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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Covid que te pariu!

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Nos últimos anos temos recebido uma autêntica lavagem ao cérebro sobre ambiente, alterações climáticas, poluição, aquecimento global, buraco na camada do ozono, raios UV, derretimento das calotas polares, oceanos de plástico, lixo, reciclagem, fim do mundo iminente. Mudámos os nossos hábitos, fizemos das tripas coração para usar sacos de papel, de pano, levar o carrinho das compras em vez dos sacos, andámos carregados para contentores de reciclagem que ficam por vezes absurdamente longe das nossas casas, apanhámos lixo que não era nosso e colocámos no recipiente correcto, largámos os cotonetes, as palhinhas, diabolizámos os plásticos. Fizemos a nossa parte. E, muitos de nós, fizemo-lo com o empenho e a certeza de estarmos a fazer a coisa certa em nome de um planeta em claro sofrimento. 

Só que entretanto veio a Covid-19 em jeito de pandemia. E pronto. Acabou tudo. Em nome da segurança, hotéis passaram a ter produtos embalados em celofane nos buffets, supermercados voltaram aos produtos dentro de caixas de plástico e agora soube de dezenas de escolas a pedirem que não se levem mochilas mas sim sacos de plástico que possam ir para o lixo e até garrafas de plástico que tenham o mesmo destino (felizmente nenhuma das escolas que os meus filhos frequentam). Tudo porque querem evitar o leva-e-traz com a consequente viagem de eventuais vírus. Compreendo os medos mas acho um absurdo. O plástico, que até há pouco tempo era o nosso inimigo mortal, voltou sem problemas? O nosso único mal é o novo coronavírus? Não há mais nada?

Além desta questão, outra: durante anos ensinaram-nos a ser solidários. A não deitar fora o que já não queríamos mas a dar a quem possa usar. E nós cumprimos. Reunimos o que não queremos, vamos levar, ficamos felizes por poder contribuir para uma melhoria na vida de alguém. Bom, aparentemente também isso está em vias de mudar. Fiz arrumações cá em casa e tenho 8 sacos de roupa em optimo estado para entregar a quem precise. Já liguei para a Junta, já liguei para instituições. A resposta? Sempre a mesma. "Não estamos a receber". A culpa adivinha-se depressa: Covid. Portanto, por causa do bicho, quantas pessoas há que não vão beneficiar de roupa e de brinquedos e outros bens? 

Já para não falar nas consultas adiadas, nas pessoas que não vão ao médico controlar as suas doenças crónicas ou agudas com medo de apanhar a bicheza do momento, com o consequente aumento da mortalidade e morbilidade na população.

Compreendendo eu tudo, porque tendo a ser dada à tentativa de compreender sempre o outro lado, acho que há aqui um acumular de incongruências que me levam a temer todo o rol de consequências nefastas desta pandemia que eu ainda nem sequer assimilei. Julgo que estamos a retroceder décadas. Financeira, social, ambiental e culturalmente. Covid que te pariu.

Colégio/ Escola Pública

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É uma pergunta recorrente que me fazem: "colégio ou escola pública?" E também: "Como geres o facto de teres uns filhos no colégio e outros na escola pública?"

Vamos a isto, então. Quando tivemos o Manel e o Martim nem sequer considerávamos a possibilidade "escola pública". Três principais razões para isso:

1 - Ambos andámos a vida inteira em colégios e não queríamos dar menos do que os nossos pais nos deram a nós (o que assenta no pressuposto errado de que a escola pública é menos que os colégios, o que nem sempre é verdade).

2 - Tínhamos ambos preconceitos em relação à escola pública (como, de resto, é fácil perceber pelo ponto anterior).

3 - Podíamos pagar.

Depois, tivemos a terceira filha e metemo-la também no colégio. Ainda conseguíamos aguentá-los financeiramente mas já considerávamos a possibilidade de fazer a mudança. Porquê? Porque sentíamos que, se era verdade que podíamos mantê-los a todos no colégio, a verdade também era que não poderíamos fazer muitas das coisas que queríamos, se os mantivessemos: viagens em família, idas ao teatro, a concertos, experiências especiais que são caras (e a massa estaria toda alocada ao colégio). Ponderávamos mudá-los mas a ideia custava tanto como se os estivéssemos a meter num instituto correccional (tais eram as ideias que tínhamos impressas na cabeça). Houve um ano que os inscrevi e eles entraram. Fiquei com o coração tão apertado que não fui capaz de levar a matrícula adiante. Ficariam mais um ano no colégio. No ano seguinte, voltei a tentar. Só o Manel ficou colocado. E então, depois de muitas conversações e depois de bem medidos os prós e os contras, decidimos que ele iria sair do colégio e entrar na escola perto de casa. 

E foi então que o meu preconceito começou paulatinamente a ser destruído. A escola do Manel foi uma muito agradável surpresa. O director de turma era muito atento e enviava emails com frequência, a comunicação casa-escola nunca foi tão directa e acessível, nunca tive aquelas cenas de professores a faltar e sem substituto, e o Manel houve um dia que disse: "Parece que me abriram as janelas, mãe. Agora respiro!"

No ano seguinte, voltei a tentar. Só entrou a Mada (para outra escola do mesmo agrupamento, não para a do irmão). Então, lá foi ela. Mais um passo no caminho de um voto de confiança dado à escola pública, mais um passo contra um dos meus derradeiros preconceitos. E voltou a correr maravilhosamente. A escola era óptima, com direito a horta e grandes janelas e muita luz. A educadora que lhe tocou era simplesmente maravilhosa (beijinho, educadora Manuela, onde quer que esteja!) e ela adaptou-se de imediato e nós também. 

Acho que ainda tentámos mais uma vez que o Martim entrasse mas não conseguimos (nem com dois irmãos no mesmo agrupamento). E então desistimos. Achámos que era mais benéfico para o Martim continuar no seu colégio de sempre (onde andava desde os 3 anos). Pelas suas características, por ser muito introvertido, por estar com os seus amigos de sempre, por haver ali uma rédea curta que considerámos importante manter durante alguns anos mais críticos. Deixámos o Manel e a Mada na escola pública e o Martim no colégio. Nunca me pesou na consciência por achar que estava a dar mais a um do que aos outros, porque quando os outros começaram na escola pública depressa tirei da ideia que tinham menos do que ele. Poderá haver colégios que oferecem uma panóplia de actividades e viagens e eventos desportivos que, efectivamente, as escolas não oferecem. Mas, tirando isso, a matéria é a mesma. As orientações programáticas são definidas pelo Ministério e todos acabam por aprender as mesmas coisas. A questão prende-se mais com a exigência e com um certo "nivelar por baixo" que algumas escolas públicas praticam, por terem alunos que provêm de famílias complicadas, muito desestruturadas, e com muitas dificuldades. Acontece que, aqui onde vivo, tenho a sorte de ter escolas maioritariamente frequentadas por miúdos como os meus filhos. Uns com mais condições, outros com menos, mas diria que está ela por ela. Provavelmente, se vivesse numa zona em que a escola fosse maioritariamente frequentada por miúdos de bairros onde a polícia passa a vida a prender pessoas, teria de pensar duas vezes (ou três) antes de os meter lá. Precisamente por esse "nivelar por baixo" a que os professores são obrigados, se não querem ter só chumbos nas suas turmas (e, vezes demais, cargas de pancada dos pais como consequência).

Entretanto tivemos o Mateus, que foi para um colégio maravilhoso chamado Tutor T (e que foi, sem sombra de dúvida, a melhor escolinha onde já tive crianças). Ou seja: passámos a ter 2 filhos em colégios, e 2 filhos em escolas públicas. 

Este vai ser o ano de viragem total. Tentámos colocar o Martim na escola pública mas como escolhemos apenas 3 escolas, todas elas fora da nossa área de residência, não tínhamos qualquer expectativa que entrasse. Acontece que... entrou. Achámos que tinha chegado a uma idade (15 anos - 10º ano) em que já tem uma maturidade diferente para não precisar tanto da rigidez do colégio, por um lado, e também não sentir tanto a falta da grupeta de amigos que tem desde o infantário. De resto, eles combinam frequentemente encontros e deslocam-se perfeitamente de metro e de bicicleta para irem ter uns com os outros, de maneira que pode sempre manter essas relações e, ao mesmo tempo, ganhar outros amigos. Também creio que será importante, agora que escolheu a área, ir para uma escola em que pode "começar do zero", onde ninguém o conhece, com um novo estímulo. Assim como se fosse um livro em branco, onde pode escrever da melhor forma possível, sem o olhar dos outros a condicionar. Acho mesmo que pode ser bom para ele.

O Mateus também sai da Tutor T este ano, e isso sim está a custar. Só quem teve um filho neste colégio pode perceber como custa tirá-los de lá. Mas é giro: já não é por ir para a escola pública (porque já não tenho esse preconceito). É mesmo por sair daquele ninho bom, uma espécie de família para onde ia todos os dias, quase como a extensão da sua casa, do seu conforto, do seu porto seguro. 

E é isto. Até podíamos ter mantido todos no colégio. Conseguíamos, com esforço. Mas não tínhamos ido com eles a Madrid, a Nova Iorque, aos Alpes para fazerem ski, ao Brasil, a Marrocos. Não lhes tínhamos proporcionado uma série de experiências enriquecedoras (nomeadamente um gap year ao Manel, com direito a um mês inteiro na ilha do Príncipe e um mês inteiro em Nova Iorque). Não tínhamos feito, nós os dois, as nossas viagens a dois. E, para nós, tudo isso faz também parte da educação que lhes queremos transmitir. A educação, para nós, não se esgota na escola. Nada contra quem aposta tudo na educação curricular (até porque há quem não viva em zonas com boas escolas públicas). Nada mesmo. É uma opção tão válida como outra qualquer e, se não tivéssemos tido sorte, o mais certo era ser essa também a nossa escolha. Felizmente correu bem. Esperemos que continue assim.

 

Regresso às aulas em tempo de pandemia

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Ponto prévio: sou obviamente parte interessadíssima em controlar a disseminação da Covid-19 e não embarco em nenhuma teoria chalupa da conspiração do tipo "isto é tudo um esquema para nos manter manietados", e que "a vacina vai ser um chip que nos vão introduzir no cérebro para nos monitorizar", ou outras convicções do mesmo grau de alucinação que já vi por aí. A todo esse pessoal: as melhoras. 

Feito o ponto prévio, e sublinhando desde já que não saberia como agir se estivesse na DGS ou no Ministério da Educação perante uma pandemia e que acredito ser um trabalho mesmo complexo, dizer que estou muito preocupada com algumas coisas que tenho lido sobre o regresso às aulas e que temo que a escola deixe de ser um espaço de liberdade e de comunhão e partilha para passar a assemelhar-se muito a um estabelecimento prisional.

A começar pelo primeiro dia de aulas. Para muitos já foi e já se confrontaram com isso, mas eu estou só na parte do sofrer por antecipação. Deixar uma criança à porta, numa escola onde entra pela primeira vez, deixá-la com um estranho que a recebe de máscara, e a leva para um sítio que nunca viu cheio de gente que nunca vislumbrou parece-me verdadeiramente assustador. Acho que seria importante haver um espaço de entrega das crianças à sua educadora, feita com serenidade e segurança, e não - como já ouvi que ia ser - à entrada, a quem estiver na porta, seja um segurança, uma auxiliar, seja quem for. Durante anos frisou-se o importantíssimo papel dos pais nesta ponte, para que a criança se sentisse segura, e agora estamos a cortar toda esta importância por um "bem" maior. Repito: compreendo perfeitamente que uma situação excepcional implique medidas excepcionais, mas não deixo de me inquietar com tudo isto. 

Outra das normas será a imposição de distanciamento físico entre crianças. Como assim? Quando o Joãozinho se aproximar da Luisinha alguém grita? Usam uma vareta comprida para os afastar, tipo gado? Vai ser cada um a brincar por si? 

Também já li que há escolas que vão reduzir os intervalos para 5 minutos e que não vão permitir idas à casa de banho durante os intervalos mas apenas durante as aulas. Say WHAAAAAT? Portanto, deixa ver se percebi: se um dos meus filhos tiver uma dor de barriga durante um intervalo tem de se aguentar estoicamente até que a próxima aula comece. O que vale é que não será uma longa espera: 5 minutos de intervalo? A sério? Cinco minutos?

Estou com muito medo de que, uma vez mais, não se esteja a ter em conta a saúde mental, como se nós fôssemos apenas corpo, e como se os males da alma não nos afectassem também o corpo - como se isto não estivesse tudo ligado. Conciliar a segurança física com a segurança emocional é um desafio, sem dúvida, mas era importante que não se perdesse de vista. A bem das crianças. A bem de todos nós.

Histórias da Quarentena #5

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Conheceram-se no hospital onde ambas trabalham. Ali, em ambiente hospitalar, recebem casos complexos, difíceis, desafiantes. Mas elas queriam fazer mais, chegar mais longe. De experiências trocadas, partilhas feitas, desabafos, ambas sentiram que podiam aproveitar melhor as suas competências. Mas foi com a chegada da Covid-19 e todas as suas consequências psico-emocionais que as duas especialistas tiveram ainda mais a certeza do desejo de ajudarem mais e melhor. Com outro tempo, outro espaço. E se a união faz a força, e se duas cabeças pensam melhor do que uma, juntaram o sonho à vontade e decidiram abrir a sua própria clínica.

Diana Cruz, psicóloga clínica, e Catarina Ribeiro, neuropsicóloga, nunca pensaram que fosse preciso uma pandemia para que finalmente decidissem arregaçar as mangas e dar um passo em frente, no sentido de abrirem um espaço privado, para lá do trabalho que já desenvolviam quer no hospital quer em outras clínicas. Mas foi assim que aconteceu. "Sentimos que há muitas pessoas descompensadas com tudo isto. Que o confinamento foi mau para muitas pessoas, que o desconfinamento foi péssimo para outras, que há medos que se tornam enormes e que bloqueiam vidas. E também percebemos, por outro lado, que muitas pessoas que até aqui tinham sentido o estigma de recorrer a um psicólogo, agora sentem que o seu pedido de ajuda é justificado por algo maior, algo que é comum à Humanidade, e que nos perturba a todos, a uns mais, a outros menos. E de repente achámos que esta era uma excelente oportunidade para ter em consultório pessoas que ainda tinham o preconceito, e puxar por esse fio, sendo que a pandemia é o pretexto, mas depois há uma série de sub-camadas que podem ser esmiuçadas e, assim, ajudarmos estas pessoas (e as que já eram abertas às terapia, claro) a viverem vidas mais equilibradas."

Depois de muitas conversas uma com a outra, falaram também com a família. Diana disse que, em casa, já esperavam que mais dia menos dia se metesse num projecto seu. Catarina também não encontrou resistências. E depressa começaram à procura de um espaço e não tarda estavam com o sítio escolhido em obras. "Queríamos que fosse um consultório confortável, aconchegado, que garantisse a confidencialidade dos nossos pacientes... que fosse assim uma espécie de uterozinho" - explica Diana Cruz. "O primeiro consultório em que trabalhei, com 2005, de um psicólogo sénior que me ensinou imenso, era exactamente o protótipo do que eu queria. E acho que conseguimos fazer um ninho parecido, ali na Praça de Alvalade (Lisboa), onde estamos a prestar serviços diferenciados nas áreas da Psicoterapia, da Neuropsicologia e da Terapia Familiar." O projecto de Diana e Catarina foi batizado por MITO, "porque mitos são, no fundo, narrativas simbólicas que evoluem no tempo e dão sentido de pertença e significado às pessoas, tal como as psicoterapias." 

Mas a ideia não se ficou por aqui. Quando o novo espaço já estava em obras e o entusiasmo de ambas estava ao rubro, Catarina pensou que não seria mal pensado se agradecessem ao "universo" por tudo o que lhes estava a dar. Ambas riem da expressão, se bem que a verdade é muito essa: devolver a sorte, retribuir os fortúnios. E foi então que surgiu a ideia de dar aos outros um pouco das duas. "Decidimos oferecer consultas a pacientes recuperados de Covid-19 ou pessoas em luto por causa da pandemia. Achamos que esta doença trouxe consigo muitas dificuldades psicológicas e queremos fazer a nossa quota parte. Sabemos que há por aí muitos ex-doentes que ficaram com mazelas emocionais, seja por terem estado entre a vida e a morte, seja por terem lutado sozinhos, e também estamos em crer que surgirão lutos patológicos, porque as pessoas não puderam despedir-se condignamente dos seus. Fizemos ambas voluntariado durante o período crítico do confinamento, ficámos no atendimento telefónico ao fim-de-semana e feriados, mas queremos fazer mais. E esta é a oportunidade para o fazer. Claro que não vamos poder oferecer consultas a todas as pessoas que nos aparecerem, somos só duas, não dá para tudo. Mas queremos pedir para que nos enviem a sua candidatura por email, e depois nós escolhemos um determinado número de pessoas que acompanharemos por mês, durante um determinado período de tempo."

E assim fica a informação: se vivem em Lisboa, tiveram a doença e ainda não recuperaram psicologicamente, ou se perderam alguém e sentem que não conseguiram fazer o luto, a Diana e a Catarina aguardam o vosso contacto. O email é mito.na.pandemia@gmail.com. Pode ser que consigam ser uns dos escolhidos. Quanto a todos os outros, que se sentem perdidos, incompreendidos, deprimidos, quem sabe se não encontram junto delas o apoio que faltava? Porque as dores da alma não devem ser negligenciadas, tal como as dores do corpo. Porque não há qualquer vergonha em pedir ajuda para curar a mente, assim como não há embaraço em curar uma perna partida. 

MITO: Praça de Alvalade nº6
2º fte, sala 6
1700-036 Lisboa

 

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Férias. Tão bom que foi

Uma vez escrevi aqui, há uns anos valentes, sobre a profunda tristeza que baixava em mim quando as férias terminavam. Alguém aproveitou para dizer que talvez a minha vida de todos os dias não fosse feliz, daí que valorizasse tanto as férias, já que ela (essa pessoa que comentou) voltava sempre feliz para o seu quotidiano, por saber que essa era a regra e as férias a excepção, e ela (a comentadora) era feliz na regra e na excepção.

Aquilo deu-me que pensar e marcou-me, como se pode ver, uma vez que já se passaram anos e ainda escrevo sobre isso. Pensei muito sobre a possibilidade de ela ter razão. Seria o meu quotidiano triste? Que diabo! Analisei, escrutinei, esmiucei. E concluí que não. Não se trata de uma infelicidade na regra. Trata-se de um encontro maior com uma ideia de felicidade, na excepção. O dia-a-dia pode ser tormentoso e quem disser que é feliz todos os dias está a mentir. Não pode. Ninguém é. A vida mói, massacra, esmigalha. Os afazeres, os horários, os almoços e lanches e jantares que não se preparam sozinhos, os regressos às aulas com as inseguranças e medos e angústias deles e nossas. Os dias chuvosos, os dias em que nada corre bem, o trabalho a complicar-se, os conflitos fora e dentro de casa, e agora também a pandemia a pesar na já complicada equação da vida. A monotonia que consegue esmagar: acordar, banho, pequenos-almoços, levar à escola, trabalhar, fazer o almoço, ir buscar à escola, lanches, banhos, estudos, jantar, dormir, acordar, banho, pequenos-almoços, levar à escola, fazer o almoço, ir buscar à escola, lanches, banhos, estudos, jantar, dormir, e repeat. Às vezes é difícil encontrar laivos de felicidade nesta linha de montagem, mas é essa - talvez - a maior sabedoria de todas. Encontrá-los. Tentar encontrá-los todos os dias. Um sorriso, uma mão quentinha na nossa, um jantar com amigos, um telefonema que nos encheu a alma, um sucesso de um filho, uma conquista nossa, uma roupa que nos fica bem, uma corrida que nos fez sentir melhores. 

Nas férias, não há sabedoria nenhuma em encontrar a felicidade. Ela entra-nos pelos olhos, atira-se a nós como gato a bofe, espeta-se-nos na cara, agarra-se-nos às pernas. Estamos com os nossos, na praia, com tempo, com sol, com mar, com mergulhos e gargalhadas. Os problemas ficam em casa, no trabalho, longe da vista e do coração. As férias são como uma brecha no tempo e no espaço, uma espécie de suspensão do normal e elevação exclusiva do prazer. 

Por isso, não, a leitora não tinha razão. O meu quotidiano não é infeliz. Tem é momentos menos felizes, como todos os quotidianos. E as férias são só alegria e, por isso, voltar dói sempre um bocadinho. 

A família cresceu

Para quem não me segue no Instagram ou no Facebook, a novidade ainda não terá chegado. Em bom rigor, a novidade aconteceu há pouco tempo (apesar da decisão já ter sido tomada há um mês), e ao meu cérebro chegou mesmo ainda mais recentemente (demorou a cair-me a ficha).

No dia 21 de Julho, saí de casa de manhã para ir dar a voltinha costumeira com o Mojito, quando vi à porta de casa um certo aparato: havia um cão, havia um polícia, uma senhora com uma criança, uma lata de comida, uma tigela de água. Estavam todos com aquela postura corporal de quem tem algo em mãos que não sabe ainda como resolver mas, nem sei porquê (provavelmente era o meu instinto a dizer-me para não me meter em sarilhos), não perguntei o que se passava e continuei na minha vidinha.

Dei a volta com o Mojito, de caminho ainda tomei café com a minha mãe, e quando regressei já só estava a senhora e a criança e... o cão. A senhora tinha um olhar perdido, o telemóvel na mão, e aí já não consegui ignorar. Perguntei o que se passava, se precisava de ajuda, e é então que a senhora me explica que tinha encontrado aquela cadelinha, que estava perdida e assustada, mas que não a podia levar para casa porque tinha um cão bebé que ainda nem tinha tomado as vacinas. A senhora estava mesmo à toa, sem saber o que fazer, porque tinha de se ir embora mas não estava a imaginar-se a deixar ali a bicha. Foi então que me cheguei à frente: a minha casa era mesmo ali, eu tinha plataformas digitais que chegam a muita gente (para procurar os eventuais donos) e então levei-a.

Pus a foto nas redes e aguardei. Foi então que começou o massacre.

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A minha filha Mada (que alterou o seu nome na minha lista de contactos para "filha lindinha") estava em casa dos avós, de férias, e iniciou um verdadeiro ataque, com centenas de mensagens onde pedia, implorava, descabelava-se por uma cadela. Primeiro achei graça, achei que lhe passava, achei que quando os donos aparecessem ela ia acabar por desistir. Tremendo engano. Os donos apareceram, levaram-na, e a torrente de mensagens continuou.

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Uma nota: "Nós pensámos em ter uma cabra" deve ser traduzido para "ela pensou em ter uma cabra e eu diverti-me a imaginar a bicha aos pinotes por todo o lado". 

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De repente, sem perceber bem como, já havia um autêntico movimento #teamMada e havia gente a enviar fotografias de cães bebés, cães adultos, cães pretos, brancos, castanhos, cães de pelo curto, médio e comprido. Cães de olhar triste, de quem já viveu o horror, cães mais felizes, cães de orelha murcha, cães atrevidos. De repente, já o tema não parecia estranho e estava eu própria a ver os cães e a ter vontade de os trazer a todos para casa. De repente estava na Associação Java, na Lourinhã, onde a Mada tinha visto a foto de uma cadelinha com cerca de 3 anos e outras fotos de cães bebés, e foi então que se deu o encontro das duas, o olhar tristíssimo da Molly a arrebatar o coração da Mada, que sentiu uma espécie de chamamento para lhe mudar a vida, o destino, o futuro. De repente, o Ricardo já não dizia nada e até mostrava um sorriso de abertura, coisa nunca antes pensada ou imaginada, e de repente estávamos a dizer na associação que sim, ficávamos com a Molly, íamos só de férias e quando voltássemos íamos buscá-la. 

E assim foi. Durante as férias, o amor foi sendo alimentado pelas fotografias e vídeos que as queridíssimas voluntárias da associação enviavam (obrigada Sofia, obrigada Cláudia). 

A Molly veio para casa este domingo, dia 30 de Agosto. É uma cadelinha muito traumatizada. Estava há um ano no canil, e foi encontrada ali perto, ao abandono (não sei em que estado). Não sei que diabo lhe fizeram, mas palavra de honra que gostava que essa criatura do demónio recebesse sofrimento em dobro. A Molly tem medo da própria sombra, baba-se muito (sinal de stress), deita-se quando alguém se aproxima, e quando vai à rua está desatinada a olhar para todos os lados, como se temesse que a ameaça chegasse a qualquer momento. Só fez xixi na terça-feira de manhã (relembro que chegou no domingo) e cocó também, ambos na rua. Fiz uma festa. Escolheu o hall para se refugiar, porque é o lugar da casa mais parecido com a "assoalhada" onde ela vivia. É um quadrado pequeno, longe do nosso olhar, encostado à porta da rua. Levámos para lá a cama dela e respeitamos o seu espaço. Ainda assim, de vez em quando vamos até lá para uma sessão de mimos. Quando ouve o Mojito, levanta-se, espreita e, às vezes, aparece no corredor e cruza a sala e até já foi ao terraço (mas sempre por brevíssimos instantes - mal se dá por ela já está de regresso ao seu micro-lugar).

O Mojito ignora-a e tem medo dela (tem medo dos cães em geral e só confia mesmo quando tem provas de que é para confiar) e ontem estava particularmente stressado (andava de um lado para o outro, babava-se, espreguiçava-se a toda a hora - tudo sinais de inquietação). Ela mete-se com ele amistosamente quando estão ambos de pé, nos passeios ou nos raros momentos em que ela se aventura pela casa. Mas quando está deitada e estamos a mimá-la e ele aparece... rosna-lhe e ameaça morder. A primeira vez que aconteceu fiquei destroçada e fui a correr confortar o Mojito. Senti que tinha trazido para casa uma ameaça ao nosso cão e doeu-me. Mas rapidamente fui ler e percebi que isto é só medo. Que a melhor defesa é o ataque. E que mal ela perceba que nenhum de nós, seja cão ou humano, lhe quer fazer mal, tudo ficará bem. Entretanto, estamos a reforçar a confiança do Mojito, dentro dos nossos conhecimentos (felizmente aprendemos algumas coisas nestes 6 anos com ele), e estou certa de que vai entender que o amor não se divide, multiplica-se. Tenho 4 filhos e sei bem que há sempre ciumeiras, com os cães não há-de ser muito diferente. Com equilíbrio e amor, suponho que tudo vá ao sítio.  

Quanto à Mada... acho que vai conseguir tudo o que quiser da vida, por exaustão. Nunca conheci outra pessoa assim. É a maior chata persistente do mundo.

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O pai do Manel

Há tempos, um amigo historiador e genealogista ofereceu-nos um estudo genealógico da nossa família. Na altura falei disso, se não aqui, no Instagram, e de como foi tão bom conhecer melhor quem foram e o que fizeram os nossos antepassados. Às vezes as pessoas acham que só quem tem famílias cheias de brasões e sangue azul e/ou grandes feitos consegue saber mais sobre a sua história (porque só esses teriam deixado "lastro" suficiente para alguém investigar) mas é um erro. Todos nós nascemos e fomos registados (pelo menos a partir de determinada altura), e mesmo antes dos registos há formas de investigar (não sei como, não perguntem, estou a atirar-me para fora de pé, mas sei que o Lourenço Correia de Matos consegue encontrar uma agulha num palheiro, que aquilo é bicho perseverante e procurador). 

Ora, nesse estudo, são anexados os assentos de nascimento, casamento, baptizados, e afins, e foi então que constatámos que, no assento de nascimento do nosso filho Manel, havia algo de muito curioso: o pai do Manel não é o Ricardo. É uma informação dramática, eu sei, mas têm de ser fortes. O pai do Manel é, na verdade, ele próprio. Não me perguntem como conseguiu ele esta proeza, mas conseguiu. De resto, quando o informei, olhou-me com a sua costumeira sobranceria e limitou-se a dizer qualquer coisa como:

- Não me surpreende. Sou pai de mim próprio, responsável por mim desde a origem. 🙄

Bom, além disso, acresce que, neste assento de nascimento tão bem redigido, eu sou sua mãe mas também sua avó paterna. E o Ricardo é, então, seu avô paterno. 

Na altura em que ele nasceu, bêbados de amor e (eu) de hormonas, não conferimos o assento com olhos de ver (como agora se vê). Felizmente, no Cartão de Cidadão está tudo certo. Mas agora estamos a tentar alterar isto na Conservatória e, meus amigos, não é fácil. Como agora tudo tem de ser marcado, temos andado a ser passados de departamento em departamento, às meias-horas de chamadas de cada vez, a escutar aquela musiquinha irritante que estes serviços usam todos (até podia ser a 5ª Sinfonia de Beethoven, não há como não achar qualquer música irritante quando a tocam num excerto perpetuamente repetido enquanto esperamos - debalde - que alguém nos atenda), para no fim acabarmos com a chamada desligada do lado de lá, ou interrompida do lado de cá porque, vá, temos mais que fazer.

De maneiras que é isto. Talvez o Manel venha a ter um outro pai que não ele próprio, no assento de nascimento, talvez eu deixe de ser uma avó tão prematura. É ter fé. Paciência e fé.

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Histórias da Quarentena #4

Hospedeira rima com pasteleira... e com guerreira também

Magui era assistente de bordo mas a Covid-19

obrigou-a a alterar o plano de voo.

Agora, descobriu outras rotas, e está a planar de felicidade

 

Quando era pequena sonhava andar nas nuvens. Bom, não exactamente assim, que isso todos os miúdos sonham. Magui queria andar nos aviões, prestar assistência aos passageiros e, ao mesmo tempo, ir conhecendo o mundo, coleccionando carimbos no passaporte e aventuras na memória. Cresceu, fez a licenciatura em Turismo e Eventos (sempre de olho no seu destino), candidatou-se a uma companhia aérea, entrou, evoluiu, coleccionou carimbos e histórias. Ganhou mundo. Tornou-se chefe de cabine. Mas (que diacho, tem sempre de haver um mas), a vida de sonho tinha uma nódoa, uma mancha que começou por ser pequena (no início das paixões até os defeitos parecem qualidades) mas que, com o tempo, principiou a crescer e a tornar-se um enorme borrão. Lá diz o ditado: Não há bela sem senão. 

Era bela, a vida de Magui, mas tinha o senão de a afastar do seu país durante 23 dias por mês. Apenas 7 dos 30 dias eram passados por cá, com tudo o que isso implicava: saudades da família, saudades dos amigos, dificuldade de assentar arraiais. E quando foi pedida em casamento, corria o ano de 2019, o senão tornou-se o elefante no meio da sala. Era preciso mudar as coisas, até porque as coisas já tinham - elas mesmas - começado a mudar.

Em 2020, Magui despediu-se da companhia aérea onde já trabalhava havia 3 anos. Apenas e só por causa da desproporção de dias passados em terras lusas, tudo o resto corria de feição. Mas as raizes são onde são, e quando há desejos de formar uma família fica difícil cultivar o nomadismo. Inscreveu-se numa outra companhia, onde teria de fazer uma formação e, depois do exame, assinar contrato. Já se começa a desenhar o desenlace disto, verdade? Faltava uma semana para o exame final (e respectiva assinatura do contrato) quando foi declarado o Estado de Emergência que mandou toda a gente (ou quase) para casa. O formador de Magui despediu-se do grupo com um esperançoso "Até já". Mas já lá vão 4 meses e este continua a ser um até já sem fim à vista.

Nos primeiros tempos, Magui não estava - como praticamente nenhum de nós - a ver a fotografia completa. Era como se a objectiva estivesse apontada apenas para uma parte, e essa parte até tinha o seu encanto: os dias passavam devagar, havia tempo de sobra para a família, um tempo que já nem se lembrava de ter. Magui fazia o que quase toda a gente fez: bolos. E pão. E mais bolos. E mais pão. Os dias - tantos dias - foram passando e a objectiva fez um grande plano. O retrato final não era assim tão bonito. Sim, havia mais tempo, havia conversas até tarde, havia bolos e piadas para espantar o medo desse vírus de que se falava por todo o mundo. Mas, ela ia casar em 2020. Tinha acabado de comprar uma casa, tinha feito um empréstimo bancário. Com a agravante de não ter emprego, nem qualquer subsídio porque tinha sido ela a despedir-se da companhia aérea anterior (e ainda não tinha assinado qualquer novo contrato).

Os bolos que Magui fazia, recorrendo ao livro de receitas da família, eram tão bons que desapareciam num piscar de olhos. E num piscar de olhos ela fazia nascer outro. Até que, um dia, recebeu um ultimato dos pais e dos irmãos: "Chega! Nem mais um bolo cá para casa". Não lhe cheguei a perguntar a razão para a exigência, mas suponho que a balança familiar tenha tido o seu quê de responsabilidade. Foi assim que Magui começou a exibir os seus dotes culinários na sua página de Instagram. Primeiro só para amigos, mas bem depressa para quem quisesse adoçar uma tarde, um final de refeição, qualquer hora do dia, na verdade, porque adoçar calha sempre bem quando a vida vai amarga.

E daí surgiu a dúvida: "E se?" Maria, a irmã mais velha de Magui (28 e 25 anos, respectivamente), não esteve com falinhas mansas: "Se queres mesmo fazer isto a sério... faz. Não suporto pessoas que ficam pelo 'e se'." E assim foi. Magui não tinha grande jeito para as redes sociais e Maria, que manteve e mantém o seu emprego, começou a ajudar. De partilha em partilha, de gosto em gosto, a página numinstante.mg parecia ter fermento. De repente, havia Bolos de Iogurte, Panna Cottas, Tartes de Amêndoa ou Brownies a sair sem parar do forno lá de casa. A mãe de Magui e Maria (e Francisco, 22 anos) estava entre a incredulidade e o terror: o que tinha acontecido à sua cozinha? Havia farinha, açúcar, chocolate por todo o lado. A Bimby apitava finais de programas cada vez com maior frequência, o calor espalhava-se pela casa aumentando a temperatura, o perfume a bolos inebriava todos os que tinham implorado por uma trégua na doçaria. Mas as encomendas não paravam. E Magui e a irmã chegaram a acordar muitas e muitas vezes às 4:30 da manhã para conseguirem dar conta de todos os pedidos. "O forno lá de casa leva um bolo de cada vez. E para dar vazão a todas as encomendas era preciso ocupar a cozinha o dia inteiro. Imagine a minha mãe e os almoços no meio daquilo tudo! Acho que ela estava a dar em doida!" As duas irmãs revezavam-se e trabalhavam quase 24 horas por dia. "Muitos dias houve em que não íamos à cama. Nem sei como não estragámos a cozinha dos nossos pais". Mas numa felicidade inimaginável.

Entretanto, o crescimento do negócio implicava que tivessem uma cozinha certitifcada. Uma coisa é uma brincadeira para família e amigos, outra coisa é começar a ser um trabalho a sério, de pessoas que não conhecem a Magui nem a Maria de parte alguma, desconhecidos que contratam os seus serviços. Andavam à procura quando descobriram um espaço minúsculo em Campo de Ourique, com cozinha. Os arrendamentos eram de curtíssima duração mas as irmãs conseguiram um contrato de Julho a Setembro. E assim nasceu a Pop Up Store Num Instante, na Rua Correia Teles. 

Magui e a irmã levaram de casa uma estante para guardarem caixas e utensílios, levaram a Bimby e outros artefactos, e têm conseguido dar muito mais despacho às encomendas com o forno industrial que a cozinha tem ao dispor. Entram todos os dias às 6h da manhã (como vivem em Oeiras, significa que acordam todos os dias às 4:30/4:45) e fecham a loja às 18h. Os clientes podem optar por ir buscar ou pagar uma taxa de entrega, que elas levam onde for pedido. As caixas têm todas o autocolante com a imagem da marca, há cartõezinhos com mensagens, tudo tem um aspecto mimoso e quem recebe os bolos ou doces sente-se mimado, não apenas pelo recheio mas também pelo invólucro. Afinal, não é à toa que se diz que os olhos também comem.

Magui acredita que os pais estão orgulhosos por terem visto que ela soube dar a volta a uma situação complicada. Além disso, os pais puderam constatar que têm duas filhas que se dão às mil maravilhas, tão bem que até estão a trabalhar juntas. Há poucas coisas melhores para uns pais do que isso. O noivo também está contente. O casamento foi adiado mas a futura mulher já mostrou estar à altura do compromisso que se avizinha, mal o Covid permita. Nada que surpreenda qualquer um dos que a conhecem. Afinal, esta é a mesma Magui que se tornou assistente de bordo, cumprindo assim um sonho de infância. Esta é a mesma Magui que sempre serviu a comunidade enquanto membro da Associação Guias de Portugal. Quem a conhece sabe que não é menina de se deixar abater por uma Covid qualquer. Agora, o seu objectivo é voltar a voar, mantendo o seu doce negócio em terra. Pode ser que o "até já" da nova companhia não tenha sido um "adeus" e que seja possível regressar às nuvens, porque esse sonho mantém-se intacto. O que aconteceu entretanto é que nasceu um novo. Mas quando se é como a Magui, pode muito bem ter-se, em si, (como dizia Pessoa) todos os sonhos do mundo. Boa viagem, Magui! Bons voos - no ar e em terra.

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IG: numinstante 

 

 

 

Being Mortal, de Atul Gawande

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Como já todos devem ter percebido, gosto de ler. Gosto das histórias que entram na minha vida, que me entram pelos olhos dentro e se tornam parte de mim. Infelizmente, a minha memória de passarinho impede que muitas delas permaneçam muito tempo, mas estou a trabalhar isso, no sentido de ler com outro tempo e outra concentração, quase num esforço de não-esquecimento que ainda não consigo determinar se está ou não a ser bem sucedido. Uma das coisas que tenho feito é escrever pedaços de livros que me marcaram. Talvez assim não se esboroem do meu cérebro como se alguém soprasse as letras e elas voassem com o vento.

Além de ler, comecei também a ouvir livros. Faço-o apenas enquanto corro, e foi uma das minhas grandes descobertas. Agora, além de me entrarem livros pelos olhos dentro, também me entram livros pelos ouvidos dentro. O primeiro livro que ouvi foi o "Becoming", da Michelle Obama, e a partir daí fiquei fã. Já ouvi "Educated", de Tara Westover, "Maybe You Should Talk to Someone", de Lori Gottlieb, "When Breathe Becomes Air", de Paul Kalanithi, "The Power of Vuknerability", de Brené Brown, e agora estou a ouvir "Being Mortal", de Atul Gawande.

Este livro tem sido muito importante para mim, no sentido de compreender como é que envelhecer passou a ser visto como algo mau, quando antes era visto como um processo tão bom e tão importante que até havia quem mentisse sobre a sua idade, declarando-se mais velho, porque isso significava maior sabedoria (hoje se alguém mente sobre a sua idade é sempre para dizer que é mais novo do que é na verdade, porque ser velho não tem qualquer boa conotação na sociedade e no tempo em que vivemos).

Há vários ensinamentos que tenho retirado deste livro extraordinário, e é bem possível que volte a trazer-vos alguns deles aqui, mas hoje gostava de deixar dois momentos do livro que me marcaram, creio que para sempre. A certa altura, o autor conta a história do geriatra Bill Thomas, história que encheu o meu coração. Este médico, que se considera um abolicionista dos lares de terceira idade, fez algo que foi uma verdadeira pedrada no charco, no início dos anos 90: conseguiu convencer a administração do lar onde trabalhava a introduzir 2 cães, 4 gatos e... 100 pássaros. Além dos animais, Bill mandou encher tudo de plantas e criou uma horta, e anexou uma espécie de creche para os filhos dos funcionários, para que também eles tivessem uma interacção com os idosos. A descrição do dia em que toda a bicharada chegou ao lar é hilariante (aves a voar por todo o lado, enfermeiras e auxiliares a correrem atrás delas, velhos a chorar a rir), mas o que se passou depois tornou-se um "case-study". Idosos que não se levantavam da cama começaram a querer ir passear o cão, outros que não falavam voltaram a falar, a redução na toma de medicamentos foi absolutamente notável. O que Bill Thomas queria era aliviar aquilo que designou como as "três pragas" dos lares: solidão, aborrecimento e desamparo. Mas o que conseguiu foi um verdadeiro renascimento, que o fez (e a muitos estudiosos) concluir que aquilo que faz a vida valer a pena é o sentimento de utilidade, de cuidar de algo para lá de nós. Pode ser a família, o trabalho, algo maior como a nação, animais ou até plantas. Os lares que não permitem nada para lá de simplesmente se existir, esvaziando as pessoas de tudo aquilo que lhes fazia sentido, inclusive algo tão simples como decidir a que horas acordar, tomar banho ou dormir, não passam de prisões. E ser institucionalizado pelo "crime" de envelhecer é simplesmente inaceitável. 

Mais adiante, Atul Gawande, fala concretamente das razões que levam, muitas vezes, os médicos a insistirem em tratamentos que - aos olhos de quase todos - dificilmente vão dar certo. Acompanhei de perto algumas situações e esta era uma questão que me punha: porquê insistir em tratamentos, por vezes violentíssimos, quando se está mesmo a ver que o caso é terminal e o desfecho é a morte? E o médico respondeu:

"Seria de pensar que os médicos estariam bem preparados para preparar os doentes para a morte mas há pelo menos duas coisas que se põem no caminho. Em primeiro lugar, a sua própria visão pode ser irrealista. Um estudo levado a cabo pelo sociólogo Nicholas Christakis perguntou a médicos de quase 5 mil doentes terminais para estimarem quanto tempo de vida teriam os seus doentes, e depois acompanhou o percurso desses doentes. 63% dos médicos sobre-estimaram o tempo de sobrevivência dos seus doentes. Apenas 17% sub-estimaram esse tempo. A média estimada foi 513% mais elevada do que a realidade, e quanto melhor os doentes conheciam os seus pacientes mais tendiam a aumentar a sobrevivência estimada. Em segundo lugar, frequentemente os médicos evitam dar voz até a estes sentimentos. Estudos revelam que, apesar de os médicos habitualmente dizerem aos pacientes quando um cancro não é curável, a maioria é relutante em dar um prognóstico específico, mesmo quando pressionada para o fazer. Mais de 40% dos oncologistas admitem oferecer tratamentos que eles acreditam ter pouca probabilidade de sucesso. Numa era em que a relação entre médico e paciente está cada vez mais desequilibrada em termos de retalho (o cliente tem sempre razão), os médicos estão especialmente hesitantes em defraudar as expectativas dos seus doentes. Preocupam-se muito mais em serem excessivamente pessimistas do que em serem demasiado optimistas. E falar de morte é tremendamente difícil."

De seguida, Atul Gawande conta a história de uma paciente, que tinha um cancro de pulmão com metástases em vários outros órgãos. Uma mulher jovem, que tinha descoberto o cancro durante a gravidez e tinha esperado para ter o bebé para começar os tratamentos. Ela estava muito optimista e o próprio Atul tinha dificuldade em dizer-lhe a verdade. A certa altura, o Pet Scan mostrou que, além do cancro do pulmão metastizado, ela tinha também cancro na tiróide, que se tinha espalhado para os gânglios linfáticos no seu pescoço, e o médico foi chamado para decidir se devia ou não operar: "Este segundo e não relacionado cancro era, de facto, operável. Mas os cancros da tiróide levam anos até se tornarem letais. O seu cancro de pulmão iria, quase de certeza, acabar com a sua vida muito antes do seu cancro da tiróide causar algum problema. Dada a extensão da cirurgia que seria necessário fazer, e as potenciais complicações, a melhor decisão seria não fazer nada. Mas, explicar isto a Sarah significaria confrontá-la com a mortalidade do seu cancro no pulmão. Algo que eu me sentia mal preparado para fazer. Sentada no meu consultório, Sarah não pareceu desencorajada pela descoberta deste segundo cancro. Ela parecia determinada. Tinha lido sobre os bons prognósticos dos tratamentos ao cancro na tiróide, e por isso estava desejosa de saber quando iríamos operar. E eu dei por mim embalado pelo seu optimismo. E se eu estivesse errado?, perguntei-me. E se ela provasse ser aquela paciente-milagre que sobrevive a um cancro de pulmão metastizado? Como poderia eu deixar o seu cancro na tiróide sem tratamento? A minha solução foi evitar o assunto. Disse-lhe que havia boas notícias sobre o seu cancro na tiróide: era de crescimento lento e tratável. Mas a prioridade era o cancro no pulmão - expliquei. Não vamos atrasar esse tratamento. Podíamos monitorizar o cancro na tiróide para já e planear a cirurgia para daí a alguns meses. Vi-a a cada seis semanas e acompanhei o seu declínio físico de uma visita para a outra. No entanto, mesmo numa cadeira de rodas, Sarah chegava sempre a sorrir e encontrava sempre pequenas coisas para fazer graça, como as estranhas protuberâncias que os tubos faziam debaixo do seu vestido. Estava preparada para tentar qualquer coisa e eu dei por mim focado nas notícias sobre terapias experimentais para o seu cancro de pulmão. Depois de uma das suas quimioterapias ter feito diminuir ligeiramente o seu cancro na tiróide, até lhe falei na hipótese de um tratamento experimental poder ter resultados em ambos os seus cancros, o que era uma mera fantasia. Discutir uma fantasia era mais fácil, menos emocional, menos explosivo, menos passível de mal-entendidos, do que discutir o que se estava a passar diante dos meus olhos. Entre o cancro de pulmão e a quimioterapia, Sarah ficou progressivamente mais doente. Dormia a maior parte do tempo e fazia pouco fora de casa. Notas clínicas de Dezembro descrevem que ela tinha falta de ar, tosse com sangue, fadiga severa. Além dos tubos de drenagem no seu peito, precisava de drenagem abdominal todas as semanas ou a cada quinze dias, para aliviar a extrema pressão dos litros de fluídos que o cancro estava a produzir. Uma TAC em dezembro mostrou que o cancro do pulmão estava a espalhar-se para a coluna, fígado e ambos os pulmões. Quando nos encontrámos em Janeiro, já só se conseguia mexer muito devagar. Não conseguia falar mais do que uma frase sem parar para repôr o fôlego. Na primeira semana de Fevereiro, precisava de oxigénio em casa para conseguir respirar."

Entretanto, uma nova TAC revelou que o cancro se tinha espalhado para o cérebro, com pelo menos 9 crescimentos metastáticos em ambos os hemisférios. A droga experimental que Atul tinha para ela não tinha sido desenhada para atravessar a barreira cerebral. O tratamento não ia resultar. "E, no entanto, Sarah, a sua família e a equipa médica manteve-se em modo-batalha. Em 24 horas, Sarah foi trazida para ser vista por um radiologista de oncologia, para uma radiação cerebral para tentar reduzir as metastases. A 12 de Fevereiro, completou 5 dias de radiação, o que a deixou incomensuravelmente fatigada. Mal se conseguia levantar da cama. Comia praticamente nada. Pesava menos 11 quilos do que no Outono anterior. Sarah confessou ao marido que, nos últimos meses, tinha tido visão dupla e não conseguia sentir as mãos. 'Porque é que não contaste a ninguém?', perguntou-lhe ele. 'Eu não queria parar com os tratamentos. Eles iam obrigar-me a parar." Deram-lhe 2 semanas para descansar, depois da radiação, e a seguir demos-lhe um novo tratamento. Foi tudo marcado para dia 25 de fevereiro. As suas chances estavam a diminuir rapidamente, mas quem podia dizer que eram zero?

Em 1995, o paleontologista e escritor Stephen Jay Gould publicou um ensaio extraordinário intitulado: "The Median isn't the message", depois de ele próprio ter recebido o diagnóstico, três anos antes, de mesotelioma abdominal, um cancro raro e letal. Quando recebeu o diagnóstico, foi a uma biblioteca e leu os últimos artigos científicos sobre a doença. A literatura não podia ter sido mais brutalmente clara: o mesotelioma era incurável, com uma média de sobrevida de apenas 8 meses após a descoberta. As notícias eram devastadoras. Mas, depois, começou a olhar para as curvas de sobrevida dos pacientes. Gould era um naturalista e mais inclinado a ver as variações do ponto médio, do que o próprio ponto médio. O que o naturalista viu foi uma variação notável. Havia pacientes que disparavam nos sentidos opostos da média e, entre esses, havia os que viviam muito mais do que os 8 meses de média. Foi aqui que ele encontrou consolo. Conseguiu imaginar-se a sobreviver muito mais do que a média. E conseguiu. Depois de uma cirurgia e de fazer uma quimioterapia experimental, viveu mais 20 anos, antes de morrer em 2002, com 60 anos, de um cancro no pulmão não relacionado com a sua doença original. 

"Do meu ponto de vista, tornou-se um pouco moda demais olhar a aceitação da morte como algo relacionado com a dignidade humana", escreveu ele no seu ensaio de 1995. Claro que concordo com a discurso de Eclesiastes de que há um tempo para amar e um tempo para morrer. E quando o meu tempo chegar, espero encará-lo calmamente e à minha maneira. Para a maioria das situações, no entanto, prefiro a visão mais bélica, de que a morte é o nosso derradeiro inimigo e não vejo nada de reprovável naqueles que se revoltam furiosamente contra a morte da luz." Penso em Gould e no seu ensaio sempre que tenho um paciente com uma doença terminal. Há quase sempre uma longa lista de possibilidades. E mesmo que seja curta, qual é o mal de procurar? Nenhum, parece-me a mim. A menos que signifique que falhámos na preparação para o desfecho que é muito mais provável. O problema é que construímos o nosso sistema médico e toda a cultura à volta da longa lista de possibilidades. Criámos um edifício de um multi-trilhão de dólares para dispensar o equivalente médico a bilhetes de lotaria. E temos apenas as ferramentas rudimentares para preparar os pacientes para a certeza próxima de que esses bilhetes de lotaria não serão premiados. A esperança não é um plano. Mas a esperança é o nosso plano."

Mais adiante, Atul Gawande conta que o estado de Sarah acabou por se agravar muitíssimo e, apesar de todos saberem que já não havia nada a fazer, lá foi ela para os cuidados intensivos, ligada a um ventilador, para mais um prolongamento do desfecho esperado. "Esta é uma tragédia moderna replicada milhões de vezes. Quando não há forma de saber quanto tempo temos de sobra e quando nos imaginamos a ter muito mais tempo do que temos, todos os nossos impulsos vão no sentido de lutar, de morrer com químio nas nossas veias ou um tubo na nossa garganta ou cicatrizes frescas na nossa carne. O facto de podermos estar a encurtar ou a piorar o tempo que nos resta raramente parece importar. Imaginamos que podemos esperar até que os médicos nos digam que não há mais nada que possam fazer. Mas raramente isso acontece: eles podem dar drogas tóxicas de eficácia desconhecida, operar para tentar tirar parte do tumor, pôr um tubo de alimentação se a pessoa não consegue comer. Há sempre alguma coisa que se pode fazer. Nós queremos estas escolhas. Mas isso não significa que consigamos fazer as escolhas nós mesmos. Em vez disso, e mais frequentemente, não fazemos qualquer escolha. Caímos no padrão e o padrão é "fazer alguma coisa", "consertar alguma coisa". Há alguma forma de sair disto?"

Ainda sobre isto da orientação vocacional

Houve algumas pessoas (umas educadamente - e para essas segue a minha resposta educada; outras indelicadamente, e para essas segue o ponto 4, apenas) que se manifestaram contra isto de "alguém decidir, apenas num dia, o futuro dos filhos". Sobre isto, algumas considerações:

1 - Os testes psicotécnicos existem há anos e anos e anos, nada disto é uma novidade, nada disto é uma modernice que agora esta empresa inventou (de resto, a própria empresa e o seu criador existem há anos e anos e anos)

2 - O Martim fez testes psicotécnicos no próprio colégio onde estuda. Não é que não acreditássemos neles (senão teríamos optado por não os fazer), mas esta empresa tem a fama (e considero que o proveito) de fazer uma análise mais profunda. Na verdade, os dois testes foram no mesmíssimo sentido, no que diz respeito à orientação profissional (ou seja, à área a escolher), o que, já de si me diz que não há acasos ou esoterismos ou excentricidades. O que a Modus Humanus faz (que o colégio não fez) foi ir mais longe na análise, aprofundando características suas que ele desconhecia ou, se conhecia, nunca tinha pensado sobre elas. 

3 - O próprio Martim, antes de ambos os testes, já tinha concluído que a única área possível era a que escolheu. Mas, como não era uma paixão, como não havia aquele interesse, aquele desejo, aquela vocação... sentimos que talvez fosse melhor averiguar se não poderia existir uma opção melhor. E quando digo melhor, digo que estávamos abertos a tudo, até a ser-nos dito que ele não devia ir para a universidade. Não por não ter capacidade para isso (até podia ser esse o caso, dado que nem todos os nossos filhos têm de ser inteligentes e - acreditem - se há alguém que tem um olho clínico para os defeitos dos filhos sou eu, mas já há muito que topámos que o miúdo tem os neurónios e as sinapses todos a funcionar), mas por ter uma vocação para algo mais manual ou técnico, que não passasse necessariamente pelos assentos de uma instituição mais formal. Aconteceu que, quer no teste psicotécnico realizado no colégio, quer no teste realizado na Modus Humanus, a área que foi apontada foi exactamente a mesma que ele já tinha escolhido. Estou até em crer que, se lhe tivesse dado um resultado diferente, ele não mudaria de ideias. Mas serviria na mesma para ouvir dizer sobre si pontos fortes e pontos fracos, algo que foi mesmo importante (e interessante).

4 - Quem acha que esta opção, este método, esta abordagem é parva, destituída de sentido, de mérito, de seja do que for... tem bom remédio: não leve lá os seus filhos, os seus netos, os seus sobrinhos. Não recomende a ninguém. Mais: faça publicidade contra! (deve ser para o lado que eles dormem melhor). Agora, felizmente aqui em casa quem decide somos nós e reservamo-nos o direito de decidir o que é melhor para os nossos filhos. Comentários anónimos com bocazinhas maldosas, faço-lhes o mesmo que ao lixo cá de casa: elimino.