Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Não é só uma dor de cabeça

enxaqueca faz, infelizmente, parte da vida de milhões de pessoas e não, não é só uma dor de cabeça. É uma doença. A terceira doença mais frequente em todo o mundo. Vejam o vídeo, vão às páginas do Dá Voz à Tua Enxaqueca no Facebook ou no Instagram e partilhem as vossas experiências. #colaboração

 

A Covid-19 e o que mudou na nossa vida

Ao contrário de muitas pessoas, nunca fui nada stressada com germes e demais bicheza. Sempre adorei ver os miúdos a brincarem na rua, a sujarem as mãos, a roupa, e nunca fui a correr metê-los na banheira para eliminar potenciais bichos maus. Calma, também não sou porquinha! Sempre lhes dei banho (ah ah ah), sempre reforcei a obrigatoriedade de lavar as mãos antes das refeições, enfim, essas coisas. Mas nada de grandes nervos com vírus e bactérias - acho que sempre fui uma mãe bastante descontraída.

Com a Covid-19... a coisa mudou um bocadinho. Houve ali uma fase em que parece que tinha nojo de tocar nas coisas fora de casa, como se o coronavírus fosse assim gosmento e pegajoso. Comecei a notar em coisas que nunca tinha notado até então: que as superfícies são tocadas, de facto, por muitas mãos, mãos que estiveram sabe Deus onde, a tocar sabe Deus em quê, e às tantas dei por mim um bocado inquieta com estes pensamentos que, em bom rigor, nunca me tinham ocorrido (exceção para os varões dos autocarros e do metro, que sempre tentei segurar com uma manga da camisola a cobrir a mão, e para os corrimões, que também sempre me meteram alguma repugnância - às vezes até estão assim oleosos de tanta mão lhes tocar, blhéc).

Comecei a sentir que a casa era uma espécie de porto seguro e a querer que continuasse assim. E, por isso, os sapatos passaram a ficar à porta. Já achava que era uma ideia inteligente, mas nunca tinha posto em prática. Foi preciso a Covid para levar isso para a frente. Comprámos uma sapateira, montámo-la atrás da porta da rua, e pomos lá os sapatos antes de avançarmos pela casa adentro (o pior é que é pequena demais para tantos pés e tantos sapatos e acabam os sapatos a ficar dentro e fora e nos arrebaldes, e está montada uma confusão à entrada que me anda a consumir os nervos, mas isso agora não interessa nada). Comecei a reforçar mais a lavagem das mãos, a desinfeção com álcool, a lavagem da roupa depois de uma utilização.

Até que me convidaram para ser embaixadora da Lysol, marca nº1 em desinfeção nos Estados Unidos (e em outros países). Já conhecia e fiquei muito contente pela confiança. Mas mais contente fiquei quando percebi que, dentro da vasta gama de produtos, todos eles altamente eficazes a eliminar vírus e bactérias, há vários que eliminam a Covid-19. Pistola de casa de banho, Pistola multiusos, um desinfetante líquido para a roupa e - o meu preferido - o aerossol que se pode utilizar em todo o lado: maçanetas, sofás, tapetes e... (a minha ideia preferida)... sapatos! Incomodava-me um bocado estar a pedir aos convidados (que neste momento são raros, mas ainda vem cá uma pessoa ou outra de vez em quando) que tirassem os sapatos e ficassem de meias, e agora, com o aerossol, sinto-me na maior para lhes pedir para darem uma sprayzada (acabei de inventar uma palavra que me dava jeito) na sola dos sapatos e seguirem viagem para o interior da casa. É mesmo prático para tudo. Uso e abuso.

E depois, além de sabermos que estamos a usar produtos rigorosamente testados há anos e anos (a marca tem mais de 100 anos), fica aquele cheirinho a lavado, um cheirinho bom, nada daqueles horrores que às vezes cheiramos por aí em álcool géis da treta. Adoro mesmo, e acho que se nota que escrevo sobre isto sem esforço nenhum. Quando um produto tem qualidade, têm-me lá na primeira fila para aplaudir e partilhar. Ter a minha família protegida deixa-me mais descansada. É óbvio que qualquer um de nós pode apanhar o bicho em qualquer lado - a vida continua, eles vão à escola, eu continuo a jantar e almoçar fora, a ir às compras, a ir ao cinema e ao teatro - acho muito importante, se não mesmo crucial não nos deixarmos tolher por medo. Desde que cumpridas as normas de segurança, é vital continuar a viver, e viver é fazer o que gostamos, o que nos faz felizes. Mas, se dentro da nossa casa pudermos evitar dar livre acesso ao "animal"... acho que já cumprimos a nossa parte.

IMG_9573.JPG

#pub

Queridos, troquei de mota

Tive a primeira mota aos 18 anos. Ok, sejamos rigorosos: era uma acelera, uma 50cc, não propriamente uma mota (os motards ligam um bocado a estes preciosismos). Foi o meu pai que ma deu e sei bem o acto de coragem que isso foi, tendo em conta todo o pavor da minha mãe com a morte, a dela, a minha, e a dos que lhe são mais queridos. Antes de a ter, sonhei-a. Sonhei-a muitas vezes. A esmagadora maioria dos meus amigos tinha mota. Cresci rodeada por motas. Pelo barulho das motas, pelo cheiro das motas que ficava na roupa, pela terminologia motard, pelas discussões mecânicas que levavam horas. O meu primeiro namorado teve muitas motas, bem como imensos amigos dele. Trabalhei num restaurante de hambúrgueres nas Amoreiras (o saudoso Yellow Cab) para poupar dinheiro para a comprar (mas nunca consegui guardar dinheiro porque havia sempre qualquer coisa que aparecia para comprar e lá se ia a poupança). A certa altura, o meu pai prometeu que ma dava, já não sei bem mediante que condições. Mas sei que as cumpri e. a seguir, fui cobrar a promessa. E, um belo dia, recebi-a. Não era uma Yamaha, não era uma Honda. Era uma... Macal. Fiquei contente na mesma. Era bonita, única (nunca tinha visto outra igual), e era minha, por fim. Mas, quando apareci na minha rua com ela,  fui altamente gozada pelo meu namorado da altura (e pelos amigos) por ter uma mota Macal. Vai daí e passei um bom par de horas a remover os autocolantes com o nome e a limpar com diluente a marca inscrita no assento. Consegui. Depois, passei anos a receber olhares de motards que paravam nos semáforos a mirarem-na de uma ponta à outra, intrigados, até não conseguirem calar a pergunta: "Mas que raio de mota é essa?" Não importava. Era minha e era linda e deu-me uma liberdade que jamais tinha experimentado.

Na altura, era permitido levar motas no comboio e passei a ir visitar a minha irmã, que vivia em Trancoso, sempre acompanhada pela minha motinha. Eu na carruagem dos passegeiros, ela na carruagem dos objectos a transportar. Saía em Celorico da Beira, pegava na mota, e fazia os vinte e picos quilómetros que faltavam a acelerar pelas estradas rodeadas de verde por todos os lados, em curva contra curva. Sentia-me livre, dona do meu caminho, capaz de chegar a qualquer lado sem depender de ninguém. 

Na universidade, chamavam-me Motorcyle Woman (ou a versão abreviada: Motor) porque andava sempre de mota para todo o lado. E, na verdade, fomos inseparáveis até, em 1996, já a trabalhar com o Pedro Rolo Duarte na sua empresa de comunicação (a Pretexto), ter tido um acidente que cortou a Avenida José Malhoa nos dois sentidos e mandou a mota para a sucata e a mim para o hospital. Não parti nada (milagrosamente), mas fiquei com uma cicatriz feia numa perna, até hoje (curiosamente a mesma perna onde acabo de fazer uma nova ferida provocada por uma nova mota, que cá para mim vai deixar marca para sempre também).

IMG_9311.jpg

Eu e a minha irmã com a minha primeira mota, novinha, acabadinha de estrear

 

Depois desse acidente, não voltei a ter mota. Achei que me tinha safo daquela, que tinha provocado um susto terrível na minha mãe, e que o melhor era seguir com a minha vida sem mais percalços em duas rodas. Mas o bichinho ficou sempre cá. E, um dia, quando arrendei um escritório com amigas no Chiado, achei que a melhor forma de me deslocar era de mota. E voltei a comprar uma acelera, mas de 125cc. E, para não destoar, escolhi não uma Honda, não uma Yamaha, mas uma Sym.

MOTA.jpg

Eu e a minha Sym Fiddle III

 

E fomos incrivelmente felizes durante 4 anos. Tive um acidente, provocado por um automobilista distraído, uma queda sozinha (travei a fundo num sentido proibido que antes não estava ali, num dia de muita chuva, e a mota foi para um lado e eu para outro), e um pé atropelado por outro automobilista distraído. De resto, correu sempre tudo bem, felizmente. Mas todas as semanas evitei um acidente. Não dá para conduzir uma mota como se conduz um carro. Sabem aquela coisa de irmos do ponto A até ao ponto B sem nos lembrarmos bem de como lá fomos parar? Vamos a pensar na vida, a ouvir uma entrevista, a cantar uma música, e o cérebro já faz o percurso em pilito automático? Pois bem, de mota não convém. Porque uma distracção pode ser a morte do artista. Há sempre um despistado que muda de via sem olhar, um apressado que passa um semáforo encarnado, um idiota que vem bêbado a 140km/h num cruzamento onde não tem prioridade. 

Andava há algum tempo com vontade de mudar para uma mota com mudanças. Uma mota-mota. Gostava até de subir de cilindrada mas para isso preciso de tirar a carta e está a custar-me um bocado (tem de se voltar a fazer uma parte de código e... fuck, a última coisa que me apetece nesta altura da vida é estudar sinais e regras de trânsito). Vai daí que andei a namorar várias motas e acabei indecisa entre uma Mash e uma Mutt. Na Unik Edition Custom Motorcycles deram-me a conhecer a Bullit, porque são eles que representam a marca e, quer eu quer o Ricardo, acabámos apaixonados pela Bluroc 125cc. E foi assim que, no dia 19 de Novembro, fomos buscar a mota nova. E é linda. E já me queimei violentamente numa perna (na mesma que já tinha a cicatriz da primeira), e espero que seja a única mazela que ela me deixe. 

f68b7c1c-da84-4b52-a249-ff85756f1b29.JPG1314b833-7b32-4248-a221-0711ac3013c7.JPG08deda16-7665-4eb1-bd4e-4b5992d237fe.JPG

Fotos tiradas na sexta-feira, dia 20, pela minha amiga Inês Correia de Matos, da After Click, quando tínhamos ido dar a volta inaugural com a mota, e a encontrámos em Belém, por mero acaso (e sorte a minha).

Desinfetar para proteger

Captura de ecrã 2020-11-19, às 15.46.13.png

 

Tardou mas foi. Lysol, marca número 1 de desinfetantes nos EUA há mais de 100 anos, chegou finalmente a Portugal. E logo agora, que tanto precisamos dela!

Quando me convidaram para ser a cara desta marca de enorme reputação nos Estados Unidos (e em vários outros países, nomeadamente Brasil, México e Austrália), soube que estava a aliar-me a um gigante com história e com provas dadas. Lysol é uma marca ancorada na ciência, que comprovadamente elimina 99,9% de bactérias, fungos e vírus, com uma eficácia superior e sem comprometer a nossa segurança. Quando me convidaram, já sabia que Lysol eliminava os vírus que causam gripes e constipações, o que eu não sabia era que alguns dos produtos da gama conseguem dar cabo até do SARS-CoV-2, o nosso já bem conhecido causador da Covid-19. Ora, que mais pode uma mãe querer neste momento do que manter a família o mais a salvo possível? É certo que o bicho anda por aí, que temos de manter todos os cuidados, que não podemos baixar a guarda, que podemos apanhá-lo inadvertidamente em qualquer lugar, mas se conseguirmos que ao menos a nossa casa seja um porto seguro... já é um alívio.

Uma das coisas que me agrada em Lysol, além do fato já referido de ser uma marca que existe há mais de 100 anos e em constante evolução laboratorial (para acompanhar a própria evolução dos tempos), é o fato de ter vários produtos, numa gama que pretende cobrir todos os cuidados dentro de casa. O meu preferido é o Spray Desinfetante Multisuperfícies. Porque dá para borrifar praticamente por todo o lado: maçanetas, interruptores, telefones, cadeiras, mesas, torneiras, sanitas, colchões, sapatos (gosto sobretudo de dar uma "sprayzada" debaixo dos sapatos das visitas, em vez de lhes estar a pedir que se descalcem)... E, além de eliminar os vírus que causam as gripes e constipações que todos os anos nos atormentam, também já está cientificamente comprovado que elimina o SARS-CoV-2 (e como o odiamos, verdade?). E o bem que cheira? A sério, deixa um perfume mesmo bom, a lavado. Já usei, por exemplo, no carro, quando dei boleia a algum colega dos meus filhos ou quando levei a minha mãe às consultas no hospital. Antes de sair do carro, pffffffffff, spray por todo o lado - volante, manete das mudanças, travão de mão, bancos. Die, Sars, Die!

Além deste spray espetacular, Lysol tem depois uma gama de Pistolas para utilizar na cozinha, na casa-de-banho e um produto multiusos, que me vão ajudar a proteger a minha família em cada canto cá de casa.

Há ainda o Desinfetante de roupa líquido, para usar na máquina ou nas lavagens à mão. Sem lixívia, sem corantes nem fosfatos, está testado dermatologicamente. Usa-se como aditivo (além do detergente), tem um perfume mesmo bom e, além de eliminar 99.9% das bactérias, vírus e fungos, é um dos valentes, capazes de dar cabo do SARS-CoV-2. 

Por fim, o Tira-nódoas (que também não contém lixívia nem fosfatos mas elimina nódoas e maus odores da roupa) e o Limpa Máquinas Desinfetante para a máquina da roupa, que limpa, desinfeta, elimina maus odores, calcário, sujidade e resíduos de detergente.

Que tal? Não é assim mesmo uma boa notícia, esta chegada de Lysol a Portugal? Eu acho que sim, estou contente por ser a cara desta marca que nos vai ajudar a todos a estarmos mais seguros, numa altura em que é tão importante sentir alguma segurança nesta insegurança que se estabeleceu ao nosso redor. Espero que gostem tanto dos produtos como eu. 

#lysol #pub

Entrevista: Raquel Gil-Gouveia*

Hoje trago-vos uma entrevista que fiz a Raquel Gil-Gouveia, médica neurologista e coordenadora do Centro de Cefaleias do Hospital da Luz Lisboa, sobre Enxaqueca. Uma das maiores especialistas nesta doença, fala sobre sintomas, causas e consequências. 

FOTO CV Raquel.jpg

 

 

Começo por uma pergunta mais genérica, mas que pode ajudar muita gente a compreender melhor esta patologia: o que é, afinal, a enxaqueca?

- A enxaqueca é uma doença e é preciso reconhecê-la como uma doença. Um dos principais motivos pelos quais ainda hoje é, por vezes, incompreendida prende-se com o facto de, durante séculos, ter sido considerada um distúrbio mais psicológico mesmo pela comunidade médica. Nos anos 50-60, com uma série de experiências, começou a compreender-se que havia, de facto, uma série de disfunções e alterações confirmando que, afinal, se tratava de uma doença. Uma doença do cérebro.

 

O facto de se ter demorado tanto tempo a diagnosticar-se a enxaqueca como uma doença prende-se, imagino, com o facto de ela não poder ser detetada em exames ao cérebro. Ou seja: não há nada de visivelmente diferente nos cérebros das pessoas com enxaqueca?

- O facto de não haver um “marcador” que defina o diagnóstico pode contribuir para dificuldade de diagnóstico ou definição do problema. Não há nada de estruturalmente diferente, mas, ao longo do tempo, foram-se descobrindo várias diferenças no cérebro, nas crises e fora das crises (ou seja, o cérebro das pessoas que sofrem de enxaqueca funciona de forma diferente, mesmo fora das crises). É um pouco como um computador: o hardware de dois computadores pode ser igual, mas o software é diferente. E sim, isso dificultou bastante a valorização da doença, mas há outras razões... e uma das razões, infelizmente, é ser uma doença mais prevalente nas mulheres. E, como a enxaqueca está muito associada às fases menstruais, criou-se um estereótipo: de que seria uma condição hormonal, histérica... enfim. O curioso é que há descrições da enxaqueca desde os Egípcios. Só que, entretanto, a evolução da Medicina centrou-se mais na sobrevivência das pessoas e a enxaqueca não mata. Sabemos hoje que mói e muito, e felizmente os médicos começaram também a preocupar-se com a qualidade de vida.

 

Então, e em termos clínicos, como se manifesta esta doença?

- O cérebro espontaneamente desencadeia uma crise, com vários sintomas, o mais importante dos quais é a dor, mas não é o único. Essa crise é autolimitada, isto é, tem uma programação para ela própria acabar. As crises, por definição, duram de 4 a 72 horas, sem tratamento. Começam devagarinho e, às vezes, não é a dor o primeiro sintoma: as pessoas sentem-se mais cansadas, mais paradas, sonolentas, desconcentradas, com uma moinha que vai aumentando, podem sentir um enjoo... e depois vai em crescendo: a moinha passa a dor, tipicamente em metade da cabeça (é por isso que se chama enxaqueca, do árabe as-saqiqa, metade da cabeça), mas também pode doer toda a cabeça. Há uma intolerância à luz, ao ruído, ao movimento. A pessoa fica incapaz de se mexer, de pensar, pode ter visão turva, o pescoço dorido, e a dor torna-se mais pulsátil quando se agrava. As náuseas podem aumentar e o doente pode vomitar. Algumas pessoas (15%) podem ainda ter aura, que é um fenómeno neurológico transitório que consiste numa perturbação visual. As pessoas passam a ver metade do mundo distorcido, desfocado. Também há quem sinta os dedos dormentes, depois a mão, o braço, a cara de um lado, a língua e algumas pessoas ficam mesmo com dificuldade em falar.

 

Isso pode ser assustador porque facilmente confundível com outras doenças agudas.

- Sim, muitas pessoas julgam estar perante um AVC. Mas se for uma enxaqueca típica percebemos facilmente a diferença, porque há uma sequência de sintomas, enquanto no AVC é tudo abrupto.

 

É uma doença hereditária?

- É uma doença familiar. Ou seja: há maior propensão de passar para membros da mesma família, e não tem de ser para um filho ou neto. Agora, se uma mulher com enxaqueca tiver uma filha, há 2/3 de probabilidade de a filha ter. Entre mãe e filha a carga hereditária é muito pesada. Porque existe a parte genética e a hormonal.

 

Além do tal “software” diferente no cérebro das pessoas que têm enxaqueca, que provoca as crises per se, há também fatores externos, do quotidiano, que podem desencadear crises. Quais são?

- São vários: as menstruações no caso das mulheres (é o fator desencadeante mais frequente e consistente), alterações do padrão do sono, isto é, dormir pior numa noite ou dormir mais ao sábado, por exemplo. O stress é outro desencadeante, ou então até pode acontecer que a pessoa passe por um período de grande stress e não tenha nada e, de repente, relaxa e tem uma crise. Depois, há o fator alimentação: ficar muito tempo sem comer (a hipoglicémia associada ao jejum), desidratação. E há quem seja sensível a alguns alimentos ou bebidas em particular. O álcool é o mais frequente, o chocolate, para algumas pessoas também o queijo, os citrinos, alguns aditivos da comida chinesa ou indiana. E depois há quem tenha sensibilidade a coisas muito particulares. É muito variável. O exercício por vezes pode igualmente desencadear uma crise, o calor (as pessoas melhoram geralmente no inverno).

 

Quais são as consequências da enxaqueca na vida das pessoas?

- Ui... é toda uma panóplia. Claro que o impacto depende da intensidade das crises e da sua frequência. Obviamente que as pessoas que têm crises mais intensas e frequentes têm um maior impacto – alguém que tenha 15 ou mais dias de dores por mês, ou seja, alguém que esteja mais tempo com dor do que sem dor, tem um impacto enorme. Estes são os doentes com enxaqueca crónica, e representam 2 a 3% da população europeia. Felizmente, a maior parte não tem muitas crises. O típico são duas ou três crises por mês. As consequências são muitas: faltar ao trabalho porque não se consegue sair da cama, ter problemas familiares, sociais, ansiedade, oscilações de humor, depressão. A ansiedade de ter uma nova crise é típica, o que pode provocar por si só uma crise. As pessoas têm medo de assumir maiores responsabilidades no trabalho, têm medo de ir de férias com amigos (imagine alguém que vai uma semana de férias e fica 3 dias na cama com enxaqueca, estragando a semana a toda a gente). Começa a haver uma incapacidade “intercrítica”: não vão jantar fora, não vão de férias, não aceitam cargos de maior responsabilidade... e com isso aumenta a frustração, a sensação de fracasso. Os crónicos (os tais 2% que têm mais dias com dores do que sem dores) têm mais divórcios, mais desemprego, tomam mais analgésicos, sendo que a utilização continuada de analgésicos faz com que o cérebro, quando não está sob o efeito deles, comece a desencadear uma moinha permanente, ou seja, há uma cronificação da dor. É muito difícil.

 

Tem aumentado o número de pessoas com enxaqueca?

- É difícil dizer se a prevalência está a aumentar porque a verdade é que há muito mais estudos sobre o assunto. Há uma charity inglesa chamada “Lifting The Burden” que tem feito um estudo muito completo sobre a incidência mundial e, assim, hoje temos dados que antes não tínhamos.

 

As crianças também podem ter enxaqueca?

- Podem, podem! O problema é que há sempre uma via sacra que esses miúdos têm de percorrer até serem diagnosticados com enxaqueca. O processo é mais ou menos este: os miúdos começam a queixar-se de dores de cabeça e vão ao oftalmologista, para ver se será dos olhos. A seguir, vão ao otorrino, para descartar a sinusite. Ainda consultam o dentista, não vá ser algum desvio mandibular. E, por fim, vão ao neurologista. Mas, sim, os miúdos têm enxaqueca, é verdade. Aliás, podem ter manifestações desde bebés, através de equivalentes como a vertigem paroxística, o torcicolo paroxístico que, mais tarde, passam a ser enxaqueca. A partir dos 2, 3 anos os miúdos já conseguem explicar e dizer que têm dores de cabeça. Por vezes podem ter enxaqueca abdominal – estão enjoados, dizem que lhes dói a barriga, ficam olheirentos, quietos... é outra das formas equivalentes de enxaqueca que, mais tarde, se convertem nela propriamente dita. De qualquer forma, quando incide em crianças, é mais frequente aparecer pelos 6 anos de idade. Na puberdade, as raparigas têm um pico de incidência associado às alterações hormonais. Aos 15 anos, há 3 vezes mais raparigas do que rapazes com enxaqueca. Mas, em geral, o mais frequente é que a enxaqueca comece entre os 20 e os 30 anos. Normalmente, diminui com o avançar da idade e, 2/3 das mulheres tem um decréscimo significativo da frequência e da intensidade, depois da menopausa.

 

Imagino que, além dessa via sacra, ainda terão outra, a de terem os pais a acharem que é mentira, que é manha, que é para não irem para a escola... isso e os próprios professores, a pensar o mesmo.

- Isso é muito importante. Muitas vezes os pais pensam: “Ah, se calhar está a imitar-me, está a chamar a atenção”. Tenho a dizer o seguinte: normalmente quando os miúdos se queixam, é porque sentem. É muito raro, acho que nunca vi, um miúdo inventar uma coisa destas. Se diz que dói, é porque dói. Até pode não ser enxaqueca, mas também pode ser. E até pode ser enxaqueca agravado por um motivo psicológico – imagine, um miúdo que não está adaptado à escola. Como sabemos, o stress pode desencadear a enxaqueca. Há crises que são muito visíveis: as crianças ficam brancas, olheirentas, não querem comer, ficam prostradas no sofá. Depois também há as crianças que têm crises fraquinhas, que duram 1 ou 2 horas. Às vezes encostam-se um bocadinho, distraem-se e aquilo passa. Além disso, os miúdos têm uma facilidade que os adultos não têm: se um adulto se deitar com uma enxaqueca no seu início, sem tomar medicação, quando acordar estará a explodir de dor de cabeça. Os miúdos não. Por vezes basta mesmo que durmam uma meia hora e acordam ótimos. Tenho escrito bastantes recados para as escolas de crianças diagnosticadas com enxaqueca a pedir para que, quando eles se queixarem, arranjarem um espaço onde eles possam dormir um bocado. Mas, claro, por vezes é preciso mesmo medicar, porque pode não ser suficiente apenas o sono.

 

Porque é que se interessou por uma área que foi, durante tanto tempo, mal-amada pela Medicina?

-  Na verdade, começou com um episódio particular, ainda na faculdade. Estava em Medicina, no 5º ano, e numa aula de Neurologia, o professor Castro Caldas disse que havia o mito de as pessoas terem dores de cabeça quando precisavam de trocar de óculos. Dizia ele que não era verdade, que não passava de um mito. E eu, que sempre que aumentava de graduação tinha dores de cabeça (e era por isso que ia ao oftalmologista, comprovando-se a alteração na visão), discordei, ao que ele respondeu: “Então se não concorda, prove!” E eu fui ter com a professora Isabel Pavão Martins, professora associada da Faculdade de Medicina, propus o estudo, fizemo-lo em conjunto, ainda eu era aluna, e acabou por ser publicado numa revista internacional.

 

Em suma, não a provoquem!

- Não me provoquem. (risos) Mas pronto, podia ter feito o estudo e ter-me dedicado a outra coisa. Mas depois fui percebendo que as pessoas com enxaqueca eram muito pouco compreendidas (ainda são, mas na altura eram ainda mais) e têm um sofrimento profundo, desvalorizado até pela comunidade médica. Acho que foi também por isso que me interessei por esta área: temos as armas, temos os doentes, vamos lá diminuir o seu sofrimento e melhorar a sua qualidade de vida.

 

E acha que vamos um dia ter uma cura para esta doença?

- Daquilo que sabemos, acho que é difícil haver uma cura, um tratamento único que resolva o problema de uma vez. Não é impossível, mas é difícil. Agora, vamos é ter medicamentos cada vez mais eficazes e com menos efeitos secundários – já estamos, de resto e felizmente, a entrar nessa geração. Para o bem destas pessoas que, de facto, passam por muito.

 

*Post em Colaboração com Dá Voz à Tua Enxaqueca, para mais informações, consultem o Facebook e Instagram.

Endometriose: uma erva daninha silenciosa

FD0E2A58-C384-4A1F-A5C5-77D9D687EC32 (1).JPG

Cláudia Cadete, 28 anos, não tem útero, ovários, trompas. A histerectomia foi realizada há três meses mas, por vontade dela, tinha sido há vários anos. Sim, a remoção cirúrgica dos seus órgãos reprodutores foi voluntária e há muito desejada. Cláudia não tem filhos mas, quando se vive em profundo sofrimento, a infertilidade é o menor dos males. Não se pode ser mãe (nem sequer se pensa nisso) quando se passa a vida em hospitais e internamentos e sem o mínimo de normalidade. Cláudia não passou do 12ºano, nunca trabalhou, não pôde tirar a carta de condução. Tem 28 anos e não sabe, não faz ideia do que é viver sem dor. Na verdade, não sabe bem o que é realmente viver. Espera que agora, com esta menopausa forçada e sem os órgãos onde essa erva daninha chamada endometriose crescia e se espalhava, consiga por fim começar a viver.

Tudo começou com a primeira menstruação, aos 12 anos. Cláudia teve tantas dores que desmaiou mas, claro, devem ter achado que era pieguice. Afinal, "é normal" ter dores de barriga. A coisa foi sendo suportável mas, aos 17 anos, Cláudia foi internada com um episódio de cólica violenta e, já com 18 anos, encontraram-lhe uma massa num ovário: "Era um endometrioma ou quisto chocolate. Disseram-me que havia de passar com a pílula. Mas tomei a pílula e não passou. Voltei a ser internada em Dezembro de 2010, com dores excruciantes e a perder sangue pela urina e pelas fezes. A médica, quando me fez a ecografia disse que havia uma hemorragia tão grande que não conseguia distinguir os meus órgãos. O facto é que a endometriose é um tecido, o endométrio, que devia limitar-se a estar no útero e começa a crescer descontroladamente, invadindo outros órgãos. Ora, quando se dá a menstruação, o endométrio descama e é por isso que há sangramento. E ele descama estando onde estiver - e no meu caso estava espalhado por todo o lado."

Em Abril de 2011, Cláudia foi operada na Maternidade Alfredo da Costa por uma equipa grande. Na primeira consulta pós-cirúrgica, o médico disse que nunca tinha visto um caso como o dela. Tinha endometriose na bexiga, nos intestinos, nos órgãos reprodutores, nos rins, nos músculos do abdómen. "Explicaram-me finalmente que a dor de que eu me queixava, num ombro, tinha que ver com aderências num nervo que liga o ombro ao diafragma. A cirurgia, que devia ter durado uma ou duas horas, demorou 6. Mas eu achava que ia ficar boa, e isso era a única coisa que me interessava."

Só que não. Foi-lhe dado um medicamento que provoca uma espécie de menopausa (reversível) e então ganhou derrames nas pernas, o corpo começou a mudar, engordou 40 quilos. As idas às urgências mantiveram-se, desta vez com infecções urinárias de repetição e mais dores violentas (acabaria por descobrir que, um mês depois dessa primeria cirurgia, a endometriose já tinha crescido de forma impressionante).

Cláudia tinha 18 anos e, sempre que ia à MAC, ouvia o que não é, de todo, suposto ouvir-se aos 18: "'Então, já começou a fazer tratamentos de fertilidade? Quando quiser ter filhos vai ter de fazer uma fertilização in vitro.' Aquilo dentro de mim começou a gerar uma revolta... sentia-me como gado para procriação. Eu tinha 18 anos! Comecei a responder que não queria ter filhos, que era a melhor forma de se calarem com aquilo."

Numa das muitas ecografias descobriram uma massa na supra-renal. Foram controlando mas, em Março de 2012, Cláudia foi operada de urgência: "Estava com muitas dores, para não variar, e fui fazer uma TAC ao British Hospital. O médico veio falar comigo e eu perguntei: 'então, a massa está maior?' Foi então que ele me disse que eu estava com uma hemorragia interna, e tinha de ser operada o mais depressa possível. A massa, que antes tinha 5 centímetros, estava com 10. Abaixo das costelas, os órgãos estavam esmagados. A massa estava a pressionar o fígado, os rins, a veia cava. Isto foi numa quinta-feira, eu estava a tentar acabar o 12º ano e ainda fui à escola, mas o médico ligou-me para eu ficar quieta. Fui operada na segunda-feira e sabia que estava a morrer. Quando acordei, tinha tubos por todo o lado. Não conseguia abrir os olhos mas ouvi os enfermeiros a falar: "Epá, nem sabes o que aconteceu! Chamaram-nos a todos, esta cirurgia correu mesmo mal!" No dia seguinte, o médico veio falar comigo: "Tinhas a massa a pressionar a veia cava e tiveste muita sorte porque a qualquer momento podias encostar-te a uma parede e morrer. A cirurgia foi mesmo muito complicada. Levaste 11 transfusões de sangue e foi porque não havia sangue para mais. Mas ainda vais ter de levar umas quantas. E as próximas 48 horas são cruciais."

Mais tarde, soube exactamente o que o médico queria dizer com cirurgia complicada. Tiveram de lhe remover a supra-renal direita e, ao fazerem-no, cortaram inadvertidamente a veia-cava. Além disso, para removerem endométrio das zonas envolventes, cortaram partes dos pulmões. Tiveram de chamar reforços para o bloco. 

Mas o martírio de Cláudia ainda não tinha terminado. No pós-operatório teve várias infecções, tomou doses maciças de antibiótico, foi encaminhada para um novo ginecologista que a entupiu de medicação até lhe provocar uma hepatite medicamentosa. Deixou de ir a hospitais públicos onde a resposta era sempre a mesma: "Isso não é nada, vá para casa", até o nada ser, afinal, uma emergência e dar aso a uma nova cirurgia. A primeira vez que pediu para remover o útero e os ovários tinha apenas 19 anos. "É muito nova, tenha filhos que isso passa. Como se fosse possível ter filhos nestas circunstâncias." Em 2015, foi operada de novo para remover uns nódulos no recto. Fez mais tratamentos hormonais, um vindo da Alemanha, outro de França, que nada fizeram (a não ser umas dores de cabeça terríveis).

B3B67DE9-E5AA-4831-826E-267F72B967DB.JPG

 

Durante todo este processo ouviu coisas que não pensou que lhe dissessem: "Quer deixar de ter órgãos reprodutores? Quer deixar de ser mulher? Os médicos deviam ter uma consciência diferente. Houve um médico que me disse que um dia, quando tivesse um parceiro, teria de ter os filhos dele. Mas quais filhos? Houve alturas em que não conseguia sequer ir à casa de banho sozinha! A dor era tanta! Cheguei a estar toda queimada do saco de água quente que punha encostado a mim, para aliviar as dores. E não senti queimar, porque as minhas dores eram superiores. E o cansaço? Arrastava-me, de dia para dia, ano para ano. De cirurgia em cirurgia, de internamento em internamento, de exame em exame. Que vida era essa? Filhos? O que é que me interessavam os filhos se eu não vivia?"

Há pouco tempo um médico teve o desplante de lhe falar de um "estudo" que concluía que a endometriose só afectava mulheres bonitas. "Não se queixe, porque é bonita!" Cláudia ficou boquiaberta: "Que parâmetros foram usados para definirem a beleza das doentes? Se isto fosse uma doença de homens, de certeza que não havia estudos tão idiotas como este!"

No final do ano passado, começou com hemorragias intestinais. E foi então que fincou o pé: "Vou pedir que me tirem o útero e implorar que me removam os ovários também. Antes disso, pedi para marcar uma consulta no Hospital de Santa Maria porque queria congelar os meus óvulos e nas clínicas privadas é caríssimo. Marcaram consulta para dia 8 de Fevereiro de 2021. Expliquei que ia ser operada para remover tudo, e que não podia esperar tanto. Tive de fazer ficha, escrevi no estado civil que era solteira e ainda tive de ouvir um "Sabe que para fazer bebés é preciso um homem, não sabe? Vai ficar sem útero, vai ficar com os óvulos para recordação? No seu caso nem vale a pena." Não apresentei queixa porque, sinceramente, não tinha energia para isso."

No dia 10 de Julho deste ano, aos 28 anos, finalmente conseguiu remover útero, ovários, trompas, mais umas novas massas no recto. Acordou e não sentiu dores no útero, porque já não o tinha. "Foi a primeira vez que não senti dores! Correu tudo bem. Bom, quer dizer... 15 dias depois tive uma obstrução intestinal, vou começar fisioterapia da bexiga, e ainda não sabem se os meus rins não estão comprometidos, porque foram atingidos pela doença. Sei que esta cirurgia pode não ser a cura, sei que a doença pode continuar a manifestar-se, mesmo sem útero, o órgão que deu primeiramente origem ao endométrio. Mas quero acreditar que melhore. Quero acreditar que a partir de agora é que vou começar a minha vida."

68288589-43BE-4A4E-8D58-AD39A0A2240B.JPG

Dá voz à tua enxaqueca

A minha boadrasta, que conheci com 6 anos (eu, naturalmente; ela tinha 25) foi a pessoa que mais vi sofrer com enxaqueca, quando eu não só não sabia que era uma doença, como nem nunca sequer tinha ouvido a palavra. Enxaqueca. Que raio de vocábulo que até dava para rir, por fazer lembrar cueca. 

Em breve percebi que não havia nada para rir. A minha boadrasta, que era tão alegre e querida, fechava-se no quarto escuro, dias a fio, com um lenço enrolado na cabeça, a fazer tanta força que eu achava que a cabeça dela ia explodir. De vez em quando, era vê-la correr para vomitar, e depois voltar para a cama sem conseguir abrir os olhos ou proferir uma palavra. Não se podia fazer barulho em casa. Um alfinete a cair era uma agressão. Fiz-lhe muitas massagens, que ela agradecia, mas que pouco ajudavam. Assisti, com espanto, àquela dor que limitava, que esmagava, que fazia desaparecer a minha companheira de fim-de-semana, e de férias, para um buraco negro de onde demorava a sair. Nunca se sabia quando voltava. Mas quando voltava, arrasava todos os planos.

Entretanto, cresci e herdei uma pequeníssima parte disto. Ela tinha todos os meses, com a menstruação, e em outros dias extra (que atribuía ao queijo que tinha comido, ao vinho que tinha bebido, ao stress que tinha tido, e outras vezes a nada em particular). 

A enxaqueca é uma doença. Muitos ainda não o sabem, mas é e, neste momento, é uma das prioridades da Organização Mundial de Saúde. A enxaqueca não só é uma doença, como é a 3ª doença mais frequente em todo o mundo e a 2ª causa de maior morbilidade nas mulheres em Portugal, a 5ª nos homens. O impacto sobre a qualidade de vida de todas estas pessoas - tantas! - é absolutamente esmagador. E o impacto subsequente na sociedade é grandioso. Durante anos, demasiados anos, a enxaqueca foi desvalorizada, marginalizada e pouco percebida, mesmo pelos médicos, por se tratar, efetivamente, de uma doença neurológica complexa. Este desconhecimento trouxe ainda mais sofrimento a todos os doentes, não só porque os médicos não tinham uma resposta, como porque ninguém valorizava devidamente os seus sintomas.  "Ah, está com dores de cabeça e meteu baixa por causa disso! Eu também tenho dores de cabeça e venho trabalhar!" É fundamental explicar isto: ter enxaqueca não é ter "dores de cabeça". A enxaqueca tem um conjunto de sintomas absolutamente excruciantes, que impedem a vida profissional, social e pessoal, levando, muitas vezes, os doentes à depressão. Há uma grande percentagem de doentes com enxaqueca que sofrem também de quadros depressivos. 

A vida familiar de quem sofre de enxaqueca é afetada de formas que, quem não a tem, não pode imaginar. Imaginem uma mãe a querer cuidar dos seus filhos, a querer aproveitar o fim-de-semana para estar com eles, para brincar, e não ser capaz de sair do escuro, da cama, daquele buraco negro para onde se afunda sem conseguir sair. Imaginem uma mãe que tem planeado um fim-de-semana com o marido e os filhos num sítio qualquer, ou um jantar, ou umas mini-férias. Imaginem a ansiedade de pensar: "E se, logo nesse dia, estou com enxaqueca? E se eu estrago tudo outra vez?" Agora imaginem que sim, surge mais um episódio de enxaqueca logo nesse fim-de-semana, nessa noite, nesses dias. A culpa, a raiva, a tristeza, e muitas vezes a incompreensão são devastadoras. E digo uma mãe porque a doença é mais prevalente nas mulheres, mas também há homens que a têm, e esses têm outra questão para ultrapassar: como esta é uma patologia sobretudo atribuída às mulheres, eles sofrem muitas vezes em silêncio, procurando disfarçar profissional, social e familiarmente algo que é violento e indisfarçável. Ter enxaqueca é como ter uma bomba-relógio dentro da cabeça. Não dá para sorrir e acenar e continuar como se nada fosse. É preciso pedir ajuda, é preciso ter o diagnóstico certo, o acompanhamento certo, a medicação correta, o suporte familiar forte.

É ainda importante falar nas crianças, para que não sejam, também elas, incompreendidas e olhadas com desconfiança. Depois do diagnóstico, as escolas devem estar preparadas para saber lidar com estes miúdos, dando a devida relevância às suas queixas. Quantos miúdos com enxaqueca já terão sido negligenciados, por se pensar tratar-se de preguiça ou engodo para fugir às obrigações escolares? É óbvio que há malandros para tudo, mas quando os sintomas são repetidos e consistentes... mais vale averiguar.

Está mesmo na hora de levar a enxaqueca a sério. Dá Voz à Tua Enxaqueca! Para mais informações e esclarecimentos, consultem o Facebook e Instagram do Dá Voz à tua Enxaqueca e partilhem a vossa experiência.

Post em Colaboração com Dá Voz à Tua Enxaqueca.

 

 

Casas Comigo #7

Depois de meses sem meter o nariz em casas de sonho, eis que voltou o "Casas Comigo". Desta vez, fomos a Óbidos, ao Bom Sucesso Resort. E que resort! A 1 hora de Lisboa, a 20 minutos de Óbidos, um espaço único de paz, com moradias isoladas T3 e T4 com área exterior e piscina privativa, mas também moradias em banda T1 a T3, com área exterior e piscina do condomínio. Além das moradias (isoladas e em banda) há também lotes para construção nova. 

As moradias isoladas têm design contemporâneo de arquitectos de renome: A. Siza, Souto Moura, D. Chipperfield, Carrilho da Graca, Aires Mateus, Ines Lobo, Nuno Graca Moura, entre outros. O resort tem um campo de golfe com 60 hectares, 18 buracos. E ainda um hotel de 5 estrelas em construção. Todas as moradias têm vista para a natureza envolvente, para o golfe ou para a lagoa.

Eis os intervalos de preços das moradias:

Moradias T1 | Preços de 165.000€ a 185,000€

Moradias T2 | Preços de 197.000€ a 315,000€

Moradias T3 | Preços de 310.000€ a 390,000€

Moradias T4 | Preços de 460.000€ a 1,100,000€

A casa que fomos ver era tão bonita, tão luminosa, tão espaçosa... Foi um regresso mesmo em grande.

Espero que gostem tanto como eu.

Mudar de vida #22: Vera Galamba

Dos £ltimos trabalhos como jornalista.jpeg

Sempre a fascinou o jornalismo de causas. Ser a voz dos que não têm voz, falar pelos que não podem, gritar o que não pode ser calado. Ainda durante a licenciatura no ISCSP, em 1999, Vera Galamba trabalhou na imprensa regional (no Notícias de Alverca e no Vida Ribatejana). Depois, saltou para a Agência Financeira da Media Capital e foi editora de Economia do Jornal Metro. Seguiram-se 8 anos como freelancer, onde fez sobretudo cadernos especiais da Controlinveste (DN, JN, 24 Horas) e assistência à produção do programa Sociedade Civil, na altura apresentado por Fernanda Freitas. Com ela viria a trabalhar mais tarde, na sua empresa, Eixo Norte Sul.

Paralelamente - porque na vida as coisas não acontecem todas de forma sequencial, como se fossem estanques - Vera andava a pesquisar formas de salvar animais. A culpa foi de um cartaz do PAN (Partido Pessoas, Animais, Natureza), estrategicamente colocado na 2ª Circular, à entrada de Lisboa, corria o ano de 2014. No cartaz lia-se que mais de 100 mil animais eram eutanasiados por ano, nos canis municipais. "Sempre que vinha na A1 deparava-me com aquela frase e aquilo mexia comigo. Pensava sempre para comigo: tem de haver uma forma de os salvar, tem de haver! Comecei a pesquisar e acabei por descobrir as terapias assistidas por animais, que hoje já é algo que se ouve falar em Portugal, mas em 2014... era completamente novo. Em dezembro desse ano estive de férias nos EUA e marquei uma série de visitas a associações que fazem terapias assistidas. E quando voltei fui fazer uma pós-graduação no ISPA em terapias assistidas por animais."

Este amor pelos bichos não foi um surto súbito, convém que se diga. "Desde pequena que me fazia confusão ver cães e gatos abandonados e o meu sonho, a certa altura, era ter uma quinta onde pudesse albergar todos esses animais. Entretanto, o tempo passou. Sempre quis ter animais e os meus pais nunca me deixaram. Só consegui convencê-los a adoptar a primeira cadela já eu tinha 20 anos. Era a Pantufa. Quatro anos depois veio a Luna, a única sobrevivente de uma ninhada encontrada num contentor do lixo. E dois anos passados, a minha mãe fazia voluntariado numa associação com péssimas condições, que foi fechada, entretanto, e foi ela quem trouxe a Estrela. Lembro-me de a minha mãe dizer ao meu pai que ela vinha só por 15 dias, apenas para fortalecer porque não comia e ia morrer de fome. Ficou connosco até há umas semanas, altura em que morreu. Viveu uma vida feliz, tirando o facto de nunca ter sido aceite pela Pantufa."

Feito este parêntesis, e recuperando o fio da meada, tínhamos então uma Vera com este amor latente pelos bichos, jornalista, e a fazer uma pós-graduação em terapias assistidas por animais por causa de um cartaz do PAN. Depois, vieram várias formações intensivas: uma de intervenções assistidas por animais com uma associação espanhola, um curso de treino. "Desenvolvi dois projectos, todos virados para a reabilitação de animais abandonados. Um tem a ver com o combate à depressão em idosos que vivem sozinhos ou isolados, utilizando animais abandonados. O outro, que tem por base dois projectos que existem nos EUA (Courthouse Dogs e Buddys Behind Bars), visava o apoio a mulheres e crianças vítimas de violência doméstica e sexual."

Relembre-se que tudo isto acontecia ao mesmo tempo que Vera Galamba seguia com o seu trabalho como jornalista. Quando o projecto com a Fernanda Freitas terminou, a 30 de Janeiro de 2017, Vera tinha uma conferência de 4 dias em Inglaterra (Woof!) e pensou: "Vou à conferência e fico lá a viver. Sempre quis ir para Inglaterra, sempre quis ter uma experiência internacional, não tenho emprego... é agora." Vera tinha o curso do British Council, tinha um certificado internacional de tradutora, tinha a vontade de ir. Juntou tudo e, em Fevereiro, foi. 

Na conferência Woof! conheceu a CEO da Battersea Dogs & Cats Home e houve logo ali uma espécie de empatia. Vera concorreu para uma das vagas, fez entrevista, passou à segunda fase. Acabou por não ficar na posição para a qual se tinha candidatado mas numa abaixo. Simultaneamente, foi a uma entrevista para um serviço de apoio ao cliente, com um salário bem mais elevado, sem trabalho ao fins-de-semana ou aos feriados. Mas o amor pelos bichos falou mais alto. Aceitou a posição na Battersea. Foi para tratadora, o que significava basicamente fazer a limpeza dos canis, tratar da alimentação, da medicação, levar à rua, ajudar nos testes de avaliação dos animais.

A Battersea Dogs & Cats Home é um centro de resgate de animais abandonados, que podem chegar através de 3 vias diferentes: ou entregues directamente pelos donos, que deixam de poder ter os animais por qualquer razão (e a lista de espera é longa), ou através de outras associações, ou através de wardens - pessoas contratadas pelas autarquias para recolherem os animais que andam a vaguear na rua. O que a empresa faz é recuperar esses animais com o objectivo de serem adoptados. Muitos têm comportamentos agressivos ou simplesmente complicados para serem compatíveis com a vida dos humanos. O que se pretende é que não haja devoluções e, sobretudo, que não haja problemas comportamentais que resultem em agressão. E, por isso, há uma série de testes que são feitos aos animais, para perceber o nível de treino que será preciso e o tipo de família de que necessitam, até que sejam considerados aptos para irem viver com uma.

Vera está nas sete quintas. Faz agora 1 ano em Outubro que foi promovida a Coordenadora e compete-lhe avaliar os cães, ajudar a desenvolver o plano de treino específico para cada cão, cada protocolo. O passo seguinte será ser comportamentalista, o que não está assim tão distante dos seus horizontes, uma vez que continua a fazer formação contínua: "Estou neste momento inscrita num curso de comportamento canino, que é um curso de nível 5, o equivalemente a um curso técnico-profissional (o nível 6 seria licenciatura). É um curso bastante intensivo."

Neste momento, uma das coisas que aprendeu foi que, até ter ido para Inglaterra, não sabia nada sobre cães. E mesmo que continue por lá mais uns anos, e mesmo que se mantenha sempre a estudar, vai saber sempre pouco. "Quem teve sempre cães acha que, por essa razão, sabe como lidar com eles. A verdade é que não. Pode-se fazer uma função durante 20 ou 30 anos, mas se ela é mal feita desde o início, e ninguém corrige, nunca chegará a ser bem feita. Hoje olho para trás e vejo que as minhas cadelas, coitadas, bem se exprimiam, eu é que não as entendia. Cada cão é um cão, e ainda que existam traços gerais de raça, a verdade é que depois o indivíduo vai ter outros traços que são seus." Talvez hoje conseguisse que a sua cadela Pantufa tivesse olhado a Estrela com outros olhos. Ou então não. Porque há cães que nunca se dão, do mesmo modo que há pessoas que jamais serão amigas. É a vida a acontecer.

Quanto aos traços gerais de cada raça, Vera esmiúça: "Acho graça às pessoas que querem ter, por exemplo, um Border Collie e depois não compreendem porque é que, sempre que há uma festa com crianças o cão corre atrás delas e pode até mordiscar-lhes os tornozelos. É preciso perceber que o Border Collie é um cão de pastoreio. E o que faz um cão de pastoreio? Reúne as ovelhas. Ou seja, quando as ovelhas começam a dispersar, o Border Collie anda em círculo atrás delas para as concentrar. Ora, se há crianças a correr de um lado para o outro, o cão faz o que está inscrito no seu ADN: reúne as ovelhas (ainda que as ovelhas sejam humanas). Quem diz esta situação com um Border Collie, diz outras. Como aquele Beagle que nos foi entregue porque, quando passeava na rua estava sempre de nariz no chão, a farejar, e não ligava nenhuma à família. É preciso que se diga que a função original do Beagle é ser cão de caça e farejar para encontrar a presa. Por isso, é natural que tenha sempre o nariz colado ao chão quando anda na rua. As pessoas querem que os cães se adaptem a elas, e muitas vezes são incapazes de fazer um esforço para serem elas a adaptar-se à natureza dos cães."

Vera mudou de vida aos 36 anos (agora tem 40). Deixou o jornalismo para se dedicar ao comportamento animal e à recuperação de cães abandonados. Está a desenvolver o projecto The Dogmother Academy e, em breve vai lançar três vídeos gratuitos sobre como escolher o cão ideal. "A ideia é tentar reduzir a taxa de abandono. Fazer com que as pessoas pensem antes de adoptar."

A sua mudança de vida não foi fácil para a mãe: "Para ela foi difícil engolir o facto de ter uma filha, a única filha, a deixar uma profissão como a de jornalista para... limpar canis. Era assim que ela se referia ao meu trabalho: 'andaste a estudar tanto tempo para agora ires limpar canis. Tinhas uma casa tão boa e agora partilhas casa, lá em Inglaterra!' Não é fácil para ela, e eu compreendo. O meu pai acho que se conformou. Mas estou em crer que ninguém entende bem isto."

Porém, é bom que se acostumem. Porque ela tenciona continuar a viver em Inglaterra por mais dois anos, altura em que pode pedir o Settle Status, que lhe permite estar fora do Reino Unido durante 5 anos sem perder o direito a residência. E mesmo quando puder vir para Portugal, o seu sonho maior é ter um canil seu. Pensado de raiz, ecológico, tendo em conta o bem-estar animal. Tem até uma ideia brilhante, de fazer um concurso para estudantes de arquitectura, que pensem num projecto original e sustentável, onde os cães possam viver felizes até encontrarem uma família que os adopte, e no entretanto dar-lhes o treino de que precisam para não criarem problemas às famílias adoptantes.

Em jeito de conclusão, vale a pena voltar ao início deste texto. "Sempre a fascinou ser a voz dos que não têm voz, falar pelos que não podem, gritar o que não pode ser calado." Tem graça porque é exactamente o que faz hoje. Não no jornalismo, mas com os animais. Há pessoas destinadas a cumprir os seus desígnios, de uma forma ou de outra. A Vera é uma dessas pessoas. 

VERA.jpg

 

Histórias da Quarentena #7

Hoje celebra-se o Dia Internacional dos Cuidados Paliativos Pediátricos e esta é a história de quem os viu substancialmente alterados por causa da pandemia. E de quem gostava que eles pudessem chegar mais longe, porque não são uma desistência, são uma aposta na qualidade de vida

20201009_093242.jpg

Custam-lhe, os queixumes. Filipa sabe que a natureza humana reside também nesta permanente insatisfação, mas uma coisa é compreender, outra é ouvir queixumes sem sentir uma pontada de enervação. Pais a queixarem-se dos vários meses que passaram em casa fechados com os filhos, por exemplo. Mães que tiveram bebés sem terem os pais ao lado. Pessoas privadas de festa de aniversário. Filipa suspira, revira os olhos, tenta não ser hostil. Mas a ela, que assiste a crianças com doenças graves e internamentos prolongados no hospital, apenas com um acompanhante e privadas da presença de todos os entes queridos devido às restrições que a Covid-19 trouxe, a ela custam-lhe ouvir certos desabafos. 

Filipa Freitas, 42 anos, queria ser médica pediatra. Teve sorte. Não conseguiu entrar para Medicina. "Por isso entrei para Enfermagem, em Coimbra, que foi a melhor coisa que me aconteceu. Se tivesse sido médica tenho a certeza de que não seria tão feliz como sou agora. Esta era a minha verdadeira vocação e eu não sabia." 

O serviço onde Filipa trabalha tem uma Unidade de Cuidados Paliativos com 5 camas. "Já desde 2017 que já trabalho numa equipa de suporte em cuidados paliativos pediátricos e já nessa altura tínhamos as consultas, e as consultas domiciliárias.  Esse trabalho com doença crónica complexa já existe há anos – só agora tem o nome de cuidados paliativos porque só agora se dá uma maior importância a esses cuidados em Portugal. Desde que ali trabalho, mudei muito a minha maneira de ver a vida. Quem passa por aquela unidade não consegue ficar indiferente. E é por isso que por vezes me irrita ouvir as pessoas queixarem-se de coisas pequeninas. Muito raramente me queixo de coisas pequeninas e acho que fazia bem a muita gente passar por ali uns dias."

A pandemia de 2020 veio mudar muita coisa no trabalho de Filipa. E acirrou ainda mais esta falta de paciência para com os lamentos sem grande razão de ser. Porque se antes já era doloroso assistir à doença e à morte de crianças, e ao sofrimento das suas famílias, agora passou a haver um novo dado na equação: o facto de essas famílias não poderem estar juntas nos últimos dias de vida das crianças doentes. "É muito difícil haver uma situação de agudização do estado de saúde de uma criança internada, ou mesmo uma situação terminal, e não podermos abraçar aquela família, como sempre fizemos. Antes, a criança podia estar com ambos os pais até às 11 da noite, altura em que um deles se ia embora e ficava o outro, se assim desejasse. Agora só pode estar um ao lado da criança, durante o dia e a noite. Só em situações muito excepcionais podem trocar, e isso implica uma série de regras de segurança. O que significa que, na maior parte das vezes, os pais não vêem os filhos. Nem os avós, nem os tios, nem os irmãos. Há crianças que estão assim, isoladas do mundo, desde Março. Não há despedidas. E é uma dor indizível."

Além do mais, explica Filipa, há perdas que não são contabilizadas nos jornais da noite das televisões. É o caso das famílias que, tendo em casa uma criança profundamente dependente, se viram privadas de todos os terapeutas que iam a casa, por causa da Covid-19: "Imagine uma mãe - geralmente são as mães que ficam em casa com os filhos com deficiências profundas ou doenças altamente incapacitantes - que está sempre em casa, sem falar com ninguém a não ser os terapeutas ocupacionais, os terapeutas da fala, os fisioterapeutas, que antes disto tudo iam a casa ajudar a criança. E que deixaram de ir. Além do prejuízo para as crianças, as mães ficaram ainda mais isoladas, ainda mais deprimidas. Mesmo nós, que temos visitas domiciliárias, entre Março e Junho deixámos de ir. Fomos tentando compensar com telefonemas, com vídeo-chamadas, com mensagens, mas não é a mesma coisa. Para a saúde mental destas pessoas foi mesmo muito complicado."

Percebe-se que Filipa se exaspere com queixinhas pequenas. Não há como censurá-la. Sobretudo quando se recorda do caso mais duro que se lembra de ter vivido (e já viveu muitos): ": Acompanhava, desde bebé, uma menina de 10 anos, com uma situação de saúde muito complexa e elevada dependência. Acompanhei-a desde o primeiro internamento, que durou 7 ou 8 meses e em que a mãe aprendeu todos os cuidados complicadíssimos de que ela necessitava. No dia em que ela foi para sua casa, fomos de ambulância, eu acompanhei a chegada a casa - toda a gente a chorar, foi uma emoção. Sempre que ela vinha para o hospital (estas crianças são hospitalizadas muitas vezes), era sempre eu que ficava com ela. Tinha uma relação muito próxima com a família. Há um ano, o seu estado começou a agravar-se, apesar dos cuidados extraordinários da mãe e do pai, que nunca se separaram, ao contrário do que costuma acontecer. Um dia, já durante a pandemia, estava de folga e ligaram-me a dizer que ela tinha dado entrada e que o seu caso era terminal. Fui para o hospital e lá a vi no isolamento, rodeada pela mãe, pela médica e pela enfermeira de turno, vestidas da cabeça aos pés como se ela tivesse Covid (é esse o procedimento, até chegarem os resultados dos testes). Vesti-me também da cabeça aos pés e entrei. Não imagina o que me custou não poder abraçar aquela mãe, que conhecia há 10 anos, e que tinha ali a sua filha, a morrer, e estava sozinha. Eu que a abracei tantas vezes, naquele momento tão duro não pude. Foi a coisa mais triste que me aconteceu."

Entretanto, foi feito um pedido especial ao director de serviço, para o pai poder entrar. A autorização foi dada mas o pai, que vivia em Aveiro, chegou tarde demais. A filha tinha morrido antes que ele pudesse despedir-se dela em vida. Duas horas depois da morte da menina, os resultados do teste chegaram: negativo para Covid. Porém, já os pais se tinham ido embora, e os abraços que a enfermeira gostaria de lhes ter dado ficaram irremediavelmente por dar, naquele que foi o momento mais difícil das suas vidas.

Filipa Freitas não consegue desligar dos meninos que tem no hospital. "Nunca. Já faço isto há 21 anos e se não enlouqueci até agora já não vou enlouquecer. De resto, não sou apologista da frieza. Já chorei à frente das famílias e não acho que isso seja uma fraqueza. Acho que é um sinal de empatia. No dia em que eu não me emocionar com isto não estou ali a fazer nada."

Uma das coisas que mexem com os nervos desta enfermeira (além das lamúrias fúteis que ouve por aí) é a pouca noção que ainda existe sobre o que são cuidados paliativos, sobretudo cuidados paliativos pediátricos. "Na verdade, nós não estamos ali para quando já não há nada a fazer, que é uma ideia que muitos profissionais de saúde continuam a cultivar. Não! Há muito que podemos fazer. Há muito sofrimento que podemos aliviar. E não falamos apenas de sofrimento físico, falamos de sofrimento emocional, espiritual, social. Há muito para fazer! A morte não é uma derrota. Se conseguirmos fazer tudo, se conseguirmos que a criança sofra menos, rodeada de quem gosta, é uma vitória."

Hoje, dia 9 de Outubro de 2020, comemora-se o Dia Internacional dos Cuidados Paliativos Pediátricos. E Filipa quer deixar recados, para que o preconceito não estrague um trabalho que devia começar mais cedo, mas invariavelmente começa demasiado tarde: "Ainda temos referenciações muito tardias por parte de algumas especialidades. Alguns profissionais consideram uma derrota enviar-nos alguns casos. Há uma espécie de obstinação terapêutica e uma recusa em falar de cuidados paliativos, como se fosse uma desistência. Não é! Não desistimos de ninguém. Pelo contrário: fazemos uma abordagem global da criança e da família - a mãe, o pai, os irmãos, os avós... Ajudamos e cuidamos de todos. Nas visitas domiciliárias conhecemos as necessidades de cada um e procuramos chegar a todos. Fazemos a ponte com os cuidados de proximidade, agilizamos tudo para que os cuidados em casa não sejam um bicho de sete cabeças. E proporcionamos uma melhoria efectiva da qualidade de vida. Não tenho qualquer dúvida sobre isso."

A morte é o derradeiro tabu. É irónico, porque é a única garantia que temos. E, no entanto, não se fala, não se pensa, não se planeia. "A maioria das crianças e das famílias preferia morrer em casa. Não nos moldes em que hoje as coisas estão. Mas se houvesse um acompanhamento bem feito, como existe noutros países, quase todas prefeririam. Ninguém quer morrer na frieza de uma hospital se puder morrer com dignidade e paz, rodeado das suas coisas e das suas pessoas, com a devida assistência de profissionais. Há cerca de 8 mil crianças com necessidades paliativas. Na zona centro são 1500. Sabe quantas seguimos aqui no meu serviço? Quarenta e tal. E não é só porque não conseguiríamos dar resposta. É porque não são referenciadas pelas respectivas especialidades. E é um direito humano que elas têm, e que não está a ser respeitado. Neste dia, é preciso falar disto. É preciso mudar muita coisa em Portugal."

Compreende-se, agora, que lhe custem os queixumes. São muitos anos a lidar directamente com o sofrimento mais contra-natura que existe. O das crianças, que deviam estar a esfolar joelhos e a rir até lhes doer a barriga. E o dos pais, que nunca por nunca deveriam ver morrer um filho. A todos os que têm por hábito queixar-se por dá cá aquela palha, Filipa pede: "Olhem para o lado. Há vidas tão duras que nem imaginamos. Mas talvez seja bom imaginar. Porque elas existem realmente. Não são ficção. Empatia precisa-se."

FF.jpg

No Dia Internacional dos Cuidados Paliativos Pediátricos, há um movimento chamado "hats on 4 cpc". Quem se identificar com este tema, pode hoje tirar uma fotografia com um chapéu pelos Cuidados Paliativos Pediátricos e publicar nas redes sociais com o #hatson4cpc. 

https://www.facebook.com/attitude.org/videos/654745985237766