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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Que Sítio é este, afinal?

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Tenho recebido muitas mensagens a perguntar coisas várias sobre o meu novo escritório: onde é, como funciona, se há outros para arrendar, se há mais pequenos, maiores, se há espaços de cowork, etc, etc, etc.

Não sei tudo, tudo. Mas já andei a conhecer os Sítios lisboetas (e a informar-me sobre os Sítios portuenses) e já há algumas coisas que posso esclarecer. O Sítio é uma empresa dentro de outra empresa. São, ao todo, dez Sítios, em Lisboa:

Alvalade, Areeiro, Bairro Azul, Marquês, António Augusto Aguiar, Praça da Alegria (Fintech House), Sete Rios, Lumiar, Visconde Santarém (Saldanha) e Alto de São João.

O meu fica no Alto de São João e é, para mim, o centro mais giro de todos. É como vos digo: não há quem cá não chegue e não fique de queixo caído pela pinta que tudo tem, pelo ar industrial e disruptivo, pelo terraço que parece estar pronto para os Santos Populares todo o ano (lindo e tão apetecível e onde se pode ir trabalhar ao sol no Verão, e onde se almoça divinamente a marmita que trazemos de casa), pelos escritórios enormes, todos eles em loft, pelo espaço comum onde se podem organizar exposições, conferências, aulas, workshops, jantares, eu sei lá, o céu é o limite. E até tem balneários! No outro dia a minha amiga Inês veio trabalhar para o meu escritório, convidei-a para ir treinar comigo à hora do almoço, voltámos, tomámos um duche, e continuámos a trabalhar. Não é perfeito?

No do Alto de São João, além dos escritórios, é possível comprar um pack de dias para se ir para lá trabalhar, ou mesmo só umas horas. Imaginem: trabalham em casa, têm um trabalho mesmo difícil para fazer e a vossa casa é um entra-e-sai, não estão a conseguir acabá-lo... pumba. Alugam o espaço, estão na santa paz do Senhor, e depois vão à vossa vida, sem mais encargos mensais que podem não querer nem precisar ter nas vossas vidas.

Há escritórios com um ar mais composto (o do Bairro Azul, por exemplo), há outros que também são assim bem doidões, tipo o de Alvalade (com cadeiras penduradas no tecto, a decorar), há um dos Sítios que parece um palácio, cheio de frescos nas paredes e no tecto, há um dos Sítios que não tem (ainda) o ar moderno e refrescante dos outros (o de Sete Rios ainda vai levar um "banho" de coolness mas tem imenso potencial, muito bem localizado e com escritórios óptimos).

Há várias modalidades, como explicava há pouco: podem trabalhar numa secretária um dia e adeus, gostei muito deste bocadinho. Podem trabalhar sempre na mesma secretária, que passa a ser vossa, por um preço definido (e onde guardam num módulo de gavetas as vossas coisas) e partilham a mesma sala com outras pessoas, mas aquela mesinha é só vossa (eles chamam-lhe Mesa Dedicada). Podem ter uma mesa dedicada sem estarem ao lado de outras pessoas (por exemplo, em Alvalade, há um corredor cheio de pequenos cubículos onde só cabe a secretária, a cadeira, o trabalhador e pouco mais, mas é bom para aquelas pessoas que preferem não estar numa sala aberta, à sua mesa, mas a olhar para outras pessoas (podem não gostar de pessoas - acontece-me muito, ou podem distrair-se com os outros, ou podem preferir aquela pequena privacidade de estarem resguardados de olhares alheios). Podem ter um escritório só para vocês, inteirinho, onde até festas podem dar (com segurança Covid, claro está). Enfim, há de tudo, pela cidade inteira.

Vantangens extra que o Sítio oferece: uma comunidade de "sitiados", como gosto de lhes chamar, que podem encontrar sinergias e dinâmicas e ideias e, de repente, estão todos a trabalhar num projecto comum, porque muitas cabeças trabalham melhor do que uma. 

Por outro lado, é bom ter um lugar para receber correspondência, ter uma morada fiscal da empresa e acesso a salas de reuniões e auditórios. Caramba, agora que penso nisso, há de tudo no Sítio. Há internet, há copa onde se pode aquecer comida, lavar loiça, guardar coisas em frigoríficos partilhados... é tão fixe!

Também há eventos a que podemos ir - por pertencermos ao Sítio -, descontos que temos por sermos membros, e até a possibilidade de trabalharmos em vários dos escritórios pela cidade: imaginem que tenho um cliente que me pede para reunirmos pela zona do Marquês, que é mesmo o que lhe dá mais jeito. Muito bem: marco reunião no Sítio do Marquês e... feito! Ou seja: há uma grande mobilidade entre os "sitiados", que é coisa que me agrada imenso.

No Porto, há já 3 Sítios: no Campo Alegre, no Bom Sucesso e Costa Cabral. E é lá, num deles, que farei um dos próximos Clubes de Leitura do Porto (o de Lisboa do mês passado já fiz em Lisboa, no terraço, e foi uma delícia).

E é isto. Não há dia em que não agradeça por este encontro. Juro. Sempre que aqui entro (escrevo esta prosa na minha mesa, montada por mim, olhando para tudo o que aqui está, que eu pintei, lixei, montei) sinto que cheguei ao meu espaço, ao meu oásis, ao lugar onde consigo ouvir os meus pensamentos e pôr as minhas ideias em prática. Sinto-me em casa, cada dia mais. E isso é mesmo bom.

Preços: há de tudo, mas consegue-se uma secretária desde 130€ por mês.

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www.sitio.pt

Uma semana a dois

Desde que temos filhos que fazemos uma semana de férias sem eles. É ponto assente, e ponto final. Há quem não possa, há quem não queira, há quem sinta calafrios só de imaginar uns dias de diversão sem as suas bonitas crias, há quem simplesmente não consiga por não ter com quem os deixar, por não ter dinheiro para ir para parte alguma, por ter filhos com problemas de saúde e não confiar em ninguém que fique com eles (algo que mexe comigo por dentro mas, sobre isso creio vir a ter notícias em breve), por não ter amigos que os levem para que, simplesmente, se barriquem nas suas próprias casas, sozinhos, a ver séries, a beber vinho e a fazer o amor. Há de tudo nesta vida, já o sabemos, e ninguém tem de chatear ninguém: nem os que podem e querem têm de evangelizar os outros, nem os outros têm de censurar os demais. 

A única excepção a esta regra que temos foi quando a pandemia nos trocou as voltas. Isso e a doença da minha mãe. No ano passado fizemos 20 anos de casamento, data que pedia festejo de arromba (leia-se viagem longínqua), mas a minha mãe estava em tratamentos, e acabou a ser internada no dia seguinte ao do nosso aniversário, pelo que o mais longe que fomos foi ali ao Alentejo para regressar e levar com a bomba atómica de a ter por um fio. Mas safou-se, que é rija, e a equipa de Santa Maria trabalhou que foi uma beleza.

Este ano tínhamos pensado em ir para longe, também. Mas depois há Covids por todo o lado, parece que a gente os vê aos saltos, e regras, e restrições, e aquele receio de que nos fechem as fronteiras e fiquemos ad eternum a viver num local paradisíaco mas infestado de bichezas, sem cuidados hospitalares de primeiro mundo, e longe dos nossos filhos. Ainda pensámos em Itália (queríamos alugar uma mota e fazer a costa Amalfitana), mas até à data em que marcámos tudo ainda estava em vigor a regra de confinamento de 5 dias obrigatório para turistas, mesmo que brandissem o teste negativo diante dos olhos das autoridades. E, sendo assim, chapéu. Começámos então a escrutinar o nosso país, tão bonito também, Douro? Alentejo? Gerês? Zona Centro? Açores? Madeira? Ganhou a Madeira.

Já tínhamos ido à Madeira algumas vezes, sozinhos, com miúdos, mas desta vez foi absolutamente perfeito. Não sei bem explicar se foi por estarmos tão sequiosos de estarmos a sós (os confinamentos engoliram-nos um bocado o namoro), não sei se foi por termos alugado uma mota (o que permitiu uma dose de diversão extra - as motas são um perigo mas oferecem uma sensação de liberdade e alegria diferentes), não sei se foi por termos escolhido tão bem o hotel (um mamarracho enorme mas por dentro com muita pinta e com uma piscina linda e totalmente em cima do mar), não sei se foi por termos vivido várias aventuras (desde um frio de rachar na subida ao Pico do Areeiro que nos fez gastar 90 brocas na loja do senhor Juvenal - uma loja de souvenirs mesmo lá em cima - só em dois pares de calças de fato de treino, um casaco de malha grossa, umas luvas e um corta-vento; sem esquecer a excelentíssima bebedeira na Taberna da Poncha; entre outras peripécias), se foi por aqueles mergulhos no mar frio, se foi pelas garagalhadas a fazer fotos, se foi pelo deslumbrante passeio pela Levada do Caldeirão Verde e pela Levada do Caldeirão do Inferno. Não sei. Sei que foi perfeito, que viemos de lá renovados, que reencontrei o meu namorado (de quem perco tantas vezes o rasto, de tão assoberbado que anda com um trabalho que roça, por vezes, a insanidade) e isso é, sem dúvida, um privilégio. Quanto à Madeira... fiquei cheia de vontade de voltar. Que ilha abençoada. 

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Nós #2: Associação Portuguesa Contra a Leucemia

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Leucemia. Aquela palavra que ninguém quer ouvir. Aquela palavra que assusta, que faz sentir o bafo da morte, que precipita para um possível fim da jornada. E, no entanto, não tem de ser assim. Há muitos casos de sucesso, muitas vitórias, muitos fins (felizmente) adiados. Foi o caso de Carlos Horta e Costa, 67 anos. Teve uma leucemia, primeiro ficou em choque (a noiva de um dos seus melhores amigos tinha morrido nas vésperas de se casar, decorrendo apenas 1 mês entre o diagnóstico e o desfecho), depois lutou com unhas e dentes, acreditou que seria capaz de ultrapassar a doença, e curou-se. Já lá vão quase 28 anos.

Foi por causa deste episódio que, em Janeiro de 2002, Carlos Horta e Costa se juntou a outros ex-doentes e médicos do IPO para fundar a Associação Portuguesa Contra a Leucemia (APCL).

O primeiro objectivo desta associação foi ajudar a organizar e fazer crescer o registo de dadores de medula óssea. Foi investida uma soma grande (conseguida através de variados eventos: concertos, workshops, vendas, etc) no desenvolvimento deste registo e, dos 1800 inscritos em 2002, passou-se para os mais de 200 mil incritos, dez anos depois. Hoje, são já mais de 400 mil, tendo-se convertido o CEDACE no segundo maior registo de dadores de medula óssea da Europa, e no terceiro maior de todo o mundo, em termos relativos.

Quando este crescimento atingiu a velocidade de cruzeiro, a APCL agulhou os investimentos para outras direcções, nomeadamente para a investigação científica, atribuindo bolsas que permitem esse contínuo aprofundar de conhecimentos, nas áreas das doenças oncológicas do sangue.

A APCL dá ainda apoio social e financeiro a doentes e famílias carenciados. Com os 6 centros de transplante existentes no país (3 em Lisboa, 2 no Porto e 1 em Coimbra) nem sempre os doentes em tratamento residem nos centros para os quais são enviados. E nem sempre, estando deslocados, conseguem ter onde ficar. Carlos Horta e Costa explica: “O doente que é transplantado fica no hospital mas quem o acompanha não pode ficar. E por vezes são pessoas sem capacidade para ficar em locais com condições razoáveis. Por vezes o doente é um dos membros de um casal, que ficou sem emprego porque está doente, e o outro está desempregado ou pediu uma licença sem vencimento para poder estar presente. São situações muito frequentes. Quando existe um caso destes, vão ter com as assistentes sociais no hospital, preenchem uma ficha, e são os próprios assistentes sociais que nos contactam, a pedir apoio. Damos, imagine, 300€ por mês, durante 3 ou 4 meses. Ou, outras vezes, o que é preciso é uma prótese dentária, ou um par de óculos... tentamos estar lá, naquele que é um dos momentos mais difíceis da vida destas pessoas.”

A associação investe também em divulgação e informação sobre os cancros de sangue. Publica folhetos, pequenos livros, organiza eventos, workshops temáticos, seminários. No ano passado, levou a cabo as primeiras Jornadas Nacionais APCL. Foi um dia e meio a abordar várias temáticas, com testemunhos de doentes, ex-doentes, familiares, médicos, terapeutas, enfermeiros, etc. Foi tão interessante que este ano já estão previstas as segundas jornadas.

O último grande projecto desta associação tão activa e empenhada é a menina dos olhos de Carlos Horta e Costa (e imagino que dos demais fundadores da APCL). Ele talvez não note, mas a sua expressão altera-se quando fala na casa, quando imagina o quanta diferença vai fazer na vida das pessoas que por ali passarem. Sente-se que é uma enorme conquista, daquelas que aquecem a alma e fazem com que vida valha realmente a pena. Trata-se da construção de uma casa de acolhimento, a que a associação chamou de “Porto Seguro”. Uma casa em Lisboa destinada a doentes hemato-oncológicos, a transplantar ou em fase de terapêutica, e respectivo agregado familiar, para que durante o período de tratamentos e isolamento inerentes à recuperação do doente, criança ou adulto, a família possa estar perto e acompanhar, proporcionando deste modo o suporte emocional, fundamental à recuperação.

Carlos Horta e Costa, vice-presidente da APCL mostra as plantas da casa, agora em obras, com o tal brilhozinho nos olhos: “É um pequeno prédio, na Rua D. Luis de Noronha, ali mesmo em cima da Praça de Espanha. Fica a 5 minutos a pé do IPO, a 15/20 minutos a pé do Santa Maria, perto de tudo porque tem o metro ali. Esta casa vem ao encontro das necessidades de termos um espaço para acompanhantes ou doentes em ambulatório. O que lhes é proposto é que fiquem numa pensão, mas agora vão poder ter uma casa digna, com 8 quartos, uma sala de convívio, uma cozinha comunitária, e um jardinzinho. É pequena, mas é um primeiro passo. Sabe que eu cheguei a assistir a isto: acompanhantes de doentes a dormirem dentro de carros, no parque de estacionamento do hospital. Uma vez soube de uma senhora e a filha, pequena, que se aninharam no carro, para poderem acompanhar o pai da criança, que estava internado. Isto hoje seria impossível, porque os parques de estacionamento são pagos e a pernoita ficava ainda mais cara que numa pensão. É este tipo de desespero que queremos evitar.”

Os membros da associação andavam à procura de uma casa deste tipo há muito tempo. Os bancos, se as tinham não as davam, a Câmara Municipal de Lisboa não tinha, mas eles não desistiam de a tentar encontrar. Quando a CML indicou, finalmente, este pequeno prédio, nem pensaram duas vezes. As obras arrancaram dia 7 de Novembro de 2020 e, em princípio, estarão terminadas no final deste ano. “Financeiramente, a obra está coberta, com concertos solidários que fomos fazendo e outros eventos. Felizmente temos músicos que são muito generosos e que têm ajudado muito a APCL. Portanto, a obra da casa está garantida, mas depois é preciso recheá-la e é preciso mantê-la. E esse é agora o nosso foco: arranjar meios financeiros para rechear a casa e cuidar da sua manutenção.”

E é aqui que entra na história o Ricardo Martins. Corria o ano de 2004 quando o Ricardo notou que se sentia cansado mas... quem é que não se sente cansado nos dias que correm? Tinha um negócio, andava de um lado para o outro, era natural sentir-se cansado. Também não valorizava o facto de ter de se levantar 3 vezes durante o almoço, por sentir um desconforto abdominal. Talvez tivesse comido muito, talvez estivesse com problemas de digestão. Fez o que fazemos tantas vezes: ignorou os sinais do corpo, arranjou desculpas, seguiu em frente. Mas a então sua mulher não gostou dos sintomas e marcou-lhe uma consulta. Contrariado, compareceu. E, pela cara do médico alemão e o palavão “scheisse!” (ou seja “merda!”) repetido muitas vezes, calculou que talvez a coisa não estivesse famosa.

Não estava. Algumas análises e exames depois, Ricardo soube que tinha uma leucemia das células pilosas, considerado na altura um tipo muito raro de leucemia. “O meu baço ocupava-me metade do tórax. Por isso é que eu sentia desconforto abdominal. Pudera! Tinha 31 anos, muitos projectos, ia casar-me. Só perguntei: quanto tempo tenho de vida? E o médico respondeu que tudo dependia da quimioterapia mas sobretudo da minha cabeça e do Senhor que está no céu.”

Ricardo agarrou-se àquelas palavras como quem segura uma tábua de salvação em mar alto. Não podia fazer nada quanto ao Senhor, mas podia mandar na sua cabeça. E mandou. E acreditou que ia vencer.

Fez um tratamento experimental, que estava a fazer-se nos EUA (e conseguiu autorização do Ministério da Saúde para o fazer cá). Foram tratamentos duros, 20 horas de quimio por dia, mais 4 horas para limpar as veias. Ao 5º dia sentiu-se como atropelado por um camião, ao 7º dia não se conseguia levantar. Perdeu 10 quilos em 3 dias, viu-se esquálido ao espelho, achou que talvez não sobrevivesse, combateu os pensamentos, levou duas transfusões de sangue, depois veio a recuperação. Ao fim de 5 anos, estava oficialmente em remissão.

Ricardo acredita que falar sobre a doença, sem tabus, sem medo da pena alheia, sem preconceitos, sem filtros, é muito importante. “Ficar com um peso tão grande só para nós não pode ser bom. É preciso partilhá-lo, desabafar. Parece que se torna menos mau quando falamos. Menos assustador. Acho mesmo importante falar.” E acredita que, sim, o pensamento positivo faz toda a diferença.

Quando adoeceu, prometeu que se conseguisse salvar-se iria todos os anos a Fátima. E que, em 2020, iria de Lagos, onde vive, a Fátima, a pé. Ao longo de todos estes anos, cumpriu a promessa. Foi todos os anos a Fátima, de carro, no mês de Dezembro. Este ano será a 17ª vez. Mas a promessa da peregrinação teve de ser adiada por causa da pandemia. E de 2020 passou para 2021. Mais concretamente: hoje. Começou hoje a caminhada de Ricardo até Fátima. Um caminho que é o cumprir de uma promessa mas é muito mais do que isso: “Quando falei disso, a minha actual namorada disse: vou contigo, mas temos de arranjar uma instituição para fazermos um donativo. Pesquisei e, apesar de já conhecer a APCL, não conhecia o projeto da casa. Quando estive doente vi as dificuldades que as famílias tinham, por estarem deslocadas, muitas vezes sem dinheiro para estadias. É muito triste, muito violento. Eu sou pai de uma menina e... (emociona-se) achei que era a coisa certa a fazer.”

Ricardo Martins está neste momento no primeiro dia da sua caminhada. O percurso está previsto ser de 14 a 21 de Maio e totalizará mais de 340 quilómetros a pé. A iniciativa pode ser acompanhada nas páginas de Facebook e Instagram da APCL, assim como na página de Facebook da própria acção. A campanha de angariação de fundos já está a decorrer e os donativos podem ser feitos através da plataforma Go Fund Me: http://gofund.me/93caf6b7

No dia em que o Porto Seguro estiver pronto, recheado, e a funcionar, vou querer conversar com Carlos Horta e Costa e voltar a ver aquele brilho no olhar, que deve estar ainda mais luminoso, com a sensação de dever cumprido. Depois? Depois o mais certo é continuar a encontrar novos projetos, novas missões, novas formas de retribuir a grande fortuna de ter continuado vivo.

(Boa caminhada, Ricardo.)

Se quiserem fazer um donativo para a casa Porto Seguro, além da plataforma Go Fund Me, têm aqui outras formas:

MBway
969 368 664
IBAN
PT50 00350667000054852308 4
 

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Carlos Horta e Costa

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Ricardo, ao centro, ladeado pela namorada Donna e o cunhado Marco

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Nós #1: Associação Novamente

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Esta é uma nova rubrica.

Vou contar histórias de associações que ajudam pessoas. Muitas delas todos conhecemos. De muitas nunca ouvimos falar. Com algumas, vocês que lêem vão sentir uma maior empatia do que com outras, seja porque conhecem alguém que tem o problema a que essa associação se dedica, seja pela forma como o texto está escrito, ou apenas porque houve ali qualquer coisa que vos sensibilizou mais, talvez pelo modo como despertaram nesse dia. Alguns poderão sentir vontade de ajudar, seja com o seu tempo e trabalho, seja com uma oferta financeira. Alguns nem sequer se vão dar ao trabalho de ler, porque não têm tempo, porque não lhes apetece agora, porque não gostam de saber dos problemas dos outros. A estes últimos, dizer apenas isto: muitas destas associações apoiam pessoas que podíamos ser nós todos. Que hoje estamos aqui, nas nossas vidinhas, reclamando do tempo ou de não podermos ir a um concerto ou da monotonia dos dias, mas amanhã podemos estar com a vida de pernas para o ar. Sem saber o que raio nos aconteceu. Sem saber como recomeçar. 

Chamei a esta rubrica "Nós" porque acredito que um "nós" é - quase - sempre mais forte que um "eu". Sobretudo quando o "eu" está perante uma situação inesperada, diferente, fora da norma, exigente, desafiante, contra-natura, contra-corrente. 

Estas associações são também "nós" no sentido em que ajudam a prender vidas, ajudam a agarrar quem está desgarrado, a laçar quem está deslaçado. Sem elas, a sociedade seria muito mais cruel do que já é. Sem elas, muitos não teriam um rumo, uma segunda oportunidade. E eu acredito em segundas oportunidades. Bem-vindos à rubrica "Nós".

 

Associação Novamente

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Tudo começou com um cavalo. Mais concretamente, com um acidente trágico com um cavalo. Luís Miguel tinha 29 anos e, durante um jogo de Horseball, caiu do cavalo e sofreu um traumatismo crânio-encefálico. Felizmente, depois de um coma e de muitas incertezas, sobreviveu. Felizmente, também, teve uma família que não desistiu, que mexeu todos os cordelinhos, cordas e cordões, que indagou, que buscou e que, quando deu conta de que não havia as respostas necessárias, decidiu criá-las. Luís Miguel é filho de Godinho Lopes, ex-presidente do Sporting Clube de Portugal, e teve a sorte - dentro do azar - de ter um pai que não baixou os braços. E foi assim que, em 2010, nasceu a Novamente, uma associação que procura ajudar famílias de traumatizados crânio-encefálicos (TCE), preenchendo uma lacuna que existia, porque estas são pessoas que não têm um padrão, não estão tipificadas, não apresentam todas as mesmas sequelas. Há as que perdem totalmente a locomoção e as que não vêem a parte motora afectada; as que perdem faculdades cognitivas e as que vêem apenas algumas características da personalidade atingidas. Por não haver dois casos iguais, a problemática é complexa, específica, e a ausência de soluções era, antes do nascimento da Novamente, gritante. 

Converso com Vera Bonvalot, directora da Associação. Não lhe vejo o rosto, por culpa da máscara a que todos estamos obrigados, mas imagino-a bonita, pelo modo enérgico e bem disposto com que defende a sua causa, os seus associados e respectivas famílias (o Google confirmou, depois, que tinha razão). Há nela um respeito e uma valorização dos seres humanos, que se afasta vigorosamente da vitimização ou da "coitadinhação" (palavra acabada de inventar, num rasgo de ousadia linguística). Vera não tem ninguém na família que tenha passado por isto, nem é voluntária. Este é o seu trabalho, para o qual foi contratada há 11 anos. "Nunca tinha trabalhado na área das ONGs e das IPSS mas tenho aprendido muito." Vera vinha da área do marketing e da gestão de produto, mas percebe-se pelo olhar (que fica, felizmente, a descoberto de máscaras) que foi aqui que encontrou a sua verdadeira vocação. 

Uma das coisas que aprendeu foi que ter um TCE em Portugal não é o mesmo que ter um TCE noutros países. "É verdade que por vezes podemos não ter tantas condições, mas há uma coisa que temos: família. Quando há um acidente, um drama desta violência, vai tudo para o hospital, família, amigos. E podem revezar-se e continuar a apoiar durante muito, muito tempo. Há países onde simplesmente não aparece ninguém. Aqui é impressionante o que os pais fazem pelos filhos. Fazem o que for preciso. Não pensam duas vezes. Conheci um pai que me contou que os médicos disseram que o filho ia ficar um vegetal toda a vida. Ele recusou o diagnóstico. Tinha um negócio de móveis com o irmão e vendeu a parte dele para pagar terapias: da fala, ocupacional, etc. Vendeu o carro e, na garagem, fez um ginásio para o filho. Depois, pediu emprego ao irmão, e continuou a trabalhar sempre para ajudar o filho na sua recuperação. E depois de me contar isto tudo disse: 'E agora a doutora venha comigo lá abaixo conhecê-lo, que foi ele que me trouxe de carro.' Emocionou-me muitíssimo, esta luta, esta garra, este ir até onde for preciso por um filho."

Mas, para Vera, há também que saber parar. Saber aceitar que aquela pessoa não vai voltar a ser tal e qual como era. Lutar para que fique o melhor e o mais autónoma possível, sim, mas saber também aceitar a sua nova identidade. "É tramado porque os traumatizados não têm diagnósticos fechados. Não há como saber se fica vegetativo para sempre, se vai conseguir voltar a andar, a falar... E na verdade, os diagnósticos são geralmente muito negativos, e quando eles vão conseguindo sempre mais e mais, de repente fica a esperança de voltar ao que se era. E podem ficar reféns dessa busca incessante, presos nessa procura eterna da pessoa que foram. Há sempre um luto que é preciso saber fazer, para que se consiga olhar em frente e não ficar sempre a olhar para trás, para o que se foi, para o que se perdeu, para o que a vida podia ter sido e não foi. É muito fácil dizer e muito mais difícil fazer. Mas é também isso que ajudamos a construir na Novamente: esse processo de aceitação. Às vezes, o próprio até já começa a aceitar-se e é a própria família que trava esse processo dizendo: 'Este é o meu filho Zé. Ele era engenheiro.' É compreensível. A família tinha orgulho naquilo que o filho tinha construído e sente-se incapaz de lidar com a frustração do que se perdeu. Mas é essencial aceitar. É a única forma de seguir em frente."

A Novamente, além de se focar no futuro, na nova pessoa que o TCE fez nascer, oferece um apoio continuado. Há um contacto com as famílias, de preferência desde que o acidente acontece, para desde cedo se ensinar a família a viver um dia de cada vez. "Depois, ajudamos a lidar com os amigos, com o regresso a casa, com os seguros (sempre uma chatice), com a escola ou o trabalho. E a seguir é continuar a dar seguimento, tentar arranjar saídas para estas pessoas. Infelizmente, no TCE não temos o que já existe para o cancro. Nos casos de cancro, a pessoa entra no sistema e fica imediatamente acompanhada e ninguém a larga - marcam consultas, marcam exames, análises, ligam, seguem. Isto é o meu sonho, para os traumatizados crânio-encefálicos também. Queria que o sistema não os perdesse e que os dirigisse para as terapias da fala, ocupacional, para consultas de psiquiatria, psicologia... são pessoas com múltiplos problemas e que precisam ser vigiadas. E como não existe este acompanhamento, andam às apalpadelas, sem saber a quem recorrer."

É aí - também - que entra a Novamente, nesse encaminhamento, nesse desbravar de terreno. Mas também no contacto próximo com a Segurança Social e no diálogo com outras instituições de solidariedade, na possibilidade de fazerem obras em casa para a adaptar à nova realidade (e nos casos de pessoas que manifestamente não têm capacidade financeira para o fazer), no aconselhamento jurídico. E ainda na capacitação para a empregabilidade, no permanente incentivo a uma maior autonomia. "Três vezes por semana temos o Viver Novamente. Podem ir fazer um desporto, que pode ser ténis, golf, vela adaptada, ioga, cavalos adaptados, mas também podem ir só beber um café e conversar, ou ir a um museu, ao cinema. Gostava de ter estas actividades a nível nacional mas neste momento só tenho em Cascais. É muito importante, para que eles reaprendam a sociabilizar. Porque muitas vezes, os amigos afastam-se. Não é por mal, é porque a vida, para quem não tem uma questão destas, é a correr. É sempre a correr. E para estas pessoas não. A vida mudou. Tem outro ritmo. De maneira que, muitas vezes, é só nestes encontros que voltam a ter vida social, e isso é muito importante." Os associados da Novamente pagam 5€ para terem acesso a tudo (obras em casa , materiais de apoio, apoio jurídico, apoio continuado etc.), excepto ao serviço Viver Novamente. Esse custa 150€ por mês com todas as actividades já descritos (transportes incluídos). 

A associação apoia cerca de 500 famílias por ano e precisa sempre de ajuda: donativos de empresas, de pessoas de boa vontade, consignação do IRS, jantares, feiras... Vale tudo, quando há tanto em causa. E, sobretudo, quando se pensa que um traumatismo crânio-encefálico é uma daquelas situações que pode acontecer a qualquer um de nós. Basta uma queda, de cavalo, de bicicleta, trotineta, a pé. Um atropelamento. Um acidente de viação. Uma agressão. Um AVC. Num segundo, a vida pode mudar para sempre. Importante saber renascer. Para começar tudo, Novamente. 

https://www.novamente.pt/

Contactos: 91 227 55 06

Email: geral@novamente.pt

 

Para ajudar: 

Por Multibanco

Entidade:  21604

Referência: 605 606 607

Valor: O que quiser

 

Por MBWay - 91 261 74 82

No IRS - NIF: 509 310 354

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Vera Bonvalot (eu não disse que, além de competente, era bonita?), directora da Novamente

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A fronteira da liberdade

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Todos nós temos a tendência para achar que "no nosso tempo" é que era. Já vi gente dizer isto quando, no "seu tempo" havia falta de quase tudo, nomeadamente de afecto parental e de cuidados de saúde primários. Mas enfim, deve fazer parte dos mistérios da memória selectiva, que nos leva a enlevar o passado, obnubilando todos os detalhes ruins. Esforço-me por não cair na tentação, ainda que sinta que, em alguns aspectos, tive mais sorte que gerações posteriores à minha (mas noutros, é óbvio, elas ficam a ganhar).

Um dos aspectos em que creio que tive mais sorte tem a ver com a liberdade. Apesar de viver numa cidade, brinquei muito na rua. Ia horas para a rua, para casa de vizinhas, para as traseiras do meu prédio, e estava tudo bem. E eu tinha uma mãe completamente paranóica com os perigos (ainda hoje, se me vir ao sol, a primeira ideia que lhe vem é a de uma meningite), mas ainda assim era como se brincar na rua fosse parte integrante da infância, como gatinhar ou meter na boca tudo o que aparece quando se é bebé. Claro que tinha os tradicionais discursos de não falar com estranhos, nunca dizer onde morava, nunca ir com ninguém, nunca comer nada que me oferecessem, nunca uma série de coisas que, de tanto ouvir, já me entravam a 100 e saíam a 200 (tanto que, um dia, já ia toda feita com um homem para lhe mostrar onde morava uma enfermeira, e quando a minha mãe apareceu aos gritos, o homem fugiu a correr, e eu percebi que... foi por um triz). 

Hoje os miúdos, sobretudo nas cidades, raramente têm este tipo de liberdade. Os meus tiveram uma coisa mais ou menos parecida, porque vivemos num condomínio fechado (e por isso tiveram uma liberdade controlada, assim um "faz de conta que"), mas há imensos miúdos que não brincam, pura e simplesmente, na rua. Ou melhor, não brincam sozinhos ou uns com os outros, sozinhos, na rua. Podem até estar na rua, mas os pais estão sempre por perto, vigilantes. 

Não sei quando é que isto aconteceu mas inclinar-me-ia a dizer que, por cá, tudo mudou com o caso Rui Pedro. Para mim, pelo menos, foi um turning point. Na minha perspectiva, até então Portugal era um sítio mais ou menos tranquilo, onde havia assaltos, sim, onde de vez em quando uns e outros se matavam por questões de violência doméstica ou por quezílias relacionadas com propriedades, havia violações (disso falava-se bastante, tanto que houve uma altura em que achei que ser violada era tão certo como a morte), mas pouco mais. O caso Rui Pedro mostrou-nos um Portugal que achávamos que só acontecia "lá fora". Aquele miúdo desapareceu, enquanto brincava na rua, bem pertinho de casa, numa zona completamente calma, bem mais calma do que Lisboa, onde eu vivi toda a minha vida. Durante anos, o caso assombrou-me. Entrevistei a mãe dele, escrevi sobre aquelas vidas. Espelhei para a minha realidade aquele drama, e pronto. Nunca pude ser uma mãe tão descontraída como seria se aquele horror não tivesse acontecido (e outros parecidos, que entretanto aconteceram também). E - atenção - eu acho-me muito mais descontraída que a maioria. Mesmo. Mas há ali uma linha em que as sirenes tocam e começo a sentir palpitações. E se? 

Mas, a verdade, é que as coisas quando têm de acontecer acontecem, mesmo debaixo do nosso nariz, mesmo dentro de casa. Vejamos este exemplo: um dia, a Mada foi a uma festa de aniversário de uma amiga, numa quinta. Quando a fui buscar, ao fim do dia, a mãe da amiga e a própria Mada contaram que tinha havido um "percalço". Os miúdos estavam a brincar, dentro de propriedade privada, e começaram a correr para mais longe da casa, para umas vinhas (da propriedade, fechada). A Mada ter-se-á afastado mais do que os outros, ficado sozinha, e nisto surgiu um homem que ficou estático a olhar para ela. Felizmente, o homem não tinha bom aspecto, o que fez soar-lhe todos os alarmes. Ela começou a andar mais depressa na direcção oposta, e o homem começou a andar mais depressa atrás dela. Sentindo o coração a latejar nas veias, ela correu e ele correu atrás dela. Também felizmente, ocorreu-lhe (ou foi só sorte) correr em direcção à casa da família, e não para outro lado qualquer da propriedade. Quando se aproximou da casa e o homem viu pessoas, fugiu na direcção oposta. Enquanto ouvia o relato (e sentia as pernas a tremer) não conseguia deixar de pensar que, naquele dia, tínhamos ganhado o Euromilhões. A sorte esteve do nosso lado. Mas podia não ter estado.

Foi o primeiro dia em que a minha filha percebeu que era uma "presa". Ela esteve para ser caçada mas conseguiu fugir. E esta ideia é terrível mas é assustadoramente comum à maioria das meninas, seja em crianças, seja em adolescentes, seja quando já são adultas. O Rui Pedro não era uma menina, bem sei, mas este tipo de situação é, como sabemos, mais comum nas raparigas do que nos rapazes, o que não nos deve - de todo - deixar menos vigilantes quando se trata de filhos do sexo masculino.

Todo este preâmbulo para desembocar nisto: qual é a fronteira entre a protecção dos nossos filhos e a limitação abusiva e perniciosa da sua liberdade? Como traçar essa linha, sem que sejamos pais negligentes num mundo que é tudo menos de fiar, mas em que também não caiamos no extremo oposto, de sermos pais-ansiosos, paranóicos, angustiados, que passam para os filhos uma ideia de mundo cruel que, à primeira distracção, vai dar cabo deles? 

Se esperavam que vos desse agora a resposta, lamento a desilusão. Não a tenho. Acho que tenho sido uma boa doseadora da liberdade, com cautelas, falando dos perigos mas referindo que são a excepção, não a regra. Não quero que saiam de casa a olhar por cima do ombro, mas também não acho que vivamos numa bolha cor-de-rosa bonita. No meu bairro, há uns meses, foi violada uma mulher que saía, de manhã, de um ginásio. Em plena luz do dia, numa avenida muito movimentada. Fica difícil deixar a Mada vir sozinha da escola de bicicleta, o que me custa imenso porque acho que fazia todo o sentido. Mas. Sempre ali aquele mas. 

Ainda assim, acho que vou soltando a corda com equilíbrio, mais do que por vezes vejo pais de amigas da Mada fazerem (os outros, mais velhos, já têm toda a liberdade, com responsabilidade, como é natural). A verdade é que há por aí gente muito assustada, que não permite que os filhos ponham um pé fora de casa sem supervisão, e falamos de miúdos já bastante crescidos. Não consigo censurar, mesmo que vá fazendo o contrário disso, devagarinho. O horror de perder um filho ou de o ver arruinado para sempre é maior do que qualquer coisa, qualquer desejo de liberdade. Mas também não conseguiria ser assim, tão absolutamente aterrorizada, porque a vida é, toda ela, feita de riscos. Toda. Os filhos, desde que nascem, estão em risco. Apanham vírus e bactérias que podem ser mortais, têm quedas aparatosas, metem os dedos nas tomadas, fazem desportos arriscados, andam de mota (às vezes os pais não os deixam ter mota e eles acabam espatifados quando iam na mota de um amigo), tiram a carta e andam de carro, convivem sabemos lá nós com quem, têm discussões, na noite, que podem acabar mal, etc, etc, etc. Não é possível, por mais que tentemos, protegê-los de tudo. Talvez a maior protecção seja, justamente, dar-lhes liberdade, dar-lhes mundo e, ao mesmo tempo, dar-lhes informação, ferramentas para que se defendam o melhor possível. É um equilíbrio difícil. Será sempre um equilíbrio difícil. Ser mãe, ser pai, é ter este coração fora do peito para sempre. O ideal é tentar que, apesar de fora do peito, não nos caia aos pés, nem nos suba pelos ares. Ninguém disse que era fácil.

A minha vida dava um filme

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Quero contar mais histórias. Às vezes, são histórias que não cabem na rubrica Mudar de Vida, nem na rubrica Histórias da Quarentena, nem em nenhuma das outras que fui criando. São histórias de vida que podem ser tudo: complicadas, descomplicadas, bonitas, tristes, alegres. Histórias de amor, histórias de superação (as minhas preferidas, confesso). Histórias de quem lutou, de quem se deixou vencer, histórias que nos fazem rir, que nos emocionam, que nos inspiram.

Se acham que posso contar a vossa história, enviem um email para aminhavidadava.umahistoria@gmail.com

Obrigada!

 

 

Histórias da Quarentena #9

Imaginem uma criança pequena sempre a dançar. Como uma boneca numa caixinha de música, aos rodopios pelas assoalhadas de casa. A tentar erguer o corpo nas pontas dos pés, a imitar as bailarinas de verdade, com pliés, jetés, adagios. Ainda tudo pouco técnico, só mais movido pela vontade, por uma vontade indómita, que nem se sabe bem de onde nasceu. Imaginaram? Agora, imaginem a criança mais crescida, no Conservatório, crescendo em anos a fio de trabalho intenso, o corpo a ser moldado para voos impossíveis, a graciosidade apurada pela insistência, persistência, teimosia, quase loucura. E depois os palcos, as coreografias mais míticas, os bailados mais desejados, O Quebra Nozes, Raymonda, Pedro e Inês, A Sagração da Primavera. Imaginaram? Agora, suponham que, de um dia para o outro, tudo cessa. Luzes apagadas, sapatilhas penduradas, pano descido, salas de espectáculos fechadas. Silêncio. E a menina feita mulher fechada entre quatro paredes, com espaço limitado para rodopios (quanto mais voos!), sem saber o que fazer ao bicho carpinteiro que lhe cresceu agarrado ao corpo, impelindo-a para um movimento perpétuo, para um constante desafio dos limites do esqueleto, agora obrigatoriamente limitado.

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Andreia Mota, 26 anos, é a menina que vos pedi para imaginarem. Desde que se lembra de ser gente que dança. Sempre dançou e sempre que lhe faziam a pergunta da praxe, "O que é que queres ser quando fores grande?", respondia o mesmo: bailarina. Não sabe bem de onde vem a pancada. Não existem outras bailarinas na família, apesar de haver uma certa tendência para o desporto: a irmã Margarida é altleta de alta competião, uma prima faz Trampolins e outra foi para o Atletismo. Ballet, nada. Só ela cresceu a sonhar com Arabesques. Aos 13 anos, saiu de Tomar para o Conservatório de Lisboa. Não veio sozinha. Aproveitou a boleia da irmã, que veio para a faculdade, e ficou a viver com ela e mais umas colegas, num apartamento em Alvalade. "Ao início foi muito complicado. Sou muito chegada aos meus pais e vinha de um meio completamente diferente. Estava sempre desejosa que fosse sexta-feira para ir para casa, passar o fim-de-semana. Pensei desistir algumas vezes, confesso. Ao mesmo tempo que sentia falta de casa, ainda havia a exigência do Conservatório, que não é brincadeira. Aquilo é mesmo para quem quer muito. Porque a adolescência... a adolescência não é, de todo, igual à das outras pessoas. A minha irmã tinha muito mais amigos, fazia coisas fora da faculdade. Nós não. Éramos poucos e não havia vida para lá daquilo. É duro. Mas quando se gosta..."

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E Andreia gostava. Muito. Tanto que, ainda estava no 12º ano, e a directora da Companhia Nacional de Bailado a convidou para ir fazer algumas produções. Acabou a assinar contrato com a CNB mas também fez algumas audições para fora, para outras companhias. Fez tournée pela Suécia, Noruega, Letónia, com O Quebra Nozes, a convite de uma companhia estrangeira. De tudo o que já fez, destaca uma coreografia de Vasco Wellenkamp que era uma homenagem à sua falecida mulher, Pedro e Inês, de Olga Roriz. Também relembra a primeira vez que foi a bailarina principal, no Raymonda. "Foi no Festival ao Largo, no Chiado. Estava nervosa como nunca. Preparei-me muito e adorei a sensação. E também n'O Quebra Nozes, em que dançava do início ao fim, duas horas e tal, com muita técnica, coisas muito difíceis, no Teatro Camões. Na Sagração da Primavera, coube-me o papel principal. Fazia de eleita, era a rapariga que é escolhida para morrer. Esse bailado são 140 e tal saltos num solo... Foram 3 meses de preparação intensa."

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Andreia recorda tudo com o olhar nostálgico de quem ainda nem acredita que já não sobe a um palco há meses. A pandemia pendurou-lhe as sapatilhas mas não a vontade de fazer, de criar. Confinou em Tomar, em casa dos pais. De manhã, nestes meses de clausura, fez aulas em casa, com a barra e outros exercícios para se manter em forma. Mas faltava-lhe ocupação para o resto do dia. Leu vários livros, mas faltava-lhe a criação. E então lembrou-se dos pais e da sua fábrica de costura, que faz, entre outras coisas, as roupas para os espectáculos da Disney. E pensou: "E se eu aprendesse a fazer maillots de ballet?" Os pais reviraram os olhos, tentaram dissuadi-la, que isso era coisa mesmo complexa, difícil a valer. Mas quê? Como explicar a palavra difícil a quem consegue fazer Fouettés? 

Andreia, que até então só sabia coser a direito, sentou-se ao lado da mãe e dispôs-se a aprender. Tinha uma ideia, tentava desenhar a ideia, estudava o molde certo com a mãe, e depois ela ensinava-a a fazer. "Ensinou-me tudo. A cortar o tecido, a juntar peças, a coser. E eu fui aprendendo e aperfeiçoando. E como sou bailarina e sei que há marcas que não me ficam bem e sei exactamente, na pele, o que gostamos e não gostamos, acho que consegui fazer maillots que encaixam mesmo bem. O meu pai, que está no negócio há 30 ou 40 anos, disse que eu nunca havia de conseguir. Ao fim de um mês, e depois de ver a minha persistência e evolução, ofereceu-me uma máquina de costura para levar quando voltasse para Lisboa."

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E assim nasceu a Terpsi (em homenagem à deusa da dança, Terpsichore), uma marca de maillots feitos por esta bailarina confinada, à procura de ocupação. A marca ainda nem tinha página de Instagram e já Andreia não tinha mãos a medir. "Cada bailarina tem 70 a 80 maillots em casa e queremos sempre mais um. De maneira que só com as encomendas dentro da companhia fiquei logo afundada em trabalho. Depois vieram os homens, muito invejosos, pedir também maillots e leggins. Agora, com a criação da página de Instagram, a coisa é mais séria, a ideia é mesmo projectar o negócio."

Em breve, Andreia espera poder voltar aos palcos e a outro tipo de acção, aquela com a qual sonhou toda a vida, e que é a sua grande paixão. Mas quer continuar a desenhar e a fazer nascer as suas peças. Afinal, há novas vidas que nascem, mesmo em períodos de escuridão. 

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O escritório

Durante muito tempo, gostei de trabalhar em casa. Muito. Sou freelancer há 12 anos e, logo a seguir ao prazer de ser dona do meu tempo, veio a satisfação de não ter de sair da minha casa para fazer o meu trabalho. Vejamos: eu gostei de trabalhar em redacções. Durante muitos anos, mais do que gostei! Vibrei verdadeiramente. Aquela adrenalina, o fervilhar de quando acontecia algo no país ou no mundo que punha toda a gente em sobressalto, as histórias contadas pelos velhos jornalistas, que sempre me deliciei a ouvir (e tanto que aprendi!)... Mas quando tive muitos anos disso, ficar em casa foi um bálsamo. Nunca alinhei na coisa de ficar em pijama (só agora, em alguns dias mais cinzentos de confinamento), tomava banho, vestia-me, pintava-me, e sentava-me ao computador logo pela fresca e até ao final do dia. Mantive as rotinas, só não saí do ninho. E gostei. Percebi que a disciplina férrea que a minha mãe me incutiu não me permitiria nunca encostar-me a ver séries ou filmes ou a dormitar o dia inteiro. E resultou, para mim.

Há uns anos, porém, fui desafiada por amigas a partilhar um escritório. E também foi muito bom. Éramos quatro (no início, depois ficámos três), e trabalhámos juntas num T2 no Chiado até o senhorio se lembrar que os tempos de vacas gordas lhe permitiam subir a renda para mais do dobro, ignorando o facto de termos feito obras de renovação que transformaram um espaço inóspito num lugar prazeroso (ou melhor, aproveitando o facto, mas ignorando-nos a nós). E pronto. Pegámos nas trouxas e rumámos a casa. E ficou tudo bem na mesma. Até chegar a pandemia e eu ver o meu local de trabalho ser invadido por 5 pessoas, 24 horas por dia, 7 dias por semana. Sucede que a minha casa não tem escritório, o que levou a que deixássemos de ter sala. Se já era complicado só comigo (que recebo muitas encomendas e sou caótica a trabalhar), com mais 4 miúdos a terem aulas e a quererem estar na sala... foi a anarquia.

Houve um dia em que me pus a pesquisar lojas perto de casa. Não queria ir para longe, estava mais a pensar numa coisa tipo extensão da minha casa. Algo que ficasse à distância de alguns passos, bem pertinho para me escapar sempre que a loucura estivesse impossível de aturar. Até que recebi uma mensagem de uma das minhas amigas mais antigas (mais antiga que ela só mesmo outra - uma conheço há 44 anos, a outra há 42): "Tenho um loft espectacular para ti no Sítio Alto de São João. Com estacionamento e tudo. Liga-me e falamos." E pronto. A minha vida (ou uma parte dela, vá) estava à beira de mudar - e eu nem fazia ideia.

Assim que cheguei ao Sítio, fiquei logo com a pulsação acelerada. Era um centro de escritórios, sim, mas não com aquele ar formal e certinho dos centros de escritórios. Fazia lembrar Chelsea Market, louco, cool, artístico, criativo. Nos corredores havia secadores de cabelo pendurados, uma bicicleta de ginástica antiga, um saco de boxe. Na entrada um contentor a fazer de bar, e depois um terraço enorme, comum. IMG_6381.jpgIMG_6382.JPGIMG_6384.JPGIMG_6008.JPGIMG_6450.jpgIMG_6383.JPG

Depois de mostrar os espaços comuns, mostrou-me alguns lofts - uns enormes, a darem para o terraço, outros mais pequenos. E pronto. Fiquei apanhada pelo Sítio. E passado algum tempo, estávamos a assinar contrato. Este foi o espaço que ficou logo mais ou menos definido que seria o meu.IMG_6020.JPGIMG_6021.JPG

Entre o assinar contrato e poder começar a pôr o espaço ao meu gosto, estive a decorá-lo na minha cabeça. Como sofro de intensidade em demasia, passei horas a pensar e a escolher cada peça  (sou mesmo insuportavelmente intensa - sejam coisas boas ou coisas más, quando estou envolvida em determinado assunto, deixo de dormir, só penso nesse tema, fico imersa naquilo até ao enjoo). Tintas, cores, sofá, mesa de reuniões, mesa de trabalho para mim, um móvel de casa da minha mãe (que lixei e pintei), um quadro pelo qual me perdi de amores, um espelho, uma máquina de escrever com 100 anos, uma estante para colocar a minha colecção de DNAs, um espaço mais de leitura e outro mais girly, tapetes, candeeiros. Nada foi deixado ao acaso, nada foi escolhido só porque sim. 

Tinha pensado alisar eu mesma as paredes (algumas delas tinham tinta de areia e eu queria alisar) e fazer a pintura, mas um dia olhei em redor e percebi que não seria muito esperto tratar sozinha de tudo, uma vez que apesar de serem apenas 40m2, o pé direito do meu escritório novo tem 5 metros. Antes desse momento de epifania, tinha sido contactada por um representante das tintas Kerakoll (de que nunca na vida tinha ouvido falar, sou franca) a oferecer-se para me entregar a tinta da cor escolhida, bem como a massa para alisar as paredes. Aliás, acho que foi quando vi chegar dois sacos de massa lá a casa (tipo saco de cimento) que pensei: epá... em calhando não sou menina para fazer isto. Liguei então ao senhor Luís, que nos tinha posto o chão novo no terraço de casa, e perguntei-lhe se achava que eu conseguia alisar as paredes. Riu-se. Explicou então que é coisa mesmo difícil, é preciso ter uma mão muito treinada porque se fazem dois barramentos e o segundo tem de ser muito fininho, para que a parede não fique às ondas. Ok, percebido. Pedi então orçamento para alisar e para pintar. Ele foi lá, mediu, fez contas e quando me disse o valor do alisamento das paredes... esqueci-o imediatamente. Que se lixe o alisamento! Fica como está, pois claro, então tinta de areia não é tão bonito? Ora, pois, com piquinhos, se a pessoa acaso tiver uma comichão nas costas pode sempre esfregar-se na parede e está o assunto resolvido, disparate agora alisar algo tão lindo e funcional. E assim foi. Pintou-se, apenas, e já foi um regalo.

Falando em pintura, dizer que o Jorge Francisco, da Kerakoll foi espectacular. Eu que não conhecia as tintas fiquei impressionada com o facto de serem líderes internacionais no mundo Greenbuilding que é - o nome está mesmo a dizer - construção com preocupações ambientais. Eles levam o assunto muito a sério, levando a cabo estudos de âmbito biomédico, epidemiológico, pneumológico, impacto ambiental e qualidade do ar interior, fomentando parcerias científicas com universidades.

Na verdade, e se pensarmos bem, nunca como hoje a qualidade do ar interior foi tão importante, quando cada um de nós passa mais de 90% do seu dia fechado entre 4 paredes (quando escrevo isto fico horrorizada, mas é a cruel realidade). O crescente uso de materiais sintéticos nas nossas casas e as medidas de conservação de energia que reduzem a quantidade de ar exterior fornecido, originam a Síndrome do Edifício Doente. Neste sentido, a Kerakoll desenvolveu linhas de materiais de construção naturais que melhoram a qualidade do ar interior, evitando a proliferação de fungos, bolores e bactérias, garantindo uma elevada qualidade higiénico-sanitária dos edifícios. Entre as fontes que afetam a qualidade do ar interior estão os compostos das tintas e, tendo essa questão como preocupação de base, a Kerakoll utiliza pigmentos seleccionados e as pastas e corantes são totalmente de base aquosa, respeitando o ambiente e as pessoas. As tintas são ainda permeáveis ao vapor de água, laváveis e resistentes a fungos. Muito obrigada ao Jorge, da Kerakoll, por me ter dado a conhecer esta tinta e, assim, contribuir para um ar mais respirável dentro do meu novo espaço de trabalho, onde tenciono passar muito tempo da minha vida.

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Além de pintar, pedi também ao senhor Luís (da Versatilorbis) orçamento para reforçar a mezzanine (que tinha um chão fininho, mesmo a pedir para vir cá parar abaixo) e para lhe colocar um varandim (porque não tinha protecção alguma) e, apesar de não me apetecer gastar muito com obras num sítio que um dia posso deixar para trás (não me esqueço das obras que fizemos no escritório do Chiado e do pontapé no rabo que levámos do senhorio - espero que aqui não aconteça mas é óbvio que não posso perder de vista que isto não é meu, é apenas temporariamente "meu"), apesar disso, não queria ter uma mezzanine onde não pudesse andar com medo de cair e que não servisse para nada. Adjudiquei também essa obra e em 3 dias estava tudo feito.

Enquanto os homens trabalhavam, pus mãos à obra para construir um painel de livros para uma parede. A ideia não é minha mas vi-a algures e nunca mais me esqueci. Pedi autorização para ficar no espaço polivalente a fazer "arte". Pus um painel de madeira comprado no Leroy no chão e depois fui estudando que livros cabiam, como ficavam melhor, pus uns novos ao lado de uns velhos, fiz uma espécie de Tetris. E depois, quando ficou decidida a disposição, comecei a colá-los, um a um. Tinha comprado uma super-cola, que me garantiram colar até lavatórios, de maneira que confiei. Quando terminei, pus outra placa de madeira por cima, uns tijolos, e deixei ficar de um dia para o outro.

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No dia em que os homens que fizeram a obra se foram embora, à mesmíssima hora, chegaram os homens com os móveis. Além desses, fui buscar um móvel enorme a casa da minha mãe, que está na casa de férias dela mas que existe desde que eu nasci (e estava na casa onde cresci). Era um móvel de madeira escura, que meti na cabeça que havia de pintar de encarnado, porque vi imensas fotos e outros tantos vídeos de recuperação de móveis antigos e encontrei alguns que foram pintados de encarnado e achei mesmo giro. O móvel é feito de 4 peças diferentes: uma base inteira, com mais de 2 metros de comprimento, e depois 3 estantes com prateleiras e armários que se fixam em cima dessa base. Lixei tudo, pintei com primário, dei duas ou três demão de encarnado. E a seguir, montei todos os móveis da Ikea, todos, até ter todos os dedos em ferida, calos nas mãos e unhas a esfiaparem. Mas um prazer.... do tamanho de todos os sonhos. 

Como sou pessoa de pensar muito nas coisas - em todas as coisas (chataaaa) - usufruí muito daqueles dias de construção. Porque não há nada que seja mais promissor do que um início. Um início promete tudo, ainda que depois não cumpra nada. Um início é uma página em branco - pode vir a ser um bestseller ou acabar amarrotada no lixo. Um início pode vir a ser uma vitória ou uma derrota, mas promete sempre ser uma vitória porque o início é feito de sonhos, não de pesadelos.

Vai daí que pensei que talvez fosse melhor desfrutar à bruta daquele início, do prazer de estar sozinha num espaço vazio e silencioso, todo ele início, a lixar, pintar e montar móveis, todos eles início também. E tive medo que essa fase terminasse, ainda que depois fosse um prazer usufruir do espaço todo decorado por mim. Tive medo de sentir aquela tristeza pelo fim do início (que acaba a ser também, de certo modo, o início do fim, mesmo que o fim esteja ainda longe - esperemos). Felizmente, não aconteceu. Estava de tal modo exausta de meter as mãos na massa, que já só queria sentar-me à secretária a trabalhar naquele que é o meu ofício: escrever. E voltar a fazer nascer muitos inícios, desta vez no papel. 

Levou um mês, a ficar tudo pronto. E eu acho que está lindo. As fotos são da minha querida amiga Inês CM, da Afterclick (menos a primeira, que é minha, não fosse agora a carreira da mulher ficar arruinada por uma foto sem condições).

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A máquina de escrever tem 100 anos e tem lugar de destaque, com uma frase feita com palavras de metal que foram a minha primeira compra para o escritório, e um candeeiro com uma lâmpada (porque as ideias nos remetem, desde os desenhos animados, para a imagem de uma lâmpada).

O quadro é da Marta Pinho Fernandes. Ela já me tinha desenhado, uma vez, e ofereceu-me o quadro. Desta vez, fui eu que - como a passei a seguir - vi este quadro e vidrei! Aquela menina era eu: sempre a escrever, sentada no chão do meu quarto. E aquela máquina era igual à minha. Perguntei o preço e comprei. Ela veio trazer-mo e aproveitou para conhecer o espaço (ainda estava muita coisa por fazer).

Ao lado do painel dos livros, coloquei o primeiro DNA emoldurado. Tem a data de 1 de Dezembro de 1996 e eu fiz parte dele desde o início até ao fim (em 2006). O DNA, para quem não sabe, foi o suplemento de sábado do Diário de Notícias durante 10 anos. Os melhores anos da minha vida profissional. Esta foi uma homenagem a esses anos, ao Pedro Rolo Duarte, seu mentor e director, e meu amigo de quem tenho tantas saudades. E valeu também pela metáfora. A capa diz "Nascer" e é justamente o que eu quero que aconteça aqui: um novo nascer, ou pelo menos um espaço onde nasçam coisas bonitas. 

 

E é isto. Agora... arregaçar as mangas e escrever coisas boas. A ver vamos se este início culmina num bom fim. 

 

Histórias da Quarentena #8

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E, de repente, a arte foi interrompida e cresceram plantas no seu lugar. Aspargus Setaceus em vez de concertos, Cotuledon Orbiulatas no lugar das luzes, colunas e parafernália técnica, Philodendron Erubescens a invadir espaços onde antes se planeavam tournées. Natureza a subsitutir a música, o teatro, as formas de expressão humana. Silêncio no lugar do som. 

Bruna Duarte, 33 anos é manager de artistas e Catarina Esperança, 36 anos, é produtora de espectáculos na UAU. Acontece que a pandemia fechou a cultura a sete chaves, baixou panos, desligou luzes, câmaras, e congelou a acção. Catarina estava a produzir a "Peça Que Dá Para o Torto", um nome ironicamente apropriado já que a peça foi, com efeito, dando para o torto de todas as vezes que foi adiada, pelos avanços da Covid e pelas medidas do governo. Foi como se, de um dia para o outro, alguém carregasse no "Pause" de um qualquer comando da vida e as deixasse a ambas assim, estagnadas, em modo "freeze". 

Só que, no caso da Catarina Esperança, o bicho carpinteiro consegue ser mais forte que o bicho Sars-Cov-2. Inventa coisas para fazer mesmo quando tudo parece mais parado do que o Bairro Alto a um sábado à noite, em tempo de confinamento. E entre as várias coisas que inventou para fazer, Catarina começou a transformar plantas em Kokedamas. Plantas que crescem numa espécie de bolas (damas) de musgo (koke, em japonês). No fundo, plantas confinadas, como nós. A ideia original é que fiquem suspensas, como se voassem, plantas confinadas mas em permanente levitação (como nós, confinados mas sempre a sonhar com futuros voos), mas também podem ser colocadas numa qualquer superfície, uma mesa, um parapeito, um soalho. Um dia, Catarina levou uma Kokedama para oferecer à amiga Bruna Duarte, e ela, que tende a ver negócios em quase tudo, não hesitou: "Isto é lindo! Temos de fazer qualquer coisa com isto! Está aqui um negócio!"

Bruna ofereceu-se para trabalhar as redes sociais do putativo negócio, mas Catarina, que não tinha pensado nas suas kokedamas em versão lucrativa, quis que avançassem a meias. Começaram então a fazer experiências. Com as plantas da mãe, da avó, da amiga. Umas davam melhor, outras não tão bem. Pensaram nos preços a pedir pelas plantas, pensaram nos nomes a dar a cada uma, para não se apresentarem com as designações científicas, em latim, pensaram no nome da marca. E a 14 de Maio de 2020 nasceu a Muski, um nome facilmente associável a algo ternurento, com o acréscimo do "ki", que reporta ao Qi oriental que significa "força vital". 

O negócio foi crescendo, devagarinho, até ao dia em que o Nuno Markl fez uma publicação e, assim, deu a conhecer a Muski a mais de 700 mil pessoas, como se fosse um borrifo de adubo que fizesse as kokedamas crescer. As encomendas dispararam e as sócias, que tiravam dois dias por semana para cuidar da Muski, passaram a ter um trabalho diário, entre criar a planta no seu ninho, embalar, enviar, responder a emails, tratar da faturação. 

Cada kokedama é uma espécie de pequeno tesouro. Uma fonte de vida que brota de um lugar sombrio e escuro, quase como um capricho, uma força indómita. Não me canso de usar a comparação com a vida que temos vivido, concluindo que, mesmo dos lugares mais umbríferos, pode brotar vida e beleza. As kokedamas podem ser a nossa metáfora perfeita. Elas que principiam no escuro mas crescem para a luz, dando vida ao que antes era vazio e silêncio. 

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Prisão segura/ liberdade mortal

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Há uma história da minha infância que por vezes revisito, com ternura, e que espelha bem quem sou, desde tenra idade. Teria uns 5 ou 6 anos e lembro-me de passar muito tempo a olhar para uma gaiola que a minha avó materna tinha na cozinha. Inquietava-me a vida daquele periquito, angustiava-me o inútil bater das suas asas, fazia-me falta de ar o seu cárcere sem crime. Um dia, empoleirei-me numa cadeira, abri a gaiola e dei-lhe um empurraozinho para a liberdade. “Vai!”

Sucede que em casa da minha avó havia uma gata, chamada Pirulita. Atenta, mal vislumbrou o pássaro fora das grades, impulsionou as felinas patas traseiras e abocanhou a ave no seu voo inaugural, deixando-me perplexa, triste e esmagada pela culpa. Por minha causa, o periquito tinha morrido.

Seguiram-se algumas infantis considerações sobre o que seria melhor, a vida em cativeiro ou um único voo, ainda que para a morte, considerações que talvez não tenha feito logo mas que fui elaborando ao longo dos anos, sempre que recordava este episódio. De qualquer modo, aquela foi uma lição que levei para a vida e que se aplica até a estes dias de confinamento: não gosto de estar presa, ninguém gosta, mas neste momento a liberdade pode significar coisa pior. Aninho-me na gaiola e vou cantando, como fazia o pássaro da minha avó na sua prisão segura. Melhores dias virão, com voos sem gatos à espreita.