Eu tenho a certeza que desliguei a máquina do café. A certeza absoluta. Estava capaz de jurar pela saudinha dos meus filhos. E no entanto... quando cheguei à cozinha a sacana da máquina estava ligada. Olhei em redor. Confesso que olhei para trás, não sei se à espera de levar uma mocada na cabeca de um bandido apreciador de café (ah, antes de atacar a gaja deixa-me cá repor os níveis de cafeína no corpinho). Nada. Seria um espírito cafeinómano? Seria o Malkovich feito a Deus a pedir-me as cápsulas acabadas de chegar? Não sei o que foi. O mais certo é estar mesmo a ficar doidinha e ter ligado a máquina sem me lembrar. Eu ia jurar que não. Até ia jurar pela saudinha dos meus filhos. Mas estou farta de xaropes e antibióticos e aerossóis. De maneira que se calhar é melhor não jurar. Mas que estou intrigada estou. Vou aproveitar para tomar outro café. Já que a máquina está ligada...
O programa Nós Vencedores, na Antena 1. Todas as semanas um tema. Gente que venceu a crise, gente que venceu o vício, gente que venceu o cancro. Pessoas que não se deixaram ficar perante a adversidade da deficiência, pessoas que lutaram contra a pobreza, contra a exclusão social, contra o preconceito. Gente que venceu com a tradição, com a tecnologia, com a criatividade. Todos os dias uma história. Todos os dias uma vitória. Todos os dias um bom exemplo. Porque de misérias estamos todos fartos.
Dia 24 de Janeiro, às 18.55, numa rádio perto de si.
Uma entrevista de duas horas e meia de manhã. À tarde mais duas. Uma sensação de cansaço extremo, do tipo ai-fónix-que-é-desta-que-me-vou-abaixo-ai-que-nem-conduzir-consigo-ai. Cheguei a casa e o meu homem recordou-me que tinha basquete. Ou seja: ia chegar tarde a casa. Mais tarde que o costume. Cheguei a casa morta e pensei: mulher, para aguentares o tranco tens mesmo de ir correr. É verdade que já foste ontem, mas se não vais hoje cais para o lado e corres tudo ao estalo. Fui. Foi o melhor que fiz. 40 minutos a correr e eis que a mulher estava nova. Ou menos velha, pelo menos. Fui buscá-los. O Tim chateado porque se chateou com um amigo e porque a professora o repreendeu por um desenho que ele não fez como devia. Sono, mais que tudo. Pensei: vamos lá salvar isto. «Quem quer ir à pizzaria?» EUUUUUUU!!!! Disse ao Manel para convidar a avó. Fomos os cinco. O jantar correu bem, tirando os olhares de ódio da rapariga da mesa ao lado, que pelos vistos não tem filhos, que pelos vistos já esqueceu que um dia foi criança. Os meus filhos estiveram sempre à mesa e o mais que fizeram foi falar um nadinha alto de mais. Enfim. Há que compreender. Nem toda a gente acha graça a pessoínhas em miniatura. Quando cheguei a casa, vesti pijamas, lavei dentes e a seguir vou ler as histórias e metê-los na cama. Pelo meio disse ao Manel: - Amanhã é dia de irmos buscar o Martim para almoçar. - Eu sei. - Mas há mais uma coisa. Sabes, tenho notado que o Tim tem uma posição difícil. Ao fim do dia eu estou a ajudar-te com os trabalhos, dou colo à Madalena e o Martim fica um bocadinho sozinho. Porque já não é tão bebé como a Mada mas também ainda não tem as exigências que tu tens. E então estava a pensar levá-lo ao cinema, sem ti. Só nós os dois. Para ele se sentir especial. Depois, para a semana, fingimos que vamos ao médico ou assim, e vamos nós os dois ao cinema ver o mesmo filme. Mas... percebes? O Manel, como sempre, acenou com a cabeça: - Sim, sim. Acho que fazes bem mãe. Para ele não deve ser nada fácil. Eu queixo-me de ser o filho mais velho mas ser o filho do meio não há-de ser nada fácil. Claro que sim, mãe. Vai com ele ao cinema. Para ele sentir que tem um dia só dele! Para sentir: «Eu hoje sou especial!»
E assim, com pequenas artimanhas, vamos tentando dar a cada um o seu espaço. Para que isto não seja um rebanho. Pelo menos não sempre. Para que cada ovelha tenha o seu momento de balir sozinha.
Que a revista Pais & Filhos era espectacular todos nós já sabíamos. Que tinha artigos sérios, credíveis, interessantes, que respondem às dúvidas de qualquer mãe e pai em apuros e que nos fazem sentir mais «normais», também todos já tinhamos conhecimento. Agora... que nos dava música e à borla... aposto que a maior parte desconhecia! Pois é. A partir do próximo sábado, dia 15 de Janeiro, às 17 horas, todos os meses a Pais & Filhos vai oferecer um concerto para as famílias, no S. Jorge, em Lisboa. A entrada é gratuita e livre. Não é preciso levar dinheiro, convite, a revista na mão, uma carta de um tio influente, nada. Nadinha. É preciso é ter vontade ir, com as crianças, com a família. A Pais & Filhos é a maior!
Ainda estou a bater mal com a notícia do brutal assassinato do cronista social. Por um lado porque era alguém conhecido e a gente tem a mania de achar que a malta conhecida não quina. Mas sobretudo pelo modo como morreu, com uma violência extrema, inesperadamente. O que terá acontecido, naquele quarto de hotel? Tudo indica que o agressor terá sido Renato Seabra, um jovem de Cantanhede, aparentemente sereno, simpático, «normal». Se foi ele, o que o terá levado a perder a cabeça e a matar? Sempre que um suspeito de homicídio ou de outro crime violento é descrito por todos como uma jóia de pessoa dou por mim a pensar nisto: até que ponto todos nós somos potenciais homicidas? Qual é, afinal, a fronteira entre a sanidade e a loucura? E se, de repente, qualquer um de nós fosse posto numa situação limite? Quem mataria e quem nunca seria capaz de o fazer? Além disto, e do pobre Carlos Castro, penso também na mãe do tal rapaz, ou não fosse eu mãe de dois rapazes. O que sentirá uma mãe, perante a possibilidade de ter um filho homicida? O que irá no seu coração, que dores, que culpas, que medos? Que vertigem será a sua, perante a pena de prisão perpétua que se avizinha, num país distante, caso tudo se confirme? Uma vez mais penso nas portas da nossa vida. Portas que nos levam a caminhos, uns excelentes, outros bons, outros péssimos. Se o Renato não tivesse ido para o programa da Fátima Lopes, se não tivesse sonhado ser manequim, se não tivesse conhecido Carlos Castro... se calhar estava na sua vidinha de sempre, a terminar o curso de Desporto, em Cantanhede, e o Carlos Castro estava vivo. Se calhar nunca na vida matava ninguém (se é que matou). Se calhar tudo era diferente. Mas quem pode adivinhar, antes de abrir a porta e entrar? Quem pode saber? É por isso que, sempre que tenho duas portas ou mais, fico tão indecisa, e penso tanto, e tenho tantas dúvidas e receios e nervos. Nunca se sabe se o que nos espera, do outro lado, é bom ou se é mau. Nunca se sabe se é o fim de tudo. Para o Carlos foi. E se se confirmar que o Renato é o culpado, para ele também foi. Uma porta para o abismo. O fim da linha.
O meu novo programa de rádio, na Antena 1, vai ter um horário do caraças! Vão ser três minutos por dia, às 18.55! Soube ontem, ao telefone, e nem consegui calar um gritinho de felicidade. É bom quando apostam em nós. Sobretudo quando nos esforçamos tanto.
Acordei às 6, já fiz vários quilómetros a pé e debaixo de uma chuva destemperada e agora almoço sozinha no Norteshopping. Provavelmente porque a minha vida está sempre cheia de gente e de barulho, gosto de almoçar sozinha. E daqui a nada lá vou eu, para mais duas entrevistas, a última em Gaia. E depois... Lisboa. Um dia cheio, como eu gosto. Ainda por cima, com novos contactos gentilmente cedidos por uma das entrevistadas, para novas entrevistas. Gente boa, a do Porto.
Hoje faz anos uma pessoa que foi a minha melhor amiga, durante muito tempo. Era uma daquelas amigas com quem não era preciso falar. Ela olhava para mim e eu sabia o que ela queria dizer e vice-versa. Ela pegava no telefone e eu ao mesmo tempo, cada uma na sua casa, porque cada uma decidia ligar à outra exactamente ao mesmo tempo. É esquisito. Não a vejo há anos, deixámos de nos dar por razões infantis, ela deu a estocada final na nossa relação quando não me convidou para o seu casamento e eu fiquei a vê-la, vestida de noiva, da minha janela, tristíssima por me ter posto de parte num dos dias mais importantes da sua vida. As coisas ficaram feias, cada uma seguiu o seu caminho, os anos passaram. Sei que tem dois filhos, que é professora, e mais nada. Mas continuo a lembrar-me dela muitas vezes. Como hoje, que faz anos. Parabéns D. Estejas tu onde estiveres.
Lá vou eu ao Porto. Tenho quatro entrevistas marcadas. Uma para as 10.30, outra para as 11.30/12h, outra às 14.30 e a última por volta das 15.30/16h. Regresso depois disso, cheia de novas histórias para contar. É ou não é maravilhosa, a minha profissão?