O meu sogro trouxe, há umas semanas, o caderno com os meus trabalhos do DNA de 2003.
Entre eles, estava esta entrevista, que fiz ao Pedro Choy.
Uma história de vida muito impressionante, que refiro muitas vezes quando alguém se queixa da vida. Lembro-me que a minha própria irmã, numa fase da sua vida em que gostava de se lastimar de alguma má sorte que tinha tido, ouviu muitas vezes esta história.
Vale mesmo a pena conhecer.
Entrevista de Sónia Morais Santos
Fotografias de Augusto Brázio
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Tem um aperto de mão como deviam ser todos. A mão aberta, primeiro. A mão fechada, depois. Os ossos da gente uns de encontro aos outros, um calor que permanece durante um pedaço e a sensação de que, efectivamente, se foi cumprimentado.
Pedro Choy tem 43 anos. Filho de pai português e mãe chinesa, nasceu em Macau mas foi em Portugal que passou toda a infância, que cresceu e se fez homem. Um homem que vive ainda obstinado pela ideia da perfeição, incutida desde sempre pelo pai, e que se reflecte em tudo o que faz. Provavelmente até nos apertos de mão.
Estudante de Medicina em Coimbra, foi-se desiludindo com o curso e com a realidade que observava nas urgências do hospital: as pessoas eram tratadas como máquinas cujas peças tinham uma avaria, sem sentirem qualquer humanidade por parte dos médicos que as atendiam. «Este não é o meu ideal de Medicina», decidiu. Com o 4º ano concluído, seguiu para Marselha com o objectivo de tirar o curso de Medicina Tradicional Chinesa. Cinco anos depois, abria a primeira clínica em Coimbra. Pedro Choy tem actualmente 18 clinicas espalhadas pelo país, é presidente da Associação Portuguesa de Acupunctura e vice-presidente da Federação Europeia de Medicina Tradicional Chinesa. A Salvaterra de Magos, onde vive, chegam pessoas de todo o mundo para serem consultadas por ele. Talvez assim não seja de estranhar que sofra de
um complexo de superioridade. A verdade é que a mania da perfeição o persegue. Até mesmo nos apertos de mao.
Há quanto tempo está a viver em Salvaterra de Magos?
- Há cerca de cinco anos, altura em que decidi que viver em Lisboa fazia mal à saúde.
Não recomenda a ninguém viver em Lisboa.
- Não, de maneira nenhuma. As pessoas têm um stress muito grande, passam horas no trânsito, andam enervadas, atrasadas, sem paciência para ninguém, agridem-se verbalmente, agridem-se fisicamente. Estava cansado.
Nota essa diferença nos seus pacientes, aqul em Salvaterra?
- Sabe, eu recebo aqui pessoas vindas não só de todo o país como de todo o mundo. Vêm cá pessoas de África, do Brasil, de propósito para me consultar. Por incrivel que pareça já veio cá uma pessoa de Pequim para me consultar. É um absurdo, não percebo porquê. Penso que tem um bocado a ver com a comunicação social.
E com o facto de as pessoas terem já uma confiança no seu trabalho. Porque muitas vezes, nesta área, existe um certo receio por parte do paciente em relação a algo que ainda lhe é relativamente desconhecido. . .
- O facto é que a formação em Medicina Chinesa nem sempre é boa. E como não existe regulamentação das chamadas Medicinas nao convencionais, há por todo o lado pessoas a exercer sem competência. Isso faz com que o cidadão não sinta, efectivamente, essa confiança.
A ausêncla de lei torna este um território fértil para pessoas menos sérlas.
- Posso dizer-lhe que conheço vários casos de chineses a trabalhar em acupunctura na Europa, e em Portugal também, que na terra deles eram auxiliares de cozinha.
Isso é assustador.
- E quando digo isso, refiro-me também aos ocidentais. A maioria das pessoas que exerce em Portugal não tem formação. Existem honrosas excepções à regra. Mas sem lei, seja em que profissão for, haverá sempre pessoas desonestas que vão exercer sem a formação adequada.
Quantos anos de estudos são precisos para se ter uma formação adequada?
- Um curso de Medicina tradicional chinesa tem no mínimo cinco anos.
Tem sido um lutador incansável pela legalização da Medicina chinesa.
- Desde o primeiro dia em que comecei a trabalhar em Portugal, creio que em Outubro de 1086. De resto, o meu primeiro dia de trabalho não foi clínico. Reuni os jornalistas em Coimbra (foi lá que comecei a exercer) e fiz questão de lhes explicar quem era e qual a minha actividade. Na altura a situação era ainda mais grave porque ninguém conhecia o termo Medicina chinesa, nem valia a pena falar dele. Além disso, a acupunctura era sobretudo praticada por pessoas que faziam simultaneamente vidência, adivinhação, leitura de cartas, astrologia. Não tenho nada contra esse tipo de práticas, todas as pessoas têm direito às suas crenças. Agora, cada coisa no seu lugar.
E foi isso que foi dizer aos jornalistas?
- Foi. Confesso que, na altura, não tinha noção do grau de ignorância em relação à Medicina chinesa. Era muito maior do que eu pensava. Quando cheguei aos jornalistas e disse quer era acupunctor, a primeira pergunta de todos foi: "O que é isso?" Houve até um hornalista que perguntou: "Apicultor? mas como é que se pode criar abelhas numa cidade?"
É uma prática relativamente recente em Portugal.
- Na altura era. Penso que agora já toda a gente conhece a Medicina chinesa.
De qualquer forma, a acupunctura continua a ser mais conhecida do que o resto da Medicina chinesa.
- Eu próprio achei que tinha de se travar uma batalha de cada vez. Por outro lado, naquele tempo, usar-se o termo Medicina era meio caminho andado para se ser preso. A lei portuguesa é clara em relação a isso. É uma lei de 1942 e, portanto, temos que nos reportar à época. Por um lado, em 1942 vivíamos sob um regime ditatorial. Por outro, os únicos conhecedores de saúde em Portugal eram os médicos. Um enfermeiro tinha a 4ª classe e depois, durante seis meses, frequentava um curso de enfermagem. Os tempos mudaram. Hoje um enfermeiro tem um curso superior de cinco anos.
Os tempos mudaram mas a lei é a mesma.
- É a mesma e diz o seguinte: quem se intitular médico e tratar pessoas, se não for médico e não estiver inscrito na Ordem os Médicos Portuguesa incorre em pena de prisão. Para a lei portuguesa não basta ser médico para se exercer Medicina. É preciso também estar-se inscrito na Ordem dos Médicos. Portanto, na altura, utilizar-se o termo Medicina podia levar um indivíduo honesto à cadeia, mesmo fazendo outro tipo de Medicina que não tivesse nada a ver com a Medicina tradicional.
Acha que ainda estamos muito longe do dia em que a Medicina tradicional chinesa vai estar regulamentada?
- Existem lobbies poderosos muito interessados em impedir a evolução destas práticas. O mais poderoso é o lobby do medicamento. Porque é sobretudo o lobby que perde dinheiro com as Medicinas ditas não convencionais. Não são os médicos. E a Ordem dos Médicos tem sido instrumentalizada por esse lobby das mais diversas maneiras.
Quantos processos é que a Ordem dos Médicos já lhe moveu?
- Cerca de dez.
Perdeu algum?
- Não. Ficaram todos arquivador na primeira instância. Nenhum chegou sequer a julgamento. Não havia matéria para julgamento. Os juízes do ministério público, logo na fase de instrução, resolveram todos invariavelmente arquivar os processos.
Já se diverte.
- Até faço mais: vou à comuniação social dizer que me moveram mais um processo e passado um mês ou dois mando um fax à Ordem dos Médicos a agradecer.
A agradecer?
- Graças a eles, e aos processos que me movem, a minha clientela vai aumentando. Aliás, acho que devo parte do meu sucesso à Ordem dos Médicos e aos processos que me move.
Hoje em dia, ainda há pouco falávamos sobre isso, praticamente toda a gente sabe o que é a acupunctura. Ainda assim, pedia-lhe que me falasse um pouco sobre esta prática.
- A acupunctura é um ramo da Medicina tradicional chinesa, em que se utilizam agulhas para interferir nas ordens de comando do organismo, via sistema nervoso, no sentido de promover um equilíbrio e uma regularização do organismo. Ou seja, introduzindo agulhas em terminações nervosas, conseguimos produzir estímulos no sistema nervoso periférico (e acessoriamente central) que vão promover um acto reflexo e fazer com que o organismo responda, promovendo uma alteração positiva do seu comportamento. De uma forma simplista para o cidadão comum, há pontos de acupunctura que odem acelerar o ritmo cardíaco e há pontos de acupunctura que podem reduzir o ritmo cardíaco. Ou o mesmo ponto estimulado de uma maneira pode aumentar o apetite, estimulado de outra pode diminuir o apetite. Estes pontos de acupunctura ficam em terminações nervosas.
Que são muitas.
- São cerca de 4000. Há 365 pontos ditos principais. A maior parte dos acupunctores que têm baixa formação dizem que existem 365 pontos de acupunctura. É frequente ver-se escrito esse tipo de informação errada. Só para ter uma ideia do quão errado isto é, digo-lhe que só a orelha, o pavilhão auricular, tem 390 pontos.
Conhece-os a todos?
- Não posso garantir que, instantaneamente, sei exactamente onde é que estão os 4000, 5000 pontos do nosso organismo. Porque são realmente muitos. É a mesma coisa que perguntar a um médico se ele conhece todos os medicamentos. Nenhum médico conhece todos. Mas terá acesso a manipular qualquer um dos medicamentos existentes se for necessário, porque tem a formação suficiente para os procurar e descobri-los.
A saúde, para a Medicina tradicional chinesa, baseia-se no equilíbrio das energias. O que é que pode provocar desequilíbrio e, logo, a doença?
- Em primeiro lugar viver. A vida é um desequilíbrio, é um caminhar entre dois pólos, como tudo na natureza. Tudo tem um pólo positivo e um pólo negativo. Viver promove desequilíbrio, promove desgaste. A primeira condição para se estar doente é estar-se vivo. Todos nós, sem excepção, estamos doentes. Uns mais, outros menos. Se levar um médico chinês a uma maternindade, ele encontra doença em todos os recém-nascidos. Doença presente e doença hipoteticamente futura. Porque consegue classificar, de acordo com alguns sinais e sintomas do recém-nascido, sinais de reconhecimento de desequilíbrios das energias.
Um médico chinês numa maternidade seria o pavor de todas as mães.
- Poderia ser para as mães ocidentais, não habituadas a este tipo de conceito. Aliás, essa é uma das grandes diferenças da educação ocidente-oriente. E penso que a educação ocidental é responsével por muita da patologia psicológica e psicosomática do adulto jovem.
Porquê?
- Porque as pessoas são educadas num mundo cor de rosa. Um mundo em que não há Yin e Yang, não há bem e mal. Às crianças só é dado ver o bem. E, a dada altura, descobre-se o mal, porque ele faz parte da própria vida. Esta dicotomia entre dois pólos opostos existe sempre em todo o lado.
Isso é interessante. Os ocidentais escondem o pólo negativo para proteger os mais novos?
- E acabam por prejudicá-los. Os orientais são educados desde que nascem na noção de que qualquer coisa tem o seu contrário em simultâneo. Bern e mal existem sempre juntos. Então, não têm o mesmo choque de adolescência e de jovem
adulto que têm os ocidentais, que criam graves conflitos existenciais com repercursões que, às vezes, ficarn para sempre.
A acupunctura pode curar tudo o que a Medicina chamada convencional pode curar? Dou-lhe um exemplo: alguns tipos de
cancro, detectados precocemente, são curáveis pela Medicina convencional. A acupunctura tem essa capacidade também?
- A acupunctura pode ser aplicada em qualquer problema de saúde, seja ele qual for. Mas o mais importante é o facto de ambas as Medicinas serem perfeitamente compatíveis. E poderem ser exercidas em simultâneo, para beneficio do paciente. Justamente por terem mecanismos de acção tão distintos, tão diferentes, que nunca se chocam, nunca colidem. É por isso que a definição de Medicinas paralelas é tão perfeita. Porque é realmente o que são: podem caminhar lado a lado, em simultâneo, sem nunca se tocar.
Reencaminha, em algumas circunstâncias, os seus pacientes para os médicos ditos convencionais?
- Trabalho sempre em colaboração com a Medicina convencional, quer o médico que está a tratar dos meus pacientes o saiba, quer não saiba. Dizemos sempre ao paciente que não pode, de maneira nenhuma, abandonar a Medicina convencional, nem os medicamentos que está a tomar. Em contrapartida, como a Medicina chinesa trata sobretudo a causa
das doenças, mais cedo ou mais tarde, o paciente vai melhorar dos sintomas. E será o próprio médico o primeiro a retirar-lhe os medicamentos quando eles deixarem de ser necessários. E a retirá-los da forma que têm de ser retirados. Porque tudo tem técnica. Dar fármacos tem técnica e retirá-los também. E deve ser quem os prescreve a retirá-los.
Não toma fármacos?
- Tomo quando é preciso. E não tenho problema nenhum, não tenho nada contra. Não se deve ser fundamentalista.
Também exlste o contrário? Médicos da chamada Medicina convencional a reencaminharem os pacientes para a Medicina tradiclonal chlnesa?
- Sim. Todos os dias recebo pacientes enviados do médico. E todos os dias envio pacientes ao médico. E recebo muitos médicos na qualidade de pacientes.
A Medicina tradicional chinesa é cara?
- Infelizmente, para a maioria das pessoas é. Uma das circunstâncias pelas quais me tenho batido é a necessidade de o cidadão ter acesso a estas práticas também pela via estatal. A Associação Portuguesa de Medicina Chinesa, a que eu presido, está a criar centros de atendimento gratuito. Há já um centro a funcionar em Almeirim, destinado a uma população carenciada. Estão neste momento em projecto outras clínicas gratuitas, que serão patrocinadas por mim e pela Associação Portuguesa de Acupunctura. Mas isto devia competir ao Estado Português.
Quanto custa exactamente uma consulta, um tratamento?
- A Associação Portuguesa de Medicina Chinesa recomenda que se cobre 50 euros por uma consulta e 30 euros por uma sessão de acupunctura. Estes valores estão abaixo dos praticados por qualquer especialidade de medicina convencional. Bastante abaixo até. O problema é que a acupuntura exige uma repetição de sessões. São tratamentos de longo prazo.
Esses são valores recomendados pela Associação Portuguesa de Acupunctura. São os que pratica?
- Não. São os que praticam as minhas clínicas. Eu, Pedro Choy, cobro 120 euros por uma consulta.
Como tem 18 clinicas, imagino que esteja rico.
- Depende do que se entende por rico. Estou longe de ser uma pessoa pobre. Penso que, enquanto indivíduo, devo ser das pessoas que paga mais impostos em Portugal.
Gostava muito de poder dlzer o mesmo.
- De qualquer das formas - e isto vai parecer que é conversa - acho que o dinheiro não tem nenhum valor. Nada do que fiz foi feito por dinheiro. Não foi a minha motivação.
Mas que dá muito jeito, dá.
- Não me queixo de ter muito. Mas penso que conseguia viver com aquilo com que vive qualquer cidadão português e ser feliz na mesma.
Em que é que gasta o dinheiro? Quais são os seus prazeres?
- Tenho um vício que passa pela adrenalina. Quem me vê não imagina, porque sou uma pessoa muito calma, tranquila. Justamente porque a minha adrenalina está muito domesticada pelo facto de fazer karaté há 37 anos.
Chegou a trelnar um campeão do mundo.
- Fiz vários campeões do mundo. Fui o primeiro português a fazer um campeão do mundo. Acho que quando se faz artes marciais a um nivel internacional fica-se um bocado viciado em adrenalina. Quando era novo descarregava isso nas motas. Hoje tenho tendência para gostar de carros desportivos. Costumo ter carros desportivos. É a única coisa em que faço alguns excessos. Não sou pessoa de excessos. Tenho uma vida perfeitamente normal, visto-me normalmente, não compro roupas de marca. Nunca comprei roupas de marca na vida. As roupas que trago hoje devem ter, pelo menos, uns sete ou oito anos, se nao tiverem mais. Alias, vê-se, estas calças já estão desfeitas na baínha, esta camisa já está descolorada. Não ligo a coisas materiais, nunca liguei. Tenho uma ascendência rnuito pobre, sou filho de gente muito pobre.
Nasceu em Macau. Com que idade veio para Portugal?
- Com três meses. O meu pai era militar de baixa patente. Quando rebentou a guerra colonial chamaram todos os efectivos que consideravarn válidos para a guerra. Foi assim que viemos para Almeirim, onde vivia a minha avó. Nos primeiros meses ficámos a viver em casa dela. Um ano depois de termos chegado a Portugal, o meu pai foi mandado para a guerra. E passou lá os primeiros 14 anos da minha vida.
A sua mãe ficou sozinha com quantos filhos?
- A minha mãe, que é chinesa, ficou sozinha com quatro filhos, três rapazes e uma rapariga. Sozinha, numa terra estranha, sem falar uma palavra de português. Quando digo que éramos pobres, não exagero. Tive electricidade pela primeira vez aos 15 anos. Havia uma única torneira em casa, as instalações sanitárias eram no fundo do quintal e consistiam num buraco feito no chão, rodeado por uma cabana de madeira feita por nós, crianças, com tábuas e pregos. Todos os anos tapávamos aquele buraco com terra e abríamos outro buraco ao lado. Isto eram as nossas instalações sanitárias. Além disso, partilhava a cama com o meu irmão mais velho, na cozinha. Estudávamos à luz dos candeeiros a petróleo, mas estivemos sempre entre os
melhores alunos no liceu. De outro modo não teriamos ido para Medicina.
Foram todos para Medicina?