Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

A fronteira da liberdade

liberdade.jpeg

Todos nós temos a tendência para achar que "no nosso tempo" é que era. Já vi gente dizer isto quando, no "seu tempo" havia falta de quase tudo, nomeadamente de afecto parental e de cuidados de saúde primários. Mas enfim, deve fazer parte dos mistérios da memória selectiva, que nos leva a enlevar o passado, obnubilando todos os detalhes ruins. Esforço-me por não cair na tentação, ainda que sinta que, em alguns aspectos, tive mais sorte que gerações posteriores à minha (mas noutros, é óbvio, elas ficam a ganhar).

Um dos aspectos em que creio que tive mais sorte tem a ver com a liberdade. Apesar de viver numa cidade, brinquei muito na rua. Ia horas para a rua, para casa de vizinhas, para as traseiras do meu prédio, e estava tudo bem. E eu tinha uma mãe completamente paranóica com os perigos (ainda hoje, se me vir ao sol, a primeira ideia que lhe vem é a de uma meningite), mas ainda assim era como se brincar na rua fosse parte integrante da infância, como gatinhar ou meter na boca tudo o que aparece quando se é bebé. Claro que tinha os tradicionais discursos de não falar com estranhos, nunca dizer onde morava, nunca ir com ninguém, nunca comer nada que me oferecessem, nunca uma série de coisas que, de tanto ouvir, já me entravam a 100 e saíam a 200 (tanto que, um dia, já ia toda feita com um homem para lhe mostrar onde morava uma enfermeira, e quando a minha mãe apareceu aos gritos, o homem fugiu a correr, e eu percebi que... foi por um triz). 

Hoje os miúdos, sobretudo nas cidades, raramente têm este tipo de liberdade. Os meus tiveram uma coisa mais ou menos parecida, porque vivemos num condomínio fechado (e por isso tiveram uma liberdade controlada, assim um "faz de conta que"), mas há imensos miúdos que não brincam, pura e simplesmente, na rua. Ou melhor, não brincam sozinhos ou uns com os outros, sozinhos, na rua. Podem até estar na rua, mas os pais estão sempre por perto, vigilantes. 

Não sei quando é que isto aconteceu mas inclinar-me-ia a dizer que, por cá, tudo mudou com o caso Rui Pedro. Para mim, pelo menos, foi um turning point. Na minha perspectiva, até então Portugal era um sítio mais ou menos tranquilo, onde havia assaltos, sim, onde de vez em quando uns e outros se matavam por questões de violência doméstica ou por quezílias relacionadas com propriedades, havia violações (disso falava-se bastante, tanto que houve uma altura em que achei que ser violada era tão certo como a morte), mas pouco mais. O caso Rui Pedro mostrou-nos um Portugal que achávamos que só acontecia "lá fora". Aquele miúdo desapareceu, enquanto brincava na rua, bem pertinho de casa, numa zona completamente calma, bem mais calma do que Lisboa, onde eu vivi toda a minha vida. Durante anos, o caso assombrou-me. Entrevistei a mãe dele, escrevi sobre aquelas vidas. Espelhei para a minha realidade aquele drama, e pronto. Nunca pude ser uma mãe tão descontraída como seria se aquele horror não tivesse acontecido (e outros parecidos, que entretanto aconteceram também). E - atenção - eu acho-me muito mais descontraída que a maioria. Mesmo. Mas há ali uma linha em que as sirenes tocam e começo a sentir palpitações. E se? 

Mas, a verdade, é que as coisas quando têm de acontecer acontecem, mesmo debaixo do nosso nariz, mesmo dentro de casa. Vejamos este exemplo: um dia, a Mada foi a uma festa de aniversário de uma amiga, numa quinta. Quando a fui buscar, ao fim do dia, a mãe da amiga e a própria Mada contaram que tinha havido um "percalço". Os miúdos estavam a brincar, dentro de propriedade privada, e começaram a correr para mais longe da casa, para umas vinhas (da propriedade, fechada). A Mada ter-se-á afastado mais do que os outros, ficado sozinha, e nisto surgiu um homem que ficou estático a olhar para ela. Felizmente, o homem não tinha bom aspecto, o que fez soar-lhe todos os alarmes. Ela começou a andar mais depressa na direcção oposta, e o homem começou a andar mais depressa atrás dela. Sentindo o coração a latejar nas veias, ela correu e ele correu atrás dela. Também felizmente, ocorreu-lhe (ou foi só sorte) correr em direcção à casa da família, e não para outro lado qualquer da propriedade. Quando se aproximou da casa e o homem viu pessoas, fugiu na direcção oposta. Enquanto ouvia o relato (e sentia as pernas a tremer) não conseguia deixar de pensar que, naquele dia, tínhamos ganhado o Euromilhões. A sorte esteve do nosso lado. Mas podia não ter estado.

Foi o primeiro dia em que a minha filha percebeu que era uma "presa". Ela esteve para ser caçada mas conseguiu fugir. E esta ideia é terrível mas é assustadoramente comum à maioria das meninas, seja em crianças, seja em adolescentes, seja quando já são adultas. O Rui Pedro não era uma menina, bem sei, mas este tipo de situação é, como sabemos, mais comum nas raparigas do que nos rapazes, o que não nos deve - de todo - deixar menos vigilantes quando se trata de filhos do sexo masculino.

Todo este preâmbulo para desembocar nisto: qual é a fronteira entre a protecção dos nossos filhos e a limitação abusiva e perniciosa da sua liberdade? Como traçar essa linha, sem que sejamos pais negligentes num mundo que é tudo menos de fiar, mas em que também não caiamos no extremo oposto, de sermos pais-ansiosos, paranóicos, angustiados, que passam para os filhos uma ideia de mundo cruel que, à primeira distracção, vai dar cabo deles? 

Se esperavam que vos desse agora a resposta, lamento a desilusão. Não a tenho. Acho que tenho sido uma boa doseadora da liberdade, com cautelas, falando dos perigos mas referindo que são a excepção, não a regra. Não quero que saiam de casa a olhar por cima do ombro, mas também não acho que vivamos numa bolha cor-de-rosa bonita. No meu bairro, há uns meses, foi violada uma mulher que saía, de manhã, de um ginásio. Em plena luz do dia, numa avenida muito movimentada. Fica difícil deixar a Mada vir sozinha da escola de bicicleta, o que me custa imenso porque acho que fazia todo o sentido. Mas. Sempre ali aquele mas. 

Ainda assim, acho que vou soltando a corda com equilíbrio, mais do que por vezes vejo pais de amigas da Mada fazerem (os outros, mais velhos, já têm toda a liberdade, com responsabilidade, como é natural). A verdade é que há por aí gente muito assustada, que não permite que os filhos ponham um pé fora de casa sem supervisão, e falamos de miúdos já bastante crescidos. Não consigo censurar, mesmo que vá fazendo o contrário disso, devagarinho. O horror de perder um filho ou de o ver arruinado para sempre é maior do que qualquer coisa, qualquer desejo de liberdade. Mas também não conseguiria ser assim, tão absolutamente aterrorizada, porque a vida é, toda ela, feita de riscos. Toda. Os filhos, desde que nascem, estão em risco. Apanham vírus e bactérias que podem ser mortais, têm quedas aparatosas, metem os dedos nas tomadas, fazem desportos arriscados, andam de mota (às vezes os pais não os deixam ter mota e eles acabam espatifados quando iam na mota de um amigo), tiram a carta e andam de carro, convivem sabemos lá nós com quem, têm discussões, na noite, que podem acabar mal, etc, etc, etc. Não é possível, por mais que tentemos, protegê-los de tudo. Talvez a maior protecção seja, justamente, dar-lhes liberdade, dar-lhes mundo e, ao mesmo tempo, dar-lhes informação, ferramentas para que se defendam o melhor possível. É um equilíbrio difícil. Será sempre um equilíbrio difícil. Ser mãe, ser pai, é ter este coração fora do peito para sempre. O ideal é tentar que, apesar de fora do peito, não nos caia aos pés, nem nos suba pelos ares. Ninguém disse que era fácil.

A minha vida dava um filme

189B22D1-7692-4849-8752-DE828F90A06E.JPG

Quero contar mais histórias. Às vezes, são histórias que não cabem na rubrica Mudar de Vida, nem na rubrica Histórias da Quarentena, nem em nenhuma das outras que fui criando. São histórias de vida que podem ser tudo: complicadas, descomplicadas, bonitas, tristes, alegres. Histórias de amor, histórias de superação (as minhas preferidas, confesso). Histórias de quem lutou, de quem se deixou vencer, histórias que nos fazem rir, que nos emocionam, que nos inspiram.

Se acham que posso contar a vossa história, enviem um email para aminhavidadava.umahistoria@gmail.com

Obrigada!

 

 

Histórias da Quarentena #9

Imaginem uma criança pequena sempre a dançar. Como uma boneca numa caixinha de música, aos rodopios pelas assoalhadas de casa. A tentar erguer o corpo nas pontas dos pés, a imitar as bailarinas de verdade, com pliés, jetés, adagios. Ainda tudo pouco técnico, só mais movido pela vontade, por uma vontade indómita, que nem se sabe bem de onde nasceu. Imaginaram? Agora, imaginem a criança mais crescida, no Conservatório, crescendo em anos a fio de trabalho intenso, o corpo a ser moldado para voos impossíveis, a graciosidade apurada pela insistência, persistência, teimosia, quase loucura. E depois os palcos, as coreografias mais míticas, os bailados mais desejados, O Quebra Nozes, Raymonda, Pedro e Inês, A Sagração da Primavera. Imaginaram? Agora, suponham que, de um dia para o outro, tudo cessa. Luzes apagadas, sapatilhas penduradas, pano descido, salas de espectáculos fechadas. Silêncio. E a menina feita mulher fechada entre quatro paredes, com espaço limitado para rodopios (quanto mais voos!), sem saber o que fazer ao bicho carpinteiro que lhe cresceu agarrado ao corpo, impelindo-a para um movimento perpétuo, para um constante desafio dos limites do esqueleto, agora obrigatoriamente limitado.

0e37be2f-242d-4257-bb68-bb2e769bf002.JPG

 

Andreia Mota, 26 anos, é a menina que vos pedi para imaginarem. Desde que se lembra de ser gente que dança. Sempre dançou e sempre que lhe faziam a pergunta da praxe, "O que é que queres ser quando fores grande?", respondia o mesmo: bailarina. Não sabe bem de onde vem a pancada. Não existem outras bailarinas na família, apesar de haver uma certa tendência para o desporto: a irmã Margarida é altleta de alta competião, uma prima faz Trampolins e outra foi para o Atletismo. Ballet, nada. Só ela cresceu a sonhar com Arabesques. Aos 13 anos, saiu de Tomar para o Conservatório de Lisboa. Não veio sozinha. Aproveitou a boleia da irmã, que veio para a faculdade, e ficou a viver com ela e mais umas colegas, num apartamento em Alvalade. "Ao início foi muito complicado. Sou muito chegada aos meus pais e vinha de um meio completamente diferente. Estava sempre desejosa que fosse sexta-feira para ir para casa, passar o fim-de-semana. Pensei desistir algumas vezes, confesso. Ao mesmo tempo que sentia falta de casa, ainda havia a exigência do Conservatório, que não é brincadeira. Aquilo é mesmo para quem quer muito. Porque a adolescência... a adolescência não é, de todo, igual à das outras pessoas. A minha irmã tinha muito mais amigos, fazia coisas fora da faculdade. Nós não. Éramos poucos e não havia vida para lá daquilo. É duro. Mas quando se gosta..."

9f581b22-01c1-4b3b-b295-bc71d73636d2.JPG50595396-e6a2-4353-b5aa-b80798a1bc0f.JPG

E Andreia gostava. Muito. Tanto que, ainda estava no 12º ano, e a directora da Companhia Nacional de Bailado a convidou para ir fazer algumas produções. Acabou a assinar contrato com a CNB mas também fez algumas audições para fora, para outras companhias. Fez tournée pela Suécia, Noruega, Letónia, com O Quebra Nozes, a convite de uma companhia estrangeira. De tudo o que já fez, destaca uma coreografia de Vasco Wellenkamp que era uma homenagem à sua falecida mulher, Pedro e Inês, de Olga Roriz. Também relembra a primeira vez que foi a bailarina principal, no Raymonda. "Foi no Festival ao Largo, no Chiado. Estava nervosa como nunca. Preparei-me muito e adorei a sensação. E também n'O Quebra Nozes, em que dançava do início ao fim, duas horas e tal, com muita técnica, coisas muito difíceis, no Teatro Camões. Na Sagração da Primavera, coube-me o papel principal. Fazia de eleita, era a rapariga que é escolhida para morrer. Esse bailado são 140 e tal saltos num solo... Foram 3 meses de preparação intensa."

e9dc9ed1-b383-4622-90e8-bac6e81e4b77.JPGf324c497-aba8-4feb-b136-28200da61488.JPG

Andreia recorda tudo com o olhar nostálgico de quem ainda nem acredita que já não sobe a um palco há meses. A pandemia pendurou-lhe as sapatilhas mas não a vontade de fazer, de criar. Confinou em Tomar, em casa dos pais. De manhã, nestes meses de clausura, fez aulas em casa, com a barra e outros exercícios para se manter em forma. Mas faltava-lhe ocupação para o resto do dia. Leu vários livros, mas faltava-lhe a criação. E então lembrou-se dos pais e da sua fábrica de costura, que faz, entre outras coisas, as roupas para os espectáculos da Disney. E pensou: "E se eu aprendesse a fazer maillots de ballet?" Os pais reviraram os olhos, tentaram dissuadi-la, que isso era coisa mesmo complexa, difícil a valer. Mas quê? Como explicar a palavra difícil a quem consegue fazer Fouettés? 

Andreia, que até então só sabia coser a direito, sentou-se ao lado da mãe e dispôs-se a aprender. Tinha uma ideia, tentava desenhar a ideia, estudava o molde certo com a mãe, e depois ela ensinava-a a fazer. "Ensinou-me tudo. A cortar o tecido, a juntar peças, a coser. E eu fui aprendendo e aperfeiçoando. E como sou bailarina e sei que há marcas que não me ficam bem e sei exactamente, na pele, o que gostamos e não gostamos, acho que consegui fazer maillots que encaixam mesmo bem. O meu pai, que está no negócio há 30 ou 40 anos, disse que eu nunca havia de conseguir. Ao fim de um mês, e depois de ver a minha persistência e evolução, ofereceu-me uma máquina de costura para levar quando voltasse para Lisboa."

35a8a382-327d-41f7-a6dc-19afb085e256.JPG04ea1d01-2798-41da-8108-89ca70fb6677.JPG0646efda-6882-408b-a825-0364f9428411.JPG

E assim nasceu a Terpsi (em homenagem à deusa da dança, Terpsichore), uma marca de maillots feitos por esta bailarina confinada, à procura de ocupação. A marca ainda nem tinha página de Instagram e já Andreia não tinha mãos a medir. "Cada bailarina tem 70 a 80 maillots em casa e queremos sempre mais um. De maneira que só com as encomendas dentro da companhia fiquei logo afundada em trabalho. Depois vieram os homens, muito invejosos, pedir também maillots e leggins. Agora, com a criação da página de Instagram, a coisa é mais séria, a ideia é mesmo projectar o negócio."

Em breve, Andreia espera poder voltar aos palcos e a outro tipo de acção, aquela com a qual sonhou toda a vida, e que é a sua grande paixão. Mas quer continuar a desenhar e a fazer nascer as suas peças. Afinal, há novas vidas que nascem, mesmo em períodos de escuridão. 

8375bf0a-394f-4f7c-8cee-2f1267d1f2b1.JPGdbb40ca9-def9-4aa7-841b-6fd8a508a400.JPG

 

O escritório

Durante muito tempo, gostei de trabalhar em casa. Muito. Sou freelancer há 12 anos e, logo a seguir ao prazer de ser dona do meu tempo, veio a satisfação de não ter de sair da minha casa para fazer o meu trabalho. Vejamos: eu gostei de trabalhar em redacções. Durante muitos anos, mais do que gostei! Vibrei verdadeiramente. Aquela adrenalina, o fervilhar de quando acontecia algo no país ou no mundo que punha toda a gente em sobressalto, as histórias contadas pelos velhos jornalistas, que sempre me deliciei a ouvir (e tanto que aprendi!)... Mas quando tive muitos anos disso, ficar em casa foi um bálsamo. Nunca alinhei na coisa de ficar em pijama (só agora, em alguns dias mais cinzentos de confinamento), tomava banho, vestia-me, pintava-me, e sentava-me ao computador logo pela fresca e até ao final do dia. Mantive as rotinas, só não saí do ninho. E gostei. Percebi que a disciplina férrea que a minha mãe me incutiu não me permitiria nunca encostar-me a ver séries ou filmes ou a dormitar o dia inteiro. E resultou, para mim.

Há uns anos, porém, fui desafiada por amigas a partilhar um escritório. E também foi muito bom. Éramos quatro (no início, depois ficámos três), e trabalhámos juntas num T2 no Chiado até o senhorio se lembrar que os tempos de vacas gordas lhe permitiam subir a renda para mais do dobro, ignorando o facto de termos feito obras de renovação que transformaram um espaço inóspito num lugar prazeroso (ou melhor, aproveitando o facto, mas ignorando-nos a nós). E pronto. Pegámos nas trouxas e rumámos a casa. E ficou tudo bem na mesma. Até chegar a pandemia e eu ver o meu local de trabalho ser invadido por 5 pessoas, 24 horas por dia, 7 dias por semana. Sucede que a minha casa não tem escritório, o que levou a que deixássemos de ter sala. Se já era complicado só comigo (que recebo muitas encomendas e sou caótica a trabalhar), com mais 4 miúdos a terem aulas e a quererem estar na sala... foi a anarquia.

Houve um dia em que me pus a pesquisar lojas perto de casa. Não queria ir para longe, estava mais a pensar numa coisa tipo extensão da minha casa. Algo que ficasse à distância de alguns passos, bem pertinho para me escapar sempre que a loucura estivesse impossível de aturar. Até que recebi uma mensagem de uma das minhas amigas mais antigas (mais antiga que ela só mesmo outra - uma conheço há 44 anos, a outra há 42): "Tenho um loft espectacular para ti no Sítio Alto de São João. Com estacionamento e tudo. Liga-me e falamos." E pronto. A minha vida (ou uma parte dela, vá) estava à beira de mudar - e eu nem fazia ideia.

Assim que cheguei ao Sítio, fiquei logo com a pulsação acelerada. Era um centro de escritórios, sim, mas não com aquele ar formal e certinho dos centros de escritórios. Fazia lembrar Chelsea Market, louco, cool, artístico, criativo. Nos corredores havia secadores de cabelo pendurados, uma bicicleta de ginástica antiga, um saco de boxe. Na entrada um contentor a fazer de bar, e depois um terraço enorme, comum. IMG_6381.jpgIMG_6382.JPGIMG_6384.JPGIMG_6008.JPGIMG_6450.jpgIMG_6383.JPG

Depois de mostrar os espaços comuns, mostrou-me alguns lofts - uns enormes, a darem para o terraço, outros mais pequenos. E pronto. Fiquei apanhada pelo Sítio. E passado algum tempo, estávamos a assinar contrato. Este foi o espaço que ficou logo mais ou menos definido que seria o meu.IMG_6020.JPGIMG_6021.JPG

Entre o assinar contrato e poder começar a pôr o espaço ao meu gosto, estive a decorá-lo na minha cabeça. Como sofro de intensidade em demasia, passei horas a pensar e a escolher cada peça  (sou mesmo insuportavelmente intensa - sejam coisas boas ou coisas más, quando estou envolvida em determinado assunto, deixo de dormir, só penso nesse tema, fico imersa naquilo até ao enjoo). Tintas, cores, sofá, mesa de reuniões, mesa de trabalho para mim, um móvel de casa da minha mãe (que lixei e pintei), um quadro pelo qual me perdi de amores, um espelho, uma máquina de escrever com 100 anos, uma estante para colocar a minha colecção de DNAs, um espaço mais de leitura e outro mais girly, tapetes, candeeiros. Nada foi deixado ao acaso, nada foi escolhido só porque sim. 

Tinha pensado alisar eu mesma as paredes (algumas delas tinham tinta de areia e eu queria alisar) e fazer a pintura, mas um dia olhei em redor e percebi que não seria muito esperto tratar sozinha de tudo, uma vez que apesar de serem apenas 40m2, o pé direito do meu escritório novo tem 5 metros. Antes desse momento de epifania, tinha sido contactada por um representante das tintas Kerakoll (de que nunca na vida tinha ouvido falar, sou franca) a oferecer-se para me entregar a tinta da cor escolhida, bem como a massa para alisar as paredes. Aliás, acho que foi quando vi chegar dois sacos de massa lá a casa (tipo saco de cimento) que pensei: epá... em calhando não sou menina para fazer isto. Liguei então ao senhor Luís, que nos tinha posto o chão novo no terraço de casa, e perguntei-lhe se achava que eu conseguia alisar as paredes. Riu-se. Explicou então que é coisa mesmo difícil, é preciso ter uma mão muito treinada porque se fazem dois barramentos e o segundo tem de ser muito fininho, para que a parede não fique às ondas. Ok, percebido. Pedi então orçamento para alisar e para pintar. Ele foi lá, mediu, fez contas e quando me disse o valor do alisamento das paredes... esqueci-o imediatamente. Que se lixe o alisamento! Fica como está, pois claro, então tinta de areia não é tão bonito? Ora, pois, com piquinhos, se a pessoa acaso tiver uma comichão nas costas pode sempre esfregar-se na parede e está o assunto resolvido, disparate agora alisar algo tão lindo e funcional. E assim foi. Pintou-se, apenas, e já foi um regalo.

Falando em pintura, dizer que o Jorge Francisco, da Kerakoll foi espectacular. Eu que não conhecia as tintas fiquei impressionada com o facto de serem líderes internacionais no mundo Greenbuilding que é - o nome está mesmo a dizer - construção com preocupações ambientais. Eles levam o assunto muito a sério, levando a cabo estudos de âmbito biomédico, epidemiológico, pneumológico, impacto ambiental e qualidade do ar interior, fomentando parcerias científicas com universidades.

Na verdade, e se pensarmos bem, nunca como hoje a qualidade do ar interior foi tão importante, quando cada um de nós passa mais de 90% do seu dia fechado entre 4 paredes (quando escrevo isto fico horrorizada, mas é a cruel realidade). O crescente uso de materiais sintéticos nas nossas casas e as medidas de conservação de energia que reduzem a quantidade de ar exterior fornecido, originam a Síndrome do Edifício Doente. Neste sentido, a Kerakoll desenvolveu linhas de materiais de construção naturais que melhoram a qualidade do ar interior, evitando a proliferação de fungos, bolores e bactérias, garantindo uma elevada qualidade higiénico-sanitária dos edifícios. Entre as fontes que afetam a qualidade do ar interior estão os compostos das tintas e, tendo essa questão como preocupação de base, a Kerakoll utiliza pigmentos seleccionados e as pastas e corantes são totalmente de base aquosa, respeitando o ambiente e as pessoas. As tintas são ainda permeáveis ao vapor de água, laváveis e resistentes a fungos. Muito obrigada ao Jorge, da Kerakoll, por me ter dado a conhecer esta tinta e, assim, contribuir para um ar mais respirável dentro do meu novo espaço de trabalho, onde tenciono passar muito tempo da minha vida.

IMG_6565.jpgIMG_6567.jpgIMG_6593.jpg

Além de pintar, pedi também ao senhor Luís (da Versatilorbis) orçamento para reforçar a mezzanine (que tinha um chão fininho, mesmo a pedir para vir cá parar abaixo) e para lhe colocar um varandim (porque não tinha protecção alguma) e, apesar de não me apetecer gastar muito com obras num sítio que um dia posso deixar para trás (não me esqueço das obras que fizemos no escritório do Chiado e do pontapé no rabo que levámos do senhorio - espero que aqui não aconteça mas é óbvio que não posso perder de vista que isto não é meu, é apenas temporariamente "meu"), apesar disso, não queria ter uma mezzanine onde não pudesse andar com medo de cair e que não servisse para nada. Adjudiquei também essa obra e em 3 dias estava tudo feito.

Enquanto os homens trabalhavam, pus mãos à obra para construir um painel de livros para uma parede. A ideia não é minha mas vi-a algures e nunca mais me esqueci. Pedi autorização para ficar no espaço polivalente a fazer "arte". Pus um painel de madeira comprado no Leroy no chão e depois fui estudando que livros cabiam, como ficavam melhor, pus uns novos ao lado de uns velhos, fiz uma espécie de Tetris. E depois, quando ficou decidida a disposição, comecei a colá-los, um a um. Tinha comprado uma super-cola, que me garantiram colar até lavatórios, de maneira que confiei. Quando terminei, pus outra placa de madeira por cima, uns tijolos, e deixei ficar de um dia para o outro.

F5D20701-C267-44C6-A7D0-990A2B6F10B0.JPG

IMG_6591.jpgIMG_6595.jpg

No dia em que os homens que fizeram a obra se foram embora, à mesmíssima hora, chegaram os homens com os móveis. Além desses, fui buscar um móvel enorme a casa da minha mãe, que está na casa de férias dela mas que existe desde que eu nasci (e estava na casa onde cresci). Era um móvel de madeira escura, que meti na cabeça que havia de pintar de encarnado, porque vi imensas fotos e outros tantos vídeos de recuperação de móveis antigos e encontrei alguns que foram pintados de encarnado e achei mesmo giro. O móvel é feito de 4 peças diferentes: uma base inteira, com mais de 2 metros de comprimento, e depois 3 estantes com prateleiras e armários que se fixam em cima dessa base. Lixei tudo, pintei com primário, dei duas ou três demão de encarnado. E a seguir, montei todos os móveis da Ikea, todos, até ter todos os dedos em ferida, calos nas mãos e unhas a esfiaparem. Mas um prazer.... do tamanho de todos os sonhos. 

Como sou pessoa de pensar muito nas coisas - em todas as coisas (chataaaa) - usufruí muito daqueles dias de construção. Porque não há nada que seja mais promissor do que um início. Um início promete tudo, ainda que depois não cumpra nada. Um início é uma página em branco - pode vir a ser um bestseller ou acabar amarrotada no lixo. Um início pode vir a ser uma vitória ou uma derrota, mas promete sempre ser uma vitória porque o início é feito de sonhos, não de pesadelos.

Vai daí que pensei que talvez fosse melhor desfrutar à bruta daquele início, do prazer de estar sozinha num espaço vazio e silencioso, todo ele início, a lixar, pintar e montar móveis, todos eles início também. E tive medo que essa fase terminasse, ainda que depois fosse um prazer usufruir do espaço todo decorado por mim. Tive medo de sentir aquela tristeza pelo fim do início (que acaba a ser também, de certo modo, o início do fim, mesmo que o fim esteja ainda longe - esperemos). Felizmente, não aconteceu. Estava de tal modo exausta de meter as mãos na massa, que já só queria sentar-me à secretária a trabalhar naquele que é o meu ofício: escrever. E voltar a fazer nascer muitos inícios, desta vez no papel. 

Levou um mês, a ficar tudo pronto. E eu acho que está lindo. As fotos são da minha querida amiga Inês CM, da Afterclick (menos a primeira, que é minha, não fosse agora a carreira da mulher ficar arruinada por uma foto sem condições).

IMG_7349.jpgCocoffice - 2021 - 003.jpgCocoffice - 2021 - 006.jpgCocoffice - 2021 - 002.jpgCocoffice - 2021 - 010.jpg

Cocoffice - 2021 - 009.jpgCocoffice - 2021 - 012.jpgCocoffice - 2021 - 015.jpgCocoffice - 2021 - 019.jpg

A máquina de escrever tem 100 anos e tem lugar de destaque, com uma frase feita com palavras de metal que foram a minha primeira compra para o escritório, e um candeeiro com uma lâmpada (porque as ideias nos remetem, desde os desenhos animados, para a imagem de uma lâmpada).

O quadro é da Marta Pinho Fernandes. Ela já me tinha desenhado, uma vez, e ofereceu-me o quadro. Desta vez, fui eu que - como a passei a seguir - vi este quadro e vidrei! Aquela menina era eu: sempre a escrever, sentada no chão do meu quarto. E aquela máquina era igual à minha. Perguntei o preço e comprei. Ela veio trazer-mo e aproveitou para conhecer o espaço (ainda estava muita coisa por fazer).

Ao lado do painel dos livros, coloquei o primeiro DNA emoldurado. Tem a data de 1 de Dezembro de 1996 e eu fiz parte dele desde o início até ao fim (em 2006). O DNA, para quem não sabe, foi o suplemento de sábado do Diário de Notícias durante 10 anos. Os melhores anos da minha vida profissional. Esta foi uma homenagem a esses anos, ao Pedro Rolo Duarte, seu mentor e director, e meu amigo de quem tenho tantas saudades. E valeu também pela metáfora. A capa diz "Nascer" e é justamente o que eu quero que aconteça aqui: um novo nascer, ou pelo menos um espaço onde nasçam coisas bonitas. 

 

E é isto. Agora... arregaçar as mangas e escrever coisas boas. A ver vamos se este início culmina num bom fim. 

 

Histórias da Quarentena #8

IMG_2255.JPG

E, de repente, a arte foi interrompida e cresceram plantas no seu lugar. Aspargus Setaceus em vez de concertos, Cotuledon Orbiulatas no lugar das luzes, colunas e parafernália técnica, Philodendron Erubescens a invadir espaços onde antes se planeavam tournées. Natureza a subsitutir a música, o teatro, as formas de expressão humana. Silêncio no lugar do som. 

Bruna Duarte, 33 anos é manager de artistas e Catarina Esperança, 36 anos, é produtora de espectáculos na UAU. Acontece que a pandemia fechou a cultura a sete chaves, baixou panos, desligou luzes, câmaras, e congelou a acção. Catarina estava a produzir a "Peça Que Dá Para o Torto", um nome ironicamente apropriado já que a peça foi, com efeito, dando para o torto de todas as vezes que foi adiada, pelos avanços da Covid e pelas medidas do governo. Foi como se, de um dia para o outro, alguém carregasse no "Pause" de um qualquer comando da vida e as deixasse a ambas assim, estagnadas, em modo "freeze". 

Só que, no caso da Catarina Esperança, o bicho carpinteiro consegue ser mais forte que o bicho Sars-Cov-2. Inventa coisas para fazer mesmo quando tudo parece mais parado do que o Bairro Alto a um sábado à noite, em tempo de confinamento. E entre as várias coisas que inventou para fazer, Catarina começou a transformar plantas em Kokedamas. Plantas que crescem numa espécie de bolas (damas) de musgo (koke, em japonês). No fundo, plantas confinadas, como nós. A ideia original é que fiquem suspensas, como se voassem, plantas confinadas mas em permanente levitação (como nós, confinados mas sempre a sonhar com futuros voos), mas também podem ser colocadas numa qualquer superfície, uma mesa, um parapeito, um soalho. Um dia, Catarina levou uma Kokedama para oferecer à amiga Bruna Duarte, e ela, que tende a ver negócios em quase tudo, não hesitou: "Isto é lindo! Temos de fazer qualquer coisa com isto! Está aqui um negócio!"

Bruna ofereceu-se para trabalhar as redes sociais do putativo negócio, mas Catarina, que não tinha pensado nas suas kokedamas em versão lucrativa, quis que avançassem a meias. Começaram então a fazer experiências. Com as plantas da mãe, da avó, da amiga. Umas davam melhor, outras não tão bem. Pensaram nos preços a pedir pelas plantas, pensaram nos nomes a dar a cada uma, para não se apresentarem com as designações científicas, em latim, pensaram no nome da marca. E a 14 de Maio de 2020 nasceu a Muski, um nome facilmente associável a algo ternurento, com o acréscimo do "ki", que reporta ao Qi oriental que significa "força vital". 

O negócio foi crescendo, devagarinho, até ao dia em que o Nuno Markl fez uma publicação e, assim, deu a conhecer a Muski a mais de 700 mil pessoas, como se fosse um borrifo de adubo que fizesse as kokedamas crescer. As encomendas dispararam e as sócias, que tiravam dois dias por semana para cuidar da Muski, passaram a ter um trabalho diário, entre criar a planta no seu ninho, embalar, enviar, responder a emails, tratar da faturação. 

Cada kokedama é uma espécie de pequeno tesouro. Uma fonte de vida que brota de um lugar sombrio e escuro, quase como um capricho, uma força indómita. Não me canso de usar a comparação com a vida que temos vivido, concluindo que, mesmo dos lugares mais umbríferos, pode brotar vida e beleza. As kokedamas podem ser a nossa metáfora perfeita. Elas que principiam no escuro mas crescem para a luz, dando vida ao que antes era vazio e silêncio. 

Muski no Facebook

Muski no Instagram

1.png



 

Prisão segura/ liberdade mortal

periquito-australiano-na-gaiola_119973-309.jpg

Há uma história da minha infância que por vezes revisito, com ternura, e que espelha bem quem sou, desde tenra idade. Teria uns 5 ou 6 anos e lembro-me de passar muito tempo a olhar para uma gaiola que a minha avó materna tinha na cozinha. Inquietava-me a vida daquele periquito, angustiava-me o inútil bater das suas asas, fazia-me falta de ar o seu cárcere sem crime. Um dia, empoleirei-me numa cadeira, abri a gaiola e dei-lhe um empurraozinho para a liberdade. “Vai!”

Sucede que em casa da minha avó havia uma gata, chamada Pirulita. Atenta, mal vislumbrou o pássaro fora das grades, impulsionou as felinas patas traseiras e abocanhou a ave no seu voo inaugural, deixando-me perplexa, triste e esmagada pela culpa. Por minha causa, o periquito tinha morrido.

Seguiram-se algumas infantis considerações sobre o que seria melhor, a vida em cativeiro ou um único voo, ainda que para a morte, considerações que talvez não tenha feito logo mas que fui elaborando ao longo dos anos, sempre que recordava este episódio. De qualquer modo, aquela foi uma lição que levei para a vida e que se aplica até a estes dias de confinamento: não gosto de estar presa, ninguém gosta, mas neste momento a liberdade pode significar coisa pior. Aninho-me na gaiola e vou cantando, como fazia o pássaro da minha avó na sua prisão segura. Melhores dias virão, com voos sem gatos à espreita.

Pandemia da procrastinação

Ainda não apanhei Covid mas fui atacada por um vírus terrivelmente aborrecido. Um vírus que me tolhe pernas e braços, pés e mãos, e pior do que tudo, cérebro. Os dias passam e não faço nada de jeito. Quer dizer, ponho máquinas a lavar, arrumo loiça da máquina, aspiro, arrumo, tento entreter os miúdos, mas tirando isso, pouco. Não me apetece escrever, não me apetece fazer reformulações na casa (quer dizer, até apetece mas depois... já não), não me concentro para ler. Parece que tenho uma esponja no lugar da massa cinzenta, tudo é meio vazio e desinteressante. Tento contrariar este estúpido estado, relembrando-me que cada dia de vida conta, e que não tarda posso ter uma macacoa qualquer e andei a desperdiçar dias como se fosse imortal. Mas quê? O vírus parece superior à minha vontade. Acordo cedo, tomo banho, visto-me e até me pinto, para contrariar a neura latente, encho o peito de ar numa atitude de "bora lá!", mas depois caio na mesma procrastinação, que é a palavra moderna para preguiça, modorra, indolência, desleixo.

O Mateus queixa-se que não há nada para fazer, a Madalena também, o Martim passa os dias no computador, o Manel arrasta-se entre estudos e coisa nenhuma. As vozes deles ecoam por toda a casa, todo o dia, tenho saudades do silêncio, tantas, tantas saudades do silêncio. E sinto-me péssima mãe porque há dias em que não só não dou avanço ao meu trabalho como também não os ajudo a lidar com o tempo todo que têm ao dispor e a pouca habilidade que demonstram em saber o que fazer com ele.

Mas está tudo bem, claro, não tenho um ventilador enfiado pela glote abaixo, nenhum dos meus foi seriamente apanhado pelo bicho (por esse, pelo menos), não sou dona de discoteca, nem de restaurante, nem de cabeleireiro, nem de livraria, nem sou artista, nem tenho a minha actividade suspensa, está tudo bem, impecável, espectacular, tirando este entorpecimento físico e mental, estes dias tão iguais uns aos outros que mais parecem o mesmo dia, eterno e imutável.

preguiça.jpg

 

Que a pandemia não dê cabo da fantasia

O confinamento, a pandemia, e todo este estado de sítio em que vivemos tem-nos roubado muito. Mas as crianças têm de continuar a ser crianças. E, apesar de afastadas umas das outras, apesar dos muitos distanciamentos impostos e necessários, é importante não perder de vista as brincadeiras, o faz de conta, a diversão.

O Carnaval é uma altura em que eles podem disfarçar-se, assumir outras personalidades, serem heróis, bandidos, mudar de sexo, deixar a imaginação voar. E... caramba, se precisamos de voar! Acho que até eu me mascaro, este ano!

O Mateus tem oscilado entre ser polícia e ser ladrão (o bem e o mal a definirem-se na sua cabecinha). Como a tia disse que lhe ia oferecer um fato de polícia, escolhi no Centroxogo este fato de ladrão, para que possa experimentar os dois lados da moeda. :) E se não é o gatuno mais fofo de sempre. 

Deixo-vos algumas sugestões de fatos de carnaval para criança que vi lá e que fizeram as delícias cá de casa. Também podem encontrar disfarces para bebés muito fofos e até conjuntos para mascarar toda a família!

Mesmo que não gostem do Carnaval, se puderem, não deixem passar em branco. Os nossos miúdos precisam! E o Centroxogo envia para casa, num instante. Acho que até eu vou mascarar-me este ano!

 

 

 
 
 

 

Empatia precisa-se

Com isto da pandemia, constato que há, grosso modo, dois tipos de pessoas. Aquelas que, na tentativa de diminuirem o sofrimento do outro, para que ele não padeça tanto, tendem a mostrar que existem sofrimentos muito superlativos, e as outras que, na tentativa de ganharem o campeonato do sofrimento, atiram as suas dores à cara das demais, fazendo-as sentirem-se mesquinhas por terem ousado, sequer, queixar-se. A umas e a outras, ainda que com graus distintos, falta algo que vai rareando na sociedade: empatia.

Por vezes, caio no erro do primeiro grupo de pessoas e, menos frequentemente, no do segundo. Lembro-me perfeitamente de ser adolescente, ter uma amiga que era particularmente queixosa, e de lhe dizer coisas como: "Mas queixas-te de quê? Tens uma casa boa, uma família, estudas num colégio, és gira e tens amigos e saúde. O que farias se vivesses numa barraca, tivesses a roupa da cama roída por ratazanas, o teu pai te tivesse abandonado, fosses violada por um padrasto nojento enquanto a tua mãe bêbada dormia, e não tivesses o que comer?" Eu achava que aquele relato faria com que a minha amiga olhasse para as coisas em perspectiva, e tinha a certeza de estar a fazer o melhor para ela. Hoje, tenho muitas dúvidas. 

Quando fiz terapia, disse muitas vezes ao meu terapeuta que não devia estar ali a lamentar-me, que até parecia mal, o que estaria ele a pensar de mim, tanta gente com problemas a sério e eu, tão privilegiada, ali com mariquices. Dele obtive sempre a mesma resposta: "Os nossos problemas nunca são menores. São os nossos. E se nos fazem sentir mal, têm de ser tidos em conta, têm de ser conversados, para poderem ser ultrapassados." Foi então que comecei a ver as coisas por outro prisma. Cada um tem as suas dores, e isto não é uma competição. Há quem passe por momentos dilacerantes com uma perna às costas (pelo menos aparentemente) e há quem passe por momentos comparativamente menos violentos com uma dificuldade dos diabos. Se uns são fortes e outros fracos? Não creio. Uns têm ferramentas para lidar com as crises, outros não terão. Uns terão tido uma determinada educação, outros outra. Uns aguentam-se bem mas podem soçobrar mais à frente. Uns extravasam mais, outros menos.

Com a pandemia, tenho lido barbaridades que me doem, enquanto ser humano. Quando uma pessoa porventura se lastima por estar fechada em casa, logo vem alguém parecido comigo na adolescência: "Só lhe é pedido que esteja em casa e está nesse estado? Que gente! O que dirão os profissionais de saúde, horas infindas nos hospitais, a salvarem vidas, correndo eles mesmo risco de vida, sem poderem voltar a casa para não infectarem a família! Que dirão os doentes, entubados, a lutar pela sobrevivência? Tenha juízo!" 

Esta falta de empatia para com o outro seria admissível numa adolescente, a tentar fazer o melhor pela sua amiga com dramas existenciais. Mas em adultos é pungente. O que é que esta pessoa, que critica assim quem desabafou, sabe sobre a sua vida, sobre as suas circunstâncias? 

Este é o princípio da desvalorização da saúde mental. Nos dias que correm, as pessoas que não estão bem nem se sentem no direito de o expressar o que sentem. E, de silêncio em silêncio, vão deixando o monstro da depressão crescer descontroladamente dentro delas, esperando que passe, porque é uma vergonha sentirem o que sentem quando há gente tão pior. 

Haverá sempre gente pior. Há pessoas a viver debaixo de explosões de morteiro no exacto momento em que escrevo este texto. Ainda assim, os nossos dramas são os nossos. Ninguém saberá nunca que estilhaços estão a deixar dentro de nós. Por isso, tenhamos todos um pouco mais de empatia. Se não temos nada para dizer, calemo-nos. Por vezes, basta escutar. 

Screen-Shot-2020-03-20-at-6.31.36-PM (1).png

 

Casas onde a Cocó não se importava de morar #108

É só ver a noite eleitoral, fazer as malas, e rumar à casa nova. É esta. Espero que gostem. Trata-se de uma moradia em Campo de Ourique (Lisboa), com duas salas de estar, uma sala de jantar, quatro quartos, um escritório, e uma piscina que dá ali para uma das salas de estar. Olhem, apareçam, sempre que sentirem vontade. Mi casa es tu casa.

Captura de ecrã 2021-01-24, às 19.35.48.pngCaptura de ecrã 2021-01-24, às 19.36.03.pngCaptura de ecrã 2021-01-24, às 19.36.13.pngCaptura de ecrã 2021-01-24, às 19.36.29.pngCaptura de ecrã 2021-01-24, às 19.36.43.pngCaptura de ecrã 2021-01-24, às 19.36.54.pngCaptura de ecrã 2021-01-24, às 19.37.11.pngCaptura de ecrã 2021-01-24, às 19.37.37.pngCaptura de ecrã 2021-01-24, às 19.37.55.pngCaptura de ecrã 2021-01-24, às 19.38.05.pngCaptura de ecrã 2021-01-24, às 19.38.21.pngCaptura de ecrã 2021-01-24, às 19.38.35.pngCaptura de ecrã 2021-01-24, às 19.38.49.pngCaptura de ecrã 2021-01-24, às 19.39.02.pngCaptura de ecrã 2021-01-24, às 19.39.21.pngCaptura de ecrã 2021-01-24, às 19.39.31.pngCaptura de ecrã 2021-01-24, às 19.39.43.pngCaptura de ecrã 2021-01-24, às 19.39.57.pngCaptura de ecrã 2021-01-24, às 19.40.10.pngCaptura de ecrã 2021-01-24, às 19.40.23.pngCaptura de ecrã 2021-01-24, às 19.40.32.pngCaptura de ecrã 2021-01-24, às 19.40.47.pnghttps://barnes-portugal.com/propriedade/3124301-barnes/