolutamente sem ninguém". O Manel entrou, foi ao lugar onde tinha estado sentado, e... lá estava a carteira, intacta. Com 40 euros, cartão de cidadão, cartão do Sporting (atenção, é coisa para ser mais importante do que tudo o resto).

 

Isto de andar a perseguir autocarros não define o Ricardo como pai. De resto, já o fez de outras vezes, como quando a carrinha da escola da Infantil já tinha partido para a praia e ele avançou numa perseguição chalupa para conseguir meter lá o puto (um deles, dois, talvez já tenha acontecido mesmo com todos). Também não o definem as noites infindas em que se levantou (e levanta) duas, três, dez vezes, porque há pesadelos, porque um quer leite, porque outro tem medo, porque há febre, vomitado, xixi. Nem o definem as gargalhadas que os faz dar quando se desmancha no meio de um ralhete. Ou os constantes abraços. Os pedidos para que nunca se esqueçam do quanto os ama. As surpresas que gosta de lhes fazer. Os jantares especiais. As conversas. Os conselhos. As leituras. As canções (com as quais nos tortura a todos). As cedências, mesmo naqueles pontos em que jurava que jamais cederia.

Um pai não é feito só de uma qualidade porque um pai não tem só uma faceta. Um pai reune, por exemplo, todas as profissões do mundo: um pai é médico, é escritor, poeta, matemático, engenheiro, professor. Um pai é construtor, é aquitecto, contabilista, tradutor, cozinheiro. Barbeiro, fotógrafo, enfermeiro, carpinteiro, motorista. Tudo. Até super-herói. Um pai é, de resto, o sinónimo perfeito do tão-em-voga multitasking. Um pai é forte, é grande, é colo, é sabedoria (ainda que possa ser chato - e durante muitos anos é), é amor, é zanga, é cara feia, é olhos fechados durante um abraço. Um pai é mais que uma pessoa. Um pai é um lugar. Um lugar onde é suposto chegar-se e saber que se está seguro. Um porto. Terra firme. 

O Ricardo, pai dos meus filhos, é isto tudo. A sorte que eles tiveram. A sorte que eu tive.

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Foto: Raquel Brinca, HUG

(é o Mati, mas podia ser qualquer um deles) 

Mudar de Vida #12: Marta Metrass

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Vivia ligada à corrente. A correr. Ao telefone. A deitar-se tarde. A acordar cedo. A esquecer o almoço. A beber cafés uns atrás dos outros. Eléctrica. Mas feliz, sublinhe-se. Não sabia ser de outra forma. Quem trabalha em publicidade sabe que ou é assim ou não é. Marta Metrass começou por estagiar na UAU (eventos e espectáculos) porque apesar de ter feito a licenciatura em Dança sempre teve um fraquinho pela parte da organização e não se via nada a ser professora (e bailarina, em Portugal, não era propriamente fácil). Daí saltou para a Publicis onde foi TV, Foto e Radio Producer. Quatro anos em stress, a organizar tudo, a fazer 50 coisas ao mesmo tempo. Seguiu-se a Garage Films, onde foi directora de pós-produção. Chegou a fazer seis filmes publicitários ao mesmo tempo, acompanhava todo o processo desde que acabavam de filmar até ao momento em que chegava à televisão para ser emitido. Adorava. Nunca sabia se ia dormir essa noite, se tinha fins-de-semana, se conseguia fazer aquele programa combinado com as amigas. Mas só sabia viver assim. No limite. Tinha, porém, um escape: o yoga. Fazia yoga às 6.30 da manhã, antes do telemóvel começar a tocar. Precisava daquele tempo para si. Daquele equilíbrio entre corpo e mente. Depois disso, sentia-se pronta para comer o mundo.

Foi na Garage que conheceu o Hugo. Um ano e meio depois, casaram. E a seguir nasceu o primeiro filho, o Vicente. "Mas eu continuei com a mesma vida, a mesma loucura. Um dia, aconteceu uma coisa que me fez mudar tudo. Fez-se um clique aqui dentro. Estava em casa com o Vicente, que teria uns dois anos e meio, e atendi a chamada de um cliente, daqueles mesmo muito exigentes. O meu filho chamava-me e eu andava basicamente pela casa a fugir dele, a ver se o meu cliente não ouvia a sua voz. Quando ele começou a tornar-se mesmo muito insistente, fechei-me na cozinha e deixei-o do lado de fora, aos murros à porta e a chorar. Eu só queria terminar aquela chamada, que era importante, mas quando desliguei e lhe peguei ao colo, para o consolar, senti-me a pior mãe do mundo e percebi que aquela já não era a vida que eu queria. Eu queria acompanhar a vida do meu filho, queria vê-lo crescer... e não era nada disso que estava a acontecer."

O clique foi tal e qual como se de um interruptor se tratasse. Num momento estava ligado. No momento seguinte desligou-se. Uma epifania. E Marta sentou-se com o marido a pensar em alternativas. Pensaram mudar de país e, numa primeira fase, Marta enviou currículos para o Rio de Janeiro, mas para fazer exactamente a mesma coisa. Chegou a ir a entrevistas, no Rio, e quando regressou ligaram-lhe a dizer que tinha ficado. Contavam com ela para começar assim que possível. E foi então que se fez luz, de novo. "Eu quero mudar de vida e não de país para fazer a mesma vida! E então pensámos em mudar tudo mesmo, o paradigma por inteiro. Bali começou por estar em primeiro plano, poque foi a nossa primeira viagem juntos e adorámos - foi lá que pedi o Hugo em casamento -, mas depois tivemos receio, já havia tanta coisa em Bali... talvez a Tailândia. E assim foi. Fomos de férias para Ko Phangan e voltámos a Portugal só para despachar tudo e rumar a uma nova vida na Tailândia."

Marta despediu-se. Hugo, que era freelancer, despediu-se também, de uma forma diferente. Venderam tudo. Carro, mota, recheio da casa e uma auto-caravana que tinham ido comprar à Alemanha. "Foi o que mais me custou. Fizemos férias tão giras naquela caravana que vendê-la foi mesmo a única coisa que me fez impressão."

Estiveram quatro anos em Ko Phangan. A ideia inicial era abrir um resort mas preferiram começar por um projecto mais pequeno. Montaram uma hamburgueria gourmet. "Foi um sucesso. Esteve sempre nos primeiros 5 lugares do Tripadvisor, no meio de centenas de restaurantes. O Hugo cozinhava, eu servia às mesas. Depois, eu saí porque começámos a sentir que não era saudável estarmos 24 sobre 24 horas juntos. Começaram a desafiar-me para dar aulas de dança e eu, que sempre achei que não tinha jeito para ser professora, resisti um bocado mas depois lá acedi. E descobri a minha vocação. Descobri que adoro dar aulas, quem diria! Passei a ensinar crianças e adultos, criei aulas extra-curriculares de dança jazz e dança criativa, organizava espectáculos a cada dois meses e meio e, pelo meio, decidi tirar um curso de yoga. E, claro, fiquei rendida."

Se Marta já se refugiava no yoga nos tempos em que vivia ligada à corrente, não é difícil imaginar o impacto que teve nesta nova etapa da sua vida. "Para mim o yoga é meditação em movimento. É muito sentimento, é filosofia. É mente, é coração, é respiração. É uma viagem que abarca tudo e que até junta a dança, minha formação de base." Durante o curso compreendeu que dar aulas era-lhe mesmo natural e, por isso, começou a dar aulas de yoga em todo o lado. De repente, sem se aperceber muito bem como, estava na mesma lufa-lufa de que tinha fugido. Passava os dias inteiros ao lado da praia mas sem pôr os pés na areia e menos ainda no mar. Não tinha mãos a medir. Ainda havia um caminho de mudança que era preciso fazer.

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Quando nasceu o segundo filho, Gustavo, sentiram vontade de mudar, de novo. Pensaram voltar para Portugal mas nenhum dos dois queria regressar para a mesma vida. Cogitaram ir viver para o Alentejo ou para o Algarve mas ambas as opções os mantinham longe dos amigos (que era do que mais sentiam falta) e não permitiam vidas muito auspiciosas. Entretanto, enquanto viviam esta nova onda de dúvidas, Marta tinha marcado um retiro para fazer em Bali. Mas o vulcão entrou em erupção e, como o bebé era muito pequeno, estiveram quase para cancelar a viagem. Mas ela sentia que não podia tomar nenhuma decisão sem ir a Bali. Algo lhe dizia que era lá que estava a resposta para as novas dúvidas.

Tinha razão. No momento em que desceram do avião e puseram os pés no aeroporto, o cheiro a insenso como que os hipnotizou. "É isto. Nós vamos viver aqui. Foi ali que fizemos a nossa primeira viagem juntos, foi ali que pedi o Hugo em casamento, fazia todo o sentido. Passámos um mês de férias a ver casas, alugámos casa por um ano, inscrevemos o Vicente na escola, voltámos a Ko Phangan, vendemos tudo, e estamos a viver em Bali há 3 meses."

Neste momento, Marta Metrass é professora credenciada pela Yoga Alliance de 500h (RYT500h), sendo que já tinha um registo de Experienced Yoga Teacher 200h (E-RYT 200h), dá aulas em três sítios diferentes, mas tem tempo para desfrutar da vida em Bali. "Há uma vida intensa, todos os dias o pôr-do-sol é celebrado, há música ao vivo, tudo a tomar banho no mar mesmo quando já é de noite, porque a temperatura mantém-se quente, as pessoas são simpatiquíssimas e educadas, super espirituais... estamos rendidos. Depois dos 4 anos que passámos na Tailândia, este era o caminho certo. Estou em crer que vamos passar aqui o resto da vida. Ou então até nos fazer sentido! O que importa é mesmo isso: que faça sentido. E o maior sentido que podia dar à minha vida era o de ter tempo para mim, para o meu marido, para ver os meus filhos crescerem, para desfrutar da vida!"

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 Podem encontrá-la AQUI ou na página de Instagram marta_yogadancelove

Adenda ao post anterior

Não, malta. Não comprámos um jazigo. 😂

O pessoal aqui de casa, quando falecer, vai todo ser cremado. Com todo o respeito por quem compra jazigos... não é de todo a nossa cena. Casinhas só mesmo para viver. 

Esta casa é para viver, mas não é para nós vivermos. É para outras pessoas viverem. Para pessoas que amamos viverem. Muitos e bons anos.

 

16 de Março

Hoje foi um dia importante.

Fizemos a escritura de uma casa.

Não é para lá vivermos e o que mais queremos é esquecer, durante muitos anos, que fizemos este investimento. Se assim for, será um excelente sinal. É mais ou menos como os seguros: fazemo-los sempre a pensar que não os queremos usar. Estão ali mas é para esquecer que estão.

De todo o modo, foi um dia importante. Um dia em que construímos mais um bocadinho. Ao longo de 18 anos de vida em comum já podemos orgulhar-nos de termos construído umas quantas coisas. E construir é sempre bom.

Clube de leitura: 23 de Março

Como já aqui tinha dito, o próximo encontro do nosso Clube de Leitura é no dia 23 de Março, às 19h, na Fnac do Colombo.

Desta vez, não vai haver livros vários em cima da mesa. Não vai cada um ler o seu e falar um pouco sobre ele. Vamos todos ler o mesmo: "Os Depojos do Dia", de Kazuo Ishiguro. Já vou sensivelmente a meio.

Quem se junta?

 

Fisioterapia em casa? Yes, please!

Há coisa de um mês o Martim chegou do treino de futebol coxo e queixoso. Que tinha deixado a perna para trás, numa jogada qualquer, e que aquilo tinha estalado e a dor tinha sido horrível.

Isto de ser mãe de 4 tem as suas vantagens e as suas desvantagens, como em tudo. E depois tem ainda as vantagens que são desvantagens ao mesmo tempo, uma espécie de dois-em-um meio esquizofrénico. Passo a explicar: quando um dos meus filhos se magoa ou adoece, não corro para o hospital (a menos que haja sangue a rodos, ossos de fora, lábios roxos por falta de oxigénio, febres altas há mais de 7 dias, entre outras desgraceiras possíveis). Não é que lhes queira mal, que aprecie vê-los sofrer até ao limite. Simplesmente aprendi que na maioria das vezes a coisa passa sozinha e que ir ao hospital, além de ser chato e de ocupar o lugar de quem está meeeesmo mal, pode ser também uma fonte de outras maleitas, isto é, pode dar-se o caso de se voltar de lá pior do que se chegou.

Assim, pusemos gelo no joelho do Martim e demos-lhe anti-inflamatório. Esperámos 4 ou 5 dias e, ao percebermos que a coisa não melhorava nada, marcámos então consulta para a ortopedista. Esperámos mais uns dias pela consulta, a médica torceu logo muito o nariz, temeu o pior, mandou fazer ressonância, e o resultado, não sendo o pior dos cenários, também não era propriamente um passeio no parque: entorse de grau I no Ligamento Cruzado Anterior, mais edema ósseo, e o catano. Prescrição? Canadianas, nada de esforços (e muito menos desporto), e fisioterapia PELO MENOS três vezes por semana.

Senti uma pontada no peito e pensei que me finava. Três vezes por semana??? Portanto, deixa ver se entendi: além do atletismo, da guitarra, do piano, das explicações, do futebol (se bem que agora reduzido a um filho, já que o outro está temporariamente incapacitado), dos banhos, dos jantares... ainda vou ter de ir com este TRÊS VEZES POR SEMANA à fisioterapia? Tá boa.

Foi então que o meu tico e o meu teco comunicaram um com o outro (nem sempre acontece mas por vezes a coisa dá-se) e lembrei-me de um simpatiquíssimo email que recebi quando eu própria fiz a rotura do menisco. Nessa altura tinha recebido um email de uma empresa de fisioterapia que ia a casa a oferecer os seus serviços. Agradeci muito mas o cirurgião, no meu caso, disse que não era preciso fisioterapia e, por isso, não foi preciso recorrer a esta ajuda. Mas... eis que surgia agora a oportunidade de experimentar esta empresa.

Chama-se Fisiolar e vou-vos dizer uma coisinha: é absolutamente espectacular. Calhou-nos a fisioterapeuta Sofia, que é uma querida. Ela chega à hora combinada, o Martim fica na sua caminha, no seu quarto, ela faz os movimentos ao joelho que tem de fazer, põe lá os electrodos que tem de pôr, ajusta a intensidade dos choques, massaja, tudo no conforto da nossa casa, sem sairmos daqui para lado nenhum. Um sonho (dentro da evidente chatice de o ter de canadianas, chateado que nem um peru, com dores e tal). Pelo meio, levo um a uma actividade, vou buscar outro, adianto banhos e jantares.

Ainda por cima é super fácil marcar tudo online e, numa pesquisa pelo site, percebi que não se limitam à fisioterapia. Têm terapia da fala, recuperação pós-parto (imaginem recuperação pós-parto em casaaaaa!), nutrição, terapia ocupacional, psicologia e enfermagem. Imaginem os idosos, que têm por vezes quedas de que têm de recuperar ou acidentes vasculares cerebrais que os obrigam a fazer uma recuperação demorada... fazê-lo em casa deve ser toda uma diferença! Ah! E este serviço tem cobertura nacional! Estão sempre a dizer que Lisboa é a capital e o resto é paisagem... pois agora tomem nota: esta empresa está em todo o país.

No tempo em que vivemos, em que é tudo a correr, em que nos falta tempo para tudo, acho que estes serviços não podiam fazer mais sentido. E agradeço, do fundo do coração, aquele email que recebi há dois anos. Só assim podia ter conhecido esta empresa que agora ajuda o Martim a voltar ao activo (e nos ajuda a todos, enquanto família, a não andarmos ainda mais a correr de um lado para o outro).

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 *Post em parceria com Fisiolar (a parceria consistiu na oferta da primeira sessão, para experimentar. Daqui em diante é só porque estamos mesmo contentes!)

 

 

Voa, Vasco! Voa!

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Talvez tenha começado a dançar antes mesmo de caminhar com segurança. Aos dois anos era vê-lo a rodopiar pela sala, fazendo passos de ballet ao som da música ou mesmo sem som nenhum. Ninguém ligou muito. O Vasco gostava de dançar, assim como há tantas crianças que gostam de dançar e não se tornam bailarinas, de cantar e não se tornam cantoras, de pentear cabelos e não se tornam cabeleireiras.

Quando tinha 4 anos, como numa mirabolante atracção do destino, houve uma escola (Ginasiano, no Porto) que começou a dar aulas de dança no colégio onde o Vasco andava. Ele, claro, quis participar. E a dança passou a actividade extra-curricular, até ao 4º ano. Quando, no 5º ano, ingressou na escola pública, passou a fazer parte do ensino articulado, indo agora ao Ginasiano ter aulas de dança. Os professores andavam doidos com a perfeição dos pés do Vasco. Pés de bailarino, desde que nasceu, talvez porque quando se tem uma paixão assim tão grande por alguma coisa o corpo trate de vir com o correcto equipamento de série. Uma das professoras até andava com uma fotografia dos pés dele na mala, para mostrar aos colegas.

Dois anos depois sentiu algum desânimo, alguma desmotivação. E então foi experimentar uma aula numa outra escola, a Domus. É lá que dança há três anos, sob o olhar e direcção atenta dos professores Alexandre Oliveira e Sílvia Boga. "O Ginasiano era uma excelente escola. Mas às vezes as mudanças são necessárias, nem sabemos bem porquê", justifica a mãe, Bárbara Belo.

Vasco tem 14 anos, está no 9º ano, e treina todos os dias, menos ao domingo. Durante a semana, sai da escola, caminha alguns passos até à escola de dança, onde entra às 17h e de onde só sai às 21.30. Quatro horas e meia por dia, cinco dias por semana. Ao sábado, acorda às 8.30 e às 10h começam as aulas de dança. Por volta das 13.30 almoça algo ligeiro e continua os treinos até por volta das 15.30. Durante a semana acontece chegar a casa e ainda ir fazer os trabalhos ou estudar para os testes. Outras vezes acorda mais cedo para, antes mesmo de ir para a escola, poder estudar. O facto de não estar no ensino articulado nem ter estatuto de alto rendimento implica que não tenha dispensa de nenhuma disciplina, sendo que a carga é pesada. Ainda assim, Vasco é um bom aluno. Por ser exigente e perfeccionista, gostava de ter notas mais altas, mas a mãe está sempre a sublinhar que, com o tanto que faz, é quase impossível fazer melhor. 

Apesar de ser isto que mais ama na vida, nem sempre tem vontade de sair da escola e ir treinar. De resto, o provérbio "Quem corre por gosto não cansa" deve ser o mais mentiroso da história dos provérbios. É claro que cansa. No outro dia confessa que sentiu um nó na garganta ao ver um colega a sair da escola, a abraçar o seu pai e a entrar para o carro. Soube que iam passar tempo juntos, fosse de estudo, ou de brincadeira. Imaginou o rapaz a ir para casa, sossegado. E ele ainda tinha horas de trabalho pela frente. "Senti vontade de chorar, confesso. Mas depois, mal comecei a dançar passou tudo. Passa sempre tudo. Gosto tanto! É isto que quero fazer na minha vida e para ser bom tenho de trabalhar muito. É claro que às vezes me lembro de quando o meu tio me ia buscar à escola para irmos ver o mar. É claro que às vezes não apetece. Mas dura pouco."

Sobre o estigma que por vezes ainda se cola aos rapazes que fazem ballet, diz não sentir muito. "Às vezes há umas bocas e eu respondo sempre que prefiro passar horas rodeado de raparigas giras do que embrulhado à pancada, a cheirar os rabos uns dos outros. Há sempre gente tola, que gosta de misturar as coisas. Não ligo nenhuma. Mas a maioria das pessoas sempre me conheceu a dançar. Acho que já se habituaram e nem me vêem de outra maneira."

Durante o ano, há vários espectáculos e concursos e estágios. Vasco já ganhou várias bolsas. Em Paris, num concurso mundial, ficou no top 6 e foi um dos seleccionados para a final em Nova Iorque. Infelizmente, não pôde ir. O dinheiro desta família com 4 filhos não estica, e o bailarino sabe que é preciso ser criterioso na escolha dos espectáculos e dos estágios a frequentar. Também no European Ballet Grand Prix, em Viena de Áustria, conseguiu um 2º lugar que lhe permite ter duas semanas de bolsa em Berlim. Ainda mais recentemente, o bailarino foi seleccionado para o projecto Território, uma iniciativa da Companhia Nacional de Bailado, Estúdios Victor Cordon e Opart que reunirá 12 estudantes de Dança, seleccionados entre escolas de Dança nacionais, para desenvolver uma produção orientada por coreógrafos estabelecidos internacionalmente, e que tem estreia agendada para 20 de Julho, no Teatro Camões, seguida de digressão nacional. E assim tem sido a sua vida. Uma sucessão de sucessos. De voos, cada vez mais altos. 

De vez em quando, claro, magoa-se em pleno voo. Como daquela vez em que, durante um salto, arrancou um bocado da cabeça do fémur. Ou da outra, em que partiu o metatarso ao fazer piruetas. Ou da outra, em que uma dor contínua no joelho veio a revelar uma síndrome de Osgood-Schlatter. "São ossos do ofício. É impossível, com o nível de treino que temos, não haver lesões." Agora, explica a mãe, vão de 3 em 3 semanas ao osteopata e médico de Medicina Tradicional Chinesa para prevenir futuras complicações. 

Seja como for, nada o trava. Nada o desmotiva. Nada o faz esmorecer. Nem mesmo o diagnóstico de Diabetes, há um ano. "Comecei por ter muita sede, sempre muita sede. E pronto. Como o meu irmão também tem, começámos logo a perceber que seria a mesma coisa. Não foi complicado. Houve ali um período em que tive se perceber qual era a dosagem certa, mas agora encontrei: dou uma injecção à noite e depois tenho um aparelho que me diz os valores e me permite acertar, se estiver com hipoglicémia ou hiperglicémia. Está controlado. Não é nenhum bicho de sete cabeças."

Quando se pergunta ao Vasco o que quer fazer quando crescer (a pergunta preferida dos adultos), ele não hesita: Dançar. "É isto que eu gosto. É aqui que me sinto bem. Gostava de ir para a Opera, em Paris, ou para o Bolshoi, ou para o Royal. Tenho muito que trabalhar, eu sei, mas vou fazer por isso." E, olhando para o seu percurso e para o espírito de sacrifício que revela diariamente, fica difícil duvidar que não chegue longe. Muito longe. É por isso que apetece gritar, a plenos pulmões, "Voa, Vasco! Voa!"

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Up and down

A minha tia (irmã do meu pai) estava doente há uma semana. 

Entrou no hospital ainda pelo seu pé, fraquinha, mas o seu estado piorou de forma absolutamente drástica e acabou por não resistir. 

Sábado fomos ao velório, domingo foi o enterro. Sempre violento tudo aquilo, as conversas, a forma como uns e outros lidam com a perda, os assomos de lágrimas de uns entrecortados com uma risada de alguém que acabou de escutar uma boa história. Parece sempre muito cinematográfico, tudo. E depois o cemitério, o vendaval, o grupo que se abeira do buraco, como se quisesse mesmo certificar-se de que aquilo aconteceu realmente, que é ali que a pessoa fica, num silêncio magoado e assustado e de onde saem balões de pensamento que dizem "quando será a minha vez?" E a seguir tudo volta as costas e, sim, a pessoa - ou o que resta dela - ali fica. Na última morada. Que merda de morada.

Saímos dali e fomos para a festa dos 70 anos de outra tia. Mais uma vez, a sensação de estar num filme. Quão esquizofrénico pode ser tudo isto? Sair de um lugar que não pode ser mais pesado, directamente para uma celebração de vida. Música alta, pessoas a dançar, comidas, bebidas, gargalhadas. Ueeeepa! 

Não era muito próxima da minha tia que morreu, sou muito mais próxima desta tia que festejou o aniversário, mas ainda assim acho que fica difícil não sentir isto como a metáfora da própria vida: nada para, tudo continua. Uns choram o fim, outros celebram mais um ano por cá. Uns ficam, outros permanecem, num movimento contínuo.

 

Talvez por esta mistura explosiva - e por ser recente a minha experiência com a doença e a morte (recente mas em modo "curso intensivo", caneco, tem sido um verdadeiro doutoramento à força) - ontem acordei com a maior enxaqueca que me lembro de ter. Não tenho muitas vezes, na verdade só me acontecem 2 ou 3 vezes por ano, mas ontem era como se um milhão de martelos pneumáticos se tivessem ligado dentro da minha caixa craniana. Não conseguia ver luz, tinha vómitos, tonturas, dores nos ombros, na cara, no pescoço. Tomei Benuron, horas depois Nolotil... e nada. Peguei em mim e fui ao hospital. E lá estive, a levar um cocktail jeitoso na veia. À tarde dormi. E hoje continuo um pouco para o drogadona, porque o médico mandou dar no Diazepam por mais uns dois dias, a ver se isto se vai. 

Consultório #10

E quando eles são um castigo para comer? Os pais com os nervos em franja, a acharem que os filhos vão morrer de fome, as guerras para lhes conseguir enfiar uma colherada na boca, "olha o aviãozinho" (começa sempre a bem), "ou comes ou vais de castigo" (o caldo principia a entornar-se), e é um 31 que desgasta e não é pouco.

Depois também há os que comem demais. E os pais que querem que os filhos sejam vegetarianos ou veganos. E taaaaantos outros temas que não abordámos para já, mas ficaram na nossa lista de futuros assuntos a desenvolver.

Esperamos que gostem!

 

 Blusa: Happy Company

Ténis: Adidas Campus