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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Vida/morte

Há bocado cruzei-me com um morto. Eu ia para o ISPA (Instituto Superior de Psicologia Aplicada), fazer uma entrevista, quando vi um enorme aparato e uma ambulância do INEM a chegar. Não olhei muito, porque não é coisa bonita de se ver nem eu sou médica, mas de relance vi um corpo deitado no asfalto, uns pés estendidos e a equipa de emergência azafamada, ao mesmo tempo que um verdadeiro circo estava formado em redor. Estive uma hora e meia na entrevista e, quando saí, vi que havia ainda algumas pessoas, um silêncio peculiar, e polícia. Continuei a andar e lá estava o corpo envolvido numa espécie de papel prata. Pelos vistos, não foi possível salvá-lo. Não sei o que aconteceu, se foi atropelado, se teve uma doença súbita, se foi overdose, não faço ideia. Também já vi alguns mortos, em reportagem, e portanto nem sequer foi isso que me impressionou. O que ficou a mexer cá dentro foi aquele contraste entre a vida e a morte. O contraste entre os carros que não pararam de passar, as pessoas que continuaram a caminhar para a frente e para trás, o bulício da cidade, as buzinas, as gargalhadas, as discussões, a música que saía de um café mais adiante, e a inércia daquele corpo finito, indiferente às horas, indiferente à chuva e ao frio, imóvel, inútil, imprestável. Um morto no meio da cidade é uma peça estranha num puzzle frenético. E é quase obsceno porque nos relembra da nossa própria mortalidade. Agora estamos, no minuto seguinte não se sabe. Aproveitemos, então, enquanto estamos.

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