Eu hipocondríaca me confesso
Ser hipocondríaco é uma merda.
Podia escrever outra palavra, menos feia, mas não há outra melhor. Lamento.
Ser hipocondríaco é uma merda porque a gente morre para aí duas centenas de vezes, durante a vida. Se não for mais.
Uma simples dor de cabeça nunca é tão simples assim. É seguramente um tumor, um AVC, um aneurisma que se não rebentou ainda está mesmo em vias disso, é questão de horas. Uma dor de barriga é, no mínimo, uma apendicite aguda, já a pender para a peritonite. Uma dor que persiste, numa articulação ou a nível ósseo, esconde algo maior, provavelmente um sarcoma, e se aparecerem entretanto outras dores é já o cancro que se espalhou.
Ao longo da minha vida, já tive vários cancros, sem ter. Porque para mim uma dor nunca é só uma coisinha. Uma dor é um prenúncio de morte.
E não pensem que isto é assim uma coisa de ânimo leve, uma brincadeira, uma graça, ah e tal. Não. Um hipocondríaco sofre. Porque vê logo o filme todo. Do primeiro tratamento ao último suspiro. Imagina a dor provocada na família, as lágrimas no funeral. Um hipocondríaco morre aos bocadinhos a cada dor. Mas também é verdade que ressuscita a cada diagnóstico que afaste os seus piores receios. E dá outro valor à vida.
Um hipocondríaco, regra geral, sabe muito sobre doenças. Conhece a sintomatologia, sabe os nomes das análises, que tipo de exames se fazem para despistar doenças. E isso é outra merda. Porque se por acaso vai ao médico e lê na prescrição certo tipo de análises, pronto, já está, o médico suspeita do mesmo que ele já suspeitava, é claro como água, já foi, já quinou, é melhor sair dali directo para o advogado para redigir um testamento em condições.
Curiosamente, eu que sou uma hipocondríaca crónica comigo, com os meus filhos tendo a ser descontraída. Acho que a única justificação para tal desprendimento é puro instinto de sobrevivência. Passo a explicar: tenho 4 filhos. Se de cada vez que um tem febre eu achasse que tem uma meningite bacteriana seguramente que já me tinha passado para o outro lado.
Já a minha mãe, também hipocondríaca, passou a minha infância a achar que me finava. Eu era a sua única filha, de maneira que para ela era evidente que havia de vir um vírus qualquer que me ia levar. Lembro-me que sempre que tinha febre lá vinham os exercícios-teste com o pescoço, o que era uma maçada porque toda a gente sabe que com febre não apetece fazer ginástica.
A minha mãe é pior do que eu, mas a verdade é que as pessoas vão cristalizando as suas pancadas. Por isso, o mais certo é eu ir piorar também. O meu primo sofre da mesma paranóia e o meu avô materno era igualzinho. O Manel já vai pelo mesmo caminho e até o Ricardo, que era uma pessoa sã, já está a começar a ter o seu cancrozito, uma vez por outra, com um nível de sofrimento por antecipação bastante razoável para quem não sofria de Hipocondria. Por outras palavras: bem-vindo ao clube. É outra das merdas disto: é altamente contagioso. Viver com um hipocondríaco pode fazer com que alguém que nunca pensou em doenças comece a temer o pior.
Há três tipos de hipocondríaco: o que sofre em silêncio, imaginando as piores patologias, mas que prefere não ir ao médico para não ter de constatar que estava certo; o que sofre em partilha, aborrecendo os demais com as suas maleitas novas mas sem ir ao médico pela mesma razão que o primeiro; e o que sofre em partilha com o mundo e com os médicos, que visita amiúde para novos check-ups.
Sou mais do último tipo, confesso. Mas outras vezes evito a visita ao médico porque uma certa lucidez me permite concluir que não há-de ser nada, deve ser só a minha parvoíce costumeira.
Ser hipocondríaco é uma merda. Por tudo isto mas também porque nunca ninguém nos leva a sério. É compreensível. Eu, apesar de ter este problema, nunca levo a sério a minha mãe. Nem o meu primo. Nem nenhum hipocondríaco que conheço. É um contrasenso, eu sei. Devia ser solidária e correr a abraçar quem, como eu, imagina o pior dos cenários apenas porque espirrou. Mas ao fim de anos e anos a ouvir alguém dizer que vai morrer, porém nunca morrendo, uma pessoa acostuma-se e deixa de valorizar. Não censuro por isso quem não me liga nenhuma quando estou praticamente moribunda. Nós, os hipocondríacos, estamos condenados à incompreensão. Já vos disse que ser hipocondríaco é uma merda?



















