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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Alerta!

Não sei se sabiam mas por cada post onde se lê "Éramos felizes e não sabíamos" morrem dois ursos Panda. 

E por cada publicação a dizer que esta pandemia é um recado do universo a obrigar-nos a parar para que oiçamos a natureza, e que no fundo tudo isto é uma dádiva divina que devemos aproveitar, falecem três zebras e um tigre branco, que, como se sabe, é uma espécie em vias de extinção.

Obrigada pela vossa compreensão.

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Cenas da vida doméstica em quarentena - I

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Às vezes penso que se tivéssemos uma câmara a filmar-nos isto dava uma sitcom do caraças. Ontem, depois de ele me ter mandado uma boca qualquer sobre arrumação e de eu me ter passado e ter largado aos gritos (tenho TPMs tramadas), abri a gaveta dos tachos e aquilo começou tudo a escorregar, pelo que pude mandar a boca de volta: afinal não fazes tudo bem, isto está uma bela merda. Ele dirigiu-se para a gaveta e começou a tentar encaixar tudo, sendo que cada vez que ensaiava fechar a gaveta, ela não fechava nem por nada. Eu, por minha vez, fui arrumar tupperwares e, quando os tachos dele começaram a cair. as minhas caixas desataram a deslizar para fora do armário, primeiro uma, depois a outra, e eu a empurrá-las para dentro, e ele ali ao lado, a enfiar os tachos à bruta. Às tantas largámos os dois a rir, eu a chorar ao mesmo tempo mas a rir quase histericamente, e acabámos abraçados na cozinha, a gaveta dos tachos a transbordar e o armário dos plásticos a explodir, e cada um de nós a pensar que isto é mais duro do que pensávamos. 

Mulher-polvo

Há alturas em que me sinto um cata-vento, uma mulher-polvo, uma daquelas deusas indianas cheias de braços. Imagino que todas nós (e não só todas, como todos) neste momento, nos sintamos assim.

Tenho uma filha a fazer os trabalhos do 5º ano, outro a fazer os do 9º, cada um com as suas dúvidas, o Ricardo numa reunião online (a primeira do dia), o Manel a estudar Matemática, eu a tentar pôr o trabalho em dia mas a pensar que o desgraçado do Mateus é mesmo o elo mais fraco, está para ali sozinho a brincar com os carrinhos, e a pensar também que a roupa não se estende sozinha e que não tarda é hora do almoço, e que esta casa está um caos, e que é preciso aspirar e lavar e há uma pilha de roupa para passar a ferro que já chega ao tecto do armário da roupa para passar. Tenho emails para responder mas estou em stress com as datas dos trabalhos da Mada, sobretudo porque alguns carecem de pesquisa e de criar um power point e isso só lá vai com algum apoio, caso contrário ainda me vai tudo copiado sem critério da Wikipedia e é preciso explicar-lhe que não é essa a intenção, e ainda tem de estudar piano, e o Martim tem tantos trabalhos, e penso no Manel e nos exames nacionais, como é que eles vão resolver isto, c'um caraças. 

Felizmente temos o terraço, para onde podemos fugir de vez em quando, e para o qual até já mandámos vir um sofá, da Ikea online, porque ao menos assim podemos verdadeiramente "ir para fora cá dentro", sem nos pôr (nem pôr ninguém) em perigo. 

Tenho levado isto na maior, porque a malta precisa mesmo de se adaptar ao que tem sob pena de tudo ser muito mais difícil, e juro que tenho mesmo estado animada e até consigo rir-me da maior parte das situações absurdas que aqui se passarm (e são tantas!), mas hoje é um daqueles dias em que me sinto um bocadinho desorientada e só me apetece dar pontapés às coisas (vá lá que não é às pessoas, isso deve ser daqui a duas semanas ou três).

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Reparem no piano 😂

Estado de Emergência

Não há muito que vos possa dizer. Comecei por achar que isto era uma cena tipo gripe das aves, uma daquelas epidemias que parece que anunciam o fim do mundo mas afinal não passam de uma montanha a parir um rato, e quando dei por ela já o cenário era catastrófico e estava fechada em casa com os putos todos, as escolas fechadas, tudo de máscara, e o Presidente da República a anunciar o Estado de Emergência. Acho que, tirando algumas pessoas naturalmente mais assustadiças, fomos todos indo nesta onda, primeiro mais a brincar e depois, quando a onda se tornou vagalhão, já todos mais sérios e a tentar nadar para terra.

Estamos fechados em casa desde que o primeiro-ministro declarou, a uma quinta-feira, que as escolas iam fechar na segunda. No dia seguinte já não mandei ninguém à escola porque podia e porque achei que não fazia sentido irem mais um dia, apesar de a Madalena até ter teste (mas o que é um teste perante o cenário que se começava então a desenhar?).

Tirando algumas trapalhadas, como a de se proibir que atracassem navios e desembarcassem passageiros que, depois, foram sair em Espanha e vieram para Portugal de camioneta, ou a de simplesmente proibir os cruzeiros e manter a chegada de aviões de todo o mundo, acho que Portugal tem estado a gerir este assunto muito bem. Já sei que há sempre quem discorde, muitas vezes por razões que fazem sentido e que a maioria não alcança, e que têm directamente que ver com as suas actividades profissionais, outras vezes apenas por motivos políticos, mas acho que temos feito uma contenção ajuizada, sem exageros, passo a passo, até porque a maioria dos portugueses tem respondido com um sentido cívico bastante impressionante. 

Ontem, a mensagem do Presidente da República foi ouvida cá em casa em silêncio, com a seriedade que o momento pedia, e pareceu-me uma mensagem muito ponderada, a apelar sobretudo à calma, à paciência, à resiliência. E a não esquecer a Economia, e a importância de não a deixar morrer em tempo de guerra, porque é de facto uma guerra que vivemos. Emocionou-me também como a maioria dos partidos do Parlamento deram força ao Governo e ao Primeiro-Ministro, desejando que não lhe falte a coragem (e lia-se, em alguns rostos, o alívio por não serem eles a terem de lidar com isto).

Tenho estado em contacto com amigos, alguns estão bem, outros nem por isso. Há quem já manifeste claros sinais de ansiedade, diria mesmo que quase depressão. A ideia de estar fechado, muitas vezes sozinho, sem poder estar com outras pessoas, nem sequer visitar os pais, tem dado cabo da cabeça de muito boa gente.

Nós por cá estamos a aguentar-nos bem, acho até que mesmo muito bem para o caos que podia ter-se instalado. Temos momentos tresloucados, em que sinto que vamos todos ensandecer, mas instituímos algumas regras e rotinas, para que não ficássemos todos à deriva neste túnel onde entrámos e de onde não sabemos quando e como iremos sair.

Para começar, as camas. Quando se acorda, é obrigatório fazer as camas. Vou ser cruxificada por revelar isto mas, até este momento acontecer, só mesmo ao fim-de-semana é que os obrigávamos a fazer as camas, mesmo sabendo que estávamos a fazer mal. No livro "Becoming", da Michelle Obama, a páginas tantas ela contava que, quando chegou à Casa Branca, com dezenas de empregados para tudo e mais alguma coisa, nunca deixou de obrigar as filhas a fazerem as suas camas de manhã. Achei tão acertado que quis fazer igual. Mas... as manhãs aqui em casa, em tempo de vida normal, são tão desesperantes (pelo menos até sairmos de casa, depois é o momento do nosso passeio de bicicleta até à escola e aí dá-se o cool down), é tão difícil despachar toda a gente a tempo e horas, que as camas acabam sempre a ser feitas pela nossa D. Emília. E sim, sei que estou a fazer um mau trabalho, que é mesmo importante criar essa disciplina, que eles vão crescer e é crucial que não saiam de casa sem deixar as suas camas feitas. Bom, isto tudo para dizer que a Quarentena trouxe isso às nossas vidas. Sem a urgência de sair de casa para chegar a horas à escola, todos começam por fazer as suas camas. Quando isto acabar, não haverá desculpas e passará a ser uma regra. It's a promise!

Depois, pomo-los a fazer os trabalhos que as escolas mandam e a entrar nas aulas em life stream às horas certas. Às vezes é uma confusão de ecrãs e fios e livros e apontamentos. No dia em que a Madalena teve a sua primeira aula em directo, eu estava um bocadinho nervosa, confesso. Isto de ser uma quase-anciã traz alguma nervoseira sempre que se experimenta algo tecnológico pela primeira vez. À hora certa, lá estávamos, mas... aqui a chalupa esqueceu-se da password que tinha criado para a plataforma, sendo que... a tinha criado no dia anterior! O que se passou a seguir foi uma verdadeira histeria: todos a dar bitaites, todos aos gritos a explicar como se fazia, todos a roubar o rato para fazerem o que achavam que estava certo, para a miúda conseguir entrar na aula que, entretanto, já tinha começado há uns 10 minutos. De repente, parecia que aquilo era a coisa mais importante das nossas vidas. Quando finalmente se conseguiu, foi uma alegria: a professora e os colegas todos no ecrã, a Mada idem, a tentar ficar séria enquanto o irmão Martim rastejava por debaixo da sua cadeira, ou fazia palhaçadas atrás do computador, numa tentativa de lhe desmanchar o ar composto perante a aula inteira. Nisto, o pai deu-lhe um berro, que só por acaso não se ouviu na aula inteira (felizmente a professora tinha desactivado todos os microfones e só activava o de quem pusesse o dedo no ar para falar). 

Como dispensámos a nossa D. Emília (leia-se: mandámo-la resguardar-se na sua casa, obviamente sem perder o ordenado, era o que mais faltava, está connosco há 16 anos, é como se fosse da família - e só explico isto porque houve alguém no Instagram que perguntou se lhe pagávamos tendo-lhe dito para não vir até ordem em contrário), somos nós que fazemos tudo em casa. Bem sei, estamos na mesmíssima situação em que muito boa gente (a maioria) vive todos os dias, mas claro que quando não se está acostumado a fazer toda a parte doméstica, sobretudo quando se tem uma família grande que agora está SEMPRE em casa... é mais uma coisa a que temos de nos acostumar. Por isso, além de passarmos o dia a orientar os miúdos nos trabalhos, nos estudos, nas aulas virtuais, nas brincadeiras (o Mateus, coitado, acaba muitas vezes meio desorientado no meio de todos os que carecem de uma atenção particular por causa dos seus trabalhos), temos pequenos-almoços para 6, almoços para 6, lanches para 6, jantares para 6. Roupa para lavar, estender, passar. Loiça, muita loiça. Aspirar o chão. Limpar o pó (ainda não aconteceu), manter a casa arrumada. E... também temos de trabalhar. Sim, porque estamos em casa mas não podemos deixar de trabalhar. 

Ao fim do dia temos ido passear o cão e levamos os dois mais novos, de bicicleta, para uma volta de uma hora. Não falamos com ninguém, não nos aproximamos de ninguém, não paramos para nos sentar em parte alguma, não tocamos em nada. É só caminhar enquanto eles pedalam e o cão corre. Enquanto não nos limitarem também isto, achámos por bem manter este "passeio higiénico", a bem da nossa saúde mental.

Tenho pensado muito no depois. No rombo da Economia. Na quantidade de pequenas e médias empresas que vão sucumbir a isto. No dominó catastrófico que pode acontecer, a todos os níveis. Penso nas agências de viagens, nas companhias aéreas, nos cabeleireiros, nos pequenos (e grandes) centros de estética, nos cafés, nos restaurantes, em todo o comércio (sobretudo as lojas que pagam rendas absurdas e que, agora, não têm qualquer entrada de dinheiro). Penso no turismo, no sector imobiliário, nas clínicas, nos artistas que cancelam espectáculos e em tudo o que isso implica... Penso em quem vai ter de desmarcar casamentos, e em todos os envolvidos na organização de casamentos: os caterings, as quintas, os fotógrafos, as floristas, as lojas de vestidos. Penso nos meus amigos fotógrafos (de casamentos ou não), nos que fazem vídeos, nos que organizam eventos, sejam eles quais forem. Penso nas marcas, mesmo as grandes e com quem trabalho, mas ainda mais as pequenas, que tanto se esforçam para se manter à tona de água e que agora... não sei.

Penso também no agora, claro: nos médicos, nos enfermeiros, nos auxiliares, nos bombeiros, nos farmacêuticos. Estes, que estão na linha da frente, e que nos salvam desta ameaça feroz mas também de todas as outras (porque as outras doenças não fizeram uma trégua, continuam a ter de ser atendidas). Penso nos seus filhos, que não podem estar com os pais o tempo que gostariam (e às vezes ficam mesmo afastados por razões de segurança). Penso nos polícias, nos que nos fornecem a gasolina e outros bens essenciais, nos que estão nos mini e supermercados. Nas obras que continuam. Nos que se mantêm a trabalhar nos seus locais de trabalho costumeiros, arriscando mais do que os que se resguardam em casa (apesar de os que podem resguardar-se em casa fazerem muito bem em cumprir o conselho). Penso nos avós, mais sozinhos que nunca, quando mais precisavam de companhia. Penso nos que sofrem de depressão, agora muito mais susceptíveis a quebrar.

Espero que isto passe depressa. E que saiamos disto o melhor que conseguirmos. E que aprendamos lições novas e encontremos coisas boas, no meio deste caos. Porque nada é 100% mau, nem nada é 100% bom. E também nada dura para sempre. 

Força aí, minhas pessoas! (Para quem escreveu, na primeira linha, que não havia muito para vos dizer... vai aqui um grande lençol! 😬)

Nós vamos todos falecer

Ao ver as crescentes medidas de segurança, para ver se controlamos a escalada do vírus manhoso que deu em nascer para nos limpar o sarampo, penso que muito do resultado de tudo isto depende da consciência de cada um. Isto é: ok, as escolas fecham. Os pais ficam com as crianças. E... ficarão em casa? Ou irão passear para os centros comerciais? Ficarão todos fechados a enloquecer-se mutuamente, a bem do país e do mundo, ou irão para parques infantis, abertos ou fechados, não interessa, desde que os putos possam desgastar um pouco as energias e eles - os pais - descansarem a mioleira? Eu sei que ainda ontem falava da minha vontade em aproveitar os preços baixos com que Itália deve estar e levar lá os meus filhos, mas... não fui, certo? (aliás, agora o difícil é mesmo ir...) Era só uma ideia, porque aprecio pechinchas, mas como também aprecio a minha família, sobretudo os mais velhos e susceptíveis de quinar com isto, não iria de facto concretizá-la (suspiro longo e triste). Agora, não sei bem, se querem que vos diga, se acredito que tooooooda a gente vá ficar 14 dias (ou mais) fechada em casa com os filhos, não aproveitando as "férias" forçadas para passeios a locais públicos bem catitas.

Posto isto, e dada a fraca fé que tenho na generalidade da Humanidade, ocorre-me isto:

 

 

 

A tragédia humanitária que se vive na Grécia e nós todos a assobiar para o ar

Não sei se é da nova febre do momento, o Coronavírus, não sei se é porque de tanto ouvirmos falar nos sírios (e afegãos e etc) na sua fuga para onde tenham paz parece já nos ser indiferente, não sei se é porque é longe e longe da vista, longe do coração. Não sei porque é mas sei que tenho visto pouca relevância dada à emergência humanitária que se vive no campo de refugiados de Moria, na ilha de Lesbos, na Grécia. 

No campo de Moria, com capacidade para albergar 3 100 requerentes de asilo, vivem neste momento mais de 20 000 pessoas. Destas, mais de metade são famílias e há 1 049 menores desacompanhados.

As condições e recursos de um campo construído para 3 100 pessoas são descritas pelas organizações não governamentais presentes no terreno e pelos próprios residentes como insuficientes e inexistentes: falta de água quente e limpa; falhas de eletricidade; más condições sanitárias e escassos cuidados de saúde. Entre os testemunhos dos voluntários portugueses, destacamos:

— Há uma casa de banho para cada 300 pessoas.
— Os residentes esperam 3 horas por cada refeição.
— Nos últimos 2 meses morreram 5 pessoas (1 criança de 19 meses por desidratação, 2 mulheres num incêndio dentro dos contentores onde viviam, 1 bebé atropelado enquanto brincava e 1 menor desacompanhado esfaqueado).
— 20 crianças automutilaram-se e 2 tentaram o suicídio.

Um grupo de 238 voluntários portugueses escreveram uma carta dirigida às autoridades portuguesas a relembrar (porque parece que está tudo meio a assobiar para o ar) a situação de emergência que se vive ali, e com um apelo a medidas políticas concretas.

Sendo este um movimento que pertence à sociedade civil, TODOS podem associar-se, subscrever e enviar a carta aqui:

http://www.eapenasumpoucotarde.eu/

Para o fazerem só têm de:

1 - clicar no site

2- clicar onde diz "Como participar?"

3 - Copiar os destinatários e copiá-los para o sítio onde colocam os destinatários, no vosso email

4- Copiar a carta e colá-la no vosso corpo de email

5 - Enviar

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Clubes de Leitura de Lisboa e Porto

É amanhã, dia 6 de Março, a partir das 19:30, o Clube de Leitura de Lisboa.

Como sempre, no Brown's Hotel, em Lisboa (baixa lisboeta - Rua da Assunção, 75).

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Na próxima semana (sexta-feira, 13) o encontro é no Porto, no Vila Galé Porto, às 19h (Av. Fernão de Magalhães 7).

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O Clube de Leitura tem o apoio da MultiOpticas, que cuida tão bem dos olhos de quem lê, e dá valor à leitura.  

Não há livro único. Não é preciso marcar. Basta aparecer. Quem nunca veio é muito bem-vindo. Quem vem sempre é muito desejado. Quem vem quando pode é igualmente esperado. Até lá! 

 

Fui (finalmente) à faca - Parte II

Acordei no recobro do Hospital St Louis, mas desse espaço só recordo o teto. As luzes no teto. E a dor. Lembro-me de abrir os olhos, naquele pestanejar lento de quem está a despertar de um sono fundo que não é o normal, e de procurar nos arquivos da minha memória a palavra certa para pronunciar em voz alta. Levei mais tempo do que seria costume, porque toda a gente sabe que não se abrem gavetas com facilidade quando se está ensonado (e sob o efeito de drogas), mas finalmente descobri o vocábulo que me faltava. E comecei então a repeti-lo numa cadência de quem não pretendia desistir:

- Dor! Dor! Dor! Dor! Dor! Dor!

Parecia que tinha obnubilado todas as palavras do dicionário, agarrando-me àquela que, subitamente, encontrei como a mais relevante para que me pudessem ajudar.

Veio alguém depressa, e creio que voltei a apagar, não sem antes agradecer mentalmente o tubo de ar quente que senti aos pés da cama, aquecendo-me quando tremia tanto, tanto (tantoooo) de frio. Não sei se foi nessa altura que dei conta de que tinha as pernas enfiadas em duas mangas (talvez devesse antes chamar-lhes perneiras) enormes que, de segundos em segundos insuflavam, apertando-as, para logo de seguida desinsuflarem, libertando-as (forma de estimular a circulação e evitar a formação de trombos), mas é possível que só tenha dado conta disso mais tarde.

Daí a pouco alguém veio informar-me que íamos subir para o quarto. Lembro-me da enfermeira ou auxiliar se debruçar para mim e dizer: "Vamos lá, que o seu marido já está à sua espera no quarto. Quer dizer, ele está há horas aqui à porta, parece um cãozinho abandonado, de maneira que vai gostar de a ver." Sorri. O meu querido. Só eu sei como ele tinha estado nas semanas anteriores. Só eu podia supor como ele estaria naquele momento. 

Quando a cama andou, vi as luzes do teto passarem, uma atrás da outra, e depois uma porta a abrir-se e depois o Ricardo. Sorriso enorme, de ambos, que dizia tudo: sobrevivi, caraças. Sobreviveste, caraças. A primeira parte já está. 

Ele fez o seu caminho e chegou ao quarto primeiro do que eu. Quando lá cheguei, vi-o a ele e à minha querida amiga Inês Queiroz. Acho que ainda protestei por ela estar ali àquela hora (sabia lá eu as horas), empatando a sua vida, mas todas as memórias que tenho desse período são realmente fugazes, uma espécie de flashes intermitentes de consciência. Recordo-me do Ricardo a contar-me qualquer coisa que eu queria mesmo ouvir e de o ver rir-se quando comecei a fechar os olhos. "Eu quero ouvir-te, juro que quero, mas está mesmo difícil."

Dormi o resto do dia, excepto quando vinham dar medicação (se bem que o estado em que ficava quando falavam comigo não era bem o de acordada, era mais uma espécie de limbo atordoado), dormi toda a noite. Sem dores. Às 5 da manhã acordei. Aflita para fazer xixi. Oh diabo. Se estou algaliada, por que raio sinto vontade de fazer xixi? E aí entra a minha mente hipocondríaca em acção: "Na volta isto é o saco que está cheio e o xixi está a voltar para trás, para os rins. E agora? Se o xixi volta para os rins isto pode dar aqui um embróglio do caraças, e a verdade é que eu quando estou bem me levanto 2 e 3 vezes por noite para ir à casa de banho, por isso eles se calhar não previram isto e agora o saco está cheio e..." A insanidade a crescer. Eu a transpirar, num início de desmaio. Silêncio total nos corredores. "E agora vou acordar estas desgraçadas, que estão a dormir, apenas porque sou uma anormal e estou a imaginar coisas? Vou aguentar". E aguentei. Uns 10 minutos. Depois, enchi o peito de ar (talvez não tenha enchido porque custa um bocadinho encher o peito de ar quando se teve a pele da barriga toda cortada e repuxada), e toquei por fim à campainha.

Veio uma auxiliar. Expliquei a minha inquietação. Ela olhou o saco e admitiu que já estava a ficar cheio, porém ainda não no limite. Entretanto, veio a enfermeira, para fazermos o levante (palavra usada para designar o momento em que nos levantamos da cama pela primeira vez). Viu-me a abanar-me (eu estava a ter um fanico vagal pelo tempo que estive a inventar cenários na minha cabeça) e perguntou o que tinha. Eu não disse nada e tentei cumprir as ordens: sentar primeiro. Esperar um pouco. Pôr de pé. Só que o filme que eu tinha feito na minha cabeça ainda estava a fazer o seu efeito, e eu comecei a ver tudo a andar à roda. Sentei-me. A enfermeira não percebeu: "então?"

-Ah, não me sinto muito bem. Acho que estou a ter um desmaio. Se me puder dar um bocadinho de sumo... 

- Não se sente bem? 

- É uma reacção vagal.

- Humm. Vagal? (geralmente - com todos os perigos decorrentes das generalizações - o pessoal da saúde não aprecia lá muito que o doente se refira a sintomas com termos técnicos. Não lhes podemos levar a mal, eles estudaram a porra de uma vida inteira, quem raio nos julgamos nós para virmos agora empregar a terminologia que é deles por direito e mérito?) Vamos medir a tensão. A senhora está toda a transpirar. Tem calor?

- Não. Tive um fanico (eu a regressar rapidamente ao vocábulo leigo, a ver se a nossa relação se recompunha), mas aposto que melhora se me der um bocadinho de sumo.

- A cozinha está fechada, não sei se encontro sumo para lhe dar.

- Encontra. Está ali na minha mesa de cabeceira, que eu há pouco não o bebi. 

- Mas é diabética?

(eu só queria mesmo que ela se calasse, mas sempre que não lhe respondia ela tornava a atirar-me uma pergunta)

- Não. Já lhe explico. 

Bebi o sumo. Abanei-me mais um pouco. Comecei a sentir que a normalidade regressava. E então expliquei:

- Sou hiponcondríaca. Estava aqui há um bom tempo a sentir vontade de fazer xixi e achei estranho, porque geralmente, com a algália, não se chega a sentir vontade. Vai daí e comecei a traçar um cenário maluco que metia danificação de rins, hemodiálise, e eu sei lá. Depois, logo a seguir veio a senhora enfermeira para me levantar. Cheia de drenos e costuras e o raio. E a minha cabeça sempre gráfica. E pronto. Senti-me desmaiar. E sei que se deixar passar um pouco e se comer algo doce, a coisa repõe-se. Foi isto.

- Ah, isso são ataques de pânico. Devia ir ao médico porque isso pode dar-lhe a conduzir.

- A menos que esteja algaliada, com soro nas veias, ou a barriga recém aberta... acho que isto não me dá a conduzir. 

Foi um momento meio sinistro mas compreensível. A enfermeira tinha de se assegurar de que eu não estava a ter outra porra qualquer (tipo uma trombose, ou coisa que o valha) e felizmente nem sequer aventei essa hipótese no momento, caso contrário podia ter fanicado outra vez. 

Mais tarde, tiraram-me a algália, que é sempre aquele momento em que uma pessoa pensa que talvez a vida pudesse terminar logo ali (depois, na prática, não custa assim tanto, mas quando se tem uma cabeça muito visual e pessimista tudo vira coisa complexa), e fiz o primeiro levante, com dois ou três passos e regresso à cama e às perneiras que incham e desincham sem parar.

De manhã, apareceu um anjo. O enfermeiro Victor Santos. Percebi logo que era excepcional quando entrou pelo quarto adentro, com um enorme sorriso, e atirou esta pérola:

- Então???? Que tal esta noite louca aqui no Bairro Alto, hum?? Boa?

Ri-me muito, o que foi agridoce, porque rir com uma costura na barriga de uma anca à outra é um pequeno suplício. Fizemos o levante com muita calma, eu e os meus 5 drenos, que mais não são que tubos que saem de pontos vários da carne e terminam numas bolsas de plástico (parecidas, na forma, com granadas de mão) para onde os líquidos excedentes são enviados. Dei os primeiros passos, à rasquinha, e daí a pouco fui à casa de banho e tudo na maior (tirando alguns detalhes sanguinários a que vos poupo). Mas dores, sinceramente, poucas. Tudo muito aliviado por doses cavalares de drogas nas veias, benza-as a santa Medicina.

O meu marido chegou pouco depois, tão aliviado por me encontrar já pessoa falante, ainda meio baralhada das ideias (bom, isso também já é algo costumeiro), mas sobretudo viva. Eu vi-o entrar como quem vê entrar o sol, perdoem-me a pirosice, mas foi mesmo, que isto de uma pessoa ter tanto medo de quinar faz com que a vida e aquilo que é realmente importante ganhe uma força do catatau (como diria o meu saudoso Pedro).

O enfermeiro Victor tentou ensinar o Ricardo a despejar os drenos, para o fazer em casa, mas ele começou a recuar até ao sofá, onde se depositou com estrondo, levando-me a pensar que tinha caído para o lado. Afinal não, mas pouco faltou, o que fez o enfermeiro rir e comentar que afinal quem ia despejar as cenas era mesmo eu. E assim foi, pois claro. Sexo fraco, hum? Right. 

O Dr. Tiago Baptista Fernandes veio ver-me para dar alta, com aquela boa disposição de quem está sempre em festa, autorizou a saída dos drenos das mamas (yuhuuu!), e despediu-se de mim com um "até já", uma vez que dali a ideia era sair dali directamente para a Up Clinic. O dreno da mama esquerda doeu um bocadito a sair, o da direita nem senti. 

Saí devagarinho, amparada no Ricardo, e fomos para a clínica de carro. O Bairro Alto precisa de obras no pavimento, porra, que cada abanão de cada buraco eram facas espetadas em mim toda. Fica a nota para as autárquicas. 

Na clínica, subi até ao 2º piso e fui calorosamente recebida pela Alexandra Fernandes, fisioterapeuta, e foi amor à primeira vista. Que pessoa querida, que sorriso, que simpatia. Mas... eu nem queria acreditar que a primeira sessão de drenagem linfática ia ocorrer logo ali, no dia seguinte a ter sido toda aberta, aspirada e cosida de novo (abdominais cosidos, inclusive). Achei que ia ter de bater na fisioterapeuta, ou morder-lhe ou terminar de qualquer outra forma abrupta e violenta uma relação acabadinha de começar (e com alguém que me fez de imediato soar as campainhas da empatia) mas ela foi tão suave, tão delicada e cuidadosa que não tive de recorrer à violência. O mesmo posso dizer da enfermeira (que ou era a Joana Oliveira ou a Daniela Ferreira - já estive com ambas, queridas as duas, e não consigo lembrar-me qual me chegou primeiro), que viu pensos e trocou coisas com imenso cuidado. 

E pronto. Cheguei a casa. Feliz e contente por estar de volta. Mais leve, mais curvada, carregada de medicação para tomar quase de hora a hora, e com três granadas de mão sempre penduradas em mim (uma nas costas, e duas na zona púbica). A recuperação pós-cirúrgica estava só a começar.

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Eu, ainda inchadíssima da cirurgia, com o chapéu "Cocó da Sorte", oferecido pelos sempre presentes condes de Manike. 

 

(to be continued...)