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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Conta-me #12

- Tô?

- Alô...

- Alô... que voz é essa?

- Oh.

- Então? Estás a assustar-me. Alguma coisa grave?

- Não... o costume.

- Ah... sério? Outra vez?

- Yep.

- Oh, merda. Como é que estás?

- Mal. 

- Oh, querida... eu continuo a achar que é uma fase... que é stress. Que não tem nada a ver contigo, convosco.

- (soluços)

- Ooooh, não chores... a sério. Já viste bem o stress em que ele anda? Com aquilo da empresa, a história toda do pai, os irmãos... não é fácil. 

- Eu sei.

- Tu sabes mas continuas a inventar outras razões.

- Não é isso, Sofia... não é inventar. Sei lá. E se existem mesmo outras razões? E se estamos a tapar o sol com a peneira? E se simplesmente já não sente desejo, e se já não me vê desse modo?

- Ana. Ana. Tu acreditas mesmo nisso? Assim, de um momento para o outro?

- Não é bem de um momento para o outro! Já lá vão 6 meses disto!

- Seis meses? Já? 

- Já! Vês?

- Calma. Mas nestes seis meses nunca...

- Nunca! Ele simplesmente não consegue. Até começamos bem mas depois... puff. Achas mesmo que pode ser só stress? Não pode, Sofia. Ele tem outra pessoa, de certeza.

- Lá estás tu. Já falámos sobre isto. Já te perguntei isto. Há mais algum indício, sem ser esta... esta incapacidade dele... há mais algum indício de que possa ter outra pessoa? Viste o telemóvel dele?

- Oh. Tu sabes que eu não faria isso. Mas a verdade...

- A verdade?

- A verdade é que até já isso me passou pela cabeça. Vasculhar as coisas dele para descobrir quem será a puta.

- Ana. Não há ninguém. Sou menina para apostar. 

- Cuidado com o que apostares...

- Vá, talvez não aposte nenhum órgão, nenhum membro... 

- (risos)

- Mas aposto... 100€.

- Ah ah ah. Cem euros? Epá, até percebo que não queiras apostar um rim, mas... cem euros também me parece pouca confiança! 

- (gargalhadas) Pronto, 500€, vá! Filhinha, a vida não está fácil. Sabes como é que isto anda.

- Pois é, desculpa. Com isto tudo nem te perguntei como é que estás, como é que estão as coisas?

- Esquece. Não vamos falar nisso, que na merda já tu estás.

- Está assim tão mau?

- Pfff... esta semana, se entraram três pessoas na loja foi muito.

- E compraram alguma coisa, ao menos?

- Nada. Reviraram isto tudo, vestem, despem... e adeuzinho, muito boa tarde.

- Que cena. Isso deve dar cabo da cabeça, estar aí o dia inteiro e não entrar ninguém.

- Cala-te, mulher. É de cortar os pulsos. Vá, mas isso agora não interessa. Estávamos a falar de ti.

- De mim, não. Da pila do meu marido que está morta. Bom, pelo menos para mim.

- E lá vem ela outra vez! Está adormecida, não há-de estar morta! E não é só para ti.

- Achas que também fica mole com a outra?

- Aaaaaaaai! Chata mais a outra! Qual outra??? Olha, tu sabes que eu tenho um sexto sentido para estas coisas e não acredito mesmo que o Pedro tenha outra. Coitadinho... olha que ele também se deve sentir muito mal. Como é que ele fica, quando aquilo não... coiso?

- Fica mal. A suar e não sei quê. Diz que fica nervoso e que quanto mais vezes falha mais nervoso fica. E desta última vez, que foi ontem, até chorou.

- Ai, pá, que horror. Já viste?

- E eu? Já imaginaste? Eu ali toda armada em sensualona, a fazer carinhas e gemidos e a subir e a descer... ontem, vesti um kit todo sexy, um mesmo de porquita que ele gosta imenso, ou gostava, já nem sei, e nada! Nada! E eu ali às voltas e a pensar: "não te enerves, Ana, não desistas, faz de conta que és uma terapeuta, uma médica, qualquer coisa, estás a tentar ajudá-lo, concentra-te, ele vai chegar lá, ele vai conseguir, macacos te mordam, Ana Maria, se ele não vai conseguir!" E... não conseguiu!!!! E eu vestida de puta, ali deitada ao lado dele, a sentir-me ridícula naquela roupa, completamente humilhada, sem pinga de sensualidade, sem pinga de decência, a puxar os cobertores para ele não me ver mais naquela figura (ou para eu própria não me ver mais naquela figura). Opá... ninguém merece. (choro) Não desejo isto ao meu pior inimigo, Sof! Ao meu pior inimigo!

- Ai, mulher, realmente. (silêncio) Que cena... E irem ao médico? Já lhe falaste nisso?

- Eu não! É como te digo: tenho para mim que o problema sou eu. Se não fosse - olha que agora é que lembraste bem! - tu não achas que se não fosse eu o problema ele não era o primeiro a dizer que tinha de ir ao médico? Mas não... ele não diz nada. Diz que está cansado, que está nervoso. Está bem, abelha. Não sei quanto tempo mais vou conseguir aguentar isto, Sofia. Juro que não sei. (soluços)

- Oh, querida... vou ter contigo. Pode ser? Fecho a loja - assim como assim também ninguém aparece - e vou já para aí. Hoje é dia do turno dele, não é?

- (fungando) É. 

- Pronto. Levo o jantar e ficamos aí as duas, a conversar. Vamos pensar numa maneira de dar a volta a isto. Não gosto nada de te sentir assim, tão triste. Já aí passo, ok?

- Ok.

- Vá, beijinho. Até já.

- Até já. Obrigada.

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*Conta-me é uma rubrica do blogue Cocó na Fralda com contos escritos pela autora (podem ver todos na pasta na parte superior do blogue, que diz "Conta-me")

Medo

"Temos muitos medos. De quê? Temos medo que nos magoem, temos medo da humilhação. Temos medo de falhar e temos medo do sucesso. Temos medo da solidão e temos medo das relações. Temos medo de ouvir o que os nossos corações nos dizem. Temos medo de ser infelizes e de ser demasiado felizes. Temos medo de não ter a aprovação dos nossos pais e temos medo de nos aceitarmos como somos realmente. Temos medo da doença e da sorte. Temos medo da nossa inveja e da abastança. Temos medo de alimentar esperança de conquistar coisas que depois podemos não conseguir. Temos medo da mudança e temos medo de não mudar. Temos medo que alguma coisa má aconteça aos nossos filhos, aos nossos empregos. Temos medo de não ter controlo e temos medo do nosso próprio poder. Temos medo de quão breve é a nossa vida e do tempo infinito em que vamos estar mortos. Temos medo de que, depois de morrer, não tenhamos sido relevantes. Temos medo de ser responsáveis pelas nossas próprias vidas. Por vezes leva tempo até assumirmos os nossos medos. Especiamente perante nós próprios."

Lori Gottlieb, "Maybe You Should Talk to Someone".

Gestos que me conquistam

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Boooom... e lembram-se daquela acção "Olhar por Moçambique" de que aqui falei? Sobre recolher óculos que tivessem aí por casa para depois ganharem nova vida e irem para aquele país africano, direitinhos para quem mais precisa? Pois bem, no dia 6 partiu para Moçambique uma equipa de profissionais da MultiOpticas, incluindo optometristas e técnicos, que estão a realizar rastreios visuais nas escolas da região de Nampula e a distribuir às crianças e às famílias que deles necessitem os óculos recolhidos já recuperados e os modelos oferecidos pela MultiOpticas (por cada par óculos recolhidos a MultiOpticas ofereceu um par novo). Só tenho pena de não me ter colado a esta equipa e ir lá, ver isto tudo acontecer. Deve ser mágico devolver a visão plena a quem a tenha deficitária. Deve ser incrível ver óculos que já não serviam para nada ganharem nova vida.

A HELPO é a parceira perfeita no terreno, tendo já vários anos de experiência na região. A MultiOpticas associou-se também ao empreendedor, viajante e orador, André Leonardo, que irá dar uma palestra e promover ações na Universidade de Nampula para os alunos do curso de optometria. A MultiOpticas irá ainda apoiar esta população em idade escolar com a oferta de 2 bolsas de estágio a alunos de Optometria do 3º ano e equipamentos à Universidade do Lúrio. 

A visão é o sentido que mais prezo. Esquecemo-nos tantas vezes da sorte que temos por possuirmos esta capacidade, de ver tudo o que nos rodeia, que muitas vezes nem o valorizamos como devíamos. Não ver de todo, ou ver mal torna a vida muito, mas mesmo muito mais dura. Consegue-se, claro, mas é incomparável com o privilégio de ver bem. Por isso, o meu muito obrigada à MultiOpticas por estar a ajudar estas pessoas, permitindo que vejam a vida... com outros olhos!

Hoje celebra-se o Dia Mundial da Visão e nunca é demais lembrar que as consultas visuais são sempre gratuitas na MultiOpticas e estão disponíveis nas mais de 200 lojas por todo o país. Pessoalmente acho isto notável. Porque nem todas as pessoas que marcam uma consulta para avaliar a sua visão vão efetivamente precisar de óculos. E mesmo as que vão precisar de óculos irão comprá-las na MultiOpticas. Pelo que... só a existência deste serviço gratuito já é coisa para me aquecer o coração.  

Podem seguir a Missão Olhar por Moçambique nas redes sociais da MultiOpticas ou aqui.  

Para marcar uma consulta gratuita podem fazê-lo aqui 

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Histórias Viradas do Avesso

Acabou de nascer o meu novo livro. Chama-se "Histórias Viradas do Avesso" e estou mesmo feliz com ele. Está mesmo querido, muito por culpa da Célia Fernandes, que fez umas ilustrações mesmo catitas para as minhas histórias malucas. Um grande beijinho para ela e parabéns pelo bom trabalho!

Como nem todas as pessoas que me lêem aqui acompanham o meu Instagram, passo a explicar um pouco como nasceu este novo "filho".

Um dia, já nem sei bem como, pensei: será que consigo criar histórias para crianças e lê-las no Instagram, naquele minuto único que a rede social nos permite para fazermos vídeos? (bom, claro que depois há o IGTV e as Stories mas a ideia era mesmo cingir ao 1 minuto que se pode ter no Feed). Vai daí e comecei a inventar histórias, a escrevê-las e a lê-las, em vídeo. Leio à noite, como se fossem histórias daquelas que se lêem antes dos miúdos irem para a cama, e leio-as com o Mateus e a Mada ao meu lado, captando as expressões naturais de quem está a descobrir uma história pela primeira vez. Chamei a esta rubrica "Histórias num Minuto".

À medida que ia fazendo isto, houve quem começasse a pedir para que reunisse todos os contos num livro. "Para quando um livro com estas histórias?" era quase sempre a pergunta em todos os vídeos. A editora Zero a Oito gostou da ideia e vai daí... nasceu este livro com mais de 50 destas histórias curtinhas, mas quase sempre com uma lição. A minha ideia é mostrar que todos temas, mesmo os que podem ser considerados mais sensíveis, são na verdade tão simples que podem ser abordados num único e singelo minuto. Nós, os adultos é que tendemos a complicar. Da igualdade de género ao racismo, passando pela deficiência, sem esquecer a homossexualidade, o divórcio, o medo, a maldade, a falta de tempo, o vício dos telemóveis, a falta de auto-estima... tudo isto e muito mais é abordado neste livro, em histórias que podem efectivamente ser lidas num minuto, mas que ganham ainda mais se forem lidas com outro fôlego, e ainda mais ganham se puderem ser conversadas a seguir. Também podem ser lidas duas ou três ou mais de seguida, porque são mesmo curtinhas e, assim, sempre se prolonga mais um pouco aquele momento gostoso entre pais e filhos (ou avós e netos, ou seja quem for que vai ler as histórias às crianças).

E pronto. Ele aqui está. À venda das livrarias e grandes superfícies e também na Wook. Lindinho de sua mãe. 

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Em breve digo quando e onde será o lançamento. Gostava muito de vos ter por lá. 

Lembram-se do Campabilities?

Lembram-se de uma reportagem que fiz e publiquei AQUI sobre um extraordinário campo de férias para crianças e jovens cegos e para crianças e jovens que vêem? Em que os visuais são os monitores dos cegos? Em que existe uma ligação absolutamente notável entre uns e outros, em que os que vêem percebem que, afinal, e em muitos casos, não ver é só não enxergar com os olhos mas que os outros sentidos, a força de vontade e o coração fazem o resto? Se não leram... convido-vos a ler.

Nessa reportagem, falei das dificuldades com que se debate a AAMA, a associação responsável por estes campos. Tudo é pago e os apoios escasseiam. Gostava muito que viessem comigo a este jantar de angariação de fundos. Será que há por aí quem queira juntar-se a mim à mesa, para apoiar a AAMA e ver se os campos de férias (entre todas as iniciativas que têm em mãos) continuam. Relembro que a AAMA é uma associação sem fins lucrativos (IPSS- Instituição Particular de Solidariedade Social), que apoia crianças, jovens e adultos com deficiência e outras necessidades especiais, no âmbito desportivo, terapêutico, recreativo, educacional e formativo. Alguém se junta? Jantamos?

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Clubes de Leitura de Lisboa e Porto: Crime e Castigo de Dostoiévski e outras obras

Quer em Lisboa, quer no Porto houve um sentimento generalizado de uma certa estranheza em relação ao clássico "Crime e Castigo", de Fiodor Dostoiévski. A esmagadora maioria não leu, deixou a meio, desistiu, revirou os olhos. Nos dois grupos de Muitos confessaram que só terminaram por se terem comprometido no Clube, mas que se não fosse isso não lhe teriam dado uma segunda oportunidade.

No Porto já não me lembro bem se houve alguém que tenha gostado mesmo muito (não sei dos apontamentos, raios partam!) mas em Lisboa houve, a Beatriz Palhais. O que mais a impressionou foi o modo como o autor nos arrasta para a confusão mental do protagonista, o delírio, as suas decisões que oscilam a cada instante, a instabilidade sufocante que nos contagia. Ela tem razão. Dostoiévski consegue fazer um verdadeiro ensaio sobre a psicologia humana, levando-nos a cogitar sobre as questões morais, éticas, sobre a culpa, sobre o facto de Raskolnikov defender que o assassinato de uma pessoa reles pode ser moralmente acertado se o objetivo for nobre. Por outro lado, o que se demonstra é que, talvez se estivesse isolado do mundo, o protagonista conseguisse refugiar-se no seu pressuposto moral de ter liquidado alguém que não andava cá a fazer nada. O "pior" é que vive em sociedade, uma sociedade que julga, que recrimina. E é pelo julgamento alheio que Raskolnikov mais teme, não tanto pelo seu próprio.

Entretanto, no Porto, já houve novo encontro, desta vez para analisar vários livros, já que a leitura era livre.

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- "Não se Encontra o Que se Procura", Miguel Sousa Tavares. A Conceição garante que é um excelente livro para se mudar a opinião sobre Miguel Sousa Tavares, caso a opinião não seja muito boa. "Eu sempre o achei um arrogante e ao ler este livro passei a gostar dele. Há aqui o mostrar de um outro lado, de que gostei."

- "O Estrangeiro", Albert Camus - Já foi uma das leituras "obrigatórias" do clube de leitura de lisboa e dividiu a audiência. Eu adorei, mas houve muita gente que não gostou nada. A estranheza do protagonista, para quem tudo parecia rigorosamente indiferente mexeu muito comigo (positivamente), mas também mexeu com os nervos de muita gente. A Conceição gostou muito.

- "Ao Sol de Tânger", Christine Mangan - A história de duas amigas. Uma visita a outra, em Tânger, para onde foi viver. A visita é inesperada e traz consigo histórias do passado. E de repente tudo é enigma e dúvida e inquietação.

- "A Origem", Dan Brown - Perguntas e respostas fundamentais da existência humana, através da chave de sempre de Dan Brown: um professor de História que desvenda segredos obscuros para conseguir apurar a verdade sobre o passado e sobre o futuro da Humanidade.

- "Pequenos Fogos em Todo o Lado", Celeste Ng - Uma mulher chega com a sua filha adolescente a uma cidade perfeita, desenhada a régua e esquadro. Tudo ali bate certo, tudo tem regras, tudo funciona como um relógio suiço. Só que...  por vezes a ordem pode ser transtornada pela vida. E talvez a ordem não seja assim tão real. Um livro lindíssimo que nos fala sobre o julgamento da vida dos outros e sobre a justificação sobre aquilo que somos. A Cláudia adorou.

- "O Estranho Caso do Cão Morto", Mark Haddon - Chistopher Boone é o narrador deste magnífico romance, tem apenas 15 anos e sofre de autismo. O livro é impressionante porque é escrito como se fosse o olhar de um autista, com a sua visão directa, sem filtros ou nuances. Um assasinato despertá-lo-á para uma longa odisseia que o irá ajudar a descobrir qual o seu verdadeiro papel no mundo.

- "A Máquina do Tempo", H.G. Wells - Um cientista tem uma máquina que lhe permite viajar no tempo. No futuro, ele vislumbra uma trágica sociedade dividida em dois: os preguiçosos e pacíficos Eloi e os bárbaros e predadores Morlocks. Uma crítica social sobre as consequências do fosso crescente entre classes e para a exploração e miséria humanas. 

- "Lá, onde o Vento Chora", Delia Owens - Kya tem 6 anos quando vê a mãe sair de casa para não mais voltar. A menina cresce e aprende a viver sozinha, totalmente isolada. Quando o charmoso Chase Andrews aparece morto, todos os dedos apontam na direção de Kya, a miúda do pantanal. E o impensável acontece. A autora relembra-nos, neste romance de estreia, que somos formatados pelas crianças que fomos. 

- "A Luz da Guerra", Michael Ondaatje - A história começa no final da 2ª Guerra Mundial. Nathaniel, de 14 anos e a sua irmã mais velha, Rachel, são abandonados pelos pais que saem do país para ir trabalhar e os deixam à guarda do "Traça" e outros criminosos. A história trata o crescimento destes dois miúdos, os traumas e as misteriosas razões para terem partido. Que atroz realidade está Nathaniel para descobrir?

- "O Caminho Perfeito", José Luís Peixoto - Auto-biografia que viaja entre os relatos íntimos e uma viagem à Tailândia. O turismo e a viagem interior. A cultura, sociedade, história e as memórias pessoais. 

- "A Missão", Ferreira de Castro - Passa-se no sul de França, durante a ocupação alemã. Há dois edifícios iguais, um é uma fábrica, o outro é um edifício onde vivem missionários. Até que surge um dilema moral: devem pintar no telhado a palavra "missão" para escaparem ao bombardeamento? Se sim, é certo que a fábrica será bombardeada, com todas as mortes e destruição familiar inerentes. Mas se não pintarem a palavra, eles também poderão morrer, perdendo-se assim um capital de apoio aos desvalidos da guerra e de salvação das almas. O Paulo adjectivou este livro de notável e fascinante. Uma relíquia.

- "Mulheres que Correm com os Lobos", Clarissa Pinkola Estés - Existe no interior de cada mulher uma força poderosa. A autora pega em lendas, contos populares e histórias, e demonstra essa força, por vezes escondida, por vezes abafada pela sociedade. A Inês está a ler este livro, que lhe está a dar força para um momento muito particular da sua vida, que teve a generosidade de partilhar connosco. 

- "Deixa-me Mentir", Clare Mackintosh - O Diogo não adorou, o que me deixou a mim um pouco desiludida (se bem que vou ter de ler primeiro, para ver se concordo com ele). É que Clare Mackintosh escreveu um livro com um título péssimo em português mas que foi um thriller que adorei ("Deixei-te ir"). A história é sobre uma mulher que julgava que os pais se tinham suicidado mas que, entretanto, recebe um bilhete que diz o contrário. Um livro cheio de reviravoltas em que nada é o que parece. O Diogo diz que o livro às tantas vai perdendo o gás, quase como se a autora tivesse sentido vontade de acabar com aquilo depressa (como me revejo!)

- "Números que Contam Histórias", André Rodrigues - Um livro de cultura geral em que os números são as personagens de histórias verídicas. Exemplos? Sabia que, se o ser humano conseguisse utilizar o cérebro na capacidade máxima, armazenaria 4,7 mil milhões de livros? Ou que a Rússia é tão grande que tem 11 fusos horários, o que faz com que de um lado do país haja habitantes que se sentam à mesa para jantar quando do outro há gente a despertar de uma noite de sono? Um livro repleto de curiosidades... com números.

- "Harry Potter e os Talismãs da Morte" e "Os Contos de Beedle, o Bardo", J.K. Rowling - Nunca é tarde para ler os livros de Harry Potter e o Diogo até queria que fosse o nosso livro único numa das próximas edições. Está em análise. :)

- "A Fábrica das Bonecas", Elizabeth Macneal - Íris sonha ser artista e, um dia, acaba a ser convidada por um pintor para ser modelo. Ela aceita, com a condição de que o pintor também a ensine a pintar. De repente, o mundo de Íris transforma-se numa experiência dominada pelo amor e pela arte. Mas... (há sempre um mas) tudo pode ruir porque há encontros que podem mudar tudo, ainda que pareçam não ter qualquer importância.

 

Prémio para o Diogo que, como sempre, levou uma mochila cheia de livros (e também porque passou uma hora e meia no trânsito para conseguir chegar ao clube )

Obrigada ao Brown's Hotel, em Lisboa, que nos recebe sempre tão bem na capital.

Obrigada ao Vila Galé Porto, que nos recebe sempre tão bem na invicta.

E, claro, obrigada à MultiOpticas, que apoia estas iniciativas literárias, sempre de olhos postos nos nossos. 

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"Aquela coisa", todas as noites

Há coisas que acontecem na nossa vida sem que saibamos muito bem como acontecem. Simplesmente sucedem e, no lugar de questionarmos ou rejeitarmos esse acontecimento, por muito peculiar ou inusitado que nos pareça, aceitamos.

Foi o que se passou com a minha filha Madalena. A Mada acredita em Deus, gosta de rezar e isso, para mim, nunca foi uma questão. É óvio que me surpreendeu, que ainda estou para perceber como é que isto aconteceu, mas aceito, ajudo, estou cá para a apoiar naquilo que faz sentido para ela, ainda que me seja estranho, ainda que não me esteja entranhado, ainda que não saiba bem como fazer.

Assim, instituímos o ritual de rezar todas as noites. E, assim, nasceu mais um potencial "beato". O Mateus. Quando nos deitamos e ela está cravejada de sono, capaz de se virar para a parede e dormir, é ele quem lembra:

- Então e aquela coisa?

- Que coisa?

- Rezar!

E lá rezamos. Um Pai Nosso (que ele já sabe, apesar de ser hilariante ouvi-lo porque falha quase todas as terminações), um "Anjo da Guarda, minha companhia, guardai minha alma, de noite e de dia", um pedido de saúde para toda a família e amigos e um agradecimento pelo tanto que temos. Segue-se o melhor e o pior do dia, de cada um de nós os três. E é amoroso ouvi-los dizer coisas como: "O pior foi quando a mãe ralhou" ou "o melhor foi quando joguei à bola com a mãe no recreio, quando me foi buscar", "o melhor foi o passeio de bicicleta de manhã". 

Há coisas que acontecem na nossa vida sem que saibamos muito bem como acontecem. "Aquela coisa" que fazemos todas as noites aconteceu-nos e, acreditem ou não, tem sido uma pequena delícia. Porque fazemos a revisão do dia, agradecemos, pedimos (mas só saúde que é, como se sabe, o que realmente interessa). "Aquela coisa" foi das melhores que nos aconteceu. A ponto de já não imaginar melhor maneira de adormecer.

Eleições

1- Não percebo quem não vota. Juro. Acho um desrespeito para com a democracia e não há opinião diferente que me faça mudar de opinião. Estão descontentes votem em branco, mas não desprezem um direito que tantos adorariam ter e não têm. Não votar é como deixar comida no prato e deitar para o lixo quando há tanta gente a passar fome.

2 - Gostei que os pequenos partidos tivessem crescido nestas eleições, é sinal de que a democracia está viva e há vontade de alterar o bipartidarismo enfadonho. 

3 - Excepto... quando se trata do Chega. Aqui em casa chamamos-lhe o "Chega, Basta, Larga-me, Baza!" Assusta-me que tenham eleito um deputado. Os extremos assustam-me. A extrema direita arrepia-me (e não é aquele arrepio bom). 

4 - Não percebo quem não vota. Não votar é o mesmo que dizer "estou-me nas tintas para tudo".

4 - Os pequenos partidos estão a comer terreno aos grandes, o que é bom porque já todos começamos a ficar cansados dos grandes, que já mostraram tudo o que podiam ter feito e não fizeram ou tudo o que podiam não ter feito e fizeram. Excepto quando se trata de partidos extremistas, que podem de facto aproveitar a brecha dos desiludidos e angariar um espaço, o que é perigoso para a democracia.

6 - Já disse que não percebo quem não vota? Ah, pronto. Então não vou voltar a dizer que não percebo mesmo quem não vota.

 

Este mundo já não era para gordas. Agora já nem para boas é

Um conhecido ginásio digital, desses que prometem que, se cumprirmos religiosamente (bom, talvez não como a maioria dos religiosos católicos, que se confessam não praticantes, mas sim como a minoria, que efectivamente pratica sem falhar) os treinos, ficamos incríveis, magros, tonificados, com o chamado "corpo perfeito", publicou há dias uma foto de um antes e de um depois. Ou seja, uma foto de uma mulher supostamente antes de se ter metido na aventura do ginásio digital, e a foto alegadamente da mesma mulher depois de ter cumprido o rigoroso plano de treinos da plataforma digital. Ora... o que eu vi foi uma mulher jeitosona, dona de umas pernas torneadas, com um rabinho bastante gostoso, uma cintura definida, um tronco esguio (ok, talvez com uma micro-borreguinha a espreitar ali onde as calças apertam) ser substituída por uma mulher cujas pernas sumiram nas calças, sem rabo, sem borrega de qualquer espécie, sem formas. O que eu vi, nestas supostamente apelativas fotos do antes e do depois, foi uma boazona, com curvas, dar lugar a uma magricela, sem qualquer ondulação feminina, que é aquilo que nos diferencia dos homens, vá, além do sexo propriamente dito. Olhei para as duas imagens e conclui que entre uma e outra, prefiro claramente a de antes. A que tinha um ar saudável, não a que tem um ar faminto. Atenção! Eu tenho borregas de que gostava de me livrar! Mas... eu tenho-as, efectivamente, e são visíveis a olho nu. Não carecem de uma lupa, como as da senhora da foto da esquerda. Aliás, tomara eu estar como a senhora da esquerda. Atenção de novo! Não quero ofender as magricelas (entre ser como sou e ser magricela preferia ser magricela; só que.. entre ser como sou e ser como a senhora da esquerda preferia ser a da esquerda). De qualquer modo, nos comentários, havia muita gente a aplaudir a beleza da segunda, a enorme conquista, uau!, brutal, boa, parabéns, bom trabalho! De facto, continuamos a valorizar a magreza, em detrimento do equilíbrio. Uma mulher já não podia ser gorda, agora já nem sequer pode ser boa. Caneco. É duro ser gaja.

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