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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Mudar de Vida #10: Paulo Duarte

Paulo Duarte nasceu a 26 de Outubro de 1979, em Portimão. Filho único, mãe e pai ligados à hotelaria, Paulo cresceu a querer ser veterinário, especializado em cetáceos. A família era católica pouco praticante, tirando a avó Constança, uma alentejana de Odemira que estava sempre a rezar: "Foi uma mulher que me marcou muitíssimo. Era uma velhinha viúva (o meu avô morreu quando eu tinha 4 anos), de lenço na cabeça, que não sabia ler nem escrever mas tinha um humor extraordinário. Teve 11 filhos, morreram 8 e impressionou-me sempre muito a sua força, a sua serenidade e a sua alegria, apesar de toda a perda que já tinha sofrido. Quando lhe dizia “ó vó, está sempre a rezar?”, ela respondia: 'então, filho, é o que eu sei fazer!'".

Paulo era um miúdo tímido, sofreu bullying durante 4 anos numa altura em que ainda não havia nome para a perseguição gratuita dos colegas, apenas por ser diferente, por preferir ficar a ler do que a jogar à bola. Na adolescência, tornou-se o oposto do que sempre tinha sido. Passou a ser extrovertido, popular, fez grandes amigos que ainda mantém.

A morte de uma grande amiga, aos 15 anos, num acidente com um carrinho de choque, aliada ao fervilhar de dúvidas típico da adolescência fez o primeiro clique: afinal, quem é Deus? Quem é esta entidade que tem o poder de tirar a vida à minha amiga? "Houve como que uma explosão de questões. Acabei a integrar um grupo de jovens. Fiz a Primeira Comunhão com 16 anos e também a Profissão de Fé. O Crisma aos 18." Nessa altura, uma passagem do Evangelho ficou a bailar-lhe na consciência: "A messe é grande e os operários são poucos." Sempre que a lia ou escutava sentia como que uma agitação interior que não sabia explicar. Mas era cedo. Tinha ainda muito por onde se distrair. No 11º e 12º anos meteu-se em tudo o que havia para fazer: ginástica acrobática de competição, teatro, era delegado de turma. Nessa altura de grande hiperactividade, concorreu à TAP mas foi eliminado por roer as unhas. "Percebi mais tarde que até esse tique me tinha ficado do período do bullying. Fiquei tão incomodado com aquela rejeição por causa das unhas roídas que me decidi a acabar com a mania! E acabei!"

Mesmo sem ter entrado para a TAP, as notas sofreram com a sua multiplicação de interesses e Paulo acabou por não conseguir entrar para o curso de Medicina Veterinária. Optou por Ergonomia.

Mudou-se de Portimão para Lisboa, alugou um quarto, adaptou-se à faculdade como peixe na água, fez novos amigos, envolveu-se na associação de estudantes. Também continuou na sua busca pela espiritualidade e acabou por entrar num grupo de universitários católicos (GRATIS: Grupo Reunido na Amizade e Todos Invocando o Senhor). João Delicado, o amigo que conheceu no GRATIS, falou-lhe então do CUPAV (Centro Universitário Padre António Vieira), dos jesuítas, e Paulo começou a ir à missa no Campo Pequeno. Simultaneamente, o bichinho dos aviões tinha-se-lhe colado à pele e, no segundo ano do curso, concorreu à Portugália (PGA). Passou todas as provas e acabou por ser um dos 20 selecionados: "Seguiram-se dois meses de curso e, depois, disponibilidade total. O curso passou a ser mais um hobby. Foram três anos maravilhosos." Quando recorda esse tempo em que andou nas nuvens Paulo Duarte tem um brilho especial no olhar.

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Foi numas férias da Portugália que decidiu participar numa peregrinação organizada pelo CUPAV. "A ideia que tinha de uma peregrinação era velhos de joelhos. E foi com surpresa que me deparei com 200 pessoas da minha idade, a rir, a rezar, a cantar, a partilhar coisas da vida. No ano seguinte, aproveitei de novo as férias e fiz parte da organização. Lembro-me de haver um momento de profunda comoção. Chorei uma tarde inteira e a ideia de vir a ser jesuíta, de vir a ser padre começou a ganhar forma e espaço. Lembro-me de pensar: 'tenho uma vida óptima, ganho bem, faço o que gosto, estou a viajar... o que é que se passa?'"

Para perceber o que se passava, Paulo Duarte foi fazer o Discernimento, um exercício tipicamente inaciano (Santo Inácio de Loyola foi o fundador da Companhia de Jesus) que permite compreender se existe, de facto, uma vocação e ajudar na tomada de decisão. E quando finalmente decidiu, tinha ainda pela frente dois difíceis momentos: contar aos pais e despedir-se da Portugália. "2003 foi o verão mais quente da minha vida. Quando disse aos meus pais que ia ingressar na Companhia de Jesus entraram em choque. E eu senti-me perdido com a reacção deles. Mas, por outro lado, foi importante para perceber que aquilo era mesmo o que eu queria. Porque, se não fosse Deus e a minha vocação, perante a desilusão e tristeza do olhar dos meus pais eu teria desistido." Os pais sentiam que perdiam o filho único, como se a vida religiosa fosse uma espécie de buraco negro por onde se desaparece sem deixar rasto. "Foi muito difícil para eles, muito difícil para mim." Hoje esse sentimento de perda está sanado. Os pais aprenderam a sentir orgulho da escolha do seu único filho e da força da sua entrega. Mas foi preciso dar-lhes tempo.

Na Portugália, entregou a carta de despedimento à chefe. Ela ficou incrédula (ele acabara de se tornar efectivo). “Vais para a TAP?” Paulo sorriu: “Não, vou para outra companhia. Para a Companhia de Jesus.» O seu último voo, foi uma chacota. «Chamavam-me: “Ó bispo, anda cá!” Quando ia servir o comandante, ele exclamou: “Tu não podes servir-me! Um padre jesuíta a servir-me?” Eu respondi: “Eu vou entregar a minha vida aos outros, acho que também o posso servir a si!”.»

Depois das despedidas, o futuro padre entrou para o noviciado, em Coimbra, onde ficou dois anos, só saindo para passar o Natal com a família e apenas mais 3 ou 4 dias de férias no Verão. Paulo, então já estudante de Filosofia na Universidade Católica, fez os votos de pobreza, castidade e obediência, num importantíssimo passo de entrega da sua vida. Uma festa linda e comovente. Constança morreu nesse mesmo dia (1 de Novembro de 2005), no final da cerimónia. "Esperou por mim e partiu." Da avó só quis a aliança (que traz pendurada num fio, sempre encostada ao seu peito) e a chave de ferro grande e pesada da sua casa, lugar de tantas memórias de infância.

Fez o curso de Filosofia e, paralelamente, começou a ter aulas de dança. Sentia que o corpo precisava expressar todas as transformações por que a alma passava. Antes de se tornar padre, Paulo esteve ainda três anos em Madrid, a estudar Teologia e fez o mestrado em Teologia Fundamental, em Paris. A par e passo com o estudo, fez muito trabalho prático, de acompanhamento pastoral: deu apoio a mulheres vítimas de violência doméstica, a emigrantes ilegais, refugiados. 

O dia da Ordenação (5 Julho de 2014, em Coimbra) foi dos mais felizes da sua vida. Dias depois, rumou a Fátima, onde foi confessar centenas de pessoas. As suas penitências espantavam quase todos: "Hoje vai chegar a casa, vai olhar para o espelho e dar a si própria um grande abraço" ou "a sua penitência são 2 dias de descanso" ou ainda "vai fazer um jantar especial e dizer que gosta muito de si". Para quê mandar rezar avé Marias e Pai Nossos a quem só precisa de um pouco de amor próprio e capacidade de se livrar das culpas?

Foi também com este profundo sentido de fé na renovação do ser humano, e na conversão do mal em bem, que Paulo Duarte fez a sua homilia, na primeira missa que celebrou em Portimão. Começou a missa da forma mais peculiar que os fiéis já devem ter escutado: "Bem-vindos a bordo, welcome a board". Quis que se percebesse, desde o primeiro minuto, que estava ali um padre diferente. Citou Marguerite Yourcenar – "Quando se gosta da vida gosta-se do passado, porque ele é o presente tal como sobreviveu na alma humana" - e pediu aos presentes que nunca reneguem a sua história, ainda que ela tenha episódios negros, porque são todos parte de nós. Tal como a pérola, que é a forma de alguns moluscos reagirem às impurezas: "Das nossas impurezas podem nascer pérolas."

Paulo é hoje professor e padre num colégio perto do Porto. Lidar com os miúdos tem sido uma fonte de energia permanente. Vive a sua vocação de uma forma muito especial, com uma alegria e um sentido de missão inegáveis. Quanto aos tempos em que vivia outra vida, a cruzar os céus, sente saudades e tem aquele brilhozinho no olhar que não engana. Mas, na verdade, ele continua em contacto com as alturas, só que agora de uma forma muito mais profunda.

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Mudar de Vida #9: Rui Gomes

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Foi a gestão que os pais faziam do pouco dinheiro que tinham que o levou a seguir a área financeira. Aquela espécie de milagre da multiplicação sempre o fascinou. Queria aprender a fazer o mesmo. Como não era um aluno brilhante, não entrou na universidade pública. E, por respeito aos pais (que, apesar de tudo, não produziam notas no quintal), Rui Gomes, nascido em Espinho mas criado em Valadares, começou a trabalhar de dia para pagar os estudos noturnos na faculdade privada. Foi vendedor numa imobiliária, fez biscates em restaurantes, trabalhou num escritório de seguros, e depois vieram os gabinetes de contabilidade.

Desde miúdo sempre praticou desporto. Participava nos Jogos Juvenis mas, quando deixou de ter idade para concorrer, inscreveu-se nos Desportos Tradicionais. "Uma das modalidades era Andas. Daquelas Andas altas, que se seguram com as mãos. E eu andava mesmo muito bem naquilo. Comecei a entrar em corridas, e representar a freguesia de Valadares e rapidamente comecei a ficar em primeiro."

Um dia, quando ainda estagiava nos seguros (já lá vão 17 anos), enviou o currículo para uma empresa de animação em Lisboa a dizer que sabia andar de Andas. Nem queria acreditar quando recebeu a resposta: "Pagavam-me 1200 euros por uma semana a trabalhar 4 horas por dia. Ora, eu recebia 600 euros por mês. Perguntaram-me se fazia Andas de animação, eu disse que sim, mas era mentira. Só fazia de competição. Lá experimentei algumas coisas, como meter fita-cola nas pernas... digamos que tive algumas experiências dolorosas para aprender a fazer aquilo. Mas fiz. E, no final, pensei: "Isto é muito melhor do que estar num gabinete de seguros... Depois desse trabalho surgiram muitos outros."

Mas ainda era apenas um hobbie. Nem sequer lhe passava pela cabeça viver disso. Afinal, quem é que vive de andar em cima de Andas? Começou a trabalhar no gabinete de contabilidade e gostava. Era um grupo de gente jovem, muito divertido. "Eu sei que ninguém associa a palavra diversão à profissão de contabilista mas aquele grupo era mesmo giro. Foi uma experiência profissional muito boa. Nem havia a típica relação patrão/colaboradores. Sentíamos que trabalhávamos todos para o mesmo fim. Aprendi muito."

Foi uma fase louca: durante o dia a trabalhar em Contabilidade, à noite na faculdade a estudar Gestão, ao fim-de-semana a fazer animação. "Era uma vida hiper-lotada." Pelo meio, foi fazendo cursos. De teatro, de palhaço. Queria saber mais sobre aquele hobbie que o encantava. Queria ser melhor.

Em 2004, decidiu abandonar o curso. Faltavam-lhe duas cadeiras. Os pais, que não tinham estudado e viam no filho o orgulho da família, sentiram um baque: "Foi frustrante para eles, eu sei. O meu pai, mais conservador, disse que era uma ideia absurda. 'Estás mesmo quase a acabar o curso, não faças isso!' A minha mãe sentia que eu estava a deitar pela janela uma oportunidade de 'ser alguém', de ter um trabalho sério, de ter um diploma. Quando vesti pela primeira vez o traje académico vi no olhar dela aquela satisfação, aquela felicidade. E agora eu ia abandonar isso tudo para ser actor? Para ser palhaço?"

Nessa altura, Rui já tinha casado (casou aos 25 anos). Ana, a mulher, apoiou-o. Acreditou que ele conseguiria vencer, mesmo numa área tão volátil como a da representação/animação. Compreendeu que ele, ao contrário de si, não era propriamente bicho de gaiola. "Ela é licenciada em Recursos Humanos e gosta do rigor dos horários, da concentração durante esse período, de sair e desligar para, no dia seguinte, voltar. Eu estava a sufocar um bocadinho. A Contabilidade ainda por cima tem a desvantagem de ser um trabalho sempre inacabado. É por isso que eu gosto de projectos pequenos. Damos tudo e depois fecha-se essa porta, para abrir uma nova de seguida. Portas sempre diferentes mas que dão origem a coisas concretas com princípio, meio e fim. Estava um bocado farto de ser contabilista. Na altura sentia que financeiramente a animação tinha um peso grande na minha vida. Sabia que deixar o gabinete ia fazer com que não ganhasse tão bem mas tinha 26 anos. Se não desse logo voltava atrás. Não era um salto mortal sem rede. Não existia muito esse peso. E então, em Agosto de 2007, três anos depois de ter deixado o curso, deixei também o gabinete."

Terminou o curso semi-profissional de Teatro (4 horas diárias durante 6 meses), que tinha começado quando ainda trabalhava no gabinete. E, no final, um pequeno grupo em que ele se incluía decidiu criar uma companhia de teatro, a Estaca Zero. E, um mês depois de se ter despedido, teve a sorte de ser logo contratado para um projecto relativamente grande em Estremoz: "Ciência na Rua", promovido pela Ciência Viva. 

Entretanto, abriram as candidaturas para a Operação Nariz Vermelho. Rui já fazia trabalhos como palhaço em eventos infantis e candidatou-se. Passaram meses sem dizerem nada até que, em Novembro, chamaram-no para ir à entrevista. E foi então que achou que não queria ir por ali. "Pensei que não queria trabalhar em hospitais, não queria esse peso para mim. Achei que ia chegar a casa infeliz. Não queria." O seu amigo Jorge Rosado, também palhaço, ligou-lhe no dia da entrevista, a convencê-lo a ir. "Estavam lá dos maiores actores do Porto. A verdade é que entrar para a ONV dava a qualquer actor um suporte financeiro estável, que é raro nesta profissão. Eu olhava para aquela gente consagrada e só pensava: 'não vou ser eu, um palhacinho das festas, que vou ser admitido.' E, na verdade, sentia que aquela não era bem a minha cena. Estava feliz, estava a ganhar relativamente bem... mas lá fui. A entrevista foi com a Beatriz Quintela (a mentora, então presidente do projecto e Dra da Graça) e com o Mark Mekelburg (Dr. P.P.P. Pipoca). Ela perguntou-me o que tinha feito no último ano, eu expliquei que tinha deixado de ser contabilista para me dedicar a ser actor e palhaço. A Bia quis saber se eu ganhava mal como contabilista, e eu respondi que não, pelo contrário. Só que não era muito feliz."

Contra todas as suas expectativas, passou para a fase seguinte. Deu por si a pensar que estava a vestir um fato maior que ele. Que havia tanta gente tão melhor que ele que não tinha sido seleccionada. Havia quase um sentimento de culpa, de embaraço. Quando chegou a altura de fazer um workshop em Lisboa, veio de novo sem esperanças de ficar. O primeiro dia era para verificar a disponibilidade artística de cada um e, no último dia, era suposto que cada concorrente fizesse uma performance de 3 ou 4 minutos para a equipa residente da ONV escolher os melhores.

A esta distância, Rui consegue perceber que toda a sua renitência e o convencer-se de que não era aquilo que desejava realmente não passava de medo. "Agora consigo perceber isso. Eu sabia que os outros eram muito melhores que eu, mais experientes, mais actores. E tinha medo. Medo de falhar, medo de me sentir humilhado. Defendia-me com o 'não quero' mas na verdade eu queria. E muito."

O workshop correu muito bem e alguns membros da equipa foram ter com ele para lhe dizer que estavam a gostar muito da sua prestação. "No domingo tinha de fazer uma performance mas, com aquela ideia fixa de que não ia ficar, não preparei nada.  Não sentia o peso da culpa por não me ter preparado. Só o senti no domingo de manhã, que foi o dia mais frustrante da minha vida. Ver os meus colegas todos com coisas muito boas, muito pensadas, estruturadas, artisticamente muito bem conseguidas e eu... nada. Chegou a minha vez e o que tinha era uma coreografia de um palhaço peruano que conhecia. Na altura pouca gente conhecia aquilo mas sempre que fazia em eventos era um sucesso. O pior é que aquilo funcionava em ambiente de festa mas num ambiente de pessoas que desenvolvem conteúdos artísticos de valor aquilo era muito mau. Estava a fazer a performance e a sentir claramente 'isto não é adequado para este momento'. Agora, estar a fazer isto diante da Beatriz Quintela, que já me tinha dito que eu era fixe, foi horrível. Percebi que ia defraudar as expectativas e pensei: 'sou mesmo o animador de festinhas infantis, o palhacinho...' Senti o estigma. E senti que tinha lixado a minha oportunidade."

Enquanto esperavam pela avaliação dos membros do júri, iam ouvindo os seus comentários. E não eram coisas boas de ouvir. A certa altura, um alemão da equipa (Harry Rothermel ou Dr. Batota) levantou-se, chegou perto do Rui e atirou, bem à bruta: "O que tu fizeste ali foi uma merda e por mim nunca entrarás neste projecto." A sentença doeu-lhe mas sabia que o alemão estava certo. Percebeu que Beatriz Quintela estava chateada mas era a única a lutar por ele. O seu nome foi o último a ser escolhido e foi a Bia quem apostou nele: "Será a minha escolha pessoal." Na sala houve um sentimento de injustiça muito grande. Não só dos actores que não foram escolhidos como dos doutores palhaços residentes, que acharam que estava a entrar um tipo com pouco valor. "Eu também senti que estava a tirar o lugar a quem merecia mais do que eu."

A fase seguinte foi já em ambiente hospitalar. A ideia era fazer dois ou três serviços, em dupla, acompanhados pelos doutores palhaços séniores. A ideia era improvisar e ver como corria. Rui fez dupla com Julieta Rodrigues (hoje Dra Foguete) e não podia ter corrido melhor. "O primeiro serviço onde fomos foi aos Queimados. A primeira criança que vi não tinha pele na cara, só carne viva e um líquido a escorrer. Foi forte mas não me deixei abalar. A Julieta, que já fazia teatro de rua, estava no terreno dela e eu, habituado às festas infantis, também. Quando terminámos estava apaixonado. Eu quero mesmo isto. Vou poder trabalhar para estes miúdos e todos os dias vou poder aprender mais, com gente com imenso valor, e a ter formação permanente. É isto que eu quero!"

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Dois ou três dias depois, a resposta. "Nunca me hei-de esquecer: estava na garagem com o meu pai quando ligou o Mark. Foi, sem dúvida, um dos momentos mais felizes da minha vida." Rui comove-se ao relembrar mas diz que não chorou nesse instante. "Andava pela garagem aos saltos a gritar: Entrei! Entrei! Entrei!" Logo a seguir, ligou para o seu amigo Jorge Rosado, para saber se ele também já tinha recebido o telefonema do Mark. Ainda não tinha recebido. Nunca chegou a receber. E foi assim que a felicidade ganhou uma nuvem que a ensombrou: "Fiquei realmente triste por ele. Ele queria muito mais do que eu, pelo menos quando todo o processo de selecção começou. Foi por causa dele que eu fui à entrevista, e acho que nunca lhe disse isto mas devo-lhe esta fatia grossa de coisas boas que chegaram à minha vida a partir daí."

Ser um doutor palhaço mudou tudo. "Mais do que uma experiência profissional, tem sido uma experiência de vida. As pessoas que tenho conhecido, a queda de preconceitos que eu tinha por um questão de educação, e até a forma como passei a ver a vida. Relativizar os problemas que, na maior parte das vezes, nem chegam a ser problemas. Viver intensamente. Aprender sempre. Criar! Há definitivamente um Rui antes e um Rui depois da entrada na Operação Nariz Vermelho." 

A escolha do nome - Dr. Boavida - foi imediata. "Isto sim, é Boa Vida. É acordar todos os dias feliz porque vou fazer o que quero. É ter, além do mais, formação artística regular. É não ter horários rígidos. Além de continuar a pertencer àquela companhia de teatro criada depois do curso (Estaca Zero), criei a minha própria companhia: Centelha Criativa. Umas vezes tenho muito trabalho, outras menos. Umas vezes ganho muito, outras não. Mas não trocaria a minha liberdade por nenhuma regularidade financeira. Ainda assim, há três anos concluí as duas cadeiras que me faltavam do curso de Gestão. Senti que tinha de fechar esse ciclo da minha vida. Nesta segunda vida que tenho, o amor pelo que faço é tão grande que eu faria tudo o que faço de graça. Sem me pagarem. Felizmente pagam-me, porque preciso de dinheiro para viver. Mas não seria contabilista sem que me pagassem. Percebes a diferença?"

Rui Gomes é um homem grato. Aos pais, à passagem pela Contabilidade, à descoberta das Andas, ao amigo Jorge Rosado, à Beatriz Quintela que acreditou nele, ao alemão bruto que o pôs no lugar quando merecia (e de quem é hoje amigo), a todos aqueles com quem aprende, todos os dias. É sobretudo grato à vida, que lhe permitiu fazer esta inversão de marcha que fez dele a pessoa que hoje é. Uma pessoa que vale a pena conhecer, acrescento eu.

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Mudar de Vida #8: Eduardo Botelho

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 Foto: Raquel Brinca, HUG

 

Queria ser gestor de empresas, quem sabe ter o seu próprio negócio, uma carreira de sucesso. Eduardo Botelho, 30 anos, foi um muito bom aluno na Universidade Nova de Lisboa. Tinha 20 anos acabados de fazer e já havia várias empresas a convidarem-no para ir a entrevistas de emprego. "Nem tive de pensar muito. Como as entrevistas eram chatas, era porreiro aceitar logo e despachar o assunto. Assim, ainda não tinha acabado o curso e já tinha emprego garantido na KPMG."

A forma como ele diz isto não contém um pingo de vaidade. Di-lo a rir-se, encolhendo os ombros, um certo gaguejar embaraçado, quase como se tanto desejo por si não fosse mais que uma surpresa divertida. "Acabei a licenciatura em 2008, tive um mês de férias, e em Setembro comecei na KPMG. Ao fim de três meses estava a sair. O meu trabalho era verificar faturas  e fazer contagem de inventários, para confirmar se as empresas seguiam os procedimentos contabilísticos correctos. Confesso que era muito chato. Decidi sair, voltar para a Universidade Nova, e fazer um mestrado. Mas como entretanto me tinha habituado a ganhar dinheiro, o que tinha sido bom, fui dar aulas à noite numa escola secundária, enquanto fazia o mestrado durante o dia."

No segundo ano de mestrado, Eduardo candidatou-se a dar aulas na faculdade e ficou. Gostou muito. Tanto que decidiu não procurar mais nada. Ia ficar por ali, pelo menos um ano. Mas as empresas continuavam a tentá-lo. Ele ia sempre dizendo que não, mas havia umas mais insistentes que outras. Acabou a ir a uma entrevista para a Jerónimo Martins, onde conheceu o responsável pela multinacional Daymon. Não ficou na primeira, acabou a assinar pela segunda. "Fiquei na área de relação com os fornecedores, o que me obrigava a viajar muito, a ir a feiras internacionais, foi muito bom. Num ano devo ter feito umas 10 viagens de trabalho e era mesmo interessante. Mas ao fim de um ano voltei a sair porque, feito o balanço, gostava mais de dar aulas."

Ficou durante três anos a dar aulas na Universidade Nova, até que decidiu candidatar-se ao doutoramento: "A única maneira de se ficar efectivamente na carreira docente, no ensino superior, é com o doutoramento. E então passei um ano inteiro dedicado a isso: a pedir cartas de recomendação, a estudar para os testes da candidatura... e acabei por ficar na minha primeira opção: no IESE de Barcelona." E lá foi. O Eduardo, a mulher e o filho de ambos, João da Ega, com 4 meses. A mulher, que é professora de Português, e estava então a gozar a licença de maternidade, foi sem nenhum emprego em vista mas acabou a dar aulas de português a estrangeiros. O Eduardo, que tinha uma bolsa, além de não pagar pelo doutoramento ainda recebia mais de dois ordenados mínimos (de Portugal) por mês, fora outros privilégios como não pagar impostos e ter o filho na creche pública.

No primeiro ano correu tudo muito bem. Mas no segundo adensou-se a parte da investigação. "Começou a ficar muito chato. São estudos em que temos sempre que especificar mais e mais, até chegar quase ao nível celular das coisas. Tinha uma vida muito boa mas o trabalho em si era tão teórico e exigia tantos testes e estatísticas que comecei a desinteressar-me."

Paralelamente a todo este percurso houve sempre o futebol. Sempre adorou assistir, em casa ou nos estádios, sempre jogou, aos 17 anos tirou o curso de árbitro e chegou a exercer, nos Juvenis, jogou futsal federado, escreveu no site de um amigo, no site Bola na Rede (bolanarede.pt) e, já em Barcelona, começou a jogar nos Lusitanos. "Conheci o cônsul português, que é o treinador dos Lusitanos, e propus criar uma newsletter do consulado em Barcelona. Ele queria uma coisa simples com os eventos do mês relacionados com Portugal mas eu quis fazer uma coisa mais a sério e então acabou por ter 15 páginas, com histórias de portugueses por lá e informações úteis. Eu escrevia, a minha mulher editava e o cônsul escrevia o editorial. No segundo ano de Doutoramento dei por mim a escrever uma vez por semana a crónica para a Bola na Rede, uma vez por semana a crónica para os Lusitanos e a revista do Consulado. Já trabalhava tanto nisto como no Doutoramento. E era onde me sentia mais feliz."

Um dia, em Julho de 2016, decidiu que não ia continuar o Doutoramento. "Até podia ter continuado e, paralelamente, começado à procura de emprego mas achei desonesto. Eles estavam a pagar-me e era imoral arrastar aquilo por minha própria comodidade. Comuniquei que não ia continuar e, em Outubro, vi um anúncio do António Tadeia no facebook a dizer que queria contratar 5 jovens jornalistas porque ia iniciar uma coisa nova. Mandei o meu currículo, mas sem esperança. Afinal, não era jornalista, tinha o curso de Gestão, estava a fazer o Doutoramento, tinha sido professor universitário... era pouco provável que ele me chamasse."

Mas chamou. Em Novembro veio de avião de Barcelona para Lisboa, de propósito para a entrevista. Eduardo tinha conseguido a atenção do jornalista. Afinal, o que é que levava um tipo altamente qualificado na sua área, disputado pelas empresas de topo, a fazer o Doutoramento em Barcelona, a abandonar tudo para se tornar jornalista desportivo? "Cheguei lá e, enquanto esperava, deram-me uma folha para preencher. Tinha de dizer quem era o meu jornalista de referência. Não escrevi nada, achei que não valia a pena estar a inventar, e tinha também que fazer uma notícia. A minha folha era a 101 e pensei: 'vim aqui perder tempo, este tipo já entrevistou 100 pessoas antes de mim, de certeza com muito mais provas dadas do que eu, que não dei nenhuma...'. A entrevista supostamente teria a duração de 5 minutos. Havia duas perguntas a que tinha que responder. A primeira era a razão pela qual se candidatava, a segunda era "o que tem de diferente dos outros?". Eduardo respondeu durante 10 minutos à primeira questão. Quando ia responder à segunda, António Tadeia interrompeu-o: "Não é preciso dizer-me o que tem de diferente dos outros."

Foi-se embora, voltou a Barcelona para empacotar as coisas, veio para Portugal para as férias de Natal. Na segunda semana de Dezembro, recebeu um telefonema. Tinha sido um dos escolhidos para integrar a nova equipa de uma nova plataforma online sobre futebol chamada Bancada. Contavam com ele no dia 2 de Janeiro de 2017. Era preciso mudar de vida, de cidade, de país. Eduardo tinha então dois filhos, um deles acabado de nascer.

A mulher compreendeu-o. Talvez tenha achado que, já que ali estava, não devia abandonar o Doutoramento, mas se isso lhe passou pela cabeça nunca o revelou. Talvez lhe bastasse que fosse feliz.Já o pai perdeu um pouco a paciência com ele. "Mas o mundo tem de ser perfeito para te encaixares nele?" E, de seguida, enviou-lhe uma lista com as 20 melhores empresas para trabalhar. Eduardo lembra-se de se ter rido daquilo. "O que é a melhor empresa para se trabalhar? É aquela onde há uns puffs e uma mesa de matraquilhos gira mas onde depois, na prática, ninguém tem tempo para se sentar nem um segundo? É aquela onde se progride na carreira ficando todos os dias até à 1h da manhã mesmo que não seja a trabalhar, só para mostrar empenho? Não será a melhor empresa para trabalhar aquela onde somos felizes, onde fazemos o que gostamos, o que queremos?"

Assim, a melhor empresa para trabalhar é esta, onde agora está a fazer jornalismo desportivo. É verdade que ganha cerca de metade do que ganhava quando estava no Doutoramento, onde "apenas" estudava. É verdade que há muito mais pressão, prazos, notícias que é preciso publicar depressa porque a actualidade é voraz, turnos que por vezes implicam noitadas. "É por vezes desgastante, cansativo mas estou contente. Sempre gostei de escrever [Eduardo tem um livro de versos publicado chamado "O Verso dos Dias", carregado de humor], sempre gostei de futebol, mas creio que nunca considerei a possibilidade de ser jornalista desportivo. Um dia perguntaram ao Robert de Niro o que o tinha levado a ser actor e ele respondeu que tinha sucumbido a um desejo. Acho que foi o que me aconteceu. Sucumbi a um desejo. Creio que iria sucumbir mais cedo ou mais tarde e, sendo assim, mais vale que seja mais cedo. Se me perguntar se daqui a 20 anos estarei a fazer a mesma coisa... não saberei responder. Já percebi que não vale a pena fazer planos. Para já estou a desfrutar!"

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Mudar de Vida #7: Miguel Lambertini

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A primeira vez que pensou em mudar de vida tinha 23 anos. Acabado de sair da Católica, licenciado em Comunicação Social, pensou que talvez estivesse a falhar uma vocação. Mas, nessa altura, achou que já era tarde para mudar. Foi preciso chegar aos 36 anos, ter um filho e ver morrer um amigo para perceber que nunca é tarde para mudar de vida ou, se quiseremos ceder a um certo cliché piroso, nunca é tarde para se ser feliz. 

Miguel Lambertini foi um aluno mediano. Nunca chumbou mas também nunca figurou no quadro de honra. Dispersava-se e, sobretudo, gostava de ser o palhaço da turma. Fazer rir ajudava-o a enturmar-se, já que a sua timidez crónica não lhe permitia integrar-se de outra forma. Sempre que havia peças de teatro, ele estava lá. O palco curava-lhe o acanhamento e os aplausos e as gargalhadas faziam-no vibrar. Mas era uma brincadeira. Nada mais do que isso.

No 10º ano, com a passagem de um colégio para a escola pública, sentiu o apelo pela liderança e pela política. Participou activamente em campanhas da JSD, candidatou-se a presidente da Associação de Estudantes da Escola Secundária Vergílio Ferreira e ganhou. Com a vitória ganhou também confiança. "Afinal, eu era visto como o betinho que vinha do colégio. E conseguir convencer pessoas tão diferentes de que o meu projecto era interessante foi um desafio!" Daí para a política do país foi um passinho. Fez parte das listas do PSD à Junta de Freguesia de Carnide e esteve três anos a trabalhar na assembleia de fregueisa, ao mesmo tempo que fazia o curso de comunicação social na Católica. Também em simultâneo, recebeu o convite da Câmara Municipal de Lisboa (CML) para trabalhar como assessor de imprensa. "Foi muito giro. É um trabalho que permite um contacto muito próximo com as pessoas."

A escolha do curso não foi nenhuma paixão de infância ou uma vocação epifânica de adolescência. A irmã oito anos mais velha também tinha seguido por aí e Miguel achava interessantes as suas disciplinas práticas de rádio e televisão e toda a parte multimedia. Comunicar fazia-lhe sentido. E, claro, não haver matemática envolvida também. Em paralelo, nas férias, foi monitor nos campos de férias da EDP. Fez dezenas de peças de teatro e espectáculos e sentia-se sempre feliz com o resultado. Mas era apenas um hobbie. Nada mais do que isso.

Quando terminou o curso, a faculdade obrigava os finalistas a um estágio. Miguel, sabendo que um amigo trabalhava na produção do Herman SIC, pensou que não podia haver lugar que lhe fizesse mais sentido. E conseguiu. "Claro que eu não sonhava que estagiar na produção de um programa daqueles é basicamente ser escravo, mas pronto. Foi extenuante, muito fisico, mas privar com o Herman e com o resto da equipa fez-me ter o tal primeiro clique. Pensei: eu gostava de fazer isto que esta malta faz. Andei anos a esconder isto de mim próprio, a não dar importância, a empurrar para um cantinho e afinal é algo que me imagino a fazer para o resto da vida." Mas tinha acabado de passar quatro anos numa universidade privada. "Os meus pais a investir e eu ia renegar tudo? Ia chegar a casa e dizer 'afinal vou ser actor'? Não dava..." Por isso, pensou de novo que talvez fosse só uma paixão passageira. Nada mais do que isso.

 

Mudar de Vida #6: Susana Amira

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Estão a ver um automóvel a fazer inversão de marcha, chiando os pneus, e seguindo depois viagem pela via contrária? Assim é esta história. Ou, se quisermos outro paralelismo, menos rodoviário: estão a ver a água e o fogo? A protagonista deste “Mudar de Vida” começou por ser água. Hoje é fogo. Assim mesmo, sem tirar nem pôr. Susana Moraes, 39 anos, mudou de tal maneira de vida que até o nome levou uma volta. Hoje é conhecida por Susana Amira (princesa, em árabe).

Comecemos então pela água, que foi o início de tudo. Susana Moraes, nascida e criada em Lisboa, sempre foi uma menina atinada, boa aluna, adolescente sem devaneios. Quando chegou o momento de escolher um curso (porque o “canudo” era uma inevitabilidade a que nem lhe passaria pela cabeça escapar), não soube bem o que fazer. Era boa a tudo, e quando se é bom a tudo fica difícil fazer escolhas. A maior parte das amigas seguiu para Gestão, ela optou por Economia por pensar que talvez fosse mais abrangente e lhe desse mais oportunidades. Além disso, tinha o sonho de acabar com a pobreza e a exclusão social (quem nunca?) e, por isso, especializou-se em Economia Social. “A minha ideia era destruir o sistema por dentro”, explica com uma gargalhada de quem já perdeu a inocência há muito.

Assim, quando terminou o curso, Susana começou a trabalhar em gabinetes de consultoria na área social, onde fazia estudos para caracterizar as populações desfavorecidas e encontrar medidas para quebrar esse ciclo de pobreza. Estava tudo a correr como previsto: ia mesmo mudar o mundo e combater a miséria e a injustiça social.

Só que não. Os levantamentos que fazia não tinham repercussão prática, acabavam por não evoluir para uma real mudança, e foi então que as suas convicções de que ia fazer a diferença começaram a esmorecer. Se calhar não ia. Se calhar não valia a pena. E foi então que a menina inocente virou mulher.

Acabou, em 2001, a aceitar emprego na área financeira, algo que sempre havia rejeitado, cruzes canhoto! Onde? Num dos centros nervrálgicos da finança: a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM). Ali encontrou um ambiente "composto por números e gráficos". O oposto do que sonhara. Passou por vários departamentos, teve muitas funções. Não nega que "em termos intelectuais era estimulante". No final, fazia parte de alguns grupos internacionais que supervisionavam a bolsa e que a obrigavam a viagens mensais. "Era o que mais gostava. Não só pelas viagens como por ir aos centros de decisão, e ficar a conhecer formas diferentes de trabalhar. Todos os meses tinha uma reunião em Paris, Bruxelas, Londres, Amesterdão, etc. Isso foi muito bom."

Paralelamente, Susana tinha uma paixão por dança oriental e pela cultura árabe que nem consegue precisar a origem. Sempre disse que havia de ir a Marrocos com o primeiro ordenado e assim foi. Em 1999 foi pela primeira vez a Marrocos e foi como se tivesse chegado a casa. "Os mercados, os cheiros, os sabores, as músicas... era como um regresso a algo que me fazia todo o sentido." Nessa altura, porém, não havia em Portugal muita informação sobre onde aprender danças orientais. Foi só em 2002 que encontrou uma escola e foi aprender a dançar. "Apaixonei-me logo na primeira aula. Não sei explicar mas senti que aquilo fazia parte de mim."

Continuou sempre a dançar, como hobbie. Mas a paixão, em vez de esmorecer, crescia. Inscreveu-se num curso de árabe na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas e esteve dois anos a aprender Língua e Cultura Árabe. "O meu maior interesse era perceber as letras das músicas que dançava para melhor as interpretar." Em 2008 concorreu para um casting de um professor egípcio que ia fazer espectáculos em Portugal e foi seleccionada. A família ia ver os espectáculos dela com a complacência que os comuns têm pelos excêntricos: "Lá está ela com esta mania dos árabes. De onde virá isto?" Susana sorri ao lembrar: "Eles foram ver e acharam muita piada. Acharam o máximo. Mas - claro - só acharam tudo isso porque eu era uma Economista a trabalhar na CMVM."

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Em 2010 dá-se o clique fatal. Susana Moraes vai pela segunda vez ao Egipto (já tinha viajado também para a Tunísia, a Jordânia, para Marrocos várias vezes). Objectivo da viagem: ter aulas intensivas de dança. 16 dias. E é nesse ano também que uma das suas colegas a convida para fazer parte de um grupo de dança profissional e para dar aulas. Ela, completamente apaixonada, aceitou. "Ou seja, em 2010 eu era a senhora doutora durante o dia, e era a dançarina à noite. É preciso sublinhar que a área financeira é uma área muito conservadora. A maior parte das pessoas veste fato e gravata ou tailleur cinzento. De maneira que eu fazia isto no maior secretismo, como se fosse uma coisa errada ou proibida. Sentia-me cada dia mais prisioneira na CMVM porque sentia-me mais feliz do que nunca a dançar, porque sentia que tinha finalmente descoberto a minha vocação, e porque tinha a certeza de que era por ali o meu caminho."

Foi assim que a decisão foi tomando forma. "Pensei: não quero passar mais 10 anos da minha vida aqui, quando tenho lá fora algo que eu adoro. Sempre fui muito romântica e sempre acreditei que se fizermos as coisas com amor e com verdade dá tudo certo. Ora, se eu sentia aquela paixão tão grande, tinha de lutar para conseguir concretizá-la." Num acesso de coragem (dirão uns), de loucura (dirão outros), Susana Moraes chegou a acordo e saiu da CMVM. E da água surgiu o fogo. E a Susana Moraes dava lugar à renascida Susana Amira. 

Na família, a decisão foi acolhida com choque e escândalo. Falaram-lhe do perigo de trocar o certo pelo incerto. "Estavam preocupadíssimos, e eu percebi. Era legítimo. Mas tive de lhes dizer: errei na minha vocação, mas mereço ser feliz agora."

Susana não lastima os anos de "erro". Na verdade, não é assim que os vê. "Foi um processo por que tive de passar. Foi útil. Ainda hoje é, quando tenho de gerir a minha vida de profissional por conta própria. Fez sentido e não me arrependo. Tornou-me na pessoa que sou hoje e as coisas acontecem no momento em que têm de acontecer. Foi complicado ter a aceitação da família. Acho que hoje estão todos conformados e apoiam-me incondicionalmente. Mas sim, acho que ainda têm uma secreta esperança de que isto me passe e eu volte a ter um emprego 'sério'."

A mudança de vida trouxe-lhe instabilidade financeira mas uma felicidade e realização que nunca havia sentido. Sim, o facto de não ter filhos ajudou. "Se calhar, se tivesse filhos, não poderia fazer isto. Ou então fazia na mesma, porque era quase um grito cá dentro. Como se finalmente estivesse a ser fiel a mim mesma. Talvez fosse importante passar essa mensagem aos meus filhos. Mas também seria aterrador a perspectiva de falhar, tendo pessoas a depender de mim. É uma incógnita, mas também não importa muito." O que importa é que, ainda que sem dependentes a cargo, Susana deu o passo. Do certo para o incerto. Do sério para o excêntrico. Da água para o fogo.

Hoje dá aulas em várias escolas e tem cerca de 50 alunas. Vê-la a dançar, a interpretar, a vestir o fato que a transforma é como assistir à transformação de uma crisálida em borboleta. "A dança oriental está muito ligada ao feminino, ao resgatar da essência feminina. E eu quero, com a dança, dar o meu pequeno contributo para que as mulheres se aceitem como são, para que gostem de ser femininas, que se permitam. É uma redescoberta do corpo e uma partilha do feminino. Quando as minhas alunas aprendem a dançar e vestem aqueles vestidos cheios de brilhos sentem-se poderosas. Aparecem-me muitas vezes mulheres com uma baixa auto-estima, maltratadas, cheias de fragilidades e a dança é extremamente terapêutica. Além disso, é uma excelente forma de fazer exercício físico e de nos divertirmos."

Susana Amira já fez muitos espectáculos e tornou-se a única bailarina portuguesa a participar numa grande produção de Hollywood sobre a vida do faraó Tutankamon. "Vi um casting na internet, enviei vídeos e fotos e fui seleccionada. As filmagens decorreram em Marrocos e eu ali estive, ao lado do Ben Kigsley! Foi uma experiência incrível!"

A qualidade do seu trabalho foi distinguida com o Prémio de Excelência Artística 2014 atribuído pelas Instituições de Artes, CEMD e Literarte. E não só. Em 2015 foi seleccionada para integrar o prestigiado Ballet Internacional Munique Neith de Barcelona, dirigido pela bailarina Munique Neith. 

"A minha paixão é cada vez maior. À medida que vou amadurecendo torno-me melhor bailarina. A dança é uma expressão de sentimentos, é onde me liberto, é onde me sinto livre. À medida que vou amadurecendo tenho mais experiências para partilhar através da dança. Mais histórias, mais feridas, mais alegrias. A dança é muito mais do que técnica. É alma. Ora, a minha alma é muito mais cheia agora e estou hoje muito mais à vontade para a entrega que a dança implica. E é essa entrega que pode arrepiar e emocionar quem assiste. É essa a magia. A magia que me fez trocar uma vida por outra e todos os dias agradecer por isso."

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Website:www.susanaamira.com

Facebook: https://www.facebook.com/susanaamiradancaoriental/

Vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=9-hIm57Vtb0

 

 

 

 

Mudar de Vida #5: Ana Tulha

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De psicóloga a maquilhadora. Um caminho cheio de curvas, cruzamentos, entroncamentos.

 

As memórias mais antigas que tem de si são a desenhar. Lápis de cor, canetas, pincéis. No papel ficava o que via ou o que lhe passava pela imaginação. Por isso, quando começaram as incontornáveis perguntas das tias "então e o que é que a menina quer ser quando for grande?" a resposta pendia sempre para as artes: pintora, arquitecta, ilustradora. Artista, pronto. Artista de papel e lápis, artista de deixar correr a tinta ao sabor da criatividade. 

Durante o secundário, foi sempre pondo um pé em tudo o que eram experiências artísticas. A escola abriu um grupo de artes circenses e ela aprendeu a fazer malabarismo. Mas também havia teatro, capoeira, percursão. "Conheci então um malabarista que trabalhava como palhaço enquanto fazia a sua licenciatura em Engenharia do Ambiente. Um dia o André perguntou-me se eu era capaz de fazer na cara aquilo que fazia no papel. Eu disse que sim. E em pouco tempo estava a ser solicitada para fazer pinturas faciais em festas infantis, algo que conciliei sempre, desde os 17 anos até ao fim do percurso académico."

E o percurso académico? Artes, só podia. Mas não, porque a vida também é feita de surpresas. No final do 12º ano, surgiu a dúvida. Um excelente professor de Psicologia lançou a semente. "E agora? O que me imagino a fazer no resto da minha vida?" O meio artístico parecia-lhe escorregadio, instável, inseguro. Psicologia talvez lhe abrisse portas mais certas. Esperou pelo último dia para se inscrever. Com média de 15 valores, entrou em Design Gráfico e Psicologia. Optou pela Psicologia.

Parece estranho, mas não é assim tanto. Afinal, as Artes não estão assim tão distantes da Psicologia. Em Artes, tudo o que é produzido tem sempre que ver com o artista, com quem ele é, com o que viveu, com o que apreendeu do que viveu. Com a sua personalidade, com a sua alma. Ora, o que pode ser mais próximo com isso do que a Psicologia, que nos mostra quem somos, que nos permite alcançar e compreender os nossos medos, as nossas emoções, os nossos sentimentos?

Ana Tulha viveu apaixonadamente a licenciatura. Quando surgiu o estágio curricular ficou num sítio muito conceituado: "Fiquei com os comportamentos desviantes numa clínica de desintoxicação, uma comunidade terapêutica de alcoólicos,  toxicodependentes e utentes com as mais diversas perturbações mentais, com cerca de 100 pessoas em regime de internamento, alguns em internamento compulsivo." Ana ficou com os adolescentes e acabou a adorar esse semestre em que lá trabalhou. Tanto que acabou por ter a melhor nota de estágio: 18 valores.

Quando o curso terminou, esteve cerca de 6 meses à procura de trabalho. Enquanto não aparecia, ia fazendo o que nunca deixou de fazer: pinturas faciais. Depois, foi trabalhar naquilo que era o seu sonho: comportamentos desviantes. "Adorava o filme do Silêncio dos Inocentes. Acho que queria ser a Clarice", ri Ana, ao relembrar. Mas depois veio a vida real. E lidar com o mal acabou a fazer-lhe mossa. "Fui fazer avaliação psicológica em contexto forense. É uma área interessantíssima, basta ver o espólio literário e cinematográfico que há sobre o assunto. Mas trabalhar com estas pessoas não é fácil. Trabalhava directamente com o Ministério Público e colaborava em casos de divórcios complicados, análise de competências parentais e suspeitas de abusos sexuais. Estive um ano a trabalhar com vítimas e agressores. A analisar perfis psicológicos, a elaborar relatórios que iriam constituir meio de prova. Ou seja, que iriam interferir com a vida das pessoas."

Ana tem dificuldade em dizer mas nem precisa. Sente-se em cada frase que a sensibilidade que a caracteriza chocava com aquela realidade feia. Ela, que sempre se ligou ao belo, era agora confrontada com o feio, com o pior do que o ser humano é capaz. "Tive a oportunidade de estar numa área tão apetecível e não quero parecer mal agradecida. Eu tinha estofo para aquilo mas optei por trazer para casa outro tipo de vivência. Se quer saber a verdade, acho que ainda não me perdoei por ter virado as costas àquilo. Eu era profiler, que é incrível. Mas acho que preferi viver rodeada de coisas boas."

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Depois desse trabalho (pelo qual era paga com sucessivos atrasos), fez uma pós-graduação em Psicologia Forense e quando saiu recebeu o convite para voltar a trabalhar na comunidade terapeutica onde tinha feito o estágio. Esteve lá quase dois anos. Ao mesmo tempo, fez um mestrado que terminou com 16 valores. Saiu da comunidade terapêutica por uma reestruturação que lhe deu funções em que não se revia. Dedicou-se à formação. Mas o trabalho era escasso, não era a tempo inteiro. Ana sentia-se desmerecida. Tinha o chamado currículo de peso, com 9 páginas, estudo e experiência. Tinha tudo o que era preciso para trabalhar na sua área. Tudo menos trabalho. E dinheiro, porque os pagamentos eram feitos a perder de vista. Começou a entristecer. A definhar. Levou um ano entre perceber que não estava bem e tomar uma decisão que mudasse o estado das coisas.

Um dia, abriu o jornal à procura de qualquer coisa. Viu que a área de estética parecia ter muita saída: "Tinha uma amiga a fazer um curso numa escola de estética e eu fui fazer também. Durou um ano e meio. Gostei muito."

Para a família foi um baque. Como assim a primeira pessoa a licenciar-se na família era agora esteticista? Como assim o curso de Psicologia não serviu para ter emprego? Como assim arranjar pés dos outros, com um canudo na mão? "Nunca vou esquecer a cara que a minha avó fez. Foi um balde de água fria. 'Ó filha, mas tu vais limpar unhas?' Os meus pais creio que perceberam que eu tinha de arranjar soluções. E também não quiseram mostrar desilusão."

Na mesma semana em que começou o curso de Cosmetologia foi chamada para uma entrevista para um Instituto de Ensino Superior, para dar formação na área da saúde. Estava com tão pouca fé que foi à entrevista vestida como não iria, sequer, ao encontro para esta conversa. Uma t-shirt com um urso panda e umas leggings. Ficou. No curso e no instituto. Tinha aulas e dava aulas, ao mesmo tempo. Trabalhava de manhã e ia para a escola à tarde. No fundo, fazia o malabarismo que nunca deixou de fazer - oscilando entre mundos distintos: o sério e o divertido; o institucional e o informal; o pesado e o leve. "Comecei a mentalizar-me de que se calhar nao tenho de ter uma coisa só, um caminho apenas. Posso ter dois caminhos, aparentemente antagónicos, mas que se conjugam na minha vida. Foi quando comecei a aceitar este circo que começou a minha recuperação, o meu crescimento pessoal."

Terminado o curso de estética, começou a trabalhar numa clínica muito conhecida. De manhã dava aulas de Psicologia da Saúde, à tarde ia para o centro de estética fazer tratamentos de beleza. Sentiu na pele o que é ser tratada como uma "mera" esteticista. Sentiu os olhares de superioridade. Ela que até já tinha sido uma profiler, como a Clarice, do Silêncio dos Inocentes.

Diziam-lhe que era óptima terapeuta, mas péssima comercial. A ideia na clínica era que cada funcionária vendesse o maior numero de produtos aos clientes. E não quer mais isto, mais aquilo, mais o outro? Ana Tulha não o fazia, por respeito aos clientes, por falta de jeito, talvez. E foi convidada a sair.

Mas desta vez, e já aceitando "o circo" que a vida lhe foi oferecendo, não se foi abaixo. E percebeu que a área das Artes, que sempre foi a sua primeira escolha mas da qual tinha fugido por considerar insegura e instável, era afinal a área que sempre lhe tinha fornecido a rede que a amparava das quedas que os empregos "sérios" a obrigavam a dar. E pronto. Com a aceitação veio o resto. A imperativa necessidade de gerir o caos da vida de freelancer obrigou-a a ser muito organizada e a saber planear cada passo.  O investimento em formação mais específica levou-a até às pessoas certas e trouxe trabalho, muito mais trabalho. E dinheiro – muito mais do que alguma vez tinha ganho enquanto profissional com 9 páginas de cúrriculo. Ana começou a ter convites para fazer trabalhos em caracterização e efeitos especiais, continuando a fazer formação na área. Aprendeu e evoluiu muito. Faz maquilhagem de todo o tipo, mas sobretudo artística. É freelancer, trabalha em eventos, festas temáticas, espectáculos. "Hoje faço pessoas felizes, de uma forma mais rápida do que quando trabalhava em Psicologia. Ok, pode ser uma felicidade mais fugaz. Sim, é uma felicidade que não é profunda. Mas é agora. É já. E a vida é agora. É já."

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Algumas fotos dos seus trabalhos:

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Os Papa-léguas #5 (Bernardo Telo Rasquilha) e Mudar de Vida #5

Bernardo tem 44 anos e é missionário da Fraternidade Missionária Verbum Dei. Há umas semanas (mais concretamente no dia 7 de Maio) nadou 1900 metros, pedalou 90 Km e correu uma meia-maratona. Um triatlo com vista a angariar fundos para o projecto de formação de 14 missionários nos Camarões. Mas não só. Bernardo Telo Rasquilha sempre amou o desporto. E desafios. Sobretudo se forem positivos. Não é por acaso que já lhe chamam o "positive priest". Isto faz dele um dos "Papa-Léguas", rubrica que nasceu neste blogue para falar de quem se supera pelo desporto. Só que Bernardo também teve outra vida, antes de ser sacerdote, o que também lhe dá entrada na rubrica "Mudar de Vida". É o chamado dois-em-um. Mas já lá vamos.

Para começar, o começo - como convém. 

Bernardo é filho de uma lisboeta e de um alentejano. Os primeiros 20 anos da sua vida foram vividos numa espécie de mixórdia de locais. Na verdade, a sua vida toda tem sido assim. Nasceu em Lisboa. Até aos dois anos foi viver para o Alentejo, quando se mudou para o Rio de Janeiro. Dos 11 aos 16 regressou ao Alentejo. Dos 16 aos 21, Lisboa novamente. E depois Porto. Mas também Itália, Angola, Cabo Verde, Brasil. E hoje Espanha. Mas, como missionário, talvez se possa dizer que Bernardo é do mundo inteiro.

Quem o conheceu em jovem poderá ainda hoje beliscar-se ao relembrar que se tornou sacerdote. Há factos que, de tão improváveis, podem obrigar quem se vê perante eles a pequenas flagelações que certifiquem tratar-se da realidade e não de um sonho qualquer. Bernardo jogou râguebi até aos 21 anos. Estava no 2º ano de Gestão, vivia sozinho em Lisboa, e gostava significativamente da noite, com tudo o que a noite associada à vida académica traz consigo. Bebia bem, divertia-se muito, dormia de dia, tudo aquilo que muitos de nós relembramos (com alguma saudade, até). Se lhe dissessem, nessa altura, que ia tornar-se missionário, era coisa para se ter atirado para o chão a rir.

Mas a realidade supera a ficção, tantas e tantas vezes. E aqui também.

Preocupados com o rumo do filho (que, diga-se a bem da verdade, não era propriamente digno de preocupação, era só o rumo mais ou menos típico), os pais pediram-lhe que fosse a um Encontro Internacional de Jovens, em Valência, realizado pela Fraternidade Missionária Verbum Dei. Bernardo respondeu que nem pensar, já tinha férias combinadas, que raio de ideia era aquela. Mas o pai pediu-lhe com algum dramatismo, quase como uma súplica, e - já se sabe - um bom filho tem dificuldade em negar uma súplica paterna. Juntou três amigos do râguebi e foram. 

Separaram-se o mais depressa que puderam do grupo de jovens, que decidiram definir como "uns chatos" sem sequer se darem ao trabalho de os conhecer e preparavam-se para seguir caminhos distintos quando o pai de Bernardo voltou à carga e lhe pediu (em tom de suplica, de novo) que experimentasse ficar com eles apenas um dia. "Dá-lhes ao menos uma oportunidade". Bernardo, mais por bondade do que por vontade, assentiu. Mal sabia ele que a sua vida estava prestes a mudar radicalmente.

"Foi quando ouvi uma rapariga dar o seu testemunho. Ela não era missionária mas falou sobre como o amor de Deus a fazia mais feliz. E aquilo tocou-me porque eu vi que era autêntico. Até então a ideia que tinha era que a Igreja era moralista e que Deus era distante. Mas vi o brilho no olhar daquela rapariga e pensei: ela tem qualquer coisa que eu não tenho. E, a partir daí, fui à procura de respostas para aquela inquietação boa que surgiu." Um ano depois, Bernardo fez um retiro que o marcou de forma indelével. "Foi a primeira vez que senti que Deus não era abstracto. Eu não o vejo mas experimento o seu amor louco. Estava acostumado a que as minhas alegrias viessem de fora, de algo exterior a mim. Ali experimentei a alegria que nascia de dentro. Foi fascinante. Magnético."

Bernardo começou a animar um grupo de jovens e, entre as actividades que tinham, havia o voluntariado. Sentiu-se especialmente bem a fazer algo pelos outros. Tão bem e de modo tão intenso que começou a compreender que o seu caminho teria de passar por aí. Quando decidiu, por fim, enveredar pela vida missionária, os mais próximos levaram as mãos à cabeça. Só podia ter ensandecido. A mãe começou por achar precipitado mas acabou por - como fazem as mães - querer apenas que fosse feliz. A sua fé levou-a a apoiá-lo sempre. O pai enfiou-se no escritório a pensar e, depois de uma reflexão, entregou-lhe um livro com uma dedicatória especial que dizia, em traços gerais, que ele podia contar sempre com o seu apoio. Alguns amigos prognosticavam uma mudança de rumo mais rápida do que o diabo a esfregar o olho. "Não te dou nem 3 meses para estares de volta". Já lá vão 23 anos. 

Largou o curso de Gestão e fez o negócio da sua vida, entrando para outro tipo de Gestão, a de potenciar a espiritualidade humana, a de dar aos outros o melhor, fazendo-os encontrar também o melhor de si. Corria o ano de 1994. Começou a sua formação em Teologia, seguiu-se o mestrado também em Teologia e, depois, quando já era capelão no Porto, fez o curso de Psicologia. No seu caminho, passou por Espanha, Itália, Angola, Cabo Verde, Brasil, Portugal. Entre 2011 e 2016 foi formador de grupos de missionários em Madrid, dedicou-se à angariação de fundos para ajudar a suportar a comunidade e também dava aulas.

Este ano, deixou de ser formador. Apoia a paróquia em Madrid, dá aulas, e especializou-se na angariação de fundos. O ritmo intenso começou a fazer-se sentir. Bernardo, que tinha sido jogador de râguebi, acusou a falta do desporto. "Comecei a deixar de viver o momento presente - fazia uma coisa já a pensar na outra. Estava em stress e senti necessidade de fazer desporto a sério. Havia um missionários que começou a fazer maratonas e, contagiado por ele, em 2014 fiz a Meia-maratona de Madrid e adorei, principalmente porque me obrigou a uma preparação contínua. Funciono muito por metas e, a partir do momento em que me inscrevo, tenho mesmo de treinar. Voltar ao desporto ajudou-me a limpar a cabeça."

Pensou então fazer uma maratona. Mas os joelhos, muito massacrados por anos de râguebi, não se compadeceram da ideia. E então experimentou o triatlo. Em 2015 fez o Sprint (750 metros de natação/ 20 km de ciclismo/ 5 km de corrida), em 2016 completou o Olímpico (1500 metros de natação/ 45 km de ciclismo/ 10km de corrida). E, este ano, surgiu o Challenge de Lisboa. O objectivo? Fazer a distância de Half IronMan (1900 metros de natação/ 90km de ciclismo/ 21km de corrida) mas aliando o seu desafio pessoal à angariação de fundos para a sua comunidade, mais concretamente à formação de 14 missionários nos Camarões. Houve uma série de pessoas e empresas que gostaram do projecto e que quiseram aliar-se a ele, nomeadamente Carla Sacramento, atleta olímpica portuguesa que participou em quatro olimpíadas e foi campeã do mundo dos 1500 metros no Campeonato do Mundo de Atenas em 1997. A atleta gostou da ideia e disponibilizou-se para ser a coach de Bernardo. De destacar também o apoio do PaRK International School e da JLL que apoiaram desde o início a iniciativa e a causa missionária.

E assim foi. Depois de vários meses de treino, no dia 7 de Maio este "positive priest" (padre positivo) tornou-se um Half IronMan. E ficou mais perto de conseguir que se concretize o projecto "De África para o Mundo". Porque para este homem (que só é metade de ferro na parte desportiva, porque é de ferro por inteiro no que toca à vontade) não há impossíveis. Basta olhar para o seu caminho.

 

O que é o projecto?

O projecto “De África para o mundo” aposta na formação prática de 14 missionários em Yaoundé para que se dediquem a trabalhar com crianças e jovens locais, aos quais facultam apoio social, escola de valores e catequese, procurando, também, ajudas económicas e providenciar o ambiente oportuno para todos os que queiram ir para a universidade, defendendo a dignidade de cada um e ajudando a potenciar os seus dons e talentos ao serviço da sociedade. A Verbum Dei trabalha ainda na formação de líderes para que mais tarde possam, também eles, dedicar-se a trabalhar com crianças e jovens daquele país. “De África para o mundo” é um projeto de 2 anos que começou em Outubro de 2016 e termina em julho de 2018. Para o poder concretizar, a Verbum Dei necessita de fundos na ordem dos 24 mil euros.

 

Como ajudar?

Todas as ajudas serão bem-vindas e podem ser dadas através de donativos por transferência bancária (Millennium BCP (Portugal) / Titular: Fraternidade Missionária Verbum Dei / NIB 0033-0000-45476170404-05 / IBAN: PT50-0033-0000-45476170404-05 / BIC: BCOMPTPL) ou através da área de donativos do site da Verbum Dei, www.creaverbumdei.org, recorrendo ao sistema Easypay. Apoio importante será também acompanhar e partilhar a actividade do Bernardo na sua página de facebook (Bernardo Telo Rasquilha) – especialmente os posts sobre os treinos e outros pormenores relacionados com a sua participação no Challenge Lisboa.

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Em Reportagem (Mudar de Vida #4: Julien)

Saímos de Lisboa, eu e a Raquel Brinca, rumo a Coimbra, com o objectivo de entrevistar uma pessoa que mudou de vida (e cuja história já publicámos AQUI). Fizemos então a entrevista, almoçámos em Coimbra e, de seguida, metemo-nos no carro e fomos à procura da aldeia de Podentinhos, porque queríamos conhecer e conversar com o último morador da aldeia, um idoso a quem o município de Penela andava a testar a entrega de comida por via de um drone (notícia AQUI).

Perdemo-nos, andámos às voltas, e ao fim de um bom bocado lá demos com uma casa rodeada por ruínas, no meio do nada, que calculei que pudesse ser a casa do senhor Joaquim. Bati à porta mas... ninguém abriu. Ficámos ali a fazer barulho, a ver se assomava alguém à porta, mas não. Nada. De repente, ao olharmos em frente vimos uma placa a dizer "Parking". Como assim, Parking? Parking do quê se ali não havia nada? Metemo-nos no carro e fomos espreitar. Outra placa a dizer "Uxa Paraíso. Open Air Hotel". Vimos várias auto-caravanas e roulottes, espalhadas pela serra, uma casa de pedra, em construção, algumas pessoas. Saí do carro e perguntei se ali era Podentinhos. Que sim. Indaguei pelo senhor Joaquim. "O senhor Joaquim está doente e a viver em casa do irmão". Ah. Então e isto aqui, é o quê? É um hotel ao ar livre. Ah. Você não é português, pois não? Não, sou francês e estou aqui a construir isto. Hummm... Podemos conversar?

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Foi assim que, em vez de entrevistarmos o único habitante idoso de uma aldeia, acabámos a conhecer um francês que decidiu mudar de vida e estabelecer ali o seu projecto, o seu sonho. Ali, em Podentinhos, uma aldeia perdida na serra do Espinhal (se não estou em erro). 

Julien tem 38 anos. Francês, parisiense, engenheiro térmico. Cansado do corre-corre da sua vida, do stress, da agitação da cidade-luz. Julien tinha o sonho de abrir um parque de campismo há uns 10 anos. A paixão pelas autocaravanas era ainda mais antiga. "Quando eu era criança, o meu pai comprou uma Pão de Forma e andámos três meses, em família, a percorrer a Califórnia e a Flórida. Eu tinha 3 anos e a minha irmã um ano e meio (só mais tarde nasceu o meu terceiro irmão). Aquela viagem marcou-me e acho que o bichinho das autocaravanas nunca mais me saiu. Comprei a primeira quando tinha 18 anos. Aquela ambulância alemã antiga que ali está foi a minha terceira. Sempre andei a descobrir França e a Europa de autocaravana. Quando descobri a Croácia pensei: é aqui. Vou construir aqui um parque de campismo."

Mas a Croácia ainda ficava longe e, em 2008, Julien conheceu Portugal. Entrou pelo Norte, seguiu até ao Porto e continuou pela costa até Sagres. "Pensava que seria parecido com Espanha mas não. Gosto muito mais de Portugal, é mais autêntico. Fiquei a achar que tinha finalmente encontrado o país certo."

Quando chegou a Paris, depois dessas férias, o chefe quis terminar o contrato. E ele, em vez de sentir tristeza, sentiu alívio. "Tinha a cabeça cheia de sonhos e pensei que era chegado o momento de cumprir a minha aventura."

Julien saiu então de Paris, com a sua autocaravana, e veio para Portugal como voluntário. "Fazia vários trabalhos e recebia comida em troca. Ganhava experiência. E dois anos depois, decidi que tinha de encontrar a minha própria terra, para me fixar. Pensei no Alentejo, mas achei calmo demais. Depressivo. Depois de alguns meses, abri o mapa, vi Lisboa, vi Porto e pensei: algo que fique a meio caminho! Coimbra! Vi a serra. Vim até aqui e, uma semana depois, encontrei este terreno, com a casa. Estava à venda por um bom preço e a topologia era a ideal - se repararem faz uma espécie de anfiteatro. E assim foi."

Comprado o terreno, em 2015, foi preciso limpá-lo e, com o projecto de um arquitecto aprovado na Câmara, começar a construir as plataformas de madeira onde, no Verão, se montam as tendas e onde uma das roulottes está assente. Também foi preciso construir os telheiros e os caminhos. As roulottes e as autocaravanas têm casa-de-banho, chuveiro e água quente. Com ele, estão voluntários de vários países, que fazem exactamente como ele, em tempos, também fez. Trabalham a troco de comida e dormida. Neste momento são todos alemães mas, em Dezembro, havia 1 israelita, 1 americano, 1 inglês e um italiano. 

O primeiro ano foi deprimente. Durante o Inverno, sempre que chovia a cântaros, Julien ficava fechado dentro de casa, sozinho com as suas dúvidas: será que isto é uma loucura? Alguma vez isto será possível? Estarei a gastar todas as minhas economias para nada?

No Verão passado, Julien abriu ao público. Chamou ao seu projecto Uxa Paraíso, porque consta que, no meio da serra, aquele vale tem o nome de Vale da Uxa. Ainda longe de estar como ele o sonhou, teve casa cheia. Belgas, holandeses, ingleses. 30% da ocupação fez-sede portugueses, amantes da vida ao ar livre, ávidos de silêncio, o silêncio que Podentinhos tem para dar e vender.

A casa onde vive vai ser ampliada e Julien também quer construir um bar que tenha refeições ligeiras para disponibilizar aos hóspedes deste "open air". Faltam outros detalhes mas, com tempo e paciência, vão-se construindo. Devagar se vai ao longe.

A família de Julien apoiou-o sempre (ainda que, lá entre eles, até possam achar que não joga com o baralho todo). Vivem todos em Paris, pai, mãe e irmãos. "Não sinto nenhumas saudades de Paris. Nenhumas. Aqui estou em contacto com a natureza e acabo por ter mais contacto com pessoas do que tinha em Paris. Numa grande cidade pode ser-se mais sozinho do que aqui, na solidão desta serra. E em Penela, que está aqui ao lado, há quase tudo. Agora só quero continuar a construir o Uxa Paraíso para ficar pronto para a primavera e o verão. Espero ter cá muitas pessoas, neste paraíso na terra que é meu, mas que sabe ainda melhor quando é partilhado com outras pessoas."

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Fotografias: Raquel Brinca, HUG

 

Visite e saiba mais sobre este Open Air Hotel aqui: uxaparaiso.com

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Mudar de vida #3: Ana Varela

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Quem diria? Quem havia de dizer? Que a bióloga havia de dar lugar à lojista, que a cientista havia de se render à fantasia, que a investigadora podia arrumar a seriedade e dedicar-se à brincadeira e ao sonho? Quem diria? Quem havia de dizer?

Mas assim é. Assim foi.

Ana Varela tem 31 anos. Fez o curso de Biologia, em Coimbra, sem grande convicção. Seguiu-se o estágio em Biologia Celular. Ela, que tinha horror a ratos, avisou: "Tudo menos ratos". Teve azar. Na primeira semana, logo ratos. Pensou "isto não vai correr bem". Mas correu. Os colegas manuseavam os animais, chamavam-na no final. Claro que, pelo meio, faziam as brincadeiras da praxe. "Podes vir, Ana!" E a Ana vinha e havia ratinhos à solta na sala e gritos que os faziam perder-se de riso.

Com o passar do tempo, Ana aprendeu a gostar do trabalho em laboratório, e havia de ser boa no que fazia porque foi proposta para Doutoramento, candidatou-se às bolsas da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) e conseguiu. Escolheu um projecto para trabalhar durante 4 anos, o único do laboratório só com animais, quase nada de linhas celulares: "O projecto consistia em mimetizar uma cirurgia ao fígado, onde fazíamos um período de isquémia e reperfusão, com estratégias de redução do impacto da isquémia no fígado." Perceberam? Pronto. Falamos deste nível de conhecimento científico. 

Correu tudo muito bem e, depois de mais um ano de laboratório, a melhorar o currículo, Ana Varela conseguiu mais uma bolsa de pós-doc. Uma bolsa de três anos. Porém, ao fim de um ano, fechou a porta. Ou talvez seja melhor dizer: bateu com a porta. "O mundo da Ciência e da Investigação é muito competitivo. Há uma pressão incrível. E houve um dia em que olhei para a minha vida e pensei que não queria aquilo para mim. A vida, para mim, é mais do que o laboratório. Queria ir ao cinema, queria jantar fora, queria viajar, queria... viver!"

E assim, em Abril de 2015, saiu. Os pais apoiaram-na no momento da ruptura mas, depois, fizeram o que os pais fazem: aconselharam calma, temperança, cabeça fresca. Ana era Bióloga, estava envolvida em projectos científicos de grande complexidade, com moléculas e células à mistura, o laboratório onde estava trabalhava num projecto com a Fundação do Michael J.Fox... o que mais podem pedir uns pais? A filha tinha estudado tanto, trabalhado tanto para chegar ali. E agora largava tudo para fazer o quê?

Para viver. Não parece pouco, escrito assim. Resumido assim.

Em Outubro de 2015 nasce, então, a Lato Latinho. Uma loja de brinquedos e de artigos de festas infantis que pretende ser mais do que isso. "Um cantinho mágico onde ratinhos são príncipes e há bailarinas que são coelhos, onde lemos histórias, inventamos histórias e fazemos parte delas. Temos tido actividades para os mais pequeninos: apresentação de livros, hora do conto, conversas com cientistas... para que venham aprender e sorrir connosco! Porque não há nada melhor que brincar, sorrir...ser feliz!"

Nada a ligava ao universo infantil. Não é mãe, não tem sobrinhos, nada. Mas sentiu um apelo imenso pela fantasia, quase como se precisasse de um regresso ao imaginário, tão contrastante com o seu eu científico. A ciência trocada pela fantasia. A objectividade transformada em sonho. Já o nome "Lato Latinho" estava escrito no destino. Aliás, estava escrito na sua própria infância, pelo que fazia todo o sentido trazê-lo até este renascimento da menina por detrás da cientista. "Quando eu era pequenina não dizia os "erres". Substituía-os por "éles". E na terra onde nasci, em Valado dos Frades, toda a gente brincava com isso. Até que me ensinaram uma ladaínha, para eu aprender a dizer os "erres". Era assim: Se eu fosse um rato ratinho/ roía a tua roupa/ dava mais um saltinho/ e dava-te um beijinho na boca. Ora, eu não dizia "rato ratinho" mas sim "lato latinho". E as pessoas mais próximas começaram a tratar-me assim. Quando andava a pensar em que nome dar à loja, fui a uma loja lá da terra e a pessoa que me atendeu disse: "Então, Lato Latinho, o que vai ser?" Pronto. Fez-se luz."

Mas não há apenas esta curiosidade, do nome da infância recuperado agora que quis recuperar o seu lado infantil. Há também a questão dos ratos, a que tinha pavor, dos quais fugia no laboratório, agora transformados em reis no seu mundo de fantasia. Se isto não é um belíssimo e metafórico ajuste de contas com a vida... não sei então que será. 

Quem diria? Quem havia de dizer? Que era possível trocar as voltas ao destino de forma tão inesperadamente poética. É científico: a felicidade vale mais do que qualquer Ciência.

 

Lato Latinho: Avenida Afonso Henriques 32, Coimbra.

https://www.facebook.com/LatoLatinho/

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Fotografias: Raquel Brinca, HUG

Mudar de Vida #2: Sara Esteves

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Não fora a falta de coragem para ver sangue e Sara Esteves era capaz de ter seguido Medicina. Gostava da área da saúde, gostava da ideia de poder curar quem precisasse de cura. Assim sendo, e olhando para as opções disponíveis, escolheu Fisioterapia. Era também uma forma de curar mas mais limpa, sem sangue à mistura. E assim foi. Durante 10 anos endireitou pessoas, ajudou-as a recuperarem movimentos, posturas, flexibilidades perdidas. Primeiro em clínica privada, depois em ambiente hospitalar. E foi justamente o ambiente hospitalar que lhe trouxe o desencanto com a profissão que escolhera. Não só pelo facto de o sistema que temos estar mais orientado para a doença do que para a saúde, como pela questão da precariedade profissional: "A dada altura, exigiam cada vez mais e davam cada vez menos em troca. Cortaram o vencimento e as condições de trabalho eram realmente péssimas."

Insatisfeita, quis aprender outras coisas, encher-se de uma felicidade que, claramente, ali lhe principiava a faltar. Uma amiga falou-lhe nos cursos do Instituto Macrobiótico de Portugal (IMP) e ela, sem sequer perceber porquê, inscreveu-se logo no curso anual. Podia ter feito um daqueles cursos mais curtos mas não. Inexplicavelmente, atirou-se ao de um ano: "Quando cheguei a casa só pensava: mas porque é que eu fiz isto? E se não tiver nada a ver comigo? Vou ficar um ano ali agarrada?"

Logo no primeiro módulo do curso (que decorria entre as 10h e as 15h de um fim-de-semana por mês), Sara conheceu Francisco Varatojo e foi apresentada a uma nova filosofia de vida em que o ser e o pensar e o agir devem estar em conformidade, para que haja equilíbrio. O que ouviu fez-lhe tanto sentido que foi como se sempre tivesse o sabido mas estivesse esquecida: "Foi como se tudo aquilo me fosse estranhamente familiar. Foi como recordar algo que estivesse meio nublado. E, de repente, fez-se luz. Tudo encaixava."

Na semana seguinte, no hospital onde continuava a trabalhar como fisioterapeuta, queriam que assinasse um papel onde aceitava fazer mais 5 horas semanais pelo mesmo vencimento. E Sara, que já tinha iniciado a mudança de paradigma, não conseguiu assinar: "Com base no que já tinha aprendido pensei: se eu sinto que não devo assinar então não assino mesmo." Quinze dias depois foi despedida. Ficou apenas com o trabalho na clínica privada.

Entretanto, terminou o curso de cozinha e, apaixonada por tudo o que aprendera, meteu-se logo de seguida no Curso Curricular de Macrobiótica (está agora no 3º e último ano). A vontade de ter um negócio seu, que passasse por esta nova filosofia de vida, começou a ganhar sentido. Entretanto, em conversa com uma amiga, com o namorado e com a irmã a ideia tomou forma. Encontraram o espaço certo, na Ericeira, onde viviam, em Julho Sara despediu-se da clínica e, em Agosto de 2015, o BeU abriu. O BeU é um espaço que tem produtos biológicos, terapias alternativas, cozinha macrobiótica e estúdio de Pilates. É um espaço "do bem", que visa ajudar quem o procura a viver uma vida mais saudável, sustentável e equilibrada.

Hoje, Sara Esteves é chef de cozinha macrobiótica e faz refeições para take away: "Por 9,5€ os clientes levam sopa, prato principal e sobremesa." Mas Sara faz muitas outras coisas: "Descobri o verdadeiro significado de ser pequena empresária: faço limpezas, contabilidade, gestão de stocks, atendimento ao cliente, compras, parte comercial, cozinho refeições... mas adoro. Sinto-me muito realizada. A minha família sempre me apoiou, a mim e à minha irmã, que também trabalhava em ginásios e agora está aqui comigo. Antes, não tinha tempo para nada. Estava todo o dia fechada, nem sabia se chovia ou fazia sol. Tinha de fazer desporto todos os dias, senão parecia que rebentava de stress. Hoje tenho tempo para ir ver o mar, tenho uma vida muito mais calma, saudável... deixei de sentir aquela necessidade doentia de fazer desporto, que tinha a ver com o estado de nervos em que andava. O mesmo com o açúcar. Tinha uma dependência louca de açúcar, claro. Para me compensar. Hoje não preciso. Não tem comparação o equilíbrio que passei a ter."

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Fotografias: Raquel Brinca, HUG

 

Mais sobre o BeU AQUI.

 

 

O primeiro "Mudar de Vida" contava a história de Andreia Costa, uma enfermeira que deixou a Enfermagem para criar um hostel para famílias (AQUI).