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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Casas Comigo #5

Fomos ao Porto! E ia tendo uma arritmia quando entrei no apartamento. Na Mouzinho da Silveira, em pleno coração do Porto histórico, é um verdadeiro miradouro. A luz, o charme, a varanda... vejam e digam lá se não viviam numa assim? Só não conseguia enfiar lá a família toda mas juro que me imagino velhota, com o meu velhote, neste apartamento lindo! Depois era um sarilho para receber os netos (se os houver) mas olha, era da maneira que não havia cá abusos. Vinham um bocadinho e depois, ala que se faz tarde! 😂 

Bom, mas vejam (toquem naquele quadradinho no canto inferior direito do vídeo para verem isto em full screen, que é logo outra loiça) e digam lá se não gostam desta casa por amor.

Parabéns, Mati!

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Novembro é aquele mês impróprio para cardíacos, aqui em casa. Para cardíacos e para tesos, que tanto aniversário dá cabo, não só do sistema nervoso, como da carteira de qualquer família. Ontem foi a vez do Mateus. Fez cinco anos. Cinco anos. Não percebo. Não dei conta da passagem desta mão cheia de anos. Para mim ele continua a ser o bebé e recuso-me a acreditar que já me está à beira da primária! Acho que quando se tem famílias grandes, em que vai havendo sempre um bebé, o fim desse acontecimento se faz com mais dificuldade do que nas famílias em que o assunto foi arrumado desde cedo. Na verdade, a nossa vida de casal tem sido pontuada, de 4 em 4 anos (ou 5) pelo nascimento de uma criança. De maneira que, agora parece que nos falta qualquer coisa, ainda que, em bom rigor, não nos falte rigorosamente nada, porque temos tudo o que sempre sonhámos (diria mesmo que nem tínhamos sonhado com tanto). Não, não vamos ao quinto. Se fosse mais nova talvez, mas sinceramente agora falta-me a coragem para começar tudo de novo. Estou cansada, juro. E acho que seria até egoísmo ter mais um filho para satisfazer esta vontade maluca de pontuar a vida com bebés, se depois não vou conseguir ter pachorra e vitalidade para o aturar como tive para aturar os outros (e genica para tudo o que implica ter um filho). Por isso, o Mateus vai ser o eterno bebé, paciência, temos pena (daqueles adultos todos mal resolvidões porque tiveram excesso de mimo, e o cacete...).

A festa foi como são sempre as festas cá em casa: uma festa igual às nossas, quando éramos pequenos. Sem mariquices ou grandes elaborações. Adoro VER festas com macarons e cupcakes e glacés e pasta de açúcar e cenas que nem parecem comestíveis de tão lindas, mas no que toca a FAZER prefiro o belo do pão de leite com fiambre, o arroz doce, os brigadeiros, o bolo de iogurte, tudo feito por mim, que adoro meter a mão na massa nestes dias festivos (em todos os outros dias odeio e só meto porque sou obrigada). A única diferença desta festa para as do meu tempo de criança é a decoração. Não ia fazer nada mas quis o acaso que descobrisse uma loja de festas mesmo aqui perto de casa, que é de uma pessoa conhecida, e vai daí e entrei para ver, e descobri um tema que era impossível o Mateus não gostar: futebol. Ora então, lá veio uma toalha a imitar um campo de futebol, pratos e copos de papel com desenho de bolas, guardanapos a fazerem as vezes de relva, uma grinalda decorativa com bolas, balões com bolas desenhadas, e até duas balizas e jogadores de futebol para colocar em cima do bolo (além das velas também em formato bola). O rapaz amou, está claro. E eu ganhei uma loja que nem sabia que existia, aqui tão perto de casa (chama-se Fábrica das Festas e fica no Jardim dos Jacarandás, zona Norte do Parque das Nações), para futuros eventos (e se nós os temos, senhores!).

Então às 11h da matina entraram dez amigos pela casa adentro e foi uma loucura. Eu, que tinha pensado fazer uma caça ao tesouro e a dança das cadeiras, não tive de fazer rigorosamente nada. Eles estavam tão felizes, tão entretidos a brincar livremente que nem foi preciso intervir. A casa ficou virada do avesso mas compôs-se num instantinho. Adoro ter a casa cheia. Adoro festas em casa. Parabéns, querido Mati. Para o ano fazes outra vez cinco anos, está bem? Ou quatro. Em calhando para o ano fazes quatro. 

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Pense e fique rico

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Estava num café quando vi este jovem e o livro que ele tinha na mão. Esta é uma das maravilhosas vantagens de não termos o telemóvel sempre em frente do nariz (contra mim falo, tenho muitas vezes, mais do que gostaria): quando nos dispomos a olhar em redor descobrimos quase sempre pessoas, situações, acontecimentos que nos fazem sorrir, pensar, corar, angustiar, temer. A vida está à nossa volta, acontece, e muitas vezes estamos demasiado alheados para lhe prestar atenção. Este jovem estava então a ler um livro cujo título era: "Pense e Fique Rico". Achei graça e imaginei-o a acabar de o ler, a pensar muito e... a enriquecer. Não consegui evitar um sorriso. Lembrei-me do filme Cocktail, em que o Tom Cruise protagonizava um jovem obcecado com a fortuna. Depois, cheguei a casa e fui saber mais sobre o livro, que desconhecia. Acontece que é um best seller, com mais de 40 milhões de exemplares vendidos. Napoleon Hill, um jovem jornalista, entrevistou o magnata do aço Andrew Carnegie - provavelmente o americano mais rico do início do século XX. Na conversa que tiveram, Carnegie lançou ao repórter um desafio: entrevistar 500 milionários para descobrir o que tinham em comum. Durante 20 anos, Napoleon Hill dedicou-se à missão e, com o apoio e os conselhos de Carnegie, compilou uma série de princípios a que chamou "As Leis do Sucesso". Pense e Fique Rico sintetiza essas leis. 

Imagino que os mais de 40 milhões que o leram não tenham conseguido pôr em prática as leis e ficarem todos ricos. Não deve, pois, ser trigo limpo farinha Amparo. Mas fiquei a pensar no rapaz do café e no que será a sua vida. Será a riqueza uma meta obsessiva? Estará bem de amor, terá uma família estruturada? Será o dinheiro a única coisa que lhe falta? Conseguirá atingir o objectivo?

Pelo sim pelo não, sou menina para adquirir o livro. 

Aniversário

É o segundo ano consecutivo que não faço festa. Desde que me conheço que sempre fiz grandes festarolas, mas nestes dois últimos anos não me deu para isso. Cansa-me pensar na logística toda, nos convidados, nas listas dos que vão, dos que não vão, dos que ainda estão a pensar, na escolha do restaurante, nas ementas, numa eventual animação... e depois o próprio dia: ter de dar atenção a todos, como num casamento, andar pelas mesas a distribuir sorrisos, a ter a certeza que tout va bien, que há vinho, que fulano está sentado perto dos que conhece e não sozinho onde ninguém o integra, que sicrano não está próximo de beltrano porque não se gramam nem com molho de tomate, sem falar da certificação mais do que necessária hoje em dia de que existe opção vegetariana, vegana, sem glúten. Quando começo a elencar tudo o que é preciso... desisto. 

Fiz anos no domingo e o meu presente de mim para mim foi levar os cá de casa ao brunch do Olivier Avenida (tãooooo bom!) e a seguir rumar até casa e enfiar-me no sofá a ver a minha série do momento: O Método Kominsky (obrigada, Ana!). À noite jantámos fondue, que adoro, e pronto. Feito! O Ricardo diz que só voltei a ficar com a minha cara de sempre quando foi meia-noite e o meu aniversário já tinha passado. Não é que estivesse aborrecida, porque sempre gostei de fazer anos. Adoro estar cá, gosto de celebrar o facto de estar vivinha da Silva. Mas... este ano não estava com feitio para mais. Bom, no ano passado também não, o que pode significar uma nova forma de celebração. Em calhando é mesmo isto envelhecer. Preferir o pijama e uma série a uns saltos altos e uma festa de arromba. Dito assim parece deprimente. Mas olhem que pode ser bem reconfortante. Palavra de idosa. :)

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Clube de Leitura de Lisboa: foi na sexta e a seguir jantámos

(Não admira que tenha demorado uma vida a escrever este post, caraças! Agora que publiquei é que vi o tamanho deste lençol)

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Foi dos bons. Vá, sou franca: nunca há dos maus. Mas, claro, uns acabam a ser melhores do que os outros, às vezes nem sei bem porquê, até pode ser da minha própria disposição.  Este foi dos bons porque teve alguns regressos (Célia e Diana), elas que costumavam vir sempre e já não vinham há tanto, tanto tempo. E teve pessoas novas, o que é sempre refrescante e sinal de que continuamos em reta ascendente. E a Ana Maria Inácio, que nos tinha oferecido uns marcadores lindos em tecido, acabou a aparecer também mas só para dar um beijinho e para que todos os presentes pudessem agradecer-lhe de viva voz o miminho tão querido e desinteressado. Havia vinho, tarte de amêndoa, bolinhos, salgados...

A Sara leu Anatomia de um Escândalo, de Sarah Vaughan e gostou, mas não com aquele entusiasmo que esperava sentir, sobretudo depois de ler algumas das entusiasmadas descrições que vêm no próprio livro. Basicamente, James é um pai dedicado, uma figura pública carismática, um bom homem que, de repente, se vê acusado de um crime terrível. A sua mulher acredita na sua inocência mas a advogada de acusação está segura de que ele é culpado e deve pagar pelos seus crimes. Quem terá razão? Sophie ou Kate? A Sara já sabe mas diz que não foi particularmente entusiasmante descobrir. Também leu Antes de Te Conhecer, de Lucie Whitehouse, e fez com que qualquer pessoa da sala arrepiasse caminho se porventura pensava lê-lo. "Zero emoção", foi assim que se referiu ao livro. E ainda leu (raça da rapariga, que lê que se farta) Os Vizinhos do nº 9, de Felicity Everet, mas também não ficou arrebatada. Dois casais vizinhos tornam-se inseparáveis e, de repente, a relação torna-se muito complexa, com consequências devastadoras. Pergunto à Sara se não se sente também ela devastada quando lê livros que não a arrebatam nem sequer minimamente. Ela explica que não. "Só poderia saber se eram bons ou não lendo-os. E de qualquer maneira são leituras nos transportes, são daquelas leituras que não fazem com que sintamos que perdemos tempo. A alternativa era ir a olhar para o ar..." Bem visto (se bem que a olhar em redor pode aprender-se imensa coisa, atenção!).

A Paula leu Uma Chuva de Diamantes, de Sveva Casati Modignani. Que sim, levezinho, lê-se muito bem (já eu, quando oiço isto, fico assim meia desconfiada, parece a descrição de um comprimido que não é muito grande e, por isso, se engole bem 😂​). Um grande editor morre deixando aos filhos e netos um enorme património e um mistério inquietante: uma parte significativa da herança está pura e simplesmente desaparecida. A leitura do testamento desencadeia uma desenfreada caça ao tesouro. A Paula leu também A Casa na Praia, de Anita Shreve, e sentiu que tudo fluiu bem. É a história de uma mulher que tem pavor que o seu marido, piloto, morra num acidente de aviação e que, por isso, se divorcia dele. A seguir, Sydney casa com outro, um jovem médico, e o destino, que é um grande sacana, faz com que o marido morra subita e inesperadamente no hospital onde trabalha. Mas a viúva ainda tinha muitas aventuras para viver. É assim mesmo, acrescento eu!

O Ricardo, homem entre as mulheres, leu o primeiro volume d'Os Pilares da Terra, de Ken Follett, e está a ler o segundo. Adorou. Ainda nunca tinha lido Ken Follett e ficou rendido a este arrebatador romance histórico que se revelou ser uma obra-prima. É uma história épica, cheia de intrigas, aventura e luta política. A trama centra-se no século XII, em Inglaterra, onde um pedreiro persegue o sonho de edificar uma catedral gótica. À volta desta ambição, o leitor vai acompanhando um período da Idade Média carregado de personagens, poder, vingança e traição.

A Beatriz Mendes leu Normal People, de Sally Rooney (traduzido em português para Pessoas Normais) e gostou muito. Pessoas Normais é a história de um casal que tenta separar-se mas que acaba por entender que não o consegue fazer. Mostra-nos como é complicado mudar o que somos e revela muito sobre sexo e poder, desejo de magoar e ser magoado, de amar e ser amado. Fiquei com vontade de ler, sobretudo depois de ter lido que o The Times o considerou o melhor romance do ano. Mas, como sempre, a Beatriz leu mais do que um livro. E trouxe-nos também O Sentido do Fim, de Julian Barnes, que só por ser de Julian Barnes já leva o carimbo de qualidade (li o Nada a Temer e gostei muito). A Beatriz descreveu este livro como sendo uma pequena maravilha, porque é a história de uma grupo de amigos que, chegados a velhos, recordam o que ficou para trás, descobrindo que a memória é, afinal, uma coisa altamente imperfeita. Além de ouvir a Beatriz dizer que é um livro imperdível, além de ter gostado muito de Barnes, ainda li o que escreveu no Expresso sobre este livro o José Mário Silva, que trabalhou comigo no DNA: "A escrita de Barnes – com as suas frases perfeitas, por vezes a raiar o sublime – faz deste livro uma obra-prima." Lá terá de ser. A Beatriz ainda leu Jesus Cristo Bebia Cerveja, de Afonso Cruz, O Optimismo Aprendido, de não sei quem e A Vida que Floresce, de Martin Seligman. Está toda viradinha para a psicologia positiva e agora é só copos meio cheios, que é o que é preciso.

A Andreia, que tem uma página sobre livros, com a irmã, chamada As Miúdas dos Livros, e veio da Suiça, onde está emigrada, de propósito para assistir ao clube (mentira, estava cá a passar uns dias mas não interessa), leu vários livros nos últimos tempos e, como agora não se sabe quando volta, falou desses vários: O Rouxinol, de Kristin Hannah, de que gostou muito (um livro sobre a segunda Guerra Mundial, incidindo sobre uma parte da história que raramente é vista: a guerra das mulheres); bem como A Grande Solidão (da mesma autora). A Grande Solidão é sobre a ida de uma família para o Alasca, numa tentativa (vã) de fugir aos fantasmas do pai, ex-combatente no Vietnam. Por lá, mãe e filha descobrem que estão sozinhas. Um retrato da fragilidade e da resiliência humanas, do amor e da perda, da luta pela sobrevivência e da rudeza que existe tanto no homem como na natureza. Fiquei com muita vontade de ler este. A Andreia está ainda a ler Voar no Quarto Escuro, de Márcia Balsas; Sophia, a Menina do Mar, de Jorge Lima e Cristina Falcão (sobre Sophia de Mello Breyner). E, como esta é uma primeira vez (e sabe-se lá quando será a próxima), a Andreia ainda relembra um livro que leu, chamado Dez Anos Depois, de Liane Moriarty, que conta a história de uma mulher que, aos 39 anos dá uma aparatosa queda no ginásio e a última década da sua vida apaga-se por completo da sua memória. Tem novamente 29 anos, está apaixonadíssima pelo marido e à espera do primeiro filho. Só há um pequeno problema: tudo isto se passou há dez anos… No presente, Alice é mãe de três filhos, enfrenta um difícil processo de divórcio e está de relações cortadas com a irmã, que adora. Conseguirá alguma vez reencontrar a mulher que foi na fase mais feliz da sua vida? Uma nota para a Diana que, ao ouvir a Andreia contar a parte em que a mulher cai no ginásio, interrompe para dizer, com imensa graça: "É por isso que eu não vou ao ginásio". Muito rimos todos.

A Beatriz Couto leu O Contador de Histórias, de Jeffrey Archer, e não me pareceu assim muito entusiasmada. O livro reúne13 histórias distintas, sendo oito delas inspiradas em acontecimentos reais. Aqui podemos ler a história sobre todos os habitantes de uma pequena cidade italiana que quiseram assumir a culpa do assassinato do respetivo Presidente da Câmara, ou a de um homem que enriqueceu a explorar um parque de estacionamento que não lhe pertencia, durante anos a fio.

A Vera, que foi pela primeira vez ao clube, diz que está a tentar voltar às leituras, ela que tem três filhos, o mais pequeno dos quais ainda mama (e ela está de licença de maternidade), razão pela qual teve de sair de repente, como um relâmpago, para ir alimentar a cria. A Vera leu Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio, deixando-nos a todos (ou a muitos, vá) com alguma saudade dos clássicos portugueses. Ela adorou o livro, cuja trama decorre à volta de um namoro, entre João Garcia (filho de uma família nova-rica sem títulos) e uma menina de seu nome Margarida Clark Dulmo (elemento mais novo de uma família respeitável, aristocrática, com origens estrangeiras novas, mas em quase falência), cujas famílias estão afastadas por antigas questões e ressentimentos. Diz quem sabe que a obra apresenta uma panorâmica da sociedade açoriana e também de problemas que animam todos os seres humanos tais como paixões, medos, entusiasmos e angústias. David Mourão Ferreira descreve-a como a obra "mais complexa, mais variada, mais densa e mais subtil em toda a nossa história literária".

Em Teu Ventre, de José Luís Peixoto, foi o livro lido pela Ana. Uma reflexão sobre Portugal, a partir das aparições de Nossa Senhora a três crianças, em 1917. A questão da maternidade é apresentada em múltiplas dimensões, nomeadamente na constatação da importância única que estas ocupam na vida dos filhos. A Ana, que se encanta com os temas da maternidade, deixou-se deslumbrar por este livro sensível e surpreendente de José Luís Peixoto.

A Diana, que já não vinha há tanto tempo que ainda nem conhecia o nosso "novo" poiso (o fantástico Brown's Hotel), ainda trouxe a sua opinião sobre o Crime e Castigo, de Dostoiévski (que não foi grande coisa, por lhe terem escapado alguns desvarios literários que lhe pareceram extemporâneos), e está a ler Cakes And Ale, de William Somerset Maugham (estranhamente traduzido em português para Destino de um Homem) e a gostar muito

Por Favor Cuida da Mamã, de Shin Kyung-Sook, foi um dos livros lidos pela Susana, que já tinha ido uma vez (salvo erro foi só uma) e agora nos honrou de novo com a sua presença. E que bom que foi. Fiquei cheia de vontade de ler este livro. É a história de uma mulher de 69 anos que, chegada de uma pequena aldeia do interior à movimentada Seul, é separada do marido pela multidão, numa estação de metro, e desaparece sem deixar rasto. A família inicia então uma busca desesperada por toda a cidade. E, de repente, dão por si a pensar: até que ponto conhecessem essa mulher a quem chamam "mãe"? O livro é narrado por 4 personagens distintas: a filha, o filho, o marido e a própria mãe desaparecida. Por Favor Cuida da Mamã, apesar de ter um título miserável em português (que me afastaria do livro se não soubesse nada sobre ele), revela-nos a intensidade da vida familiar e a fragilidade dos seus laços. É um retrato da sociedade coreana contemporânea e uma história universal do amor que une uma família. A Susana também leu O Livro do Destino, de Parinoush Saniee, que é a história de uma adolescente iraniana que descobre o amor mas que é obrigada pela família a casar-se com um homem que nunca viu. O marido é um dissidente político e acaba por ser executado. Quando, ao fim de 32 anos, o seu primeiro amor reaparece, os seus três filhos olham-na com indignação, incluindo os dois que vivem no estrangeiro. Deverá ela colocar os seus sentimentos em primeiro lugar, ou submeter-se aos preconceitos dos filhos? Uma história comovente sobre a vida das mulheres no Irão, que começa antes da revolução de 1979 e atravessa a República Islâmica até aos nossos dias.

A Marta está a ler o livro de um dos laureados com o Prémio Nobel da Literatura deste ano: Conduz o Teu Arado Sobre os Ossos dos Mortos, de Olga Tokarczuk. A Marta está a gostar e está cheia de sorte porque foi este um dos livros escolhidos como leitura "obrigatória" do mês de Novembro. Numa remota aldeia polaca, uma professora reformada divide os seus dias a traduzir poesia e a observar os sinais da astrologia. Prefere os animais às pessoas. Mas a pacatez dos seus dias é interrompida quando começam a aparecer mortos vários membros do clube de caça local. E é então que a professora reformada decide investigar e descobre algo que deixará a comunidade aterrada. Fiquei curiosa (e vou poder satisfazer a minha curiosidade muito em breve).

A Cláudia veio pela primeira vez, tal como a Andreia, e leu imensos livros no último ano. Aconselha muito o livro Deixo-te para Não te Perder, de Taylor Jenkins Reid, que é um romance sobre casamento, laços familiares, amor, ruptura, interesse individual e colectivo. Um casal decide afastar-se durante um ano, na esperança de voltar a sentir a paixão perdida. A Cláudia também gostou muito de Ontem à Noite, de Catherine O' Connell (Uma mulher vai casar e reúne as amigas para uma despedida de solteira mas... as coisas correm horrivelmente mal. Uma delas morre e a noite, que era para ser inesquecível, torna-se um pesadelo).

A Cristina leu (pela segunda vez) o livro Quem Quer Ser Bilionário?, de Vikas Swarup. Lembrava-se de ter gostado infinitamente mais do livro do que do filme e, agora, decidiu relê-lo e, já agora, ver assim na diagonal de novo o filme, para confirmar que sim, o livro é muito melhor do que o filme, porque o livro conta a história de Ram, que ganha efectivamente um concurso, mas em que cada capítulo explica a razão pela qual ele sabia cada resposta a cada pergunta que lhe é feita. Segundo a Cristina, é mesmo um livro imperdível (e eu, que vi o filme, tenho mesmo de o ler). A propósito do que o Ricardo falou de Ken Follett, ela confirmou o génio do escritor, também pela trilogia O Século, que considerou muito boa. E, ainda a reboque doLivro do Destino, que a Susana trouxe, disse que também leu e gostou, e que também leu outro da mesma autora (Parinoush Saniee): O Silêncio da Minha Voz.

A querida Inês, que tem um lugarzinho muito especial no meu coração porque é muito novinha, entrou este ano na faculdade, e aparece sempre que pode, com aquele brilho no olhar, para nos contar o que leu. Desta vez, não conseguiu ler nada mais que os livros da faculdade e, ainda assim, lá foi ela ouvir-nos, se não é a dedicação e entusiasmo em pessoa, benza-a Deus!

O Deserto dos Tártaros, de Dino Buzzati, foi o que a Isabel Oliveira nos trouxe. Gostou muito e confessa que, apesar de ser mulher, de não ser militar, e de não viver num deserto, se sentiu identificada com Drogo, um militar que é enviado para uma remota fortaleza num deserto. Drogo pensa que vai apenas por pouco tempo mas ali fica anos e décadas, aguardando a invasão tártara que nunca chega. A necessidade humana de dar sentido à vida e o desejo de imortalidade através da glória são o tema sobre o qual circulam as alegorias desta obra. O Deserto dos Tártaros é considerado uma das obras-primas do século XX. Sobre o seu autor Jorge Luís Borges disse: "Há nomes que as gerações vindouras não se resignarão a esquecer. Um deles é Dino Buzzati." Sobre o livro, Isabel comentou: "É um livro mesmo bom para maduronas em crise". A Isabel nunca me falha. :) Além desta masterpiece, a Isabel também leu coisas mais prosaicas, como um livro de culinária chamado Super Bowls - Simples e Saudável, de Bérengère Abraham, e que revela o segredo para ter, numa só taça, uma refeição simples, completa, saudável e nutritiva. E ainda conseguiu trazer-nos uma sugestão espiritual, com o livro Uma Beleza Que nos Pertence, de José Tolentino de Mendonça. Isabel, que é ateia, ficou presa da primeira à última página, por estes aforismos, ensinamentos para o dia a dia, perguntas que inquietam ou deixam a reflectir, sempre na permanente procura da felicidade. Ah, e agora está a ler À Espera de Godot, de Samuel Beckett, e está a achar um suplício. Ah ah ah.

A Elisabete leu A Zona de Desconforto, de Jonathan Franzen, mas confessou ter gostado muito mais do Liberdade, do mesmo autor. A Zona de Desconforto é a memória íntima que Franzen guarda do seu crescimento dentro de uma pele hipersensível, de "uma pessoa pequena e fundamentalmente ridícula", passando por uma adolescência estranhamente feliz, até se transformar num adulto de paixões fortes e inconvenientes. A nossa Bete também leu O Senhor Monstro, de Dan Wells, que é um thriller cheio de humor negro. 

A Célia, que era um dos mais fiéis e assíduos membros do clube de leitura e que, por coisas da vida, não aparecia havia meses, deu finalmente o ar da sua graça (e se está com bom ar!) e trouxe-nos os livros À Beira do Colapso, de B.A. Paris, que achou um bocado previsível (mas atenção que ela papa thrillers como o camaleão papa moscas, de maneira que já é diplomada nisto de descobrir ao fim de cinco minutos quem matou quem) e leu também O Equador, de Miguel Sousa Tavares, de que gostou muito. 

A Joana Madeira leu o 4º livro da saga Millennium, A Rapariga Apanhada na Teia de Aranha, já não escrito por Stieg Larsson (o autor morreu depois de entregar a sua trilogia de mega sucesso mundial, sem nunca ter chegado a conhecer o êxito retumbante que teve), mas escrito pelo seu sucessor, David Lagercrantz. Neste thriller carregado de adrenalina, a genial hacker Lisbeth Salander e o jornalista Mikael Blomkvist enfrentam uma nova e perigosa ameaça que os leva mais uma vez a unir as suas forças. Uma noite, Blomkvist recebe um telefonema de uma fonte confiável declarando ter informação vital para os Estados Unidos. A fonte tinha estado em contacto com uma jovem mulher, uma super-hacker que se parecia com alguém que Blomkvit conhecia muito bem. As consequências são surpreendentes. Blomkvist, a precisar urgentemente de um furo jornalístico para a Millennium, pede ajuda a Lisbeth, que, como habitualmente, tem a sua agenda própria.
Eu li Pequenos Fogos em Todo o Lado, de Celeste Ng, mas não vou dizer o que achei porque para a semana vou ao Porto falar sobre ele também. 

A seguir jantámos e continuámos as conversas, as partilhas. Somos mesmo felizes neste clube de leitura que é, como a Ana Maria Inácio percebeu tão bem quando fez aqueles marcadores para nos oferecer, uma casa. 

Algumas coisas maravilhosas

Como tive oportunidade de aqui contar, fui ver a peça "Todas as Coisas Maravilhosas", interpretada divinamente pelo Ivo Canelas, e saí de lá com muita vontade de colocar um rolo de papel pendurado algures para que todos nós, lá em casa, possamos ir elencando as nossas pequenas, médias e grandes coisas maravilhosas.

Para que não leu e não sabe do que trata a peça, explico: é a história de um miúdo que, sendo confrontado com a depressão e tentativa de suicídio da mãe, começa a escrever uma lista de todas as coisas maravilhosas que fazem com que a vida valha a pena. Uma lista que começa a escrever em criança, com as coisas simples a serem elencadas, e que continua a ser escrita pela sua vida fora, e onde são incluídas coisas simples e outras mais complexas até quase ao infinito, porque se pensarmos bem há tanto que nos pode fazer felizes.

A peça marcou-me de tal modo que nunca mais tirei isto da cabeça. E, pensando na quantidade de pessoas que andam tristes, muitas mesmo a sofrer de depressão, lembrei-me: e se fizésemos todos uma lista? Não todos, porque há sempre quem não goste, quem não queira, mas os que quiserem fazer este exercício. 

Assim, deixo a sugestão: quem quiser envie-me uma pequena lista de coisas maravilhosas. Pode ser tão simples como um pastel de Belém ou tão complexo como sentir na barriga um bebé que levou muito tempo a chegar. Pode ser tudo. Coisas pequeninas, quase insignificantes, ou coisas grandes, grandiosas mesmo. Mandem para sonia.morais.santos@gmail.com. E farei uns quadradinhos parecidos com este que fiz para mim, com aquilo que me veio à cabeça assim de repente (e que poderia ser muito mais estendido, naturalmente), com o nome de cada pessoa que elencou a sua lista. 

Agradecer e festejar isto de estar vivo. Não me ocorre melhor forma de celebrar o meu aniversário (que está aí mesmo à porta).

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Malditas enxaquecas

Calhou que na distribuição genética tenha puxado mais ao pai em quase tudo, mas também... à madrasta. Brincadeira, bem sei que não posso sacar genética da madrasta (é melhor esclarecer isto, com a fama que as bloggers têm ainda supunham que eu acreditava verdadeiramente nesta possibilidade), mas gosto de o dizer porque, de facto, nem mãe nem pai, nem avós, a verdade é que parece não haver registo familiar de enxaquecas. A única pessoa que conheci que sofria horrores desse mal era, efectivamente, a minha madrasta. Recordo dias e dias dela deitada na cama, sem poder ouvir um alfinete cair ao chão, toda envolta em penumbra, com um lenço amarrado à testa, tão amarrado que quando o tirava tinha impressas na pele e na carne as marcas da pressão do tecido. Lembro-me de lhe fazer massagens, lembro-me como ia a correr para a casa de banho vomitar, e como isto acontecia ora sem explicação ora por culpa de um queijo, de um vinho, de um excesso qualquer, quase como um castigo certeiro para uma culpa assumida.

Nunca tive dores de cabeça até há uns anos. Não consigo recordar se coincidiu com alguma coisa má ou especialmente stressante na minha vida (deve ter coincidido), mas lembro-me de ir a um neurologista porque - claro - achei que tinha um tumor. Fiz ressonância ou TAC, não me lembro, e não. Não tinha. Na altura o médico falou em enxaquecas, receitou-me o Maxalt, que era eficaz mas proporcionava uma moca deveras atroz, começava por sentir um frio nas omoplatas que se espalhava para a zona das meninges e depois toda eu ficava geladinha e dormente mas sem dor.

Entretanto a coisa passou e... há 3 anos as malditas dores de cabeça voltaram. Voltei a acreditar que poderia ser um tumor e acabei num médico de Medicina Interna que olhou para mim, conversou um bocado, e perante a história que lhe contei (tinha acabado de morrer um grande amigo e outro tinha acabado de ser diagnosticado com a mesmíssima doença do primeiro), progonosticou: "Isso são dores de cabeça de tensão, quase de certeza. Mas, vá, vamos descartar o tumor." Descartámos. E a verdade é que as minhas dores apanham os ombros, o pescoço, a zona das omoplatas e é um sofrimento do catano que se intensifica sempre que alguém próximo adoece ou morre ou o c... 

Hoje é o quarto dia. Os dois primeiros dias foram beras, comigo a engolir o Zilpen, que é o meu salvador (nada mais que Tramadol, pumba!), sem dó nem piedade. Hoje sinto que a maldita está cá, sinto-a ainda que não tenha dor. Não é fácil explicar mas sinto que não estou inteiramente eu, há aqui uma latência nos ombros, no pescoço e na tola, que é como se a bandida dissesse "Não penses que me fui, estou aquiiiiiii". 

Hoje há Clube de Leitura e não vou poder beber vinho a acompanhar as leituras, o que é uma tristeza. Felizmente não é tumor, é nisso que penso sempre que amarro o cinto do robe à cabeça. Nisso e em como é esquisito sair à madrasta.

 

Quando encontras um ex no caminho

Hoje quando estava a levar a Mada à escola (excepcionalmente de mota porque hoje o Mateus tinha com quem ficar em casa e porque ela confessou estar muito cansada para pedalar - claro que a hipocondríaca em mim ficou logo alerta para o cansaço dela, mas a racional em mim explicou à hipocondríaca que a vida que a miúda leva é, de facto, cansativa), parei numa passadeira para deixar passar o peão que se aproximou com o seu cão. Foi então que vi tratar-se de um ex-namorado. Ele sorriu, agradeceu e atravessou, mas é quase impossível que me tenha reconhecido através do meu capacete fechado que só deixa os olhos à vista. Já eu fiquei a vê-lo passar e inevitavelmente a recordar a relação breve que tivemos, há uma vida. Constatei que manteve o bom aspecto, magro, o sorriso bonito, bem vestido. Reparei no cabelo todo branco, que não lhe ficava nada mal, e reconheci a passada calma e o ar impecavelmente arrumado que inviabilizaria qualquer relação duradoura com uma pessoa como eu. Sorri dentro da concha do meu capacete e virei à direita, para a escola da Madalena. Que vida teria sido a minha, se tivéssemos continuado juntos?, ocorreu-me. Tornei a sorrir. É um exercício divertido e, ao mesmo tempo, inquietante. Que teria sido a nossa vida, a de cada um de nós, se um "se" não se tivesse metido pelo caminho? (reparem na profusão de "ses" que esta frase contém). Seríamos os mesmos? Ou outros? A essência manter-se-ia ou poderia diferir totalmente? Despedi-me da Mada com um abraço possivelmente mais apertado que nos outros dias. Afinal, ela podia não ser, não estar, não ter chegado a existir. Tudo se um "se" mudasse toda a história. Ainda bem que não mudou. 

Dias bons

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Na semana passada fui finalmente conhecer o Vila Galé Sintra. Já tinha recebido alguns convites para ir lá passar um fim-de-semana mas ainda não tinha conseguido, de maneira que foi desta que arranjei forma de lá ir dar uma espreitadela. Peguei numa amiga (não ao colo, apesar dela pesar tão pouco que até podia) e fomos passar uma manhã diferente. Marquei uma massagem para cada uma no SPA e lá fomos. Ela entrou primeiro, eu fiquei na salinha de repouso a beber um chá, já de roupão imaculadamente branco, e com o meu livrinho por companhia. Depois, trocámos. Já devidamente massajadas (se fosse milionária fazia uma massagem por dia - estou sempre toda torcida, embrulhada, cheia de contraturas, tenho enxaquecas de tensão cada vez mais frequentes), fomos para a piscina interior. Toda ela rodeada de janelas de chão ao tecto, com vista para a serra de Sintra, assim mesmo um abuso de vistaça. Olhem lá se não é de ficar de queixo caído.

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Depois disto tudo... ainda fomos almoçar no restaurante do hotel, com a mesma vista e a mesma luz. Estava tudo divino e ainda tivemos a sorte (ou o azar, dependendo se a perspectiva é a da gula ou a das ancas) de nos trazerem uma sobremesa de cada para que pudéssemos experimentar tudo. Ficámos até toda a gente já ter ido embora, porque é à mesa que as conversas se desenrolam melhor.

De maneira que agora tenho mesmo de arranjar um fim-de-semana jeitoso para levar lá os miúdos. 

Obrigada, Vila Galé. Vocês nunca me decepcionam (a começar pelo poiso que me dão no Porto para realizar o Clube de Leitura do meu coração). 

 

*A Cocó na Fralda esteve no Vila Galé Sintra a convite do Grupo Vila Galé