O último dia foi na semana passada e eu entrei a olhar para nós, para todos nós, e a perceber como a nossa postura tinha mudado, do primeiro para o último dia de curso. No primeiro dia entrámos de caras fechadas, braços cruzados à frente do peito, numa postura defensiva e zangada. Não queríamos estar ali, achávamos tudo aquilo uma palhaçada, uma perda de tempo. E agora era ver as mesmas caras com sorrisos, o corpo relaxado, numa postura totalmente diferente.
Na quarta sessão do curso, começámos então por fazer um exercício de auto-avaliação. De 0 a 100, qual a percentagem que julgávamos ter, em termos de risco, em dois momentos: no momento da infracção e no último ano de condução. Cada um de nós escreveu as suas percentagens, de seguida explicou porquê. Depois, foi a vez de nos avaliarmos uns aos outros. Será que, perante aquilo que fomos partilhando, os outros nos viam do mesmo modo que nós nos víamos? A resposta foi "não". Quase todos nos considerávamos mais seguros do que os outros nos consideravam. Interessante constatação.
Foi altura de fazermos alguns testes num simulador. Introduzindo o tempo de reacção considerado normal (1,2 segundos), de quantos metros precisaríamos para imobilizar o automóvel, a diferentes velocidades, perante o vislumbre de um obstáculo. Os resultados impressionaram-nos muitíssimo. Por exemplo, se formos a 80 km/h e virmos um obstáculo, levamos 58 metros até conseguirmos travar com segurança (com piso seco). Já a 120 km/h, a distância que percorremos até conseguirmos imobilizar o veículo é de 215 metros. Se a isto adicionarmos um telemóvel nas mãos (o tempo de reacção dobra ou triplica) e piso molhado... é certo e sabido que vamos ter um acidente.
Como se estes dados não fossem já suficientemente assustadores, fizemos de seguida a simulação para aferir do peso que o corpo ganha no momento de um embate. Se um condutor tiver 80 kg e for a 80km/ h, o seu corpo na hora do embate equivale a... 10 toneladas. A 150 km/h, o mesmo corpo transforma-se em 35 toneladas. Quem diz o condutor diz outros objectos à solta dentro do carro: livros, malas de viagem, carrinhos de bebé. Tudo ganha toneladas de peso na hora de um embate, sobretudo a altas velocidades.
O curso terminou do mesmo modo que começou. As mesmas fotografias espalhadas na mesa, e nós a termos de escolher desta vez apenas uma imagem: aquela que representasse melhor aquilo que levamos do curso. Escolhi uma cara tapada pelas mãos. Por sentir vergonha e algumas atrocidades que fiz, sem ter real consciência de que eram atrocidades. E vergonha por ter achado que não ia ali aprender nada e, afinal, aprendi tanta coisa.
Acho que toda a gente devia fazer, pelo menos uma vez na sua vida de condutor, um destes cursos da PRP. Porque a gente tira a carta e depois conduz e conduzir passa a ser tão natural como a sede. Só que não é. Temos uma arma nas mãos e nem nos apercebemos disso. E falar sobre estas coisas relembra-nos, consciencializa-nos. Foi isso que todos nós confessámos. Foi isso que todos nós sentimos.
(parabéns à Ana Lima, psicóloga responsável por esta formação. Gostei muito dela)