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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

É verdade. Também eu tenho um podcast. Chama-se "Eu sou... "

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Quando aqui há uns valentes anos fui convidada a ir botar discurso ao Parlamento Europeu, com mais uns quantos criadores de conteúdos digitais de vários países da Europa, conheci uma alemã (ela vive na Áustria mas acho que é alemã) que me disse que devia criar um podcast. A coisa estava a rebentar em Viena e ela dizia que eu devia ser pioneira, já quem em Portugal ainda mal se falava no assunto.

Não me apeteceu. Sou-vos franca. Isto de nos termos sempre de reinventar é muito giro, muito interessante, obriga-nos a não parar, a estar em constante evolução, mas caraças. A vida digital é muito exigente. Primeiro foi o blogue, depois tinha de ter Facebook. A seguir veio o Instagram e era óbvio que tinha de ter uma conta. E a seguir ainda insistiram com o Twitter, e com o Youtube, e depois no Instagram vieram os Directos e mais recentemente os Reels, e depois o Tik Tok, e mais o Podcast, e a páginas tantas pareço uma perfeita anormal, a tentar estar em todas as plataformas ao mesmo tempo, sem verdadeiramente me dedicar com esmero a uma só.

Tenho tentado escolher, tenho tentado ir fazendo, ir-me descobrindo no meio do tanto que se vai inventando, e tentar nunca me perder no meio do turbilhão. Já me perdi, já me encontrei, já deixei este blogue adormecido, praticamente em coma, depois sinto-lhe a falta, regresso, mas lá surge qualquer coisa que pede a minha atenção noutras bandas e lá sigo eu, feita marioneta dos tempos modernos.

Vi então nascer podcasts como uma desova. Uns sobre política, outros sobre humor, amor, sexo, lifestyle, entrevistas a famosos. Fui acompanhando aqui e além. E cada vez menos encontrava vontade de fazer, até porque tudo parecia já feito. Mas o meu marido foi dizendo que eu devia, que era pena, que eu até tinha gostado tanto de fazer rádio, quando fiz, tantos anos seguidos. E aquilo ficou aqui a fermentar, como a massa mãe num alguidar, tapada por um pano. Um dia, pensei nas vozes de muitos que conheci, quando fazia reportagens pelo país adentro. E decidi experimentar. Deixa cá ver se isto daria alguma coisa. A minha irmã deu-me o contacto da D. Ester e eu fui conhecê-la. Mal ela disse o nome e atirou aquela gargalhada contagiante eu soube que tinha nascido o meu podcast. 

Chama-se, então, "Eu sou"  e é sobre as pessoas que raramente chegam a ter voz no espaço público (as minhas preferidas, by the way). São assim aqueles peões do tabuleiro que parecem não contar para o jogo - engano puro, como sabemos (ficou célebre a frase de um dos génios do xadrez e o melhor jogador da sua época, François-André Philidor: “Os peões são a alma do xadrez”). E são esses que vão ter voz, neste podcast, chamado “Eu sou….”. Não precisam ser reis, rainhas, bispos. Basta que sejam pessoas, com histórias para contar.

A ideia foi remover ao máximo a minha voz para que a pessoa tenha o palco inteiro, como se fosse o seu monólogo, o momento em que o foco está todo em si. Nem sempre é possível, porque o trabalho de edição é tramado e, na passagem de um tema para o outro, às vezes é preciso uma pergunta audível para colar a conversa.
Fui eu que entrevistei e editei, com os meus conhecimentos precários (muito precários) de edição. Os puristas sentirão imperfeições, mas tentei que ficasse o melhor possível.
Apresento-vos, para começar, a D.Ester Claro. Espero que se comovam e enterneçam com ela como eu me comovi e enterneci.
O podcast está disponível no Spotify e na Apple Podcasts. E agora aqui também.

Espero que gostem. 

(Se tudo tiver corrido bem, é só clicar na imagem em baixo para ouvir)

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Perfil: Fernando Centeio

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Para contar a história de Fernando Centeio, começo na primeira pessoa. Porque foi assim que tudo começou, pelo impacto que aquele tipo sorridente e de uma simpatia desarmante teve em mim.

Tinha acabado de me mudar para um escritório novo, no Alto de São João, e tudo tinha aquele aspecto de centro criativo fervilhante, em que imaginava pessoas extrovertidas e entusiasmadas com as respectivas artes, muito mais do que gente enclausurada em gabinetes, de tom macilento, e olhos postos na hora da saída.

Eu (e reforço, esta incursão na primeira pessoa é mesmo só para contextualizar, já vamos ao que realmente interessa) estava delirante com o meu novo espaço: tinha móveis por montar, outros que eu própria me encarreguei de lixar e pintar, e cada dia era uma festa renovada de prazer de construção e de início. Nunca conseguirei descrever o quanto sou doida por inícios.

Os dias foram passando, as pessoas dos escritórios vizinhos também, e só uma me bateu à porta e abriu, depois do meu assentimento feliz:

- Olá! Então seja muito bem-vinda! O meu nome é Fernando, sou o vizinho ali da Zulfilmes! Qualquer coisa que precise é dizer!

Depois desse dia, repetiram-se outros. Calha que o meu escritório é a caminho das casas de banho - é, como se costuma dizer, local de passagem. Mas calha que, entre aqueles que passam, só ele pára. Só ele passa, acena, abre, espreita e atira um bom dia que sabe a verão mesmo que esteja a chover. Só ele não se ensaia de espalhar alegria e uma energia que, mesmo para quem sabe pouco (ou nada) de energias, é uma espécie de raio de luz que fica, mesmo quando a porta se fecha, e ele se vai.

Acresce que Fernando Centeio é um nome conhecido e reconhecido do cinema português. A porra é que o cinema português teima em ser conhecido por poucos. Mas, ainda assim, ele já fez tantas coisas que podia ter-lhe dado para ser como tantos que se julgam acima dos demais e que, por isso mesmo, jamais se dariam ao trabalho de bater à porta de uma ilustre desconhecida, oferecendo ajuda e boas-vindas.

Este é, para começo de conversa, Fernando Centeio. Nos dias que correm, diria que é um começo de conversa que diz muito.

Fernando Centeio nasceu em Castelo Branco, tem 54 anos, e é um poço fundo de histórias, com uma vida invejável de experiências, mas é também um tipo que não se esquece de que, na porta ao lado, pode muito bem estar alguém que lhe interessa conhecer – e leia-se, neste interesse, não um interesse profissional, comercial ou de qualquer outra conveniência, mas um interesse meramente humano. Fernando gosta genuinamente de pessoas. Gosta de conhecer pessoas. Gosta de as ouvir, e de se contar, e de se ligar aos outros. E mais: de ligar esses outros aos outros. O que faz de dele, dito pelo próprio, “uma espécie de engenheiro de pontes”. “Sempre que sei de alguém que precisa de outra pessoa para concretizar um projecto, como conheço muita gente, lembro-me logo de os pôr em contacto”

A génese de todo o fervilhar criativo que lhe vem de dentro começou em Castelo Branco, onde nasceu e cresceu. “Nos anos 80 havia um grupo giro de gente que fazia coisas e que estava a despertar para o mundo e a sentir que aquele meio era demasiado pequeno, que precisávamos de mais, como se asfixiássemos, um bocadinho. Cada um fazia as suas coisas, era um dinamismo muito interessante. Eu na cave tinha o meu atelier como todos tinham. Chamar-lhe atelier é uma piada. Era uma cave, gelada no inverno, onde tocava, escrevia, pintava. O que me salvou da asfixia, e creio que a todos, foram os manos Brás, que criaram uma coisa chamada ‘ManoBras’ e que era uma galeria de arte, um bar, uma sala de projecções, sei lá, era um verdadeiro centro cultural. Aquilo durou uns dois ou três anos e salvou-nos. Permitia-nos expressar-nos livremente. Ouvíamos música que alguém trazia de Londres, sonhávamos com o tanto que havíamos de fazer.”

Filho de um militar, Fernando estava destinado a ser piloto de helicópteros. No 3º ano, desistiu. E não só desistiu como informou a família de que iria estudar Cinema. “A reacção? Bom, no início ia levando com um pau! Não havia ninguém ligado às Artes, na família, acho que pensaram que eu tinha enlouquecido.”

Não enlouqueceu e depressa compreendeu que o seu maior prazer não era realizar, não era representar, era mesmo produzir. É isso que Fernando Centeio faz: é produtor de cinema. O que é, afinal de contas, um produtor de cinema? “É um vampiro de talentos. É alguém que sabe exactamente o que pode extrair de uma pessoa para um projecto em concreto. É um gestor de egos, um diplomata. E é também um fazedor de puzzles porque encaixa peças. Na verdade, é um fazedor porque faz acontecer: resolve logísticas, trata das partes técnicas e financeiras, acompanha, desfaz problemas, encontra soluções, acompanha o filme até ao fim, nas salas, depois das salas, para sempre. É um altruísta, também, porque constrói o esqueleto e depois afasta-se para o deixar ganhar vida própria. Sabe quando tem de largar, sabe quando tem de agarrar, sabe quando tem de estar perto, sabe quando tem de sair de cena. Por fim, é um solitário. Há dores que são só suas e que não pode partilhar com ninguém, sob pena de desmoralizar ou assustar toda a equipa. Tem um peso em cima dos ombros com o qual tem de saber lidar, e aprender a carregar.”

Volto à primeira pessoa para um queixume. Breve, prometo. Mas que também diz muito sobre ele. Sabem aquelas pessoas que a meio de uma história contam outra, e no meio dessa enfiam outra de que se lembram, e são todas de períodos distintos, em geografias diversas, e com pessoas díspares? Eis Fernando Centeio, em todo o seu esplendor. Conversámos durante horas. E agora, ao olhar o caderno onde escrevi a conversa, perco-me em filmes, histórias, peripécias. Ando para trás e para a frente com as páginas, em busca de uma cronologia, de um fio condutor, mas o filme desta vida é demasiado intenso para caber numa linha, toda muito rectilínea, toda muito certinha.

Talvez seja melhor focarmo-nos, então, em projectos que definitivamente o marcaram. E “O Tapete Voador” de João Mário Grilo é, sem dúvida, incontornável. O documentário é sobre a tradição milenar da tecelagem de tapetes persas no Irão, e foi por causa dele que o produtor “descobriu” a probabilidade de ser persa, de ter sido persa, de descender de persas, de qualquer coisa desse tipo que não sabe explicar mas que sentiu na pele, nos ossos, na alma, durante todo o tempo que lá esteve, e foram cerca de três meses.

O modo como descreve o Irão, a forma como foi acolhido, o modo como os pais lidam carinhosamente com as crianças, a qualidade de vida, faz qualquer pessoa começar a cogitar uma viagem até ao Golfo Pérsico. “Em Esfahan, recordo as margens do rio com relva, as famílias a fazerem piqueniques à noite, avôs a ensinarem netos a andar de bicicleta, pais a jogarem badminton com os filhos... uma paz.”

Outro dos momentos que não esquece é a sua estadia de duas semanas com a tribo Qashqa’i. “Nunca fui tão feliz na minha vida. Ali no brutal planalto de Dasht-e-Balkan, no meio de uma tribo, a sentir-me a viver um filme, de facto, mas real. Eles criam as ovelhas que dão a lã para os tapetes. E eu ali vivi, embasbacado, a beber tudo aquilo, a pensar na sorte que tinha por poder ter aquela experiência. O chefe da tribo andou a combater do Xá da Pérsia durante 40 anos e eu dormia na tenda ao lado da dele. Um homem de 80 anos, pequenino, devia medir aí 1,40m! Um dia, estávamos a falar e eu começo a vê-lo segurar na carabina, e a começar a carregá-la. Pensei: ‘tu queres ver que eu disse ou fiz alguma coisa que não devia?’ Estava um bocado à rasca. Às tantas o tradutor lá me explicou: ‘É por causa dos ursos!’ Ah, ok. Ursos! Muito mais descansado. A dormir numa tenda de pano, sim senhor. (risos)”

Nessa viagem, também será impossível que se perca, na sua memória, um miúdo de uns 10 anos que lhe disse que gostava de ficar com uma recordação sua. Que sabia que nunca mais o ia ver, e gostava de ficar com um objecto para o recordar. Fernando, emocionado, tirou o chapéu que costumava usar, assinou-o, e deu-lho. A criança levantou-se, foi buscar o seu Alcorão, e colocou-lho, directamente no peito, junto do coração. A emoção embarga a voz do produtor ao recordar esse momento, e tantos outros naquele que será o seu lugar de origem, esteja lá a origem onde estiver.

Mas nem só de comoções se fez esta viagem que Fernando Centeio fez para preparar as filmagens do realizador com quem trabalha há quase uma vida. “Numa das vezes que fui, levei comigo o fotógrafo e meu amigo Daniel Blaufuks. Não é que acabou preso, em Teerão? (ri-se) Tudo porque achou graça a ver um néon numa loja com o nome de um amigo. Fotografou, para depois lhe mostrar. Acabou preso porque o edifício ao lado era dos serviços secretos iranianos e acharam que ele era um espião ou coisa que o valesse. Felizmente a coisa safou-se bem, mas foi um susto do caraças.”

O regresso do Irão também trouxe uma história – o que só prova que há ali coisa. Tinha-se separado há vários anos da primeira mulher, mãe da sua única filha, Margarida. “Separámo-nos quando a Margarida tinha 3 anos. Vivíamos no Campo Pequeno, eu saí e montei casa na Passos Manuel, com um quarto para a minha filha ir passar o fim-de-semana- Fiquei com uma óptima relação com a minha ex-mulher, aliás, fico sempre com boas relações. Há 35 anos que sou produtor de cinema e não tenho um único inimigo. Está sempre tudo bem. Bom, o que pedi à Filipa foi para continuar a levar a Margarida à escola. Comprei uma mota de propósito  para ir de um ponto ao outro da cidade, fiz ponto de honra nisso. Passaram-se uns anos, uns 4 anos, vou para o Irão e, quando volto, nem sei bem como nem porquê, voltámos a namorar, eu e a mãe da Margarida. Às escondidas, para a miúda não ver porque não sabíamos o que aquilo ia dar. Aparecia quando ela já estava a dormir, passava a noite com a mãe, e depois saía antes dela acordar, para que não me visse. E tocava à porta como se visse da minha casa, para a levar à escola. (risos) Uns tempos depois, casámos. E ficámos juntos mais três anos.”

A Zulfilmes, nome da sua produtora, nasceu em 2010. O nome é uma homenagem à mulher mais importante da sua vida, a mãe: Maria da Luz. “Luz ao contrário é Zul. Pronto, eu sei, sou um sentimentalão incorrigível, mas... (comove-se)... a minha mãe incentivou-me a criar a produtora, esteve sempre ao meu lado, tínhamos uma ligação muito forte. A minha mãe morreu em 2016, depois de muito sofrer com um cancro que começou em 2012. Aliás, os meus pais morreram com um intervalo de 9 meses. Acho que ainda estou a apanhar esses cacos.”

Para explicar a relação extra-sensorial com a mãe, Fernando conta vários episódios. Um deles aconteceu quando foi à Sertã apresentar o seu novo projecto: um site (e respectivas redes sociais) sobre a mítica Estrada Nacional 2 (www.rotan2.pt), que pretende lançar uma profunda reflexão sobre o interior e não deixar cair toda uma extensa área que se viu relegada a um esquecimento doloroso. Fernando decidiu ir dormir à casa de família (já ambos os pais tinham falecido), por ficar mais perto (a apresentação era às 10h da manhã). “Acordei, arranjei-me, meti-me no carro. De repente, o rádio que ia a tocar calou-se e eu achei que devia ser falha de rede, ali no meio da serra. Quando voltou a funcionar, começou a tocar o Bolero de Ravel, que era a música preferida da minha mãe. Foi como se ela me estivesse a desejar boa sorte ou a dizer que ia correr tudo bem. Arrepiei-me todo. Mas aconteceu outra vez. Produzo uns ciclos de cinema em Monserrate e, um dia, fui fazer já não sei o quê ao Palácio, tinha de ir ao auditório... enfim, ia no corredor e começo a ouvir o Bolero de Ravel. Sorri. Ela tem a sua forma de me continuar a acompanhar.”

Fernando Centeio já produziu filmes de ficção, já produziu para televisão (foi ele o “pai” do programa “O Preço Certo”, que começou com Jorge Gabriel), mas cansou-se. Prefere, de longe, o documentário, ao qual se tem dedicado. “O que me faz feliz são projectos que abraço, que invento sozinho, ou que imagino com alguém. Aprendo muito mais, estou perto, estou dentro. Não quero crescer mais do que isto. A quantidade interessa-me menos do que a qualidade, o prazer que retiro a fazer as coisas. O primeiro filme que produzi já com a Zulfilmes foi o “Gesto”, em 2010. Um filme que retrata a surdez. E só passados 5 ou 6 anos é que consegui meter o filme em sala, porque ser produtor é também ser um maratonista. Um tipo não se pode cansar. Eu que o diga com o último documentário que produzi para o João Mário Grilo.” O produtor suspira. Fecha os olhos. Torna a respirar fundo: “O ‘Vieirarpad’ é a história de amor entre Vieira da Silva e Arpad Szenes. E está lindo, sem dúvida. Mas foram seis anos da minha vida. Divorciei-me, mudei três vezes de estúdio, perdi o meu pai, perdi a minha mãe.... toda uma vida aconteceu e eu continuava a produzir aquilo. Passei muita noite sem dormir, devo ter perdido anos de vida. Ainda não tem estreia marcada mas é uma belíssima história de amor, de dois artistas enormes. Tive a sorte de dormir na casa deles, em Yèvre-le-Châtel, e tive o privilégio de estar em contacto com uma série de detalhes das suas vidas, mas foi de facto extenuante.”

Diz isto mas, em mãos, tem mais não sei quantos projectos em curso, que é isso que o faz feliz. E por mais ocupado que esteja, tem sempre tempo para bater à porta, espreitar, e dizer aquele “Bom dia!” que faz a diferença. É um produtor de mão cheia. Mas, para mim, é, acima de tudo, um bom vizinho. Uma pessoa luminosa que o Sítio (que nos acolhe a ambos e à nossa hiperactividade comum) me trouxe. Uma boa alma, de fino recorte, possivelmente persa, seguramente de uma sensibilidade incomum. Obrigada, vizinho!

Airfree de bicheza? Ah, ele consegue com certeza!

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Não é novidade para aqueles que me seguem há mais tempo, poderá ser novidade para os que chegaram há menos, mas é uma certeza absoluta na minha vida: conheci o Airfree porque fui contratada para falar sobre ele, há já uns anos, recebi um cá em casa, e a partir desse momento (não logo, que não é magia, mas com o tempo de utilização) percebi que estava ali uma tecnologia que não podia deixar de continuar a divulgar. Tenho sido fiel à marca, tenho comunicado Aifree creio que todos os anos, já tenho três, um em cada quarto, e não vou achar demais quando tiver um em cada divisão da casa.

De maneira que sim, isto é publicidade, no sentido em que me pagam para terem este espaço de comunicação, mas não, não estou a falar nisto só porque sim (como de resto não faço com nenhuma das marcas com que trabalho). Acontece que este produto é de facto tecnologicamente espantoso. E mais: é feito por uma empresa 100% portuguesa, que exporta para mais de 60 países. E sabem como começou? Quando um pai, preocupado com as constantes crises alérgicas do seu filho, aplicou as suas habilidades de inventor e desenvolveu um equipamento capaz de eliminar, de forma silenciosa e sem exigir manutenção, os microrganismos e principais causadores das alergias

respiratórias do ar: vírus, bactérias, mofo, pólen, ácaros e alérgenos de animais. Como não ficar orgulhosa deste feito? Como não amar este pai, inventor, criador deste aparelho espectacular?

É que, não sei se sabiam (eu até me inteirar deste assunto não fazia ideia, e sou asmática), o ar interior de uma casa pode ser 100 vezes mais poluído que o ar exterior. Sim, caraças, leram bem! Cem vezes! Ora, a tecnologia exclusiva sem filtro da Airfree trata o ar dos espaços inteiros, destruindo 99,99% das bactérias, vírus, fungos e alérgenos do ar.

Ainda têm dúvidas? Eu percebo: quando a esmola é muita, o santo desconfia. Mas é que ainda há mais: o purificador Airfree é silencioso (não faz NENHUM som), não precisa de manutenção (a minha característica preferida – sou a pior para me lembrar de manutenções), não tem que se fazer absolutamente mais nada do que... ligá-lo a uma tomada!!!!!

E sabem o que é mesmo espantoso? É que resulta! Tive miúdos com crises de tosse que passaram como que por milagre quando o Airfree chegou cá a casa. Às vezes, porque alguém usou a tomada onde ele estava ligado ou por distracção, desligam-no (sobretudo ali no quarto dos mais velhos). Nota-se logo: um deles começa logo a tossir. Note-se que temos não um mas dois cães! Nesta casa há pelos, alergénios próprios dos animais, há pó, há ácaros, e depois deve haver humidades (ainda que não se vejam) e fungos e porcarias invisíveis (vírus e bactérias) mas danosas. O purificador elimina tudo. Reduz a quantidade de esporos presentes no ar e diminui a possibilidade de que surjam novas manchas de bolor, fonte de alérgenos. E atenção: elimina mesmo! Não se limita a retê-los, como acontece nos aparelhos com filtros de ar. 

Bom, e por último, mas não menos importante: a mais recente notícia é que um teste científico revelou a eficácia dos aparelhos Airfree, com a exclusiva tecnologia, no processo de destruição do vírus SARS-CoV-2, causador da COVID-19.

Malta, a Black Friday está aí mesmo a chegar mas podem usar o meu desconto (SONIA20) para obterem 20% de desconto em TODOS os modelos do site. Na Black Friday haverá desconto apenas num único modelo. De maneira que este será uma espécie de super aperitivo para a BF, sendo que talvez seja ainda mais apelativo do que o prato principal – uma vez que podem levar tudo com desconto! Têm até 25 de Novembro para usar!

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Nós #3: Dona Ajuda

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Rubrica sobre associações que ajudam pessoas. Porque juntos somos mais fortes.

 

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No princípio de tudo eram duas irmãs a recolher roupa e brinquedos, sobretudo no Natal, para dar a quem precisava. Mas, há 6 anos, a ajuda já tinha uma consistência e uma coerência que justificavam a criação de uma associação. Assim nasceu a associação Boa Vizinhança, que hoje se chama Dona Ajuda.

A Dona Ajuda fica no Mercado do Rato, em Lisboa. Naquele espaço emprestado pela Câmara Municipal de Lisboa, há várias lojas que vendem produtos em segunda mão. Como é que lá vão parar? Quem pode entregá-los? Quem pode ir comprá-los? Passamos a explicar, já de seguida. A ideia é simples e engenhosa ao mesmo tempo. A Dona Ajuda recebe tudo o que as pessoas já não queiram. Móveis, roupa, sapatos, brinquedos, livros, discos, loiças, electrodomésticos. Tudo o que possam imaginar. Essas coisas chegam e é feita uma espécie de triagem: tudo o que está impecável fica nas lojas, para ser vendido ao público (a preços muito simbólicos); tudo o que está medianamente bem conservado segue para bairros sociais que estão a precisar ou até outras associações que precisam de bens específicos; tudo o que está estragado e não é passível de ser entregue a absolutamente ninguém vai para a Associação Reto à Esperança, que vende a peso (possivelmente para futuras reciclagens daquele material, não sei).

Assim, naquele espaço bonito do Mercado do Rato, podem encontrar uma livraria, lojas de decoração, lojas de roupa de criança, de senhora, de homem, sapataria, loja de malas. E podem comprar, mesmo que tenham dinheiro para ir à Louis Vuitton. Há lá peças de roupa como novas, até de belíssimas marcas, vestidos de noite, até vestidos de casamento. Ao comprarem estão a ajudar de várias maneiras: por um lado, o dinheiro reverte na totalidade para a associação (e já veremos, mais adiante, o que é feito com ele), por outro, estão a dar uma nova vida a bens que, de outro modo, até podiam acabar no lixo. Há ainda a vantagem de pouparem umas coroas (mesmo que estejam financeiramente à larga, que isto nunca se sabe o dia de amanhã).  Quem não tem dinheiro para fazer compras (e a associação só aceita pessoas referenciadas por outras instituições) pode ir às lojas, escolher,  e levar sem pagar.

Então e o que faz a associação com o dinheiro das vendas ou dos donativos? Simples: sustenta-se, por um lado (há sempre despesas inerentes a uma organização), e por outro lado continua a ajudar pessoas que não precisam de bens mas de outro tipo de apoio. Por exemplo: imaginem alguém que precisa de uma prótese dentária. Sem ela, dificilmente consegue um emprego. Mas não tem dinheiro para a pagar (porque não tem emprego). É a típica pescadinha de rabo-na-boca da pobreza. Pois bem, a Dona Ajuda está lá para - nem mais - ajudar. Já pagaram próteses dentárias, óculos, consultas, compraram electrodomésticos, fizeram obras em casas. 

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Nestes anos de entrega do tempo a ajudar quem precisa, Rita Costa Pinto e a irmã Cristina Velozo (a presidente da associação) já viram muita coisa. Tanta que dava para escrever um livro, ou até uma colecção deles. Coisas boas, coisas más. Tanto de quem dá, como de quem pede. Rita esmiúça: "Há extremos. Uma vez apareceu aí uma senhora toda muito 'tia'. Trazia sacos de coisas para dar. Quando estávamos a ver, com ela, o que tinha, vimos um sapato sem par. Ficámos incrédulos a olhar para ela, e respondeu-nos com altivez: 'o que foi? Não pode aparecer alguém só com um pé?' Esse foi um dos episódios que me marcou. Já pela positiva, marcou-me a senhora que trouxe a roupa do marido, que tinha morrido. Ainda vinha com as etiquetas da lavandaria. Mandou limpar e trouxe tudo, impecável. Há de tudo, o bom e o menos bom. Mas ver a alegria de quem não tem nada e recebe a nossa ajuda supera qualquer situação menos agradável."

Entretanto, e como parar é morrer, a Associação Dona Ajuda tem-se transformado num polvo com vários braços. Fez uma parceria com uma associação cultural, a Pousio, e inauguraram a P.R.A.Ç.A, um projecto que é um espaço cultural que tem como matéria-prima as doações feitas à Dona Ajuda e que são reaproveitadas por artistas convidados para alguns espaços livres do mercado, que vão rodando, numa oferta cultural que se quer diversificada e rica, para envolver a comunidade neste dar e receber que (para rimar) era assim que sempre devia ser.

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Mudar de vida #23: Nuno Lanhoso

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Se tivesse de escolher um título para este texto, que resulta da entrevista com Nuno Lanhoso, seria qualquer coisa como: "O homem que não queria deixar fugir o tempo". Ou então apenas "Tempo". Este é um homem com uma muito clara noção da voragem dos dias, com uma lucidez precoce de que o tempo é como um pedaço de terra, que se esboroa entre os nossos dedos, se não o tratarmos como se fosse uma preciosidade. Porque é.

Nuno Lanhoso tem 30 anos, nasceu no Porto, e sempre quis ser médico. Garante que nunca sentiu pressão familiar nesse sentido, apesar de ser filho de médicos, neto de médicos, sobrinho de médicos. Talvez a pressão tenha sido apenas subliminar, ou então foi apenas um movimento lógico, quase óbvio, natural. 

Começou por entrar para Medicina Dentária (as médias para Medicina são o que se sabe) mas preferiu sair e ir estudar espanhol para se candidatar a fazer o curso em Barcelona. E assim foi. Saiu de casa da mãe aos 18 anos, rumo à capital da Catalunha, onde ficou até aos 26 anos. "Foi a melhor experiência da minha vida. Partilhei casa com dois colegas, que se tornaram dos meus melhores amigos, um que conheci na matrícula, o outro no metro. O curso foi extraordinariamente difícil, a coisa mais difícil que já fiz, mas não me entreguei a ele do modo missionário de que se fala. Estudei muito mas também me diverti muito."

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Nuno não estava particularmente feliz nos dois primeiros anos do curso. Muito teóricos, densos, a deixarem pouca margem para fazer mais do que só estudar. Até que descobriu o Bar Mediterrâneo, onde ia ouvir música ao vivo. E, um dia, talvez embalado por uma cerveja a mais, perguntou como podia fazer parte do leque de músicos. Sabia tocar guitarra, aprendeu sozinho aos 14 anos, como tantos, para ficar bem aos olhos (e ouvidos) de uma miúda: "Tinha visto a maneira como a rapariga de quem eu gostava na altura olhou para o meu amigo, que sacou de uma guitarra e começou a tocar, na minha festa de aniversário. Escusado será dizer que nunca mais o convidei. E fui aprender a tocar."

No Bar Mediterrâneo, marcaram-lhe então um teste e ele, no dia marcado, entrou no bar, deu meia volta, e tornou a sair. Tímido, faltou-lhe a coragem que a cerveja lhe tinha dado, dias antes. Ou isso ou talvez ele soubesse, lá no fundo, que entrar por aquela porta significava entrar num caminho sem volta (mas isto, claro, poderão ser floreados literários). Certo é que os responsáveis compreenderam o momento de fraqueza, e deram-lhe uma segunda oportunidade. Nuno tocou e cantou e acabou por ficar como um dos músicos do bar. Tinha 20 anos e estava a estudar para ser médico.

A vida ganhou, então, outro colorido. Os colegas de casa diziam que Nuno estudava nos intervalos da música. Era mais ou menos isso. "Eu estudava ao mesmo tempo que eles, para que, quando eles fizessem uma pausa, eu pudesse tocar e cantar, sem os incomodar. À noite, sempre que possível, ia ao bar. Ou para ouvir ou - melhor ainda - para tocar. E o meu percurso académico até melhorou, porque eu retirava dali um prazer que o curso não me dava."

Quando acabou o curso, aos 26 anos, Nuno foi fazer o ano comum no Algarve. "A minha média de fim de curso não me permitia concorrer ao Porto, e como tínhamos casa no Algarve, achei que era uma boa solução. O meu plano era estudar também alemão, no Algarve, e depois ir para a Alemanha fazer a especialidade em Medicina Estética. Só que a vida tem a mania de se meter nos nossos planos e aconteceram duas coisas: por um lado apaixonei-me pelo estilo de vida algarvio - uma vida com imensa qualidade de vida, praia, natureza, bom tempo; por outro lado, descobri o circuito de bares e hotéis com música ao vivo."

Nuno começou então por tocar nos bares mais duvidosos de Portimão, evoluindo para outros menos dúbios. Acabou a tocar num afamado hotel de 5 estrelas e ganhava mais em duas horas e meia por noite, todas as noites, do que no trabalho no hospital. A páginas tantas, acabou mesmo a ganhar o dobro, por vezes mais. "Sentia que aquilo era estranho. Eu era tão feliz a tocar e a cantar, que quase não parecia justo que me pagassem. Ou seja: eu sempre toquei, em casa, sem que ninguém me pagasse, e continuaria a fazê-lo, de borla. E, de repente, ali estava eu, a fazer aquilo de que gostava e a ganhar mais do que no hospital. E isto é muito revelador daquilo que nos incutem a vida inteira: a mensagem é que temos de trabalhar para ganhar dinheiro para nos divertirmos, se tivermos tempo! Eu estava a fazer as duas coisas em simultâneo (a ganhar dinheiro e a divertir-me) e ainda me sobrava tempo!"

Por essa altura, deu-se outro acontecimento que se juntou ao que parecia ser uma teia do destino para o fazer mudar de vida: "Estava a trabalhar no hospital quando conheci um médico de 30 anos que, de aspecto, estava totalmente acabado. Falámos um bocado sobre a vida dele e o retrato não podia ser mais angustiante: trabalhava 70 horas por semana, ganhava menos do que eu a tocar, e como tinha sido pai há pouco tempo ainda trabalhava ao domingo por fora, para que a soma fosse suficientemente digna. Ao sábado, único dia livre de que dispunha, acabava a dormitar no sofá, extenuado, sem força nem vontade para fazer mais nada. Quando ele acabou de falar, pensei: 'eu não quero isto para mim.'"

Aliás, aquele cenário não era novo. Nuno cresceu a ver a falta de tempo dos pais, ambos médicos. Não será despiciendo, de resto, esse seu contacto próximo com a falta de vagar na construção da sua vida, neste tomar de consciência daquilo que queria para si mas, sobretudo, daquilo que, definitivamente, não queria.

Seja como for, ainda que a vida sacerdotal dos médicos não lhe fosse de todo estranha, foi aquela conversa com aquele cirurgião que espoletou a granada que já estava na sua mão. " Tive a conversa com ele em Maio, despedi-me em Junho.

Na véspera avisou os pais. Ambos fizeram o que haviam feito toda a vida: se é o que queres, é porque deve estar certo. O pai talvez tenha mostrado uma maior renitência. Tanto assim que, em Setembro, foi visitá-lo ao Algarve, aproveitando para o ir ouvir tocar. "O meu pai nunca me tinha ouvido. E quando me reencontrou, no final da noite, disse que percebia. Que o meu olhar se modificava completamente quando estava ali. E mesmo a questão do tempo, da vida que eu tinha. Disse mais: 'no teu lugar fazia o mesmo'."

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Depois de um ano a tocar e a cantar no Algarve, amealhou dinheiro para fazer o mestrado em Medicina Estética, em Barcelona. Ia à universidade de 15 em 15 dias, no primeiro semestre. No segundo semestre ia uma vez por mês. Cansativo, mas exequível. E depois disso trabalhou, no inverno, numa clínica de implantes capilares no Porto: "Nessa altura costumava dizer, meio a sério meio a brincar, que era médico no inverno e músico no verão." Uma espécie de formiga e cigarra.

Uma parte da conversa que teve com o pai, porém, ficou a bailar-lhe na memória. Quanto tempo tencionava tocar covers em bares de hotel? Mais 5 anos? Mais 10? Até à reforma? Foi então que percebeu que estava na hora de dar o próximo passo. Pegou em todos os seus originais (escreve canções desde os 16 anos) e pagou do seu bolso a gravação num estúdio. A seguir, enviou para várias agências e ficou à espera. A maior parte não se dignou sequer a responder, outras disseram apenas que não estavam interessadas.

"Foi duro. Achava que aquilo era bom. Tinha posto de lado a Medicina para me dedicar à música e agora ninguém reconhecia valor àquilo? Não foi fácil e fiquei ali uns dias a bater mal. Mas depois... pensei que tinha duas opções: ou voltava para a Medicina ou tentava outra vez. Porque não saía da minha cabeça esta ideia: se já é um prazer tão grande tocar e cantar músicas que não são minhas para outras pessoas ouvirem, o que será ter uma plateia cheia de gente que está ali especificamente para ouvir o que eu escrevi, o que tenho para dizer? A adrenalina que isso deve ser... até me estou a arrepiar!"

E então sentou-se a escrever de novo. E sentiu que o fazia muito melhor. E usa, até, uma boa analogia, para descrever esta espécie de depuramento: "É assim como uma torneira de uma casa antiga. Quando a abrimos, a água que sai é amarela e não se deve beber. É preciso deixar correr um bom bocado, até aparecer água límpida. Acho que foi isso. Espero um dia olhar para trás e achar que esta água ainda era amarelada. Será bom sinal. Mas, para já, foi considerada suficientemente potável para ser bebida. Ainda não sei se será engarrafada mas... já se bebe. E isso já me deixa muito contente."

Nuno Lanhoso refere-se ao contrato assinado com a agência Sons em Trânsito, em Setembro de 2020, depois de ter enviado a segunda leva de originais, assim como ao single que acaba de lançar há duas semanas. Chama-se "Nem Desgosto de Amor" e é o prelúdio de um álbum que sairá no final do ano. Até lá, está previsto o lançamento de um segundo single. O músico-médico está nas nuvens e nem sabe como reagirá quando escutar a sua canção na rádio. "Até podes ter um acidente. O que vale é que és médico", brinco eu. Ele ri-se. "Preparei-me a vida toda para esse momento."

Para o que não estava preparado era para a avalanche de emoções que estão ligadas ao seu agenciamento e ao lançamento de um single para o mercado. Uma delas foi conhecer um dos seus grandes ídolos nacionais: "Ouvir o Pedro Abrunhosa dizer bem da minha canção foi avassalador." Não deixa de ser curioso que um dos ídolos deste homem que corre atrás do tempo tenha um álbum (o segundo, de 1996) justamente com o título "Tempo". Talvez não haja - mesmo - coincidências.

Esta foi a primeira entrevista do músico, a dar os primeiros passos na vida artística de forma oficial. Aproveito para o tranquilizar: não há-de ser mau prenúncio isto de dar a primeira entrevista a um blogue com o nome "Cocó". Afinal, sempre ouvi dizer que se deseja muita m*rda aos artistas quando se quer que tenham sorte. Por isso, Nuno, só pode ser bom sinal.  

Que Sítio é este, afinal?

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Tenho recebido muitas mensagens a perguntar coisas várias sobre o meu novo escritório: onde é, como funciona, se há outros para arrendar, se há mais pequenos, maiores, se há espaços de cowork, etc, etc, etc.

Não sei tudo, tudo. Mas já andei a conhecer os Sítios lisboetas (e a informar-me sobre os Sítios portuenses) e já há algumas coisas que posso esclarecer. O Sítio é uma empresa dentro de outra empresa. São, ao todo, dez Sítios, em Lisboa:

Alvalade, Areeiro, Bairro Azul, Marquês, António Augusto Aguiar, Praça da Alegria (Fintech House), Sete Rios, Lumiar, Visconde Santarém (Saldanha) e Alto de São João.

O meu fica no Alto de São João e é, para mim, o centro mais giro de todos. É como vos digo: não há quem cá não chegue e não fique de queixo caído pela pinta que tudo tem, pelo ar industrial e disruptivo, pelo terraço que parece estar pronto para os Santos Populares todo o ano (lindo e tão apetecível e onde se pode ir trabalhar ao sol no Verão, e onde se almoça divinamente a marmita que trazemos de casa), pelos escritórios enormes, todos eles em loft, pelo espaço comum onde se podem organizar exposições, conferências, aulas, workshops, jantares, eu sei lá, o céu é o limite. E até tem balneários! No outro dia a minha amiga Inês veio trabalhar para o meu escritório, convidei-a para ir treinar comigo à hora do almoço, voltámos, tomámos um duche, e continuámos a trabalhar. Não é perfeito?

No do Alto de São João, além dos escritórios, é possível comprar um pack de dias para se ir para lá trabalhar, ou mesmo só umas horas. Imaginem: trabalham em casa, têm um trabalho mesmo difícil para fazer e a vossa casa é um entra-e-sai, não estão a conseguir acabá-lo... pumba. Alugam o espaço, estão na santa paz do Senhor, e depois vão à vossa vida, sem mais encargos mensais que podem não querer nem precisar ter nas vossas vidas.

Há escritórios com um ar mais composto (o do Bairro Azul, por exemplo), há outros que também são assim bem doidões, tipo o de Alvalade (com cadeiras penduradas no tecto, a decorar), há um dos Sítios que parece um palácio, cheio de frescos nas paredes e no tecto, há um dos Sítios que não tem (ainda) o ar moderno e refrescante dos outros (o de Sete Rios ainda vai levar um "banho" de coolness mas tem imenso potencial, muito bem localizado e com escritórios óptimos).

Há várias modalidades, como explicava há pouco: podem trabalhar numa secretária um dia e adeus, gostei muito deste bocadinho. Podem trabalhar sempre na mesma secretária, que passa a ser vossa, por um preço definido (e onde guardam num módulo de gavetas as vossas coisas) e partilham a mesma sala com outras pessoas, mas aquela mesinha é só vossa (eles chamam-lhe Mesa Dedicada). Podem ter uma mesa dedicada sem estarem ao lado de outras pessoas (por exemplo, em Alvalade, há um corredor cheio de pequenos cubículos onde só cabe a secretária, a cadeira, o trabalhador e pouco mais, mas é bom para aquelas pessoas que preferem não estar numa sala aberta, à sua mesa, mas a olhar para outras pessoas (podem não gostar de pessoas - acontece-me muito, ou podem distrair-se com os outros, ou podem preferir aquela pequena privacidade de estarem resguardados de olhares alheios). Podem ter um escritório só para vocês, inteirinho, onde até festas podem dar (com segurança Covid, claro está). Enfim, há de tudo, pela cidade inteira.

Vantangens extra que o Sítio oferece: uma comunidade de "sitiados", como gosto de lhes chamar, que podem encontrar sinergias e dinâmicas e ideias e, de repente, estão todos a trabalhar num projecto comum, porque muitas cabeças trabalham melhor do que uma. 

Por outro lado, é bom ter um lugar para receber correspondência, ter uma morada fiscal da empresa e acesso a salas de reuniões e auditórios. Caramba, agora que penso nisso, há de tudo no Sítio. Há internet, há copa onde se pode aquecer comida, lavar loiça, guardar coisas em frigoríficos partilhados... é tão fixe!

Também há eventos a que podemos ir - por pertencermos ao Sítio -, descontos que temos por sermos membros, e até a possibilidade de trabalharmos em vários dos escritórios pela cidade: imaginem que tenho um cliente que me pede para reunirmos pela zona do Marquês, que é mesmo o que lhe dá mais jeito. Muito bem: marco reunião no Sítio do Marquês e... feito! Ou seja: há uma grande mobilidade entre os "sitiados", que é coisa que me agrada imenso.

No Porto, há já 3 Sítios: no Campo Alegre, no Bom Sucesso e Costa Cabral. E é lá, num deles, que farei um dos próximos Clubes de Leitura do Porto (o de Lisboa do mês passado já fiz em Lisboa, no terraço, e foi uma delícia).

E é isto. Não há dia em que não agradeça por este encontro. Juro. Sempre que aqui entro (escrevo esta prosa na minha mesa, montada por mim, olhando para tudo o que aqui está, que eu pintei, lixei, montei) sinto que cheguei ao meu espaço, ao meu oásis, ao lugar onde consigo ouvir os meus pensamentos e pôr as minhas ideias em prática. Sinto-me em casa, cada dia mais. E isso é mesmo bom.

Preços: há de tudo, mas consegue-se uma secretária desde 130€ por mês.

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www.sitio.pt

Uma semana a dois

Desde que temos filhos que fazemos uma semana de férias sem eles. É ponto assente, e ponto final. Há quem não possa, há quem não queira, há quem sinta calafrios só de imaginar uns dias de diversão sem as suas bonitas crias, há quem simplesmente não consiga por não ter com quem os deixar, por não ter dinheiro para ir para parte alguma, por ter filhos com problemas de saúde e não confiar em ninguém que fique com eles (algo que mexe comigo por dentro mas, sobre isso creio vir a ter notícias em breve), por não ter amigos que os levem para que, simplesmente, se barriquem nas suas próprias casas, sozinhos, a ver séries, a beber vinho e a fazer o amor. Há de tudo nesta vida, já o sabemos, e ninguém tem de chatear ninguém: nem os que podem e querem têm de evangelizar os outros, nem os outros têm de censurar os demais. 

A única excepção a esta regra que temos foi quando a pandemia nos trocou as voltas. Isso e a doença da minha mãe. No ano passado fizemos 20 anos de casamento, data que pedia festejo de arromba (leia-se viagem longínqua), mas a minha mãe estava em tratamentos, e acabou a ser internada no dia seguinte ao do nosso aniversário, pelo que o mais longe que fomos foi ali ao Alentejo para regressar e levar com a bomba atómica de a ter por um fio. Mas safou-se, que é rija, e a equipa de Santa Maria trabalhou que foi uma beleza.

Este ano tínhamos pensado em ir para longe, também. Mas depois há Covids por todo o lado, parece que a gente os vê aos saltos, e regras, e restrições, e aquele receio de que nos fechem as fronteiras e fiquemos ad eternum a viver num local paradisíaco mas infestado de bichezas, sem cuidados hospitalares de primeiro mundo, e longe dos nossos filhos. Ainda pensámos em Itália (queríamos alugar uma mota e fazer a costa Amalfitana), mas até à data em que marcámos tudo ainda estava em vigor a regra de confinamento de 5 dias obrigatório para turistas, mesmo que brandissem o teste negativo diante dos olhos das autoridades. E, sendo assim, chapéu. Começámos então a escrutinar o nosso país, tão bonito também, Douro? Alentejo? Gerês? Zona Centro? Açores? Madeira? Ganhou a Madeira.

Já tínhamos ido à Madeira algumas vezes, sozinhos, com miúdos, mas desta vez foi absolutamente perfeito. Não sei bem explicar se foi por estarmos tão sequiosos de estarmos a sós (os confinamentos engoliram-nos um bocado o namoro), não sei se foi por termos alugado uma mota (o que permitiu uma dose de diversão extra - as motas são um perigo mas oferecem uma sensação de liberdade e alegria diferentes), não sei se foi por termos escolhido tão bem o hotel (um mamarracho enorme mas por dentro com muita pinta e com uma piscina linda e totalmente em cima do mar), não sei se foi por termos vivido várias aventuras (desde um frio de rachar na subida ao Pico do Areeiro que nos fez gastar 90 brocas na loja do senhor Juvenal - uma loja de souvenirs mesmo lá em cima - só em dois pares de calças de fato de treino, um casaco de malha grossa, umas luvas e um corta-vento; sem esquecer a excelentíssima bebedeira na Taberna da Poncha; entre outras peripécias), se foi por aqueles mergulhos no mar frio, se foi pelas garagalhadas a fazer fotos, se foi pelo deslumbrante passeio pela Levada do Caldeirão Verde e pela Levada do Caldeirão do Inferno. Não sei. Sei que foi perfeito, que viemos de lá renovados, que reencontrei o meu namorado (de quem perco tantas vezes o rasto, de tão assoberbado que anda com um trabalho que roça, por vezes, a insanidade) e isso é, sem dúvida, um privilégio. Quanto à Madeira... fiquei cheia de vontade de voltar. Que ilha abençoada. 

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Nós #2: Associação Portuguesa Contra a Leucemia

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Leucemia. Aquela palavra que ninguém quer ouvir. Aquela palavra que assusta, que faz sentir o bafo da morte, que precipita para um possível fim da jornada. E, no entanto, não tem de ser assim. Há muitos casos de sucesso, muitas vitórias, muitos fins (felizmente) adiados. Foi o caso de Carlos Horta e Costa, 67 anos. Teve uma leucemia, primeiro ficou em choque (a noiva de um dos seus melhores amigos tinha morrido nas vésperas de se casar, decorrendo apenas 1 mês entre o diagnóstico e o desfecho), depois lutou com unhas e dentes, acreditou que seria capaz de ultrapassar a doença, e curou-se. Já lá vão quase 28 anos.

Foi por causa deste episódio que, em Janeiro de 2002, Carlos Horta e Costa se juntou a outros ex-doentes e médicos do IPO para fundar a Associação Portuguesa Contra a Leucemia (APCL).

O primeiro objectivo desta associação foi ajudar a organizar e fazer crescer o registo de dadores de medula óssea. Foi investida uma soma grande (conseguida através de variados eventos: concertos, workshops, vendas, etc) no desenvolvimento deste registo e, dos 1800 inscritos em 2002, passou-se para os mais de 200 mil incritos, dez anos depois. Hoje, são já mais de 400 mil, tendo-se convertido o CEDACE no segundo maior registo de dadores de medula óssea da Europa, e no terceiro maior de todo o mundo, em termos relativos.

Quando este crescimento atingiu a velocidade de cruzeiro, a APCL agulhou os investimentos para outras direcções, nomeadamente para a investigação científica, atribuindo bolsas que permitem esse contínuo aprofundar de conhecimentos, nas áreas das doenças oncológicas do sangue.

A APCL dá ainda apoio social e financeiro a doentes e famílias carenciados. Com os 6 centros de transplante existentes no país (3 em Lisboa, 2 no Porto e 1 em Coimbra) nem sempre os doentes em tratamento residem nos centros para os quais são enviados. E nem sempre, estando deslocados, conseguem ter onde ficar. Carlos Horta e Costa explica: “O doente que é transplantado fica no hospital mas quem o acompanha não pode ficar. E por vezes são pessoas sem capacidade para ficar em locais com condições razoáveis. Por vezes o doente é um dos membros de um casal, que ficou sem emprego porque está doente, e o outro está desempregado ou pediu uma licença sem vencimento para poder estar presente. São situações muito frequentes. Quando existe um caso destes, vão ter com as assistentes sociais no hospital, preenchem uma ficha, e são os próprios assistentes sociais que nos contactam, a pedir apoio. Damos, imagine, 300€ por mês, durante 3 ou 4 meses. Ou, outras vezes, o que é preciso é uma prótese dentária, ou um par de óculos... tentamos estar lá, naquele que é um dos momentos mais difíceis da vida destas pessoas.”

A associação investe também em divulgação e informação sobre os cancros de sangue. Publica folhetos, pequenos livros, organiza eventos, workshops temáticos, seminários. No ano passado, levou a cabo as primeiras Jornadas Nacionais APCL. Foi um dia e meio a abordar várias temáticas, com testemunhos de doentes, ex-doentes, familiares, médicos, terapeutas, enfermeiros, etc. Foi tão interessante que este ano já estão previstas as segundas jornadas.

O último grande projecto desta associação tão activa e empenhada é a menina dos olhos de Carlos Horta e Costa (e imagino que dos demais fundadores da APCL). Ele talvez não note, mas a sua expressão altera-se quando fala na casa, quando imagina o quanta diferença vai fazer na vida das pessoas que por ali passarem. Sente-se que é uma enorme conquista, daquelas que aquecem a alma e fazem com que vida valha realmente a pena. Trata-se da construção de uma casa de acolhimento, a que a associação chamou de “Porto Seguro”. Uma casa em Lisboa destinada a doentes hemato-oncológicos, a transplantar ou em fase de terapêutica, e respectivo agregado familiar, para que durante o período de tratamentos e isolamento inerentes à recuperação do doente, criança ou adulto, a família possa estar perto e acompanhar, proporcionando deste modo o suporte emocional, fundamental à recuperação.

Carlos Horta e Costa, vice-presidente da APCL mostra as plantas da casa, agora em obras, com o tal brilhozinho nos olhos: “É um pequeno prédio, na Rua D. Luis de Noronha, ali mesmo em cima da Praça de Espanha. Fica a 5 minutos a pé do IPO, a 15/20 minutos a pé do Santa Maria, perto de tudo porque tem o metro ali. Esta casa vem ao encontro das necessidades de termos um espaço para acompanhantes ou doentes em ambulatório. O que lhes é proposto é que fiquem numa pensão, mas agora vão poder ter uma casa digna, com 8 quartos, uma sala de convívio, uma cozinha comunitária, e um jardinzinho. É pequena, mas é um primeiro passo. Sabe que eu cheguei a assistir a isto: acompanhantes de doentes a dormirem dentro de carros, no parque de estacionamento do hospital. Uma vez soube de uma senhora e a filha, pequena, que se aninharam no carro, para poderem acompanhar o pai da criança, que estava internado. Isto hoje seria impossível, porque os parques de estacionamento são pagos e a pernoita ficava ainda mais cara que numa pensão. É este tipo de desespero que queremos evitar.”

Os membros da associação andavam à procura de uma casa deste tipo há muito tempo. Os bancos, se as tinham não as davam, a Câmara Municipal de Lisboa não tinha, mas eles não desistiam de a tentar encontrar. Quando a CML indicou, finalmente, este pequeno prédio, nem pensaram duas vezes. As obras arrancaram dia 7 de Novembro de 2020 e, em princípio, estarão terminadas no final deste ano. “Financeiramente, a obra está coberta, com concertos solidários que fomos fazendo e outros eventos. Felizmente temos músicos que são muito generosos e que têm ajudado muito a APCL. Portanto, a obra da casa está garantida, mas depois é preciso recheá-la e é preciso mantê-la. E esse é agora o nosso foco: arranjar meios financeiros para rechear a casa e cuidar da sua manutenção.”

E é aqui que entra na história o Ricardo Martins. Corria o ano de 2004 quando o Ricardo notou que se sentia cansado mas... quem é que não se sente cansado nos dias que correm? Tinha um negócio, andava de um lado para o outro, era natural sentir-se cansado. Também não valorizava o facto de ter de se levantar 3 vezes durante o almoço, por sentir um desconforto abdominal. Talvez tivesse comido muito, talvez estivesse com problemas de digestão. Fez o que fazemos tantas vezes: ignorou os sinais do corpo, arranjou desculpas, seguiu em frente. Mas a então sua mulher não gostou dos sintomas e marcou-lhe uma consulta. Contrariado, compareceu. E, pela cara do médico alemão e o palavão “scheisse!” (ou seja “merda!”) repetido muitas vezes, calculou que talvez a coisa não estivesse famosa.

Não estava. Algumas análises e exames depois, Ricardo soube que tinha uma leucemia das células pilosas, considerado na altura um tipo muito raro de leucemia. “O meu baço ocupava-me metade do tórax. Por isso é que eu sentia desconforto abdominal. Pudera! Tinha 31 anos, muitos projectos, ia casar-me. Só perguntei: quanto tempo tenho de vida? E o médico respondeu que tudo dependia da quimioterapia mas sobretudo da minha cabeça e do Senhor que está no céu.”

Ricardo agarrou-se àquelas palavras como quem segura uma tábua de salvação em mar alto. Não podia fazer nada quanto ao Senhor, mas podia mandar na sua cabeça. E mandou. E acreditou que ia vencer.

Fez um tratamento experimental, que estava a fazer-se nos EUA (e conseguiu autorização do Ministério da Saúde para o fazer cá). Foram tratamentos duros, 20 horas de quimio por dia, mais 4 horas para limpar as veias. Ao 5º dia sentiu-se como atropelado por um camião, ao 7º dia não se conseguia levantar. Perdeu 10 quilos em 3 dias, viu-se esquálido ao espelho, achou que talvez não sobrevivesse, combateu os pensamentos, levou duas transfusões de sangue, depois veio a recuperação. Ao fim de 5 anos, estava oficialmente em remissão.

Ricardo acredita que falar sobre a doença, sem tabus, sem medo da pena alheia, sem preconceitos, sem filtros, é muito importante. “Ficar com um peso tão grande só para nós não pode ser bom. É preciso partilhá-lo, desabafar. Parece que se torna menos mau quando falamos. Menos assustador. Acho mesmo importante falar.” E acredita que, sim, o pensamento positivo faz toda a diferença.

Quando adoeceu, prometeu que se conseguisse salvar-se iria todos os anos a Fátima. E que, em 2020, iria de Lagos, onde vive, a Fátima, a pé. Ao longo de todos estes anos, cumpriu a promessa. Foi todos os anos a Fátima, de carro, no mês de Dezembro. Este ano será a 17ª vez. Mas a promessa da peregrinação teve de ser adiada por causa da pandemia. E de 2020 passou para 2021. Mais concretamente: hoje. Começou hoje a caminhada de Ricardo até Fátima. Um caminho que é o cumprir de uma promessa mas é muito mais do que isso: “Quando falei disso, a minha actual namorada disse: vou contigo, mas temos de arranjar uma instituição para fazermos um donativo. Pesquisei e, apesar de já conhecer a APCL, não conhecia o projeto da casa. Quando estive doente vi as dificuldades que as famílias tinham, por estarem deslocadas, muitas vezes sem dinheiro para estadias. É muito triste, muito violento. Eu sou pai de uma menina e... (emociona-se) achei que era a coisa certa a fazer.”

Ricardo Martins está neste momento no primeiro dia da sua caminhada. O percurso está previsto ser de 14 a 21 de Maio e totalizará mais de 340 quilómetros a pé. A iniciativa pode ser acompanhada nas páginas de Facebook e Instagram da APCL, assim como na página de Facebook da própria acção. A campanha de angariação de fundos já está a decorrer e os donativos podem ser feitos através da plataforma Go Fund Me: http://gofund.me/93caf6b7

No dia em que o Porto Seguro estiver pronto, recheado, e a funcionar, vou querer conversar com Carlos Horta e Costa e voltar a ver aquele brilho no olhar, que deve estar ainda mais luminoso, com a sensação de dever cumprido. Depois? Depois o mais certo é continuar a encontrar novos projetos, novas missões, novas formas de retribuir a grande fortuna de ter continuado vivo.

(Boa caminhada, Ricardo.)

Se quiserem fazer um donativo para a casa Porto Seguro, além da plataforma Go Fund Me, têm aqui outras formas:

MBway
969 368 664
IBAN
PT50 00350667000054852308 4
 

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Carlos Horta e Costa

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Ricardo, ao centro, ladeado pela namorada Donna e o cunhado Marco

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Nós #1: Associação Novamente

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Esta é uma nova rubrica.

Vou contar histórias de associações que ajudam pessoas. Muitas delas todos conhecemos. De muitas nunca ouvimos falar. Com algumas, vocês que lêem vão sentir uma maior empatia do que com outras, seja porque conhecem alguém que tem o problema a que essa associação se dedica, seja pela forma como o texto está escrito, ou apenas porque houve ali qualquer coisa que vos sensibilizou mais, talvez pelo modo como despertaram nesse dia. Alguns poderão sentir vontade de ajudar, seja com o seu tempo e trabalho, seja com uma oferta financeira. Alguns nem sequer se vão dar ao trabalho de ler, porque não têm tempo, porque não lhes apetece agora, porque não gostam de saber dos problemas dos outros. A estes últimos, dizer apenas isto: muitas destas associações apoiam pessoas que podíamos ser nós todos. Que hoje estamos aqui, nas nossas vidinhas, reclamando do tempo ou de não podermos ir a um concerto ou da monotonia dos dias, mas amanhã podemos estar com a vida de pernas para o ar. Sem saber o que raio nos aconteceu. Sem saber como recomeçar. 

Chamei a esta rubrica "Nós" porque acredito que um "nós" é - quase - sempre mais forte que um "eu". Sobretudo quando o "eu" está perante uma situação inesperada, diferente, fora da norma, exigente, desafiante, contra-natura, contra-corrente. 

Estas associações são também "nós" no sentido em que ajudam a prender vidas, ajudam a agarrar quem está desgarrado, a laçar quem está deslaçado. Sem elas, a sociedade seria muito mais cruel do que já é. Sem elas, muitos não teriam um rumo, uma segunda oportunidade. E eu acredito em segundas oportunidades. Bem-vindos à rubrica "Nós".

 

Associação Novamente

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Tudo começou com um cavalo. Mais concretamente, com um acidente trágico com um cavalo. Luís Miguel tinha 29 anos e, durante um jogo de Horseball, caiu do cavalo e sofreu um traumatismo crânio-encefálico. Felizmente, depois de um coma e de muitas incertezas, sobreviveu. Felizmente, também, teve uma família que não desistiu, que mexeu todos os cordelinhos, cordas e cordões, que indagou, que buscou e que, quando deu conta de que não havia as respostas necessárias, decidiu criá-las. Luís Miguel é filho de Godinho Lopes, ex-presidente do Sporting Clube de Portugal, e teve a sorte - dentro do azar - de ter um pai que não baixou os braços. E foi assim que, em 2010, nasceu a Novamente, uma associação que procura ajudar famílias de traumatizados crânio-encefálicos (TCE), preenchendo uma lacuna que existia, porque estas são pessoas que não têm um padrão, não estão tipificadas, não apresentam todas as mesmas sequelas. Há as que perdem totalmente a locomoção e as que não vêem a parte motora afectada; as que perdem faculdades cognitivas e as que vêem apenas algumas características da personalidade atingidas. Por não haver dois casos iguais, a problemática é complexa, específica, e a ausência de soluções era, antes do nascimento da Novamente, gritante. 

Converso com Vera Bonvalot, directora da Associação. Não lhe vejo o rosto, por culpa da máscara a que todos estamos obrigados, mas imagino-a bonita, pelo modo enérgico e bem disposto com que defende a sua causa, os seus associados e respectivas famílias (o Google confirmou, depois, que tinha razão). Há nela um respeito e uma valorização dos seres humanos, que se afasta vigorosamente da vitimização ou da "coitadinhação" (palavra acabada de inventar, num rasgo de ousadia linguística). Vera não tem ninguém na família que tenha passado por isto, nem é voluntária. Este é o seu trabalho, para o qual foi contratada há 11 anos. "Nunca tinha trabalhado na área das ONGs e das IPSS mas tenho aprendido muito." Vera vinha da área do marketing e da gestão de produto, mas percebe-se pelo olhar (que fica, felizmente, a descoberto de máscaras) que foi aqui que encontrou a sua verdadeira vocação. 

Uma das coisas que aprendeu foi que ter um TCE em Portugal não é o mesmo que ter um TCE noutros países. "É verdade que por vezes podemos não ter tantas condições, mas há uma coisa que temos: família. Quando há um acidente, um drama desta violência, vai tudo para o hospital, família, amigos. E podem revezar-se e continuar a apoiar durante muito, muito tempo. Há países onde simplesmente não aparece ninguém. Aqui é impressionante o que os pais fazem pelos filhos. Fazem o que for preciso. Não pensam duas vezes. Conheci um pai que me contou que os médicos disseram que o filho ia ficar um vegetal toda a vida. Ele recusou o diagnóstico. Tinha um negócio de móveis com o irmão e vendeu a parte dele para pagar terapias: da fala, ocupacional, etc. Vendeu o carro e, na garagem, fez um ginásio para o filho. Depois, pediu emprego ao irmão, e continuou a trabalhar sempre para ajudar o filho na sua recuperação. E depois de me contar isto tudo disse: 'E agora a doutora venha comigo lá abaixo conhecê-lo, que foi ele que me trouxe de carro.' Emocionou-me muitíssimo, esta luta, esta garra, este ir até onde for preciso por um filho."

Mas, para Vera, há também que saber parar. Saber aceitar que aquela pessoa não vai voltar a ser tal e qual como era. Lutar para que fique o melhor e o mais autónoma possível, sim, mas saber também aceitar a sua nova identidade. "É tramado porque os traumatizados não têm diagnósticos fechados. Não há como saber se fica vegetativo para sempre, se vai conseguir voltar a andar, a falar... E na verdade, os diagnósticos são geralmente muito negativos, e quando eles vão conseguindo sempre mais e mais, de repente fica a esperança de voltar ao que se era. E podem ficar reféns dessa busca incessante, presos nessa procura eterna da pessoa que foram. Há sempre um luto que é preciso saber fazer, para que se consiga olhar em frente e não ficar sempre a olhar para trás, para o que se foi, para o que se perdeu, para o que a vida podia ter sido e não foi. É muito fácil dizer e muito mais difícil fazer. Mas é também isso que ajudamos a construir na Novamente: esse processo de aceitação. Às vezes, o próprio até já começa a aceitar-se e é a própria família que trava esse processo dizendo: 'Este é o meu filho Zé. Ele era engenheiro.' É compreensível. A família tinha orgulho naquilo que o filho tinha construído e sente-se incapaz de lidar com a frustração do que se perdeu. Mas é essencial aceitar. É a única forma de seguir em frente."

A Novamente, além de se focar no futuro, na nova pessoa que o TCE fez nascer, oferece um apoio continuado. Há um contacto com as famílias, de preferência desde que o acidente acontece, para desde cedo se ensinar a família a viver um dia de cada vez. "Depois, ajudamos a lidar com os amigos, com o regresso a casa, com os seguros (sempre uma chatice), com a escola ou o trabalho. E a seguir é continuar a dar seguimento, tentar arranjar saídas para estas pessoas. Infelizmente, no TCE não temos o que já existe para o cancro. Nos casos de cancro, a pessoa entra no sistema e fica imediatamente acompanhada e ninguém a larga - marcam consultas, marcam exames, análises, ligam, seguem. Isto é o meu sonho, para os traumatizados crânio-encefálicos também. Queria que o sistema não os perdesse e que os dirigisse para as terapias da fala, ocupacional, para consultas de psiquiatria, psicologia... são pessoas com múltiplos problemas e que precisam ser vigiadas. E como não existe este acompanhamento, andam às apalpadelas, sem saber a quem recorrer."

É aí - também - que entra a Novamente, nesse encaminhamento, nesse desbravar de terreno. Mas também no contacto próximo com a Segurança Social e no diálogo com outras instituições de solidariedade, na possibilidade de fazerem obras em casa para a adaptar à nova realidade (e nos casos de pessoas que manifestamente não têm capacidade financeira para o fazer), no aconselhamento jurídico. E ainda na capacitação para a empregabilidade, no permanente incentivo a uma maior autonomia. "Três vezes por semana temos o Viver Novamente. Podem ir fazer um desporto, que pode ser ténis, golf, vela adaptada, ioga, cavalos adaptados, mas também podem ir só beber um café e conversar, ou ir a um museu, ao cinema. Gostava de ter estas actividades a nível nacional mas neste momento só tenho em Cascais. É muito importante, para que eles reaprendam a sociabilizar. Porque muitas vezes, os amigos afastam-se. Não é por mal, é porque a vida, para quem não tem uma questão destas, é a correr. É sempre a correr. E para estas pessoas não. A vida mudou. Tem outro ritmo. De maneira que, muitas vezes, é só nestes encontros que voltam a ter vida social, e isso é muito importante." Os associados da Novamente pagam 5€ para terem acesso a tudo (obras em casa , materiais de apoio, apoio jurídico, apoio continuado etc.), excepto ao serviço Viver Novamente. Esse custa 150€ por mês com todas as actividades já descritos (transportes incluídos). 

A associação apoia cerca de 500 famílias por ano e precisa sempre de ajuda: donativos de empresas, de pessoas de boa vontade, consignação do IRS, jantares, feiras... Vale tudo, quando há tanto em causa. E, sobretudo, quando se pensa que um traumatismo crânio-encefálico é uma daquelas situações que pode acontecer a qualquer um de nós. Basta uma queda, de cavalo, de bicicleta, trotineta, a pé. Um atropelamento. Um acidente de viação. Uma agressão. Um AVC. Num segundo, a vida pode mudar para sempre. Importante saber renascer. Para começar tudo, Novamente. 

https://www.novamente.pt/

Contactos: 91 227 55 06

Email: geral@novamente.pt

 

Para ajudar: 

Por Multibanco

Entidade:  21604

Referência: 605 606 607

Valor: O que quiser

 

Por MBWay - 91 261 74 82

No IRS - NIF: 509 310 354

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Vera Bonvalot (eu não disse que, além de competente, era bonita?), directora da Novamente

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A fronteira da liberdade

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Todos nós temos a tendência para achar que "no nosso tempo" é que era. Já vi gente dizer isto quando, no "seu tempo" havia falta de quase tudo, nomeadamente de afecto parental e de cuidados de saúde primários. Mas enfim, deve fazer parte dos mistérios da memória selectiva, que nos leva a enlevar o passado, obnubilando todos os detalhes ruins. Esforço-me por não cair na tentação, ainda que sinta que, em alguns aspectos, tive mais sorte que gerações posteriores à minha (mas noutros, é óbvio, elas ficam a ganhar).

Um dos aspectos em que creio que tive mais sorte tem a ver com a liberdade. Apesar de viver numa cidade, brinquei muito na rua. Ia horas para a rua, para casa de vizinhas, para as traseiras do meu prédio, e estava tudo bem. E eu tinha uma mãe completamente paranóica com os perigos (ainda hoje, se me vir ao sol, a primeira ideia que lhe vem é a de uma meningite), mas ainda assim era como se brincar na rua fosse parte integrante da infância, como gatinhar ou meter na boca tudo o que aparece quando se é bebé. Claro que tinha os tradicionais discursos de não falar com estranhos, nunca dizer onde morava, nunca ir com ninguém, nunca comer nada que me oferecessem, nunca uma série de coisas que, de tanto ouvir, já me entravam a 100 e saíam a 200 (tanto que, um dia, já ia toda feita com um homem para lhe mostrar onde morava uma enfermeira, e quando a minha mãe apareceu aos gritos, o homem fugiu a correr, e eu percebi que... foi por um triz). 

Hoje os miúdos, sobretudo nas cidades, raramente têm este tipo de liberdade. Os meus tiveram uma coisa mais ou menos parecida, porque vivemos num condomínio fechado (e por isso tiveram uma liberdade controlada, assim um "faz de conta que"), mas há imensos miúdos que não brincam, pura e simplesmente, na rua. Ou melhor, não brincam sozinhos ou uns com os outros, sozinhos, na rua. Podem até estar na rua, mas os pais estão sempre por perto, vigilantes. 

Não sei quando é que isto aconteceu mas inclinar-me-ia a dizer que, por cá, tudo mudou com o caso Rui Pedro. Para mim, pelo menos, foi um turning point. Na minha perspectiva, até então Portugal era um sítio mais ou menos tranquilo, onde havia assaltos, sim, onde de vez em quando uns e outros se matavam por questões de violência doméstica ou por quezílias relacionadas com propriedades, havia violações (disso falava-se bastante, tanto que houve uma altura em que achei que ser violada era tão certo como a morte), mas pouco mais. O caso Rui Pedro mostrou-nos um Portugal que achávamos que só acontecia "lá fora". Aquele miúdo desapareceu, enquanto brincava na rua, bem pertinho de casa, numa zona completamente calma, bem mais calma do que Lisboa, onde eu vivi toda a minha vida. Durante anos, o caso assombrou-me. Entrevistei a mãe dele, escrevi sobre aquelas vidas. Espelhei para a minha realidade aquele drama, e pronto. Nunca pude ser uma mãe tão descontraída como seria se aquele horror não tivesse acontecido (e outros parecidos, que entretanto aconteceram também). E - atenção - eu acho-me muito mais descontraída que a maioria. Mesmo. Mas há ali uma linha em que as sirenes tocam e começo a sentir palpitações. E se? 

Mas, a verdade, é que as coisas quando têm de acontecer acontecem, mesmo debaixo do nosso nariz, mesmo dentro de casa. Vejamos este exemplo: um dia, a Mada foi a uma festa de aniversário de uma amiga, numa quinta. Quando a fui buscar, ao fim do dia, a mãe da amiga e a própria Mada contaram que tinha havido um "percalço". Os miúdos estavam a brincar, dentro de propriedade privada, e começaram a correr para mais longe da casa, para umas vinhas (da propriedade, fechada). A Mada ter-se-á afastado mais do que os outros, ficado sozinha, e nisto surgiu um homem que ficou estático a olhar para ela. Felizmente, o homem não tinha bom aspecto, o que fez soar-lhe todos os alarmes. Ela começou a andar mais depressa na direcção oposta, e o homem começou a andar mais depressa atrás dela. Sentindo o coração a latejar nas veias, ela correu e ele correu atrás dela. Também felizmente, ocorreu-lhe (ou foi só sorte) correr em direcção à casa da família, e não para outro lado qualquer da propriedade. Quando se aproximou da casa e o homem viu pessoas, fugiu na direcção oposta. Enquanto ouvia o relato (e sentia as pernas a tremer) não conseguia deixar de pensar que, naquele dia, tínhamos ganhado o Euromilhões. A sorte esteve do nosso lado. Mas podia não ter estado.

Foi o primeiro dia em que a minha filha percebeu que era uma "presa". Ela esteve para ser caçada mas conseguiu fugir. E esta ideia é terrível mas é assustadoramente comum à maioria das meninas, seja em crianças, seja em adolescentes, seja quando já são adultas. O Rui Pedro não era uma menina, bem sei, mas este tipo de situação é, como sabemos, mais comum nas raparigas do que nos rapazes, o que não nos deve - de todo - deixar menos vigilantes quando se trata de filhos do sexo masculino.

Todo este preâmbulo para desembocar nisto: qual é a fronteira entre a protecção dos nossos filhos e a limitação abusiva e perniciosa da sua liberdade? Como traçar essa linha, sem que sejamos pais negligentes num mundo que é tudo menos de fiar, mas em que também não caiamos no extremo oposto, de sermos pais-ansiosos, paranóicos, angustiados, que passam para os filhos uma ideia de mundo cruel que, à primeira distracção, vai dar cabo deles? 

Se esperavam que vos desse agora a resposta, lamento a desilusão. Não a tenho. Acho que tenho sido uma boa doseadora da liberdade, com cautelas, falando dos perigos mas referindo que são a excepção, não a regra. Não quero que saiam de casa a olhar por cima do ombro, mas também não acho que vivamos numa bolha cor-de-rosa bonita. No meu bairro, há uns meses, foi violada uma mulher que saía, de manhã, de um ginásio. Em plena luz do dia, numa avenida muito movimentada. Fica difícil deixar a Mada vir sozinha da escola de bicicleta, o que me custa imenso porque acho que fazia todo o sentido. Mas. Sempre ali aquele mas. 

Ainda assim, acho que vou soltando a corda com equilíbrio, mais do que por vezes vejo pais de amigas da Mada fazerem (os outros, mais velhos, já têm toda a liberdade, com responsabilidade, como é natural). A verdade é que há por aí gente muito assustada, que não permite que os filhos ponham um pé fora de casa sem supervisão, e falamos de miúdos já bastante crescidos. Não consigo censurar, mesmo que vá fazendo o contrário disso, devagarinho. O horror de perder um filho ou de o ver arruinado para sempre é maior do que qualquer coisa, qualquer desejo de liberdade. Mas também não conseguiria ser assim, tão absolutamente aterrorizada, porque a vida é, toda ela, feita de riscos. Toda. Os filhos, desde que nascem, estão em risco. Apanham vírus e bactérias que podem ser mortais, têm quedas aparatosas, metem os dedos nas tomadas, fazem desportos arriscados, andam de mota (às vezes os pais não os deixam ter mota e eles acabam espatifados quando iam na mota de um amigo), tiram a carta e andam de carro, convivem sabemos lá nós com quem, têm discussões, na noite, que podem acabar mal, etc, etc, etc. Não é possível, por mais que tentemos, protegê-los de tudo. Talvez a maior protecção seja, justamente, dar-lhes liberdade, dar-lhes mundo e, ao mesmo tempo, dar-lhes informação, ferramentas para que se defendam o melhor possível. É um equilíbrio difícil. Será sempre um equilíbrio difícil. Ser mãe, ser pai, é ter este coração fora do peito para sempre. O ideal é tentar que, apesar de fora do peito, não nos caia aos pés, nem nos suba pelos ares. Ninguém disse que era fácil.