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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Prémio AMI

Este ano faço parte do júri que vai atribuir o Prémio AMI 2007. Tudo porque, no ano passado, tive a felicidade de ganhar o dito cujo, ex-aequo com o Daniel Cruzeiro, da SIC.
Escolher entre muitas dezenas trabalhos, de imprensa, rádio e televisão, não é fácil. Posso mesmo dizer que está a revelar-se uma missão espinhosa. Gostosa mas espinhosa. Porque são praticamente todos trabalhos excelentes. O gostoso de ver reportagens bem feitas anda a par e passo com o que me dói não ser eu a fazê-las, não continuar eu a meter a mão na massa, na rua, a ouvir as pessoas e a compor uma história que toque os outros por dentro. Há alturas em que sinto aquela inveja, "O que eu gostava de ter feito isto...". E este é um sentimento que tenho muitas e muitas vezes, o que diz muito sobre a qualidade do que tenho lido, ouvido e visto. Escolher entre todos estes trabalhos vai ser duro. Muito duro. Passo as noites nisto e sinto-me cada vez com menos certezas. Só tenho uma: ainda há muitos bons jornalistas cá no nosso burgo.

Esmeralda, se eu pudesse...

O caso Esmeralda adoece-me. Enlouquece-me. Traz ao de cima o pior (ou será o melhor?) de mim. Confesso que tenho evitado saber do caso porque já cheguei a ficar de tal modo perturbada que dava por mim a chorar e a ter vontade de ajudar o sargento Luís Gomes, a mulher Adelina Lagarto e a filha "Esmeralda". Chego a sonhar que ganho o Euromilhões e que os ajudo a fugir, para muito longe, para viverem com a criança que os ama e que os considera a sua família. Eu sei que o caso é complexo, muito complexo. Que há um pai biológico que, supostamente, anda há muito tempo a querer a filha, empatado por tribunais patéticos que esquecem que, por detrás dos papéis a que têm de dar andamento, há pessoas e vidas em jogo. Mas também sei que quando Aidida Porto, a mãe biológica, disse ao progenitor que estava grávida, ele não quis nem saber.
Enfim. Sei que o caso é complexo mas não entendo como é que um juíz entende que entregar uma criança com seis anos de idade a um desconhecido é a melhor coisa a fazer por ela. A "Esmeralda" tem seis anos. A idade do meu Manel. E eu só imagino o que seria dele se agora um juíz dissesse que o pai dele não era o pai dele e que a mãe dele não era eu. Imagino-o e sinto vontade de morrer. O Manel entraria numa depressão tão grande que não me surpreenderia se se suicidasse. O suicídio em crianças é raro. Mas é provavelmente uma das coisas mais terríveis que pode existir. Uma criança querer desistir de viver é o maior dos contrasensos.
Agora acabo de ler que o Departamento de Pedopsiquiatria e Saúde Infantil e Juvenil do Centro Hospital de Coimbra (CHC) diz que a menina está "apática". Os clínicos dizem sentir-se a «tratar um queimado no meio de um incêndio», já que a criança se revela "apática, desinteressada e desligada de actividades que antes eram gratificantes", criando um quadro clínico semelhante a uma "Perturbação de Ansiedade de Separação com sintomatologia depressiva".
Isto mata-me. Eu nem devia estar a escrever este post antes de ir dormir. Porque o mais certo é que já não consiga fechar os olhos. Quando um tribunal mata uma criança, em nome do seu "superior interesse", estamos irremediavelmente condenados.

Fama

Ainda estou em choque. Na Flórida, oito adolescentes chamaram uma colega da escola a casa de uma delas só para a poderem espancar. Móbil? Filmar tudo para pôr no Youtube. A vítima acabou inconsciente, com um traumatismo craniano, várias contusões e problemas de visão e audição. Os colegas tiveram a fama que buscavam e até tiveram direito a fotografias, de frente e de perfil, na esquadra mais próxima. Os pais da miúda agredida disseram que não conseguiram reconhecer imediatamente a filha no hospital. Deve ter ficado jeitosa.
Fico aterrorizada com esta sede de fama. Desejo de protagonismo, nem que seja pelos piores motivos. Entretanto, a mãe de uma das raparigas detidas disse que Lindsay (o nome da desgraçada espancada) teria provocado os outros jovens com ameaças e insultos no MySpace. Está, pois, explicado. Com pais assim, que desculpabilizam esta barbárie, é fácil perceber como é que os estúpidos dos miúdos acabam assim.

Pedido de desculpas ao ovário

Aos fofinhos que me perguntaram sobre o ovário, não, hoje não fui fazer a ecografia. Porque ontem já o meu querido Dr. França Martins expôs o dito cujo na televisão.
Mas, ao que parece, o ovário não tem culpa nenhuma nesta embrulhada. De resto, nenhuma outra miudeza do meu corpo é culpada. Afinal, eu tenho... nada. Por isso, aqui ficam as minhas desculpas públicas e sentidas ao ovário, bode-expiatório de uma dor misteriosa que, a propósito, não passa. Espero que me perdoes, ovário. E que continues, apesar de todo este mal-entendido, a fazer o teu trabalho, ou seja, a ovular.
Quant à dor, confesso que tenho vontade de ir à farmácia pedir qualquer coisa para as dores. Mas já imaginei a conversa e desisti.
- Queria um analgésico, por favor.
- Mas tem dores onde?
- Ehrrr.... Aqui... no... no nada.
- Perdão?
- No nada. Aqui em baixo, do lado direito, no nada.
É capaz de soar esquisito. O melhor é continuar com a dor e fingir que isto tudo não aconteceu.

De como fiquei a saber que o nada dói


Passei pelo meu ginecologista/obstetra para lhe falar no malfadado ovário. Ele recebeu-me, ouviu as minhas descrições de dor pungente e, pela primeira vez, vi-lhe no olhar uma preocupação. Fiquei à rasca. O homem mais bem disposto do mundo, para quem tudo é uma piada, estava ali, à minha volta, com uma cara séria. Depois de me consultar, mandou-me para o hospital. "Eu acho que isso é uma apendicite. Não esperes por amanhã, vai já hoje."
Lá fui. Esperei. Triagem. Ah, e tal, dói-me aqui do lado direito, achava que era o ovário mas agora o meu ginecologista diz que é o apêndice. A enfermeira abanou a cabeça, mediu-me a febre, não tinha, e pediu-me para esperar na sala.
Lá fui. Esperei. O meu nome ecoado na sala. Ah, e tal, dói-me aqui do lado direito, achava que era o ovário mas agora o meu ginecologista diz que é o apêndice. O médico mandou-me deitar, apalpou a barriga, chegou ao ponto certo e eu dei um grito abafado pelas mãos. Hum, disse ele. "Vamos fazer análises".
Ele não foi, mas eu lá fui. Estiquei o braço, senti a picada, respirei fundo. E depois mandaram-me esperar. Esperei. Esperei. Esperei. Duas horas e um quarto de espera. Para por fim ouvir o meu nome.
Lá fui. O senhor de verde olhou para mim, olhou para o resultado das análises, tornou a olhar para mim. Eu a pensar, pronto, lá vou, o bisturi a furar a minha barriga, eu a acordar da anestesia, pestanejando até reconhecer a cara do meu homem e dos meus filhos, eu com menos uma entranha, eu ainda com dores, mas outras dores, a dor da cura e não a dor original, eu deitada num quartinho da CUF Descobertas, a receber visitas e tal. O senhor de verde mordeu o lábio e disse: "Pois, por nós... pode ir para casa. Não vemos aqui nada."
Ah... Nada. Sim senhor. Então estas dores lancinantes são... nada. Pois, faz sentido. "Mas olhe que eu não sou maluca", expliquei eu ao senhor doutor. "Olhe que estou aqui que não posso." E ele que sim, que acreditava. Mas que as análises estavam bem, que não era do apêndice, que aparentemente estava tudo bem, adeus e boa noite.
Cheguei ao pé do Ricardo, aflitíssimo. "Olha, parece que não é nada". Como nada? "Assim mesmo. Nada." Na recepção, a senhora a quem paguei deu-me o recibo e desejou "As melhoras". As melhoras? As melhoras de... nada?
E agora aqui estou. Com nada. Cheia de dores vindas de lado nenhum. De modos que, se eu marar, todos os que me lêem são testemunhas. Eu tinha dores. Eu coxeava. Eu não conseguia esticar-me. Mas, aparentemente, terei marado de nada.

Ainda o ovário

O sacana do ovário continua a não facilitar. Muito bem. Ai é assim? É assim que queres, não é, ovário? Sim senhor. Já marquei uma ecografia e amanhã vão pôr a tua imagem na televisão onde vais ficar todo exposto. Depois bem podes corar, ficar todo tímido e não sei quê. Dá-me igual. Vais ser visto, medido, espiolhado. Podes ser teimoso. Mas eu sou muito pior.

Sobre os ovários

Ter ovários pode ser lixado. O meu ovário esquerdo decidiu infernizar-me a vida e ontem cheguei a ir à Cuf da Lapa mas como não havia urgência ginecológica voltei para casa dos meus sogros, agarrada à barriga e a ganir como um cão.
Provavelmente foi um quisto que decidiu ensandecer, que os quistos, já se sabe, são matéria que ensandece muito. Ou então foi outra coisa qualquer, quem sabe se não terá sido o ovário esquerdo chateado com a vida, raivoso com o direito ou assim.
É pena que o nosso corpo não seja transparente, tipo máquina de lavar roupa. Doía, a gente espreitava e dizia: Lá está, é o quisto que ensandeceu. E pronto. Resolvia-se. Está mal feito e, se acreditasse em Deus, aborrecia-me com ele pelo trabalho mal pensado. E, claro, pedia-lhe que não me desse tantas dores no ovário.
(Gosto mesmo da palavra ovário. Ovário, ovário, ovário.)

Ao lado. Não atrás


Hoje foi um dia especial para a família. O Manel, que andou paulatinamente a aprender a andar de bicicleta sem rodinhas - a princípio muito mal, cheio de medo de cair, todo hirto e tenso, todo racional e pouco corpóreo, infelicíssimo sempre que caía, tomando cada queda como um falhanço inadmissível -, o Manel, dizia, acompanhou-nos hoje numa volta grande aqui no Parque das Nações, onde vivemos e onde, curiosamente, começámos o nosso namoro.
Foi a primeira vez que ele não foi na cadeira pendurada na bicicleta do pai mas sim ali ao nosso lado. E foi estranho e foi bom. Vê-lo assim, grande, com um sorriso orgulhoso, a pedalar connosco deixou-nos uma percepção muito real do seu crescimento. Está grande. Está mesmo grande. Durante o percurso, atropelou uma senhora e enfaixou-se duas vezes num poste e num candeeiro. Caiu e chorou e disse que não queria mais. Mas continuou sempre e cada vez melhor.

No fim agradeceu. "Gostei muito de andar ao vosso lado". Por nós podes contar sempre com isso.

Mulher-bomba arrependida

No outro dia Henrique Cymerman entrevistou, na SIC, uma mulher-bomba que foi apanhada antes de se fazer explodir e matar uma data de gente. O Manel vê aquela mulher de lenço na cabeça, a falar uma língua imperceptível, e pergunta:
- O que é que a senhora está a dizer?
Eu e o pai ficamos um bocadito à rasca. Gosto sempre muito de o informar, de lhe ir dando noções do mundo, nunca invento macacadas idiotas, nunca disse "Olha que vem lá o bicho-papão" nem "Ou comes a chicha ou vem lá o polícia" e outras palermices do género. Mas desta vez fiquei aflita. Devia dizer: Olha, Manel, esta senhora está a contar que ia disfarçar-se de grávida e levar uma série de explosivos enrolados no corpo para se rebentar junto ao maior número de pessoas, matando toda a gente? Um bocadito puxado. Fiquei calada uns segundos. O pai, felizmente, tomou a iniciativa:
- Esta senhora está a contar que houve uma altura na vida dela em que acreditava que matar pessoas era bom. Depois percebeu que era mau. Reconheceu que se tinha enganado. E hoje não faz mal a uma mosca.
Pareceu-me bem. O Manel ficou com aquela cara de quem estuda o assunto, de quem processa a informação. Achei cedo falar-lhe de Israel e da Palestina. Mas, a avaliar pelo número de vezes que segue o Jornal da Noite, qualquer dia vamos ter de adaptar o discurso para explicar mais essa.

P.S: Gostei da parte em que Cymerman lhe perguntou o que esperava encontrar depois de morrer. Pertinente. 70 virgens? A resposta foi surpreendente: Esperava ser uma das 70 virgens e poder servir o profeta. Sim senhor. Não querendo simplificar o assunto, parece-me que em ambos os casos, sejam os suicidas homens ou mulheres, o que lhes falta realmente é uma vida sexual satisfatória. Mas sobre isto só poderei falar mais tarde com o Manel