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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Os Papa-léguas #5 (Bernardo Telo Rasquilha) e Mudar de Vida #5

Bernardo tem 44 anos e é missionário da Fraternidade Missionária Verbum Dei. Há umas semanas (mais concretamente no dia 7 de Maio) nadou 1900 metros, pedalou 90 Km e correu uma meia-maratona. Um triatlo com vista a angariar fundos para o projecto de formação de 14 missionários nos Camarões. Mas não só. Bernardo Telo Rasquilha sempre amou o desporto. E desafios. Sobretudo se forem positivos. Não é por acaso que já lhe chamam o "positive priest". Isto faz dele um dos "Papa-Léguas", rubrica que nasceu neste blogue para falar de quem se supera pelo desporto. Só que Bernardo também teve outra vida, antes de ser sacerdote, o que também lhe dá entrada na rubrica "Mudar de Vida". É o chamado dois-em-um. Mas já lá vamos.

Para começar, o começo - como convém. 

Bernardo é filho de uma lisboeta e de um alentejano. Os primeiros 20 anos da sua vida foram vividos numa espécie de mixórdia de locais. Na verdade, a sua vida toda tem sido assim. Nasceu em Lisboa. Até aos dois anos foi viver para o Alentejo, quando se mudou para o Rio de Janeiro. Dos 11 aos 16 regressou ao Alentejo. Dos 16 aos 21, Lisboa novamente. E depois Porto. Mas também Itália, Angola, Cabo Verde, Brasil. E hoje Espanha. Mas, como missionário, talvez se possa dizer que Bernardo é do mundo inteiro.

Quem o conheceu em jovem poderá ainda hoje beliscar-se ao relembrar que se tornou sacerdote. Há factos que, de tão improváveis, podem obrigar quem se vê perante eles a pequenas flagelações que certifiquem tratar-se da realidade e não de um sonho qualquer. Bernardo jogou râguebi até aos 21 anos. Estava no 2º ano de Gestão, vivia sozinho em Lisboa, e gostava significativamente da noite, com tudo o que a noite associada à vida académica traz consigo. Bebia bem, divertia-se muito, dormia de dia, tudo aquilo que muitos de nós relembramos (com alguma saudade, até). Se lhe dissessem, nessa altura, que ia tornar-se missionário, era coisa para se ter atirado para o chão a rir.

Mas a realidade supera a ficção, tantas e tantas vezes. E aqui também.

Preocupados com o rumo do filho (que, diga-se a bem da verdade, não era propriamente digno de preocupação, era só o rumo mais ou menos típico), os pais pediram-lhe que fosse a um Encontro Internacional de Jovens, em Valência, realizado pela Fraternidade Missionária Verbum Dei. Bernardo respondeu que nem pensar, já tinha férias combinadas, que raio de ideia era aquela. Mas o pai pediu-lhe com algum dramatismo, quase como uma súplica, e - já se sabe - um bom filho tem dificuldade em negar uma súplica paterna. Juntou três amigos do râguebi e foram. 

Separaram-se o mais depressa que puderam do grupo de jovens, que decidiram definir como "uns chatos" sem sequer se darem ao trabalho de os conhecer e preparavam-se para seguir caminhos distintos quando o pai de Bernardo voltou à carga e lhe pediu (em tom de suplica, de novo) que experimentasse ficar com eles apenas um dia. "Dá-lhes ao menos uma oportunidade". Bernardo, mais por bondade do que por vontade, assentiu. Mal sabia ele que a sua vida estava prestes a mudar radicalmente.

"Foi quando ouvi uma rapariga dar o seu testemunho. Ela não era missionária mas falou sobre como o amor de Deus a fazia mais feliz. E aquilo tocou-me porque eu vi que era autêntico. Até então a ideia que tinha era que a Igreja era moralista e que Deus era distante. Mas vi o brilho no olhar daquela rapariga e pensei: ela tem qualquer coisa que eu não tenho. E, a partir daí, fui à procura de respostas para aquela inquietação boa que surgiu." Um ano depois, Bernardo fez um retiro que o marcou de forma indelével. "Foi a primeira vez que senti que Deus não era abstracto. Eu não o vejo mas experimento o seu amor louco. Estava acostumado a que as minhas alegrias viessem de fora, de algo exterior a mim. Ali experimentei a alegria que nascia de dentro. Foi fascinante. Magnético."

Bernardo começou a animar um grupo de jovens e, entre as actividades que tinham, havia o voluntariado. Sentiu-se especialmente bem a fazer algo pelos outros. Tão bem e de modo tão intenso que começou a compreender que o seu caminho teria de passar por aí. Quando decidiu, por fim, enveredar pela vida missionária, os mais próximos levaram as mãos à cabeça. Só podia ter ensandecido. A mãe começou por achar precipitado mas acabou por - como fazem as mães - querer apenas que fosse feliz. A sua fé levou-a a apoiá-lo sempre. O pai enfiou-se no escritório a pensar e, depois de uma reflexão, entregou-lhe um livro com uma dedicatória especial que dizia, em traços gerais, que ele podia contar sempre com o seu apoio. Alguns amigos prognosticavam uma mudança de rumo mais rápida do que o diabo a esfregar o olho. "Não te dou nem 3 meses para estares de volta". Já lá vão 23 anos. 

Largou o curso de Gestão e fez o negócio da sua vida, entrando para outro tipo de Gestão, a de potenciar a espiritualidade humana, a de dar aos outros o melhor, fazendo-os encontrar também o melhor de si. Corria o ano de 1994. Começou a sua formação em Teologia, seguiu-se o mestrado também em Teologia e, depois, quando já era capelão no Porto, fez o curso de Psicologia. No seu caminho, passou por Espanha, Itália, Angola, Cabo Verde, Brasil, Portugal. Entre 2011 e 2016 foi formador de grupos de missionários em Madrid, dedicou-se à angariação de fundos para ajudar a suportar a comunidade e também dava aulas.

Este ano, deixou de ser formador. Apoia a paróquia em Madrid, dá aulas, e especializou-se na angariação de fundos. O ritmo intenso começou a fazer-se sentir. Bernardo, que tinha sido jogador de râguebi, acusou a falta do desporto. "Comecei a deixar de viver o momento presente - fazia uma coisa já a pensar na outra. Estava em stress e senti necessidade de fazer desporto a sério. Havia um missionários que começou a fazer maratonas e, contagiado por ele, em 2014 fiz a Meia-maratona de Madrid e adorei, principalmente porque me obrigou a uma preparação contínua. Funciono muito por metas e, a partir do momento em que me inscrevo, tenho mesmo de treinar. Voltar ao desporto ajudou-me a limpar a cabeça."

Pensou então fazer uma maratona. Mas os joelhos, muito massacrados por anos de râguebi, não se compadeceram da ideia. E então experimentou o triatlo. Em 2015 fez o Sprint (750 metros de natação/ 20 km de ciclismo/ 5 km de corrida), em 2016 completou o Olímpico (1500 metros de natação/ 45 km de ciclismo/ 10km de corrida). E, este ano, surgiu o Challenge de Lisboa. O objectivo? Fazer a distância de Half IronMan (1900 metros de natação/ 90km de ciclismo/ 21km de corrida) mas aliando o seu desafio pessoal à angariação de fundos para a sua comunidade, mais concretamente à formação de 14 missionários nos Camarões. Houve uma série de pessoas e empresas que gostaram do projecto e que quiseram aliar-se a ele, nomeadamente Carla Sacramento, atleta olímpica portuguesa que participou em quatro olimpíadas e foi campeã do mundo dos 1500 metros no Campeonato do Mundo de Atenas em 1997. A atleta gostou da ideia e disponibilizou-se para ser a coach de Bernardo. De destacar também o apoio do PaRK International School e da JLL que apoiaram desde o início a iniciativa e a causa missionária.

E assim foi. Depois de vários meses de treino, no dia 7 de Maio este "positive priest" (padre positivo) tornou-se um Half IronMan. E ficou mais perto de conseguir que se concretize o projecto "De África para o Mundo". Porque para este homem (que só é metade de ferro na parte desportiva, porque é de ferro por inteiro no que toca à vontade) não há impossíveis. Basta olhar para o seu caminho.

 

O que é o projecto?

O projecto “De África para o mundo” aposta na formação prática de 14 missionários em Yaoundé para que se dediquem a trabalhar com crianças e jovens locais, aos quais facultam apoio social, escola de valores e catequese, procurando, também, ajudas económicas e providenciar o ambiente oportuno para todos os que queiram ir para a universidade, defendendo a dignidade de cada um e ajudando a potenciar os seus dons e talentos ao serviço da sociedade. A Verbum Dei trabalha ainda na formação de líderes para que mais tarde possam, também eles, dedicar-se a trabalhar com crianças e jovens daquele país. “De África para o mundo” é um projeto de 2 anos que começou em Outubro de 2016 e termina em julho de 2018. Para o poder concretizar, a Verbum Dei necessita de fundos na ordem dos 24 mil euros.

 

Como ajudar?

Todas as ajudas serão bem-vindas e podem ser dadas através de donativos por transferência bancária (Millennium BCP (Portugal) / Titular: Fraternidade Missionária Verbum Dei / NIB 0033-0000-45476170404-05 / IBAN: PT50-0033-0000-45476170404-05 / BIC: BCOMPTPL) ou através da área de donativos do site da Verbum Dei, www.creaverbumdei.org, recorrendo ao sistema Easypay. Apoio importante será também acompanhar e partilhar a actividade do Bernardo na sua página de facebook (Bernardo Telo Rasquilha) – especialmente os posts sobre os treinos e outros pormenores relacionados com a sua participação no Challenge Lisboa.

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Mudar de Vida #4: Julien

Saímos de Lisboa, eu e a Raquel Brinca, rumo a Coimbra, com o objectivo de entrevistar uma pessoa que mudou de vida (e cuja história já publicámos AQUI). Fizemos então a entrevista, almoçámos em Coimbra e, de seguida, metemo-nos no carro e fomos à procura da aldeia de Podentinhos, porque queríamos conhecer e conversar com o último morador da aldeia, um idoso a quem o município de Penela andava a testar a entrega de comida por via de um drone (notícia AQUI).

Perdemo-nos, andámos às voltas, e ao fim de um bom bocado lá demos com uma casa rodeada por ruínas, no meio do nada, que calculei que pudesse ser a casa do senhor Joaquim. Bati à porta mas... ninguém abriu. Ficámos ali a fazer barulho, a ver se assomava alguém à porta, mas não. Nada. De repente, ao olharmos em frente vimos uma placa a dizer "Parking". Como assim, Parking? Parking do quê se ali não havia nada? Metemo-nos no carro e fomos espreitar. Outra placa a dizer "Uxa Paraíso. Open Air Hotel". Vimos várias auto-caravanas e roulottes, espalhadas pela serra, uma casa de pedra, em construção, algumas pessoas. Saí do carro e perguntei se ali era Podentinhos. Que sim. Indaguei pelo senhor Joaquim. "O senhor Joaquim está doente e a viver em casa do irmão". Ah. Então e isto aqui, é o quê? É um hotel ao ar livre. Ah. Você não é português, pois não? Não, sou francês e estou aqui a construir isto. Hummm... Podemos conversar?

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Foi assim que, em vez de entrevistarmos o único habitante idoso de uma aldeia, acabámos a conhecer um francês que decidiu mudar de vida e estabelecer ali o seu projecto, o seu sonho. Ali, em Podentinhos, uma aldeia perdida na serra do Espinhal (se não estou em erro). 

Julien tem 38 anos. Francês, parisiense, engenheiro térmico. Cansado do corre-corre da sua vida, do stress, da agitação da cidade-luz. Julien tinha o sonho de abrir um parque de campismo há uns 10 anos. A paixão pelas autocaravanas era ainda mais antiga. "Quando eu era criança, o meu pai comprou uma Pão de Forma e andámos três meses, em família, a percorrer a Califórnia e a Flórida. Eu tinha 3 anos e a minha irmã um ano e meio (só mais tarde nasceu o meu terceiro irmão). Aquela viagem marcou-me e acho que o bichinho das autocaravanas nunca mais me saiu. Comprei a primeira quando tinha 18 anos. Aquela ambulância alemã antiga que ali está foi a minha terceira. Sempre andei a descobrir França e a Europa de autocaravana. Quando descobri a Croácia pensei: é aqui. Vou construir aqui um parque de campismo."

Mas a Croácia ainda ficava longe e, em 2008, Julien conheceu Portugal. Entrou pelo Norte, seguiu até ao Porto e continuou pela costa até Sagres. "Pensava que seria parecido com Espanha mas não. Gosto muito mais de Portugal, é mais autêntico. Fiquei a achar que tinha finalmente encontrado o país certo."

Quando chegou a Paris, depois dessas férias, o chefe quis terminar o contrato. E ele, em vez de sentir tristeza, sentiu alívio. "Tinha a cabeça cheia de sonhos e pensei que era chegado o momento de cumprir a minha aventura."

Julien saiu então de Paris, com a sua autocaravana, e veio para Portugal como voluntário. "Fazia vários trabalhos e recebia comida em troca. Ganhava experiência. E dois anos depois, decidi que tinha de encontrar a minha própria terra, para me fixar. Pensei no Alentejo, mas achei calmo demais. Depressivo. Depois de alguns meses, abri o mapa, vi Lisboa, vi Porto e pensei: algo que fique a meio caminho! Coimbra! Vi a serra. Vim até aqui e, uma semana depois, encontrei este terreno, com a casa. Estava à venda por um bom preço e a topologia era a ideal - se repararem faz uma espécie de anfiteatro. E assim foi."

Comprado o terreno, em 2015, foi preciso limpá-lo e, com o projecto de um arquitecto aprovado na Câmara, começar a construir as plataformas de madeira onde, no Verão, se montam as tendas e onde uma das roulottes está assente. Também foi preciso construir os telheiros e os caminhos. As roulottes e as autocaravanas têm casa-de-banho, chuveiro e água quente. Com ele, estão voluntários de vários países, que fazem exactamente como ele, em tempos, também fez. Trabalham a troco de comida e dormida. Neste momento são todos alemães mas, em Dezembro, havia 1 israelita, 1 americano, 1 inglês e um italiano. 

O primeiro ano foi deprimente. Durante o Inverno, sempre que chovia a cântaros, Julien ficava fechado dentro de casa, sozinho com as suas dúvidas: será que isto é uma loucura? Alguma vez isto será possível? Estarei a gastar todas as minhas economias para nada?

No Verão passado, Julien abriu ao público. Chamou ao seu projecto Uxa Paraíso, porque consta que, no meio da serra, aquele vale tem o nome de Vale da Uxa. Ainda longe de estar como ele o sonhou, teve casa cheia. Belgas, holandeses, ingleses. 30% da ocupação fez-sede portugueses, amantes da vida ao ar livre, ávidos de silêncio, o silêncio que Podentinhos tem para dar e vender.

A casa onde vive vai ser ampliada e Julien também quer construir um bar que tenha refeições ligeiras para disponibilizar aos hóspedes deste "open air". Faltam outros detalhes mas, com tempo e paciência, vão-se construindo. Devagar se vai ao longe.

A família de Julien apoiou-o sempre (ainda que, lá entre eles, até possam achar que não joga com o baralho todo). Vivem todos em Paris, pai, mãe e irmãos. "Não sinto nenhumas saudades de Paris. Nenhumas. Aqui estou em contacto com a natureza e acabo por ter mais contacto com pessoas do que tinha em Paris. Numa grande cidade pode ser-se mais sozinho do que aqui, na solidão desta serra. E em Penela, que está aqui ao lado, há quase tudo. Agora só quero continuar a construir o Uxa Paraíso para ficar pronto para a primavera e o verão. Espero ter cá muitas pessoas, neste paraíso na terra que é meu, mas que sabe ainda melhor quando é partilhado com outras pessoas."

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Fotografias: Raquel Brinca, HUG

 

Visite e saiba mais sobre este Open Air Hotel aqui: uxaparaiso.com

Ou na página de facebook AQUI.

Mudar de vida #3: Ana Varela

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Quem diria? Quem havia de dizer? Que a bióloga havia de dar lugar à lojista, que a cientista havia de se render à fantasia, que a investigadora podia arrumar a seriedade e dedicar-se à brincadeira e ao sonho? Quem diria? Quem havia de dizer?

Mas assim é. Assim foi.

Ana Varela tem 31 anos. Fez o curso de Biologia, em Coimbra, sem grande convicção. Seguiu-se o estágio em Biologia Celular. Ela, que tinha horror a ratos, avisou: "Tudo menos ratos". Teve azar. Na primeira semana, logo ratos. Pensou "isto não vai correr bem". Mas correu. Os colegas manuseavam os animais, chamavam-na no final. Claro que, pelo meio, faziam as brincadeiras da praxe. "Podes vir, Ana!" E a Ana vinha e havia ratinhos à solta na sala e gritos que os faziam perder-se de riso.

Com o passar do tempo, Ana aprendeu a gostar do trabalho em laboratório, e havia de ser boa no que fazia porque foi proposta para Doutoramento, candidatou-se às bolsas da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) e conseguiu. Escolheu um projecto para trabalhar durante 4 anos, o único do laboratório só com animais, quase nada de linhas celulares: "O projecto consistia em mimetizar uma cirurgia ao fígado, onde fazíamos um período de isquémia e reperfusão, com estratégias de redução do impacto da isquémia no fígado." Perceberam? Pronto. Falamos deste nível de conhecimento científico. 

Correu tudo muito bem e, depois de mais um ano de laboratório, a melhorar o currículo, Ana Varela conseguiu mais uma bolsa de pós-doc. Uma bolsa de três anos. Porém, ao fim de um ano, fechou a porta. Ou talvez seja melhor dizer: bateu com a porta. "O mundo da Ciência e da Investigação é muito competitivo. Há uma pressão incrível. E houve um dia em que olhei para a minha vida e pensei que não queria aquilo para mim. A vida, para mim, é mais do que o laboratório. Queria ir ao cinema, queria jantar fora, queria viajar, queria... viver!"

E assim, em Abril de 2015, saiu. Os pais apoiaram-na no momento da ruptura mas, depois, fizeram o que os pais fazem: aconselharam calma, temperança, cabeça fresca. Ana era Bióloga, estava envolvida em projectos científicos de grande complexidade, com moléculas e células à mistura, o laboratório onde estava trabalhava num projecto com a Fundação do Michael J.Fox... o que mais podem pedir uns pais? A filha tinha estudado tanto, trabalhado tanto para chegar ali. E agora largava tudo para fazer o quê?

Para viver. Não parece pouco, escrito assim. Resumido assim.

Em Outubro de 2015 nasce, então, a Lato Latinho. Uma loja de brinquedos e de artigos de festas infantis que pretende ser mais do que isso. "Um cantinho mágico onde ratinhos são príncipes e há bailarinas que são coelhos, onde lemos histórias, inventamos histórias e fazemos parte delas. Temos tido actividades para os mais pequeninos: apresentação de livros, hora do conto, conversas com cientistas... para que venham aprender e sorrir connosco! Porque não há nada melhor que brincar, sorrir...ser feliz!"

Nada a ligava ao universo infantil. Não é mãe, não tem sobrinhos, nada. Mas sentiu um apelo imenso pela fantasia, quase como se precisasse de um regresso ao imaginário, tão contrastante com o seu eu científico. A ciência trocada pela fantasia. A objectividade transformada em sonho. Já o nome "Lato Latinho" estava escrito no destino. Aliás, estava escrito na sua própria infância, pelo que fazia todo o sentido trazê-lo até este renascimento da menina por detrás da cientista. "Quando eu era pequenina não dizia os "erres". Substituía-os por "éles". E na terra onde nasci, em Valado dos Frades, toda a gente brincava com isso. Até que me ensinaram uma ladaínha, para eu aprender a dizer os "erres". Era assim: Se eu fosse um rato ratinho/ roía a tua roupa/ dava mais um saltinho/ e dava-te um beijinho na boca. Ora, eu não dizia "rato ratinho" mas sim "lato latinho". E as pessoas mais próximas começaram a tratar-me assim. Quando andava a pensar em que nome dar à loja, fui a uma loja lá da terra e a pessoa que me atendeu disse: "Então, Lato Latinho, o que vai ser?" Pronto. Fez-se luz."

Mas não há apenas esta curiosidade, do nome da infância recuperado agora que quis recuperar o seu lado infantil. Há também a questão dos ratos, a que tinha pavor, dos quais fugia no laboratório, agora transformados em reis no seu mundo de fantasia. Se isto não é um belíssimo e metafórico ajuste de contas com a vida... não sei então que será. 

Quem diria? Quem havia de dizer? Que era possível trocar as voltas ao destino de forma tão inesperadamente poética. É científico: a felicidade vale mais do que qualquer Ciência.

 

Lato Latinho: Avenida Afonso Henriques 32, Coimbra.

https://www.facebook.com/LatoLatinho/

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Fotografias: Raquel Brinca, HUG

Mudar de Vida #2: Sara Esteves

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Não fora a falta de coragem para ver sangue e Sara Esteves era capaz de ter seguido Medicina. Gostava da área da saúde, gostava da ideia de poder curar quem precisasse de cura. Assim sendo, e olhando para as opções disponíveis, escolheu Fisioterapia. Era também uma forma de curar mas mais limpa, sem sangue à mistura. E assim foi. Durante 10 anos endireitou pessoas, ajudou-as a recuperarem movimentos, posturas, flexibilidades perdidas. Primeiro em clínica privada, depois em ambiente hospitalar. E foi justamente o ambiente hospitalar que lhe trouxe o desencanto com a profissão que escolhera. Não só pelo facto de o sistema que temos estar mais orientado para a doença do que para a saúde, como pela questão da precariedade profissional: "A dada altura, exigiam cada vez mais e davam cada vez menos em troca. Cortaram o vencimento e as condições de trabalho eram realmente péssimas."

Insatisfeita, quis aprender outras coisas, encher-se de uma felicidade que, claramente, ali lhe principiava a faltar. Uma amiga falou-lhe nos cursos do Instituto Macrobiótico de Portugal (IMP) e ela, sem sequer perceber porquê, inscreveu-se logo no curso anual. Podia ter feito um daqueles cursos mais curtos mas não. Inexplicavelmente, atirou-se ao de um ano: "Quando cheguei a casa só pensava: mas porque é que eu fiz isto? E se não tiver nada a ver comigo? Vou ficar um ano ali agarrada?"

Logo no primeiro módulo do curso (que decorria entre as 10h e as 15h de um fim-de-semana por mês), Sara conheceu Francisco Varatojo e foi apresentada a uma nova filosofia de vida em que o ser e o pensar e o agir devem estar em conformidade, para que haja equilíbrio. O que ouviu fez-lhe tanto sentido que foi como se sempre tivesse o sabido mas estivesse esquecida: "Foi como se tudo aquilo me fosse estranhamente familiar. Foi como recordar algo que estivesse meio nublado. E, de repente, fez-se luz. Tudo encaixava."

Na semana seguinte, no hospital onde continuava a trabalhar como fisioterapeuta, queriam que assinasse um papel onde aceitava fazer mais 5 horas semanais pelo mesmo vencimento. E Sara, que já tinha iniciado a mudança de paradigma, não conseguiu assinar: "Com base no que já tinha aprendido pensei: se eu sinto que não devo assinar então não assino mesmo." Quinze dias depois foi despedida. Ficou apenas com o trabalho na clínica privada.

Entretanto, terminou o curso de cozinha e, apaixonada por tudo o que aprendera, meteu-se logo de seguida no Curso Curricular de Macrobiótica (está agora no 3º e último ano). A vontade de ter um negócio seu, que passasse por esta nova filosofia de vida, começou a ganhar sentido. Entretanto, em conversa com uma amiga, com o namorado e com a irmã a ideia tomou forma. Encontraram o espaço certo, na Ericeira, onde viviam, em Julho Sara despediu-se da clínica e, em Agosto de 2015, o BeU abriu. O BeU é um espaço que tem produtos biológicos, terapias alternativas, cozinha macrobiótica e estúdio de Pilates. É um espaço "do bem", que visa ajudar quem o procura a viver uma vida mais saudável, sustentável e equilibrada.

Hoje, Sara Esteves é chef de cozinha macrobiótica e faz refeições para take away: "Por 9,5€ os clientes levam sopa, prato principal e sobremesa." Mas Sara faz muitas outras coisas: "Descobri o verdadeiro significado de ser pequena empresária: faço limpezas, contabilidade, gestão de stocks, atendimento ao cliente, compras, parte comercial, cozinho refeições... mas adoro. Sinto-me muito realizada. A minha família sempre me apoiou, a mim e à minha irmã, que também trabalhava em ginásios e agora está aqui comigo. Antes, não tinha tempo para nada. Estava todo o dia fechada, nem sabia se chovia ou fazia sol. Tinha de fazer desporto todos os dias, senão parecia que rebentava de stress. Hoje tenho tempo para ir ver o mar, tenho uma vida muito mais calma, saudável... deixei de sentir aquela necessidade doentia de fazer desporto, que tinha a ver com o estado de nervos em que andava. O mesmo com o açúcar. Tinha uma dependência louca de açúcar, claro. Para me compensar. Hoje não preciso. Não tem comparação o equilíbrio que passei a ter."

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Fotografias: Raquel Brinca, HUG

 

Mais sobre o BeU AQUI.

 

 

O primeiro "Mudar de Vida" contava a história de Andreia Costa, uma enfermeira que deixou a Enfermagem para criar um hostel para famílias (AQUI).

Mudar de Vida #1: Andreia Costa

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Durante 15 anos cuidou dos outros. Ao fim de 15 anos decidiu mudar de vida e dedicar-se a... cuidar dos outros. Confuso? A explicação está apenas no tipo de cuidado. Andreia Costa formou-se em Enfermagem e exerceu durante 15 anos. "A minha primeira paciente foi a minha mãe, que teve cancro quando eu estava na faculdade." Talvez por isso o IPO tenha sido a sua primeira "casa", bem como os Cuidados Intensivos da Cruz Vermelha. Depois nos Lusíadas, também nos Cuidados Intensivos, onde foi chefe de equipa durante 8 anos. A seguir foi abrir a Clínica Parque das Nações e quando saiu era coordenadora da Clínica. Já estava numa fase diferente da vida. Já não tinha de fazer turnos, já não havia os cuidados intensivos com todo o seu frenesim. Tinha tudo para ser um bom passo. Só que Andreia sentiu então que lhe faltava alguma coisa. "Alguma coisa que me desafiasse." 

Um dia, na praia, o cunhado começou a contar a história de um amigo que tinha aberto um hostel. E a ideia soou-lhe a música. "E se eu abrisse um hostel para famílias com crianças?" Como mãe de dois filhos pequenos e viajante, Andreia sabia da dificuldade em encontrar alojamentos simpáticos para crianças, quer em termos de preços, quer em termos de estadia propriamente dita. O marido, auditor financeiro, ao início, foi céptico. Achou que talvez não fosse grande ideia largar um emprego estável para se dedicar a uma área da qual ambos sabiam coisa alguma. Mas depois de fazer o plano de negócio achou que talvez não fosse assim tão louco quanto isso.

Desde o dia em que o cunhado lhe falou no hostel do amigo (em Julho de 2015) à concretização do sonho de criar um hostel para famílias com crianças passaram apenas 2 meses. Andreia despediu-se, para choque de muitos, encontrou a casa certa para arrendar em Agosto, e em Outubro de 2015 abriu o Lisbon Family Hostel. "A minha primeira paciente tinha sido a minha mãe e o meu último paciente foi o meu pai, de quem cuidei até morrer, também de cancro. Ele soube que eu ia montar um negócio mas nunca lhe cheguei a dizer que ia deixar a Enfermagem. Achei que isso o ia deixar triste e preocupado e não valia a pena. Cuidei dele e fechei um ciclo".

O novo ciclo é então o Lisbon Family Hostel, que fica numa moradia com jardim em Alvalade e tem 6 quartos com nomes de lugares que a marcaram: Marrocos (4 pessoas), Londres (4 pessoas), Paris (2 pessoas), Barcelona (6 pessoas), Cabo Verde (4 pessoas), Lisboa (8 pessoas).

O primeiro hóspede foi uma decoradora do Norte, que ficou instalada logo na primeira noite de abertura. A primeira família veio da Polónia e ficou uma semana, em Novembro. Desde então, Andreia nunca mais teve quartos vazios. De portugueses (sobretudo ao fim-de-semana) e estrangeiros (durante a semana), numa proporção que ronda os 50%/50%. A taxa de ocupação superou todas as expectativas (no verão esteve sempre nos 98%), os melhores cenários traçados pelo plano de negócio, e cada mês tem sido melhor que o anterior. O desafio é permanente, há novas áreas de negócio paralelas a explorar, e as saudades da Enfermagem ainda não se fazem sentir. Ah, e aos seus dois rapazes vai juntar-se mais um, com nascimento previsto para Janeiro.

Andreia não podia estar mais feliz. Continua a cuidar dos outros, mas de maneira diferente. Antes cuidava na doença, com todo o peso e dor inerentes; agora cuida na saúde e nos bons momentos, com toda a felicidade associada.

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Fotos: Raquel Brinca, HUG

 

Lisbon Family Hostel

Endereço: R. Viana da Mota 28, Lisboa
Telefone: 21 408 0337

 

 

Esta é a primeira edição de uma nova rubrica no blogue. Mudar de Vida pretende contar histórias de pessoas que deram um rumo completamente diferente à sua vida profissional, com tudo o que isso implica em termos pessoais.