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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Os Papa-léguas #4 (Paulo Neto Leite)

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157. Eis um número que Paulo Neto Leite nunca vai esquecer. Foi este o peso máximo que atingiu, em 2006. Três pesados dígitos que foi acumulando por inércia, por preguiça, por gostar tanto de comer. "Fui deixando andar. Sou engenheiro químico, tinha horários desregrados, muito trabalho, comia mal durante o dia e depois quando chegava a casa comia alarvemente. E depois eu adoro cozinhar, ir à praça escolher, comer, beber, conversar à mesa. Enfim, foi uma espiral. Às tantas já é indiferente se pesas 120, 130, 150. Perdes o controlo. És gordo, pronto."

Teresa, a mulher com quem casou em 1997, foi assistindo à transformação com alguma benevolência. Afinal, o casamento é para manter, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, "não diz lá nada sobre a gordura e a magreza". As filhas, nascidas em 2000 e 2002, praticamente não conheciam o pai sem ser em formato king size. Era o seu pai gigante. 1,84m de altura e 157 quilos de peso. Um super-pai.

Paulo não se sentia propriamente mal. Bom, para apertar os sapatos era um caso sério. E sim, se fosse de fim-de-semana para um destino de praia, tinha de levar uns 3 fatos de banho: "Não podia dar-me ao luxo de levar apenas um fato de banho. Se por acaso se rasgasse, o que fazia? Só se fosse a qualquer lado pedir um toldo!" 

Em 2005 foi-lhe diagnosticado um tumor num testículo. Felizmente não era maligno mas foi a primeira vez que Paulo sentiu o peso pesar: "Tive muita dificuldade em sarar a costura da cirurgia. E foi então que me cansei. Decidi procurar ajuda e optei pela banda gástrica. No mês de preparação para a cirurgia é preciso ficar a dieta líquida. Emagreci 12 quilos e pensei: se calhar não faço a operação, não preciso. Mas felizmente fiz. Não ia dar para ficar a líquidos a vida toda."

Foi operado a 16 de Março de 2006 e esteve acompanhado, em todo o processo, por um cirurgião, um nutricionista e um psicólogo. Certa vez, em dia de festa de aniversário, havia na mesa o seu doce preferido: uma tarte de amêndoa por encetar, com uma fatia larga já partida, a olhar para ele. "Esperei que todos saíssem, sentei-me à frente da tarte e pensei: se não conseguir ficar aqui 15 minutos sem lhe tocar não vou conseguir levar isto para a frente". E ali ficou. A olhar fixamente para o objecto do seu desejo. Passados 15 minutos, levantou-se. "Acho que se tivesse ficado lá 16 minutos em vez de 15 tinha-me atirado à tarte! Foi uma violência!"

No final de 2006 já pesava 116 quilos. Por razões profissionais, foi com a família viver para São Paulo, Brasil. Entre comer fora, experimentar comidas novas, adaptar-se às novas rotinas... chegou aos 125 quilos. "Senti-me a derrapar. E não quis. Não, não vou deixar isto acontecer! E então comecei a correr. Lembro-me que fiz a primeira prova de 5km, no Brasil, em 2011. Achei que ia morrer. Passei o resto do dia deitado, a pôr gelo nas pernas."

A família voltou do Brasil em 2013 e Paulo, que continuava a correr, começou a fazer provas de 10km e em 2014 fez a Meia Maratona dos Descobrimentos. Pesava 103 quilos. Continuou a correr e a emagrecer até chegar aos 95, 96 quilos. Estava no bom caminho. 

"Há, porém, um momento que creio ter marcado a minha vida para sempre. Em Agosto de 2015, volto de férias, e quando me peso percebo que tenho 99, 9 quilos. Ou seja, já estava disparado outra vez. Praticamente nos 3 dígitos de novo. Passei-me. Foi o chamado 'life changing event'. Saí disparado para o computador, à procura de uma prova onde me inscrever, para me motivar a treinar. Encontrei o Triatlo de Cascais. E disse: é isto!"

Mal sabia ele que estava, de facto, a operar a mudança da sua vida.  

 

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Paulo Neto Leite não nadava há 20 anos. Comprou touca, óculos, inscreveu-se numa piscina. No fim dos primeiros 25 metros, achou que ia morrer. Faltava 1 mês para o super sprint do Triatlo de Cascais, que incluía nadar 300 metros, ou seja, 12 piscinas. Contratou um professor. Treinou a corrida e a bicicleta. E terminou a prova com uma alegria que se lhe agarrou ao corpo e à alma. A família foi toda mobilizada e estava lá, a gritar por ele como se aquele fosse o desafio da sua vida. E era. Era o primeiro de uma existência novinha em folha.

Quinze dias depois, em Setembro de 2015, fez o triatlo em Lisboa. 

E nunca mais parou..

Tornou-se membro da equipa de triatlo do Estoril-Praia. Passou a treinar todos os dias, sem descanso, sendo que em alguns destes dias treina duas vezes, duas modalidades diferentes. Com uma "agravante": mora na Marisol (margem Sul), treina no Estoril, trabalha no Aeroporto de Lisboa. Um triângulo que o obriga a uma ginástica suplementar: a de encaixar tudo na sua vida, sem esquecer a mulher e as duas filhas, parte fundamental de si e do sucesso da sua luta contra o peso: "O meu emagrecimento é um projecto de família. Estamos todos nisto. Costumo dizer que não mereço a mulher que tenho. Não só aturou o gordo como agora atura toda a minha louca rotina desportiva. Mas ela sabe que é importante para mim. E eu também procuro compensá-la... ainda na terça-feira fomos jantar fora e bebemos uma garrafa de vinho os dois. Também não sou Xiita!"

Não é, mas quase. Pelo menos tem uma disciplina quase radical. Acorda todos os dias às 5:15h da manhã. Às segundas, quartas e sextas faz natação e à noite bicicleta, em casa, nos rolos. Às terças e quintas corre. Algures na semana faz treino de reforço muscular e ao fim-de-semana tem os treinos longos ou as provas. Para conseguir esta super-gestão, tornou-se ainda mais organizado do que já era. Na véspera prepara tudo - e só quem faz triatlo sabe que há tanto para preparar (touca, óculos, fato de banho, chinelos, toalha, barbatanas, palas para as mãos; ténis, roupa de correr; calções reforçados para a bicicleta, sapatos de bicicleta, capacete, luvas, acessórios diversos, gadgets devidamente carregados, comidas, suplementos).

O seu rigor e a alteração que operou na sua vida fizeram com que hoje seja até um atleta patrocinado. "Não é incrível? A N10 Bike Shop patrocina-me. A mim! O tipo que pesava 157 quilos! Às vezes até eu fico incrédulo com tudo isto."

Paulo tem 46 anos, mede 1,84m e pesa agora 90kg. Tem o objectivo de chegar aos 83 mas não se percebe bem porquê. Está irreconhecível. É outro homem. Outro corpo, outra cara, outra alma.

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A sua relação com a comida será sempre uma relação complicada. Continua a gostar de cozinhar, ir à praça escolher, comer, beber, conversar à mesa. E sabe que tem uma adição, tal como se fosse álcool, droga ou jogo. É porventua mais tortuosa, porque nesses casos um dos segredos para a cura é nunca mais repetir. No seu caso, é imperioso que continue a conviver diariamente com o objecto da sua adição, por uma questão óbvia de sobrevivência. Só é preciso saber dosear. E graças ao acompanhamento de uma nutricionista e da sua força de vontade notável, tem conseguido fazê-lo. Mas sabe que a luta é para sempre. Se porventura engorda, a fotografia de fundo do seu computador passa logo a ser uma do tempo em que era obeso. Só para não que não haja dúvidas.

A vida mudou em muitas coisas. Na verdade, quando se lhe pergunta o que sentia antes não sabe dizer. Mas sabe dizer o que sente agora: "Perdi uma pessoa inteira, em peso. Perdi a minha mulher e mais um bocado. Até faço a comparação. É como se tivesse deixado de andar todo o dia com ela ao colo. Vestia o 3XL. Nunca ninguém me oferecia roupa. Sabiam lá que número oferecer! No outro dia fui comprar umas calças para treinar e tive de trazer o M, porque o L estava largo. Fiquei incrédulo! Durmo melhor, respiro melhor, brinco com outra energia com as minhas filhas. Posso ir para a praia só com uns calções na mala porque se acontecer alguma coisa... é só ir à loja mais próxima. E tudo isto tendo encontrado algo que me apaixona! Sou realmente um apaixonado pelo triatlo! Não é monótono, é intenso... entusiasma-me mesmo muito. E sim, sinto-me imensamente especial de cada vez que acabo."

O seu caso também entusiasma muita gente. Tem contagiado muitos a perder peso, outros tantos a meterem-se no triatlo. Escrevem-lhe pessoas de todo o mundo. O mais distante vive na Índia. Inspirado pelo seu caso, também deixou de ser obeso e já fez o primeiro triatlo. Numa palestra motivacional para a qual foi convidado, levou para o palco 15 garrafões de 5 litros. O equivalente ao seu peso perdido. 

 

Paulo vai fazer o primeiro Half-Ironman em Setúbal, no dia 9 de Abril (1900m a nadar, 90km de bicicleta, 21km a correr). Repetirá a proeza em Lisboa, no dia 7 de Maio. E de novo em Cascais, a 3 de Setembro.

Para o ano, será a vez de se atirar a um Ironman (3800m a nadar, 180km de bicicleta, 42km a correr).

O sonho é ir ao Ironman do Havai, que foi, de resto, o berço desta prova e para o qual é preciso tempos mínimos (muito apertados). O modo como ele fala do sonho revela que é quase certo que vai tornar-se realidade: "Eu hei-de fazer o Ironman do Havai. Tenho a certeza disso. Não é uma questão de acreditar. É uma questão de saber. Eu vou lá chegar!"

Olhando para a sua transformação... não fica qualquer espécie de dúvida.

 

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 Fotos: Raquel Brinca, HUG

Os Papa-léguas #3 (Nelson Barreiros)

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Sempre ouviu dizer que não podia praticar desporto. Na escola, as recomendações da mãe ao professor de Educação Física faziam-no temer saltos e piruetas, jogos de bola ou correrias. Nelson Barreiros, atropelado aos 5 anos, tinha ficado sem baço, e sem baço - dizia a mãe (que, depois de quase o perder, só o queria proteger) - não havia lugar para desportos. Cresceu assim, afastado da actividade física, certo de que o carro que o havia colhido em criança teria levado consigo parte de quem era, forçado a um sossego perpétuo. O médico, de resto, alertara a mãe para decisões vindouras: "Quando crescer, ele que escolha um trabalho de escritório..."

Nelson obedeceu. Estudou Gestão de Empresas, enfiou-se num escritório, casou, teve um filho. Pelo caminho, esqueceu-se um bocadinho de si. Fazia refeições fora de horas, pouco regradas para quem, como ele, estava obrigado ao sofá. Em 2006 apanhou um susto. Estava hipertenso, tinha problemas nas articulações, estava sempre cansado. Pesava 110 quilos. Era uma bomba-relógio.

Com um filho de 8 anos, sentiu que a vida lhe escorria pelos dedos. Falou com uma colega que lhe marcou consulta num endocrinologista. Além da dieta, o médico prescreveu caminhadas. E Nelson começou, assim, a mudar o rumo da sua vida. Em seis semanas perdeu 7 quilos. Durante as caminhadas, via os que corriam. E foi tentando acelerar o passo. Principiou a correr. E a gostar. O médico desdramatizou o drama da falta de baço, que o ensombrara durante toda a vida. Tomou o gosto pela corrida. Sentia-se bem. Foi aumentado o tempo de actividade, os quilómetros, a velocidade. Em 2009 decidiu participar na sua primeira corrida. Escolheu a mini-maratona (7km) que atravessa a Ponte 25 de Abril. E em 2010 fez a Corrida do Tejo, a primeira de 10km. "Lembro-me de estar a correr e de ver o pessoal a correr na direcção contrária. Eram os que estavam a fazer 20km. E eu a pensar: 'Nunca na vida!!!! Esta gente é doida!!!' E afinal..."

Afinal depois dos 10, veio a primeira meia-maratona, em 2012, e a primeira maratona, em 2013. Para a estreia nos 42km, Nelson escolheu a Maratona de Lisboa. Pesava então 87kg. Terminou em 4h54m, lavado em lágrimas. "É uma emoção brutal. Vir a correr de Cascais e acabar em Lisboa... pensar em todo o treino, em todo o esforço, em toda a disciplina... ver o meu filho na meta, o meu treinador aos gritos... foi muito emocionante. Mas muito duro também. Pensei: nunca mais faço a maratona! Acabou!"

Está bem, abelha. Ficou dois anos remetido às meias-maratonas e aos trails, mas era certo e sabido que havia de voltar. Entretanto, foi aprendendo muito. Sobre o funcionamento do corpo, sobre os ténis a usar, sobre a passada. Juntou-se a quem sabia do assunto, leu, informou-se, aperfeiçoou-se. Em 2015, decidiu que estava pronto para uma nova maratona. Mas, desta vez, queria fazê-la sempre a correr. Sem paragens ou caminhadas pelo meio. Para isso era importante perder os quilos que lhe faltavam. De 110 para 87 já tinha sido um enorme salto mas era preciso chegar ao peso ideal. Consultou Sérgio Veloso, um fisiologista, compreendeu as complexidades do metabolismo, aprendeu sobre nutrição. Emagreceu 7 kg em 2 meses e hoje exibe uns atléticos 77 kg. Foi também nesse ano que apostou forte no reforço muscular e nos alongamentos. 

Nelson é determinado. Rigoroso. Disciplinadíssimo. Focado. Metódico. Quando mete uma coisa na cabeça, não se desvia um milímetro. Alguns exemplos prosaicos, mas claros: na despensa de sua casa há coisas que não pode comer. Ou melhor, pode, mas não quer, para não voltar ao que foi. O armário está trancado e é o filho quem tem a chave. Para que nunca ceda à tentação. Na porta do frigorífico está afixada uma fotografia sua com 110 quilos. Para que nunca se esqueça. Sempre que alguma peça de roupa lhe deixa de servir, não a guarda. Oferece. E compra o número abaixo. Para que nunca haja roupa larga à espera de uma recaída. Antes, quando chegava à Fuseta, onde faz férias, o seu primeiro pensamento era: "onde é que eu vou almoçar bem?". Hoje, quando lá chega a sua primeira preocupação é: "onde é que eu vou treinar bem?"

Foi em Novembro de 2015 que fez a sua segunda maratona, no Porto. Encantou-se. Pelo percurso, pelo apoio das pessoas. E conseguiu cumprir o objectivo: correu do primeiro ao último quilómetro e terminou em 4h12m, com o detalhe importante de ter feito um split negativo, isto é, correu a segunda parte da prova mais depressa do que a primeira parte (o que significa uma gestão de esforço notável). Correu-lhe tão bem que em Fevereiro de 2016 estava a fazer outra, em Sevilha, como novo recorde: 3h55m. E em Novembro do ano que acabou de passar, mais uma: de novo a Maratona do Porto, e um novo recorde de que se orgulhar - 3h48m.

O homem que não podia praticar desporto. Que cresceu assim, afastado da actividade física, certo de que o carro que o havia colhido em criança teria levado consigo parte de quem era, forçado a um sossego perpétuo. A primeira comparação que me surge é a de um sedento a quem oferecessem um jarro de água fresca. Mas depois, pensando melhor, não é justa, a comparação. Porque se assim fosse ele correria do mesmo modo que o sedento beberia água: sofregamente. E não é esse o caso. Nelson não é sôfrego, não é inconsequente nem inconsistente. Ele traça metas e trabalha muito para lá chegar. Com cabeça. Com muita cabeça. 

Diz que a mulher tem uma paciência de santa para aturar tanto treino, tanta ausência, tanto tempo dedicado ao que começou por ser um desporto e acabou a ser uma filosofia de vida. O filho, hoje com 18 anos, não comenta a azáfama do pai. Acha que se orgulha de si? - pergunto. Nelson encolhe os ombros, naquela dúvida que sempre nasce nos pais quando os filhos se enchem de si mesmos, incapazes de reconhecer feitos paternos. De uma coisa tem a certeza: a sua vida desportiva foi muito importante a nível profissional. "Estou mais disponível para o trabalho, mais bem disposto, mais activo, com mais vontade de enfrentar novos desafios. Tal como me desafio com os quilómetros, parece que também no trabalho sinto esse desejo, de me continuar sempre a desafiar". E, claro, reconhece a importância da corrida na vida social, na auto-estima, no prazer inequívoco em inspirar os outros.

Para o futuro, quer continuar a correr. Continuar a saltar obstáculos, a quebrar barreiras. Sonha com provas míticas como Londres ou Nova Iorque mas também com uma outra meta: fazer uma prova de três dígitos. 

Nelson já pesou 110 quilos. Já se cansou só de se virar no sofá. Hoje é, sem sombra de dúvida, outro homem. Um homem num novo paradigma. Um novo Nelson que nasceu, deixando para trás um outro, a quem haviam sentenciado - erradamente - uma vida de sossego perpétuo. Que teria sido dele, se não o tivessem limitado assim? Nunca saberemos. O que importa é o que conseguiu fazer por si próprio, e a felicidade que alcançou. Duas vidas numa só vida não é para todos. 

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 Fotografias: Raquel Brinca, HUG

(camisola com estrela em lantejoulas: Aficionata)

 

 

E, para que se perceba, eis o antes e o depois. 

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Os Papa-léguas #2 (Catarina Portela Morais)

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Ninguém diria que por detrás daquele corpo franzino, de aparência frágil, a que se soma - para cúmulo do estereótipo da delicadeza feminina - um cabelo loiro e olho azul, se esconde uma mulher de ferro. A designação nem é essa, é mesmo "homem de ferro" (Ironman). Ou seja, por detrás daquela aparência angelical está, em bom rigor, um homem de ferro. Ele há coisas do arco da velha.

Catarina Portela Morais tem 38 anos, é advogada, e sempre praticou desporto: corrida, ginástica, equitação, natação, hóquei em campo. Depois, casou aos 22 anos, teve filhos de seguida (aos 25 já tinha três, hoje tem quatro), e ficou cerca de 10 anos sem fazer nenhuma actividade desportiva. "O meu marido era da selecção de Rugby, eu tinha de ficar com as crianças, de maneira que foi só quando ele saiu do Rugby, há 4 anos, que decidimos começar a correr. Íamos correr juntos e ele queria sempre que eu corresse mais. Mas tinha dores nos joelhos, nas pernas, não conseguia."

Foi então que contactou o conhecido treinador António Nascimento que lhe perguntou qual o seu objectivo. O objectivo da menina franzina, nessa altura, não era muito ambicioso: "Quero correr 10km numa hora, na boa. Sem dores." E assim foi. Começaram a fazer treinos de reforço muscular, ao sábado corriam no Jamor, tudo isto em Junho de 2011, um calor de ananases e ela a desfalecer pelo caminho. Os 10km fizeram-se, vieram os 15km, e António Nascimento lançou um novo desafio ao grupo que tinha começado os treinos ao mesmo tempo: "O vosso objectivo agora é a Maratona do Porto".

António Nascimento há-de ter percebido quem tinha à frente. A loirinha de olho azul podia enganar muita gente mas não conseguia enganar quem há muito treina atletas para as mais variadas provas. Ali havia garra. Havia determinação, perseverança, ganas de superação. Em Novembro de 2011, cinco meses depois de ter começado a correr, Catarina Portela Morais fez os 42,195 km no Porto, em 4 horas e 30 minutos. "Fui muito disciplinada, levava os treinos muito a sério. Lembro-me, por exemplo, que faltei ao casamento de um amigo porque tinha de correr 28km e não podia beber nem comer excessos. Estava mesmo focada. Levei os filhos mais velhos para torcerem por mim, acabei a chorar, adorei. Achei mesmo espectacular. Passados uns dias estava a inscrever-me na Maratona de Paris, que é em Março."

Na Maratona de Paris, 4 meses depois, Catarina conseguiu bater o seu tempo em 15 minutos. E em 2012 fez 3 maratonas, vários trails e ultra-trails como a Ultra-Maratona Atlântica Melides-Tróia ou o Ultra Trail de Serra D'Arga (completou os 53km em 9h30m). Pelo caminho, recomeçou a nadar: "Era uma forma de não massacrar muito os músculos entre corridas. Para não parar completamente, nos intervalos comecei a nadar."

E, se já nadava, por que não meter-se no triatlo? Foi o que lhe perguntou o treinador António Nascimento, esperto, a saber de ginjeira que aproximar a chama a um pavio curto dá incêndio na certa, e que Catarina era, toda ela, vontade de encarar novos desafios e obviamente vencê-los. E assim, em 2013, Catarina nadou 1900 metros, pedalou 90km e correu 21km, terminando o seu primeiro half Ironman em seis horas. "Correu muito bem e continua a ser a minha prova preferida de todas." 

Ora, depois de atingir o primeiríssimo objectivo, que era correr 10km, depois de conquistar a maratona (repetindo a prova várias vezes), depois de fazer trails e ultra-trails, depois de chegar ao fim do Half Ironman... estava-se mesmo a ver que havia de lhe dar a vontade de se atirar ao homem-de-ferro por inteiro. Afinal, Catarina Portela Morais não é mulher de fazer as coisas pela metade. A inscrição no Ironman de Florianópolis (Brasil) foi, por si só, uma aventura: "Éramos uns 10 amigos, que começámos a treinar juntos e que íamos juntos embarcar nesta aventura. Só que todos sabíamos a dificuldade de conseguirmos inscrever-nos. É preciso estar com o dedo pronto na precisa hora em que abrem as inscrições. A minha irmã estava incumbida de inscrever o meu marido, eu ia inscrever-me a mim. Fomos os únicos que conseguimos, do nosso grupo. As 2000 inscrições esgotaram em 8 minutos. Foi uma loucura!"

Inscrita, treinou durante um ano. Nadou, correu, pedalou muito. Acordava por volta das 5.30 da manhã para treinar, trabalhava, ia buscar os miúdos e tratava deles, e ao final do dia voltava aos treinos. Muitas vezes pedalava das 19h às 22h, em casa, enquanto via televisão ou ajudava os filhos nos trabalhos de casa. Aos fins-de-semana nadava na Praia da Torre (Oeiras), corria, pedalava. "Foi um ano muito chuvoso, lembro-me de acordar às 5.30/6h e de chover a potes... pensava: lá vou eu, acabada de sair da cama quentinha, correr debaixo desta chuva toda! Às vezes custava." Leu e aprendeu muito sobre nutrição. Percebeu que estar bem alimentada antes e durane a prova é boa parte da chave para o sucesso.

E no dia 25 de Maio de 2014, em Florianópolis, Brasil, Catarina Portela Morais nadou 3.800 metros, de seguida pegou na bicicleta e percorreu 180km, depois dos quais correu, nada mais nada menos que... uma maratona (42km). "Quando peguei na bicicleta, às 9h da manhã, pensei: 'só vou largá-la às 16h...' e senti um calafrio. Mas depois comecei a repetir mentalmente 'calma... relaxa... pensa na vida". Quando a larguei, calcei os ténis e comecei a correr tive a melhor sensação do mundo. Corri os 42 km, eu que tinha pensado que ia correr uns 25km e depois ia fazer o resto a andar."

Catarina terminou o Ironman num tempo fantástico: 13h48m (o limite para terminar a prova era de 17 horas) e tornou-se a 15ª mulher portuguesa a concluir o Ironman.

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Uma conquista impressionante. De relembrar o aspecto franzino e frágil (as aparências iludem). De relembrar que é advogada, que tem 4 filhos, que tinha então 36 anos. Que treinou em todos os intervalos que a vida lhe permitiu. Que se focou. Que acreditou. E conseguiu. 

Em Agosto de 2015, depois de mais um half Ironman feito em Junho em Inglaterra (e no qual fez parte da equipa do chef Gordon Ramsey, angariando muito dinheiro para solidariedade), Catarina Portela Morais começou a sentir-se mal. Tinha falta de ar, estava cansada. "Pensei: isto foi de ter ido ao MEO Sudoeste, já estou velha, deve ter sido do pó". Mas não. Exames depois de exames, descobriu-se que tinha uma embolia pulmonar. "Entrei em choque, no hospital. Estive a morrer e senti-me a morrer. Foi horrível." Houve logo quem se apressasse a apontar o dedo às corridas. "Isso não dá saúde, deve ter sido do exagero". Ela própria se pôs - e pôs aos médicos - essas questões. A resposta veio no sentido inverso. "O que me disseram foi que se eu não tivesse habituado o meu coração e os meus pulmões a uma actividade tão intensa, eles não teriam aguentado. E que o facto de correr e de fazer tanto desporto não tiveram qualquer tipo de relação com a embolia."

Os trombos que tem nas artérias pulmonares continuam lá. Não são removíveis cirurgicamente e não se sabe se podem libertar-se, provocando um sarilho tão grande ou maior do que o anterior. Por isso, Catarina está impedida de fazer desporto, pelo menos para já. Durante os primeiros 6 meses, nem vontade tinha. Estava demasiado cansada, assustada, grata por não ter ido desta para melhor. Nesses primeiros meses, fez a vontade ao corpo e deixou-se estar quieta sem sequer questionar. Mas, claro, quando há genuíno prazer no desporto e na sensação de superação que ele traz consigo, a vontade volta. E voltou. Está lá, acesa. E, quando fala no assunto, já não consegue esconder a tristeza que lhe vai dentro, só de pensar em nunca mais se propor a um desafio, nunca mais cruzar uma meta, nunca mais sentir a felicidade suprema da superação pessoal. "Para já os exames indicam que os trombos não estão a causar dano ao coração. Acho que tenho de arranjar um cardiologista que também corra, e que me perceba. (risos)".

Para já, não quer arriscar. Tem 4 filhos. Não é inconsciente. Mas é uma mulher de ferro. E é difícil dizer a uma mulher de ferro para vergar.

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 Fotos: Raquel Brinca, HUG

 

 

(esta é a segunda de muitas histórias de corredores que se contarão por aqui. Leia AQUI a primeira)

Os Papa-Léguas #1 (Tiago Dionísio)

Tiago Dionísio: 500 maratonas aos 42 anos

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Há quem coleccione cromos, selos, latas, pacotes de açúcar. Tiago Dionísio colecciona maratonas. Este ano, se tudo correr bem, irá chegar à 500ª maratona. Se para esta contabilidade contassem "apenas" as maratonas (42,195km) falávamos de 21097,5 Km corridos em 22 anos, o que daria uma média de quase 1000 km por ano. Acontece que nestas 500 maratonas que se propõe alcançar estão também as ultras. À data de hoje, Tiago correu 355 maratonas e 139 ultras. E quando digo "à data de hoje" é para levar à letra porque amanhã já o número pode ser outro. Afinal, Tiago Dionísio é um coleccionador de maratonas. E como qualquer coleccionador, quer sempre mais.

Tiago Dionísio sempre praticou desporto. Jogava futebol em Washington, onde viveu dos 13 aos 18 anos enquanto o pai foi colocado numa missão diplomática, mas gostava mesmo era de correr. Quando voltou a Portugal, foi com a família viver para a zona do Areeiro e começou a correr mais. Cada vez mais. "Quanto maior a distância, mais gozo me dava". Fez a primeira maratona, em Lisboa, com 20 anos. Terminou com 03h09m (se vos serve de comparação, dizer que o recorde do mundo da maratona está nas 02h02m e que aqui esta que vos escreve, corredora recente e tartaruga, concluiu a sua primeira maratona no ano passado com 04h18m). No ano seguinte, repetiu a Maratona de Lisboa e fez 03h04m.

Na faculdade (curso de Economia da Universidade Nova de Lisboa), os colegas achavam que era maluco. "Nunca fui muito de sair à noite mas também porque a minha prioridade era o desporto. Era muito diferente dos outros. Treinava todos os dias, não bebia álcool, deitava-me cedo, dava-me sobretudo com as pessoas mais velhas e não tinha muita paciência para a chamada vida académica." Não havia esta moda das corridas, esta febre que parece ter contagiado toda a gente. Tiago era uma espécie de extra-terrestre. Mas corre para quê? De quê? De quem? Ele encolhia os ombros. Nunca precisou de pertencer a grupos, a tribos, nunca precisou de ser compreendido ou sequer aplaudido. Ainda hoje, não partilha quilómetros nas redes sociais, nem fotos depois do esforço, nem coisa alguma. Ele não corre para provar nada a ninguém. Nem sequer a si mesmo. Corre por puro prazer, por necessidade, até.

"Nos primeiros anos corria sempre em Lisboa. Não tinha dinheiro para aventuras. Mas o meu primeiro salário serviu para ir à Maratona de Londres, em 1998." Ainda assim, não foi dessa que conseguiu reduzir o seu tempo. Só à 8ª maratona, em Paris, conseguiu quebrar a barreira das três horas, fazendo 02h52m. Estava criado o "monstro".

Não há como descrever, uma a uma, todas as provas em que já participou. Dizer porém (e só para que se perceba o tipo de atleta de que estamos a falar) que no ano passado correu 13 maratonas em 11 dias. Com viagens pelo meio e peripécias que o deixaram na linha da partida apenas a minutos do começo de uma nova prova. Há umas semanas voltou a repetir a proeza mas, desta vez, ainda mais louca: 12 maratonas em 11 dias, em Inglaterra. "No penúltimo dia corri uma maratona de manhã e depois fui com um amigo meu de carro fazer outra maratona que começava às 17h (tinhamos 3h até ao início da prova da tarde). Regressámos depois para fazer uma outra maratona no domingo no mesmo local onde tínhamos corrido no dia anterior de manhã." Parece mentira. Mas não é. Parece loucura. Mas para ele é tão natural como a sede.

Por falar em loucura, Tiago confessa que há 10 anos sim, fez uma loucura. Uma loucura que podia ter corrido ainda pior do que correu. "Fui correr a Comrades [89km na África do Sul] e quando terminei apanhei um avião para a Califórnia onde, no fim-de-semana seguinte, fui correr 160km em montanha. Estavam 40ºC, para aí metade dos participantes desistiu. As viagens de avião desidratam imenso e, com aquele calor, senti-me mesmo mal. Aos 100km pensei desistir mas nunca tinha desistido de nenhuma prova e então continuei. Percebi que estava mesmo mal quando fui à casa de banho e vi que o que saía tinha a mesma cor do líquido encarnado que eu tinha acabado de beber. Vomitei. Tomei analgésicos e meti-me num avião para Lisboa. Quando cheguei fui direito ao Hospital Egas Moniz, de onde só saí 2 semanas e meia depois. Tinha uma desidratação extrema e uma rabdomiólise [perda rápida de massa muscular]. Tomei 8 litros de soro por dia e quando saí do hospital mal conseguia andar."

Nunca mais repetiu a graça. "A maratona é uma distância equilibrada. Provas de 100km são razoáveis. Mais do que isso já começa a ser muito". Faz a Comrades todos os anos. Desde que fez a Two Oceans em 2005 (56km na Cidade do Cabo, África do Sul) tornou-se também uma prioridade. Entre muitas outras. "Já tenho todas as viagens marcadas no 1º trimestre do próximo ano."

Então mas e só corre? Não faz mais nada? Trabalha? Tem uma vida para lá de dar às pernas? 

A resposta - apesar de parecer impossível - é: sim. O homem trabalha (já trabalhou no BPI, no BESI, e hoje trabalha na Eaglestone, uma boutique de serviços financeiros), vive com a Rita (outra viciada em desporto), é padrasto de dois miúdos. Quando começou a namorar com a Rita (conheceram-se no Clube do Stress), muitos amigos previram um abrandamento nas corridas. Não podiam estar mais enganados. "Corro mais agora do que quando estava sozinho. Já fizemos juntos 54 maratonas. Ela compreende muito bem este meu estilo de vida porque também é o dela. É verdade que abdicamos de muitas coisas. A vida social é uma delas. Aproveito muitas provas ou treinos para pôr a conversa em dia com os meus amigos. Parte da minha vida social é passada a correr. Também não vejo televisão, não me lembro de ir ao cinema ou a concertos, quer por uma questão de tempo, quer pela questão financeira: parte importante do meu ordenado é gasto nas corridas e nas viagens para correr. Não há volta a dar. O desporto faz-me bem. Sou um corredor."

É verdade. Tiago Dionísio é um corredor. Se tudo correr bem - e vai correr - Tiago vai completar a 500ª maratona no dia 2 de Outubro, na Maratona de Lisboa. "Dizem-me que posso ser a pessoa mais nova no mundo com mais maratonas. Não sei..." O que sabe é que quer continuar a correr, depois de cumprido este objectivo. E tem já outro, na manga: "O meu sonho é fazer o Desafio 777: 7 maratonas, 7 dias, 7 continentes. Começa na Oceania, segue para a Ásia, sobe à Europa, desce ao norte de África, atravessa mares até à América do Norte, desce à do Sul e conclui a festa na gelada ponta do mundo, Antártida. Preciso é de arranjar 35 mil euros", diz com um sorriso. "E isso é bem mais difícil do que a prova em si". 

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Fotos: Raquel Brinca, HUG

 

Algumas curiosidades

Música: Nunca ouve música enquanto corre.

Gadgets: Não usa. Raramente treina com relógio e só usa o seu Garmin em algumas maratonas em que tem de controlar o tempo que faz, nomeadamente em maratonas que faz em dias seguidos.

Leitura sobre corridas: Já leu bastante mas hoje em dia já lê pouco sobre o assunto. "Já dedico muito tempo a correr e a preparar a logística das provas todas em que participo. Por isso, tento ler sobre outros temas para me distrair ou, se tiver algum tempo livre, aproveito para dormir..."

Clube do Stress: Entrou em 1993 quando ainda só havia no clube 4 pessoas que corriam regularmente. Hoje o clube tem mais de 150 pessoas.

 

(esta é a primeira história de uma série de histórias que aqui se contarão sobre corredores)