A maior parte dos pais fica numa excitação sem fim quando aparece o primeiro dentinho ao seu bebé.
Eu também já fiquei.
Mas hoje, ao ver o primeiro dente acabadinho de romper a gengiva do pequeno Mateus (até uma pintinha de sangue tinha), não consegui deixar de sentir uma pontinha de tristeza. Não é bem tristeza. A palavra está mal escolhida mas, na verdade, agora não me ocorre outra. O que quero dizer é que este dente comprova aquilo que salta à vista todos os dias: o bebé da casa está a crescer. E eu, como mãe de quatro, gostava que ele ficasse mais um tempo desdentado, pequenino, leve no colo. É muito bom vê-los crescer, ver como absorvem tudo, como digerem o mundo que engolem todos os dias. Mas um bebé cheiroso e frágil é uma delícia que dura tão pouquinho. Podia durar um pouco mais, não era?
O Mateus tem um dente e ainda ontem vieram trazer-mo ao colo, vindo de mim, minúsculo e engelhado.
A Trois Poules não quis desistir de convencer o Mateus a usar chucha. A especialização desta marca portuguesa são os saquinhos de dormir mas representam também em Portugal uns bonecos agarra-chucha que são um sucesso nos Estados Unidos. Chamam-se Paci-Plushies e ajudam os bebés a segurarem e a não perderem a chucha. Ele continua a não gostar de ter aquele material estranho na boca. Mas tem uma adoração pelo urso. De maneira que, às vezes, está com ele na mão e acaba por empurrar a chucha até ao sítio certo. A Trois Poules enviou ainda um mordedor para os dentes que se adapta ao ursinho, e ele farta-se de o mordiscar, sempre agarradinho ao boneco.
Foi este domingo a Corrida da Mulher EDP e eu não fui. Tive pena, confesso, que como sabem (e até já há quem se queixe) é assunto que agora me interessa muito. Mas domingo estava derreada. E estavam cá a minha irmã, cunhado e sobrinho, e fomos almoçar a casa do meu pai e boadrasta. De qualquer modo, esteve concorrida e animada! Fica para o ano!
Com a excitação, estávamos nós a sair de casa (eu no carro com a minha irmã), a minha mãe a preparar-se para levar os rapazes, quando vejo a minha mãe alteradíssima a bater no vidro do carro.
- Deves ter deixado a chave de casa dentro da fechadura. Fechámos a porta e, ao tentar fechar à chave, ela roda, roda, roda, e não acontece nada.
Fiquei muda. Não sabia o que dizer. Balbuciei apenas:
- Deixa. Resolvem quando vierem da igreja e eu estiver a almoçar com ele. Tentam duas vezes com um cartão ou uma radiografia. Se não conseguirem chamam os bombeiros. Mas chamam logo porque eles podem demorar e temos muito que preparar!
Confesso que saí dali com o coração apertado, a imaginar bombeiros e polícia à minha porta, o Mateus aos berros, a minha mãe à beira da síncope, e todo um cenário dantesco, enquanto eu almoçava com o Ricardo como se nada fosse.
Felizmente, só aconteceu parte disto. Depois de tentarem abrir a porta, chamaram efectivamente os bombeiros. Que ficaram à porta à espera da polícia (só podem abrir depois da chegada da polícia). Enquanto isso, o meu pai e o Manel percorriam as janelas da casa. E não é que uma delas não estava bem fechada? Foi por essa que conseguiram entrar, agradecendo a presença dos bombeiros, que não chegaram a ter de actuar.
Podia ter corrido mal. Mas acabou por ser apenas um susto. Ufff.
A única indicação que lhe dei foi: "No sábado tens de estar à porta de casa às 10.30 em ponto, com o telemóvel com som e com a chave do carro." Assim foi. Antes de sair, eu, o Manel e o Martim (a Madalena tinha ido dormir a casa da minha amiga Rute, que a levou à segunda prova do Conservatório - sim, logo por azar a segunda prova calhou no dia marcado para a maior surpresa da minha vida) abraçámo-lo e dissemos coisas como "boa sorte", "mesmo que tenhas medo pensa que te vais divertir", "usa a cabeça, pensa bem antes de agires" e ele danado e a rir dos nervos.
Mal saiu de casa, a loucura começou. Os miúdos à janela em histeria, eu a vestir-me à pressa e a recolher todos os elementos que teria de levar comigo: pistas, cartazes à porta, o presente.
Lá fora, o João, um cameraman da produtora Luneta, aproximou-se do Ricardo, disse-lhe que lhe ia pôr um microfone mas que não sabia de nada (mentira, sabia de tudo), e depois ficou a filmar. A seguir, ele recebeu uma mensagem da "Voz".
Estava dado o pontapé de saída.
Ele fez o que se previa e tocou em casa da Cristina (que é em frente da nossa).
Ela desceu e deu-lhe a primeira pista, num envelope verde:
"A nossa história é a dízima desta, que não há no país quem não conheça. Segue para o centro, que esta é fácil de adivinhar. A aventura vai começar!"
Ele pensou, ela tentou atrapalhar, e lá concluiu que teria de ir para o Diário de Notícias, onde nos conhecemos.
Enquanto isso, eu saía de casa com a minha irmã e o Mateus. A minha mãe levou os outros dois. Com a histeria, fechou-se a porta com a chave dentro. Percebemos que teríamos de chamar os bombeiros quando voltássemos. Mas tínhamos muito ainda para fazer. A minha mãe seguiu para a Igreja de São Roque, eu segui para Santos, onde fui colar uma pista no bar onde demos o primeiro beijinho (que está fechado e ao abandono). Por sorte, um polícia que estava em frente dispôs-se a garantir que ninguém roubava o envelope. E, assim, eu pude seguir para a Igreja.
No DN, a Maria João Caetano (que estava a trabalhar), desceu para lhe dar a pista que o levou ao ex-Café de Santos (onde eu tinha estado a colar a pista). Eu ia acompanhando todo o percurso através de uma aplicação (Glympse), que me permitia ver onde estavam em tempo real e, assim, pedir à Cristina que atrasasse ou adiantasse a coisa, consoante eu estava atrasada ou adiantada.
A pista colada no ex-Café de Santos dizia:
"Podes dizer que te saiu a taluda e nem tiveste que apostar. No largo está a próxima pista, só tens que a encontrar".
Eu, entretanto, chegava à igreja, onde já todo um grupo estava escondido nas escadinhas do duque, sob a orientação da Rita. Ela não tinha boas notícias: havia 2 seguranças à porta, que não deixavam ninguém entrar até à uma da tarde porque estava a decorrer um baptizado. Eu, que me tinha informado com antecedência, sabia que havia um baptizado. O que não podia imaginar era que ia durar até à uma da tarde (tinha começado às 11h). Não paniquei, nem sei porquê. Fui ter com eles e perguntei se, ao menos, podia ficar escondida atrás da porta. Ele viria, abraçávamo-nos ali mesmo, o tempo suficiente para que os nossos amigos e familiares se juntassem no átrio. Estava resolvido. Mas os seguranças condoeram-se da minha figura. E lá me deixaram entrar. Fiquei sentadinha no último banco da igreja onde casei, à espera dele. Lá fora, todos os convidados estavam cuidadosamente escondidos.
Entretanto, ele chegou. Entrou. Sentou-se ao meu lado e ali ficámos, em conversas nossas, num momento mágico.
Depois saímos. E aconteceu o que ele não imaginava. Dezenas de amigos (até do Porto!) e familiares estavam à nossa espera e atiraram pétalas de rosas (arroz não, obrigadinha, que já chega de fertilidade), e 4 mariachis tocavam, tal como no dia do nosso casamento. O homem ia enfartando.
Adoro a cara dele aqui
Estivemos ali um bocado, a ouvir os Los Cavakitos, grupo que contratei (e que me salvou porque, antes deles, só encontrei grupos de mariachis que me levavam o couro e o cabelo por 20 minutos de actuação - estes cobraram um valor que considerei justo), e depois desaparecemos todos (tipo flashmob). Antes disso dei-lhe a próxima pista. E ele voltou a ficar sozinho com a prima e com o cameraman. Eu voei para o próximo ponto.
E se a igreja foi emocionante, o próximo sítio foi avassalador.