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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Conta-me #5

O corredor comprido. Vozes desconexas. O perturbante perfume do éter. Batas brancas e diagnósticos incompreensíveis. Luzes. O bater do coração. E o medo. 

O medo.
«Um brinde a nós, o sexo forte». Marta, a mais extravagante das cinco. Sempre gostou de provocar, contar anedotas porcas ao pé de velhinhas católicas. Dizem que um dia apalpou um padre, mas no grupo nunca se chegou verdadeiramente a saber se teve atrevimento para tanto. Os copos bateram uns nos outros com estrépito, ameaçando a integridade do cristal. «Olhem, os gajos da coleira já estão a rosnar». Referia-se aos empregados de mesa, irrepreensivelmente aprumados, de colete e Iaço ao pescoço. As gargalhadas do grupo das quintas-feiras despenteavam-lhes a sobriedade. «É espantoso como os tipos se sentem importantes e finos só por terem um fato engomado! Depois saem daqui e vão de autocarro para casa, a contar as gorjetas». As amigas não resistiam à sua rebeldia indomável. E riam. Margarida ria sempre muito às quintas. E a essa hora, a essa fatídica hora, ria também. Como podia rir? Como podia não ter sentido?

Nessa manhã, Margarida Rebelo acordou à hora do costume. O rádio aos gritos, como sempre. O marido a segredar-lhe «São horas», como todos os dias. Levantou-se a praguejar, frases desordenadas sobre o Euromilhões que não havia
meio de lhe sair e a tristeza de passar toda uma vida a trabalhar para os outros. Enfim, uma manhã idêntica às demais.

João dormia destapado, um pé a sair da cama. A mãe gostava de o ver dormir. Ficava muitas vezes assim, na ombreira da porta, com a caneca do café quente na mão, a escutar a sua respiração profunda. Parecia-lhe impossível que aquele matulão de um metro e oitenta tivesse realmente nascido de si. Comovia-a olhá-lo, como fazia 18 anos antes, quando ele era só uma nesga de gente. Nessa manhã, Margarida não o espreitou. Estava atrasada e não o espreitou. Não há dia que passe sem que se arrependa. 

"Minha senhora, vai ter de ser forte". Palavras desprovidas de sentido. As pernas fracas. Forte? "O seu filho está em coma". O bater do coração. O medo. E agora?

E agora?

"Sabem qual é a diferença entre uma loira e um mosquito?" A Marta, de novo. Talvez a pessoa com maior habilidade para contar anedotas. Tinha a magia de transformar uma graçola desenxabida numa piada de chorar a rir. "O mosquito quando leva uma pancada pára de chupar!" Na mesa ao lado há quem se volte ostensivamente, mostrando desagrado, homens de fato e gravata que fecham negócios, homens de fato e gravata que parecem nunca ter esboçado um sorriso sequer. Marta não controla as gargalhadas vibrantes. Os copos cansam-se dos brindes, tantos brindes. "Ao sexo forte", à felicidade, ao Euromilhões, à amizade. E as barrigas magoam de tanto riso, como no áureo tempo da faculdade, em que eram conhecidas como "As Cinco". Só quando estão juntas conseguem alcançar a leveza conferida pela irresponsabilidade. Só durante os almoços das quintas-feiras experimentavam esse desatinado prazer do regresso à juventude.

A impossibilidade. A impotência. Em coma? O corredor comprido. Luzes. O odioso cheiro do éter. O Pedro a chegar de lágrimas nos olhos. Os dois abraçados na mesma incredulidade. Como é que ele está? O bater descompassado de dois corações. O medo.

João tinha escolhido o horário da tarde na faculdade. Os pais tentaram dissuadi-lo, "E durante a manhã, o que é que vais fazer? Dormir?" mas ele teimou que não, estudaria de manhã com a cabeça fresca - sabia usar expressões que convenceriam os pais e "cabeça fresca" era uma delas - e depois ocuparia toda a tarde com as aulas. Foi assim no primeiro mês. Do segundo em diante passou a dormir todas as manhãs, a chegar atrasado às primeiras aulas, a sair todas as noites. A mãe sossegava o pai: "Deixa-o. Está na idade."

Nesse dia, João dormiu até tarde, como habitualmente. Acordou em sobressalto, passou fugazmente por baixo do chuveiro, vestiu uma t-shirt e umas calças de ganga, pegou na mota e arrancou à pressa, a mão a acenar à dona Ana. Foi a última vez que a porteira do prédio viu o seu Joãozinho. "Vá com cuidado, menino. Vá com cuidado!", gritara-lhe ela, no segundo imediatamente anterior a vê-lo a sumir-se.

Na 2ª circular, trânsito parado. À uma da tarde, três filas de automóveis estáticos, cabeças de fora dos vidros em busca de razões, sirenes ao fundo.

À saída do restaurante, Margarida a tentar caçar o telemóvel, submerso no interior da mala. Uma mão às apalpadelas, carteira, caixinha das pinturas, agenda, chaves do carro, chaves de casa, escova do cabelo. O telemóvel submerso, o toque abafado e incessante, a mão num desespero de escavadora.

Em Benfica, a porteira a varrer o terraço, a cumprimentar a vizinhança, a comentar a vida alheia, "Sabia que o sr. Mário já não está com aquela rapariga, a Adelaide?", "Não me diga...", "Digo, digo. Aqui para nós, que ninguém nos ouve, também parece que ela era assim a modos que um bocado nervosa...", "Ah, sim?", "Não lhe contaram o que é que ela fez na semana passada?"

"Minha senhora, vai ter de ser forte." Palavras. Palavras avulsas, vazias de significação. As pernas fracas. Forte? "O seu filho está em coma." O bater do coração. O medo. E agora?

E agora?

Margarida a alcançar o telemóvel, teimoso. "Está? Sou sim".

Pedro numa reunião no escritório. A sala cheia, dez homens parecidos com os engravatados do restaurante onde Margarida e as amigas regressavam à juventude, projectos, discussões, cafés em cima da mesa.

Os carros a passar devagarinho, os olhares curiosos e mórbidos à procura de sangue, João inerte no asfalto, a mota debaixo de uma camioneta, um homem de mãos a agarrar a cabeça. Ambulâncias, bombeiros, polícia.

"Dona Margarida Rebelo?" "Sou sim", "Fala do Hospital de Santa Maria, vou pedir-lhe que tenha calma". Margarida em pânico, o coração num disparo, o medo. "O que foi? O meu filho, onde está o meu filho? O que aconteceu ao meu João?"

A dona Ana apoiada na vassoura, à conversa com a porteira do prédio ao lado.

Pedro a receber um telefonema, "Eu disse-lhe que não me passasse chamadas, Cláudia". Cláudia a morder o lábio num pedido de desculpa. "Desculpe, Dr. É a sua mulher. E está muito nervosa."

As cinco amigas a grande velocidade para o hospital, Margarida aos soluços, o riso transformado em lágrimas, a alegria convertida em drama, no maior de todos os dramas imagináveis, a juventude metamorfoseada em velhice. Margarida subitamente envelhecida, engelhada, carcomida, senil.

O corredor comprido. Vozes desconexas. O perturbante perfume do éter. Batas brancas e diagnósticos incompreensíveis. Luzes. O bater do coração. E o medo.

O medo.

"Minha senhora, vai ter de ser forte." Palavras desprovidas de sentido. As pernas fracas. Forte? "O seu filho está em coma". O bater do coração. O medo. E agora?

E agora?

A impossibilidade. A impotência. Em coma? O corredor comprido. Luzes. O odioso cheiro do éter. O Pedro a chegar de lágrimas nos olhos. Os dois abraçados na mesma incredulidade. Como é que ele está? O bater descompassado de dois corações. O medo.

Durante dois dias, a esperança. Um fio ténue e invisível a permitir a sobrevivência. Durante dois dias, a fé. Durante dois dias, a luta de uma mãe e de um pai pelo regresso do filho. Margarida falou com ele quase ininterruptamente. Deu-lhe a mão. Afagou-lhe os cabelos. Pediu-lhe que ficasse. João não pôde ficar.

Já passou um ano mas a dor mantém-se intacta. E agora? Como existir depois de perder um filho? Para quê existir?

Naquela manhã, Margarida não o espreitou enquanto dormia. À hora do acidente, Margarida ria e brindava e tudo isso lhe parece agora demasiado grotesco. Como é que pôde não sentir? Como é possível que uma mãe não sinta no peito a dor instantânea da perda? A dor da dor de um filho?
Os dias teimam em passar, apesar de tudo. Dizem que a vida continua. Talvez. Se quisermos chamar vida à existência pura e simples. Se quisermos chamar vida ao acordar, ao respirar, ao levar um pé à frente do outro. Margarida e Pedro costumam dizer que não vivem. Subsistem. É essa a resposta de ambos para a pergunta que persiste ainda hoje, um ano depois. E agora?

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Conta-me #4

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Sim, acabou por não ser mau de todo. Quer dizer, não tem comparação com a casinha onde estavam antes, que isto é mesmo assim. Era uma gaveta forrada a madeira e veludo, não tinha ponta de humidade. Vi outras ao lado, abertas, todas cheias de musgo, a gente punha a mão e estava molhado. A dos meus pais não. Sequinha. Nem cheirava a mofo. Tinha de ver. Uma maravilha, realmente. Foi o Armando, nosso vizinho lá nas Paivas, que se ofereceu para fazer aquele serviço em honra aos meus pais que o ajudaram muito em vida. Que Deus os tenha em sossego, coitadinhos. Eram boa gente. Sempre prontos para ajudar. O Armando também não era mau rapaz, o que é que tinha a cabeça fraca para o vinho. Começava a beber e depois pronto, estava tudo estragado. Faltava ao emprego, não aquecia o lugar muito tempo. Andava à pancada nos cafés, na rua, em todo o lado. Volta não volta aparecia com um olho à banda. Então, Armando, o que foi isso rapaz? Ó ti Júlia - ele tratava-me sempre por ti Júlia, coitadito - Ó ti Júlia caí. Ai, rapaz, muito cais tu. Ele ria-se. Daí a tempos, outro olho. Então, Armando? Caíste, foi? Tenho o pé pequeno, ti Júlia, isto para o equilíbrio é o diabo! Eu ria-me. Desgraçava-se, coitado. Diz que nem sempre foi assim. A Odete, do 36, diz que foi desgosto. Parece que a mulher o deixou, que o trocou pelo irmão. Diz ela! Que eu não ouvi pela boca dele, nem vi nada, não sei. Mas se assim foi também não se faz. Um irmão roubar a mulher a outro? Também é chato, coitado do homem. Não sei se foi isso ou não e agora também já não posso perguntar-lhe, que já não está entre nós. Sim, há coisa de uns meses levou uma pancada de um carro - bêbado que nem um cacho - e ficou-se logo ali, como um passarinho. Pobre diabo.

Bom, mas de uma coisa não há dúvida. Era muito jeitoso de mãos, o Armando. Foi um dia lá medir o espaço, comprou a madeira, o veludo bordeaux. Ficou um primor. Por isso, sim, quando nos disseram que a porta da gaveta não tinha arranjo e que tínhamos de encontrar outra para meter os meus pais fiquei arreliada, não vou dizer que não. Para ser franca, nem dormi nessa noite. Estas coisas mexem com a gente. Os meus paizinhos lá na sua gaveta, tão bem acomodados, e agora isto? Ter de os mudar, ter de os desassossegar. Os mortos querem-se em sossego. Não é cá para andar a mudar de casa, que muito já eles andaram em vida. Não é? A morte quer-se quieta.

Lá fui, então. Vesti o vestido preto e levei o lenço de renda na cabeça, também preto. Não consigo entrar de outra maneira no cemitério, acho que o preto é a cor do respeito pelos mortos. Mesmo que não estejamos de luto no dia-a-dia, porque aí temos de respeitar os vivos. Mas ali, na morada dos que já partiram, o preto é a nossa forma de lhes dizer que temos saudades. Comprei umas gerberas bonitas, uma mão cheia de gipsofila, prendi tudo com papel de alumínio e fui então à procura de uma gaveta livre que pudesse servir de nova morada aos meus pais, que Deus os tenha. Não sei explicar a razão mas sinto sempre o peito apertado, quando caminho por aqueles corredores com gavetas de gente morta. Levo sempre a cabeça baixa, quase como se tivesse medo. Disparate, não é? Medo de quê? A gente tem de ter medo é dos vivos, esses é que podem fazer-nos mal. Os mortos, coitadinhos, estão para ali em sossego e não podem fazer nada a ninguém, mas há coisas que não se explicam, até parece que sinto assim uma culpa por estar viva e eles não. Acho que é isso. Caminho como se pedisse desculpa. E como se estivesse triste, como se a vida não valesse assim tanto a pena, que é para os mortos não ficarem sentidos. Parvoíces minhas. Adiante.

Andei corredor acima, corredor abaixo, e nada. Só gavetas muito rentes ao chão, ia lá pôr os meus ricos pais ali? Numa gaveta tão em baixo, logo eles que sempre estiveram num andar alto? É tolice, claro. Eles não apreciam a vista. Ai, credo, Deus me perdoe, tanta parvoeira junta. Mas é assim que eu sou. Tenho estas manias. E digo sinceramente: ali, rente ao chão, não ia pôr os meus pais. Sujeitos a levar com toda a lixarada, as folhas, as porcarias todas? É que a gente sabe como é: não andam sempre a varrer. E depois? A sujidade toda a entrar na gaveta? Não. Pode parecer estúpido e admito que seja, mas relembro que os meus pais tinham uma gavetinha muito jeitosa, toda forrada pelo Armando, que era fraco para o vinho mas tinha umas mãos de ouro. 

Finalmente, já derreada das pernas e aflita dos joanetes, encontrei. É uma gaveta alta, está num corredor largo, um bocadinho mais afastado da entrada mas paciência, também não vou lá todos os dias. Não é a mesma coisa, que isto é mesmo assim. Falta-lhe o interior de madeira e veludo bordeaux, é fria, tinha algumas ervitas que já arranquei, mas pronto. O que não tem remédio remediado está. Já não há Armando para fazer o forro e, sinceramente, também não me sinto com forças para ir agora à procura de quem faça um trabalho como deve de ser. Sim, acabou por não ser mau de todo. Que Deus os tenha em sossego. Eram boa gente. E, já agora, que Deus não se esqueça também do Armando. E dos outros todos, que morrem. É triste morrer. Tão triste que a gente, mesmo que já não esteja de luto, continua a entrar de cabeça baixa nos cemitérios. Como se pedíssemos desculpa por estarmos vivos. 

Sónia Morais Santos

Conta-me #3

Foi logo depois do enterro. Caminhávamos ainda com os pés pesados, aquele andar arrastado de quem traz a dor presa às pernas, seguíamos entre ciprestes (sempre os ciprestes) com aquele silêncio condoído de quem traz também a dor agarrada às cordas vocais, e foi então que ela me perguntou:

- Tu sabes que o avô nunca foi mineiro, não sabes?

Engelhei o nariz, franzi o olhar como se me tivesse tornado míope e não conseguisse ver quem me fazia a pergunta.

- Hã?

Chamava-se Manuel Barriga, o meu avô, e viveu toda a sua longa vida na aldeia de Mina de São Domingos, concelho de Mértola, Alentejo profundo. Tinha sido mineiro. Vida dura, passada debaixo de chão. O mesmo chão onde o tínhamos deixado ainda agora, como que um regresso às origens.

Lembro-me de me sentar ao seu colo e de o ouvir contar as histórias de quando ia, com os outros, para os seus dias de escuridão. Acordava às cinco e meia da manhã, todos os dias. A mulher - minha avó - a essa hora já lhe havia feito o pequeno-almoço e a marmita para levar. Beijavam-se longamente porque a minha avó tinha sempre medo de não o tornar a ver. Findo o beijo, ele dava-lhe uma festa na cabeça, e dizia:

- Até já, minha loira.

Todos os dias isto. Como um guião a que tivessem de obedecer.

De seguida, o meu avô Manuel saía para a escuridão da madrugada, que ainda assim era mais luminosa que o negrume da mina.

A mina. Lugar de toupeiras. Cheiro a terra, a cobre, a medo. Gélida pela manhã, um braseiro quando o sol ia alto. Lá dentro, os homens-toupeira sabiam que o sol ia alto pelas gotas de suor que lhes deslizavam cara abaixo, corpo abaixo, acresentando ao cheiro a terra, cobre e medo também o cheiro ácido a calor e a esforço.

O meu avô contava as histórias da mina com uma intensidade dramática, gesticulando muito, levantando a voz, fazendo sons guturais que me povoavam os sonhos e os pesadelos e a infância inteira.

Lembro-me vividamente do relato da derrocada. Os homens todos ali, enterrados vivos, ofegantes, surpreendidos pela terra que os devorava, faminta. Uns ficaram soterrados, os outros, presos numa galeria, fizeram o que o desespero mandou. Uns prantaram-se de joelhos a rezar ("Alguns diziam-se ateus, António! Mas na hora do aperto... ai, na hora do aperto, sabiam as preces de cor!"), outros choravam pelos filhos, pelas mulheres, pelas mães. Poucos se mantinham homens, como antes. A maioria tinha como que regressado a um estado infantil, de uma fragilidade confrangedora. Aos gritos, aos saltos, a pedirem mimo, como numa birra de sono. O meu avô jurava que alguns haviam mesmo diminuído de tamanho ("não era só na altura, António, eles estavam como que reduzidos, mirrados, esvaziados deles mesmos").

- Hã? Como assim, "o avô não era mineiro"?

Dois dias ali metidos, sem saber se os iam conseguir salvar. Defecando no espaço exíguo, comendo nada, bebendo coisa nenhuma, vazios de esperança e de humanidade. Salvaram-se. O meu avô ficou manco de uma perna, a maior parte ficou manca da cabeça, com pesadelos, medos, angústias, choros. Homens para sempre feitos crianças, por culpa da terra. 

- O avô nasceu manco, António. Foi mal de nascença.

- Hã?

Foi então ali, entre ciprestes, que a minha irmã me disse palavras ao início incompreensíveis. O nosso avô nasceu com uma perna diferente da outra. Mais curta, mais estreita, mais fraca. Nunca andou direito, teve sempre de se amparar a duas canadianas para conseguir caminhar. Incapaz, nunca pôde trabalhar. Ainda para mais na mina, único posto de trabalho que a aldeia oferecia aos homens ali nados e criados. Trabalho para homens completos de pernas, braços, de corpo inteiro. De maneira que o meu avô passou a vida inteira a ver os homens passarem de manhã, beijando as mulheres e levando na mão as marmitas preparadas por elas com desvelo, para voltarem ao final do dia, mascarrados e exaustos, com cheiro a terra, cobre e medo. Encontrava-se com eles ao entardecer, na taberna do Arnaldo, para lhes sorver as histórias. Histórias de vidas duríssimas, que ninguém no seu juízo perfeito poderia invejar. E, no entanto, o meu avô daria tudo para ser um deles. Daria tudo para ter também aquela vida dura, feita de escuridão. Porque qualquer negrume seria melhor do que o seu, que era oco, estéril, seco. Inútil. 

Parei, entre ciprestes. Voltei para trás. Ajoelhei-me na campa do meu avô mineiro, limpei as lágrimas, e segredei-lhe:

- Chegaste a casa, finalmente, avô. Descansa.

 

Sónia Morais Santos

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Conta-me #2

Veste um pullover verde já muito coçado, borbotos naquele lugar do torso onde os braços roçam, uma ou outra nódoa antiga, camisa de quadradinhos por debaixo, calças de bombazina castanhas, sapatos de sola gasta comprados no Paraíso do Calçado, estabelecimento comercial onde já o pai comprava sapatos, junto à estação. Ernesto Augusto Pacheco, quando não veste assim, veste muito parecido a assim. Pullover azul já muito coçado, borbotos naquele lugar do torso onde os braços roçam, uma ou outra nódoa antiga, camisa de riscas por debaixo, calças de bombazina bordeaux, sapatos de sola gasta comprados no Paraíso do Calçado, estabelecimento comercial onde já o pai comprava sapatos, junto à estação. Mais coisa menos coisa, é isto. No armário, castanho e bordeaux. Nas gavetas da cómoda, verde e azul. 

Mas não é apenas no vestir que Ernesto Augusto Pacheco é reincidente e enfadonho. Ernesto Augusto Pacheco, revisor de profissão, é homem que aprecia a ordem e toda a gente sabe que a ordem é prima direita da repetição. Assim, no que toca às refeições, por exemplo, Ernesto Augusto Pacheco segue os análogos rituais há cerca de vários anos, procedimento que lhe confere segurança gástrica e alegria intestinal. O mesmo com os gestos, copiados todos os dias, os pés a saírem da cama enfiados nos chinelos de xadrês, primeiro o direito, depois o esquerdo; o roupão verde vestido de seguida, primeiro a manga direita, a seguir a esquerda; o escanhoar da barba a ecoar um som peculiarmente familiar, de baixo para cima, face direita primeiro, face esquerda depois; e por aí fora, numa mimese que outros suporíam impossível mas que para Ernesto Augusto Pacheco representava o prazer supremo da vida. Dia após dia após dia isto, sem tirar nem pôr, porque quer o tirar quer o pôr dar-lhe-iam cabo dos nervos.

Ernesto Augusto Pacheco vive sozinho desde que saiu de casa dos pais, aos 17 anos, tendo feito há pouco 52. Nunca se lhe conheceu mulher, namorada, namorado ou animal de estimação. Ao fim-de-semana, se tiver a sorte de não precisar de sair para comprar algum artigo de primeira necessidade, permanece mudo e quedo todo o sábado e todo o domingo, de tal forma mudo e quedo que, à segunda, quando volta a comunicar com outros seres humanos chega a sobressaltar-se com o som da sua própria voz.

E, em bom rigor, Ernesto Augusto Pacheco não precisa muito de comunicar com outros seres humanos. O seu trabalho é ler páginas e páginas e páginas de livros e livros e livros. Ou melhor, páginas e páginas e páginas de textos que virão a ser livros, depois de revistos por si e de impressos pela gráfica. Passa por isso dias e dias e dias a ler palavras e frases à cata de erros de ortografia ou de sintaxe, a examinar gralhas, espiolhando parágrafos em busca de uma vírgula a mais ou a menos, e rosnando impropérios ao encontrar uma calinada qualquer, malditos-pretensos-escritores-que-nada-sabem-da-língua-e-julgam-que é-só-meia-dúzia-de-patacoadas-e-cá-vai-livro-palavra-de-honra.

Um dia, que seguia igualzinho ao anterior e que por essa simples razão era já um dia suficientemente bom na vida de Ernesto Augusto Pacheco, calhou escutar uma conversa entre o Azevedo e a Lídia, que não haviam dado pela sua chegada (sinal inequívoco da falta de atenção de ambos à vida, uma vez que o colega chegava sempre à mesmíssima hora). Comentavam então os dois metediços a inexistência de uma mulher na vida do revisor, conjecturando sobre se isso faria dele homossexual ou tarado, quem sabe pedófilo ou desses que se sentem atraídos por animais. E dito isto riam, imaginavam coisas e riam alarvemente, com lágrimas e tudo. Não podia acreditar. Ernesto Augusto Pacheco sentiu um rubor subir-lhe às bochechas, o coração disparar, um suor frio percorrer-lhe as têmporas. Não sabia se o mal-estar era provocado pelas enormidades que acabara de escutar sobre si mesmo ou se pela contrariedade que sentia por aquele episódio lhe modificar o rumo do dia. Saiu da sala sem que dessem por ele, foi à casa de banho refrescar a cara e retomar o fôlego, e voltou procurando cumprimentá-los com o mesmo bom dia de sempre, com a entoação costumeira, e o facias usual, para que não lhe notassem qualquer diferença nos actos, nos gestos, no modo. Por dentro, porém, Ernesto Augusto Pacheco fervia. Mal conseguiu trabalhar, tal era a agitação que lhe ia dentro. Só pensava em formas de lhes provar o quão enganados estavam, em como ele era homem como o suposto, mais homem que o Azevedo, mais homem que o marido da Lídia, mais homem do que qualquer homem que aqueles dois já tivessem conhecido.

E foi assim que a vida de Ernesto Augusto Pacheco mudou. Passou os dias seguintes a criar uma conta de facebook - algo de que evidentemente não dispunha até então -, a convidar os colegas para serem seus amigos, a procurar na internet uma fotografia de uma mulher de beleza unânime, loira, voluptuosa, de lábios carnudos e olhar verde, e a criar-lhe também a ela uma conta de facebook. Uma noite, fez magia entre os dois. O seu facebook revelava que ele e a loira que baptizou de Laura estavam "numa relação". Sorriu de uma felicidade que não se lembrava de alguma vez ter vivido. Sentiu um frémito ao imaginar-se com aquela mulher de expressão lúbrica, e percebeu que o seu desejo talvez não estivesse morto, talvez apenas adormecido. Dedicou-se a fazer posts e respectivos comentários. Fotografias de um jantar a dois. Dois copos, dois pratos, uma flor. "Um jantar inesquecícel", escrevia Ernesto Augusto Pacheco. E ela, Laura, comentava "Sem dúvida, meu amor". Quando terminava de escrever o comentário da amada, o revisor sorria um sorriso sardónico e experimentava uma felicidade que o completava. Parecia que lhe explodia o peito. Proliferavam os corações, os "meu amor", os "adoro-te", as piscadelas de olho cúmplices. Ernesto Augusto Pacheco era, por fim, um homem aos olhos dos colegas, ainda incrédulos com o tamanho das novidades. Ernesto Augusto Pacheco era, por fim, um homem aos seus próprios olhos.

Sentia-se melhor do que nunca. Aquela relação fazia-lhe bem. Mudava-lhe o curso dos dias, o que se presumiria trágico mas se revelava, afinal, uma descoberta maravilhosa. Começou por sair da cama sem calçar os chinelos, sem vestir o roupão, sem passar a lâmina pela barba. Esquecia-se de preparar o galão onde devia mergulhar a carcaça com manteiga, como sempre. Entrava no serviço a sorrir ou a assobiar, conversava com as pessoas, deixava passar gralhas, uma ou outra vírgula, nunca os erros ortográficos, que até para o devaneio há limites. Comprou roupa nova, já não vestia o pullover verde já muito coçado, borbotos naquele lugar do torso onde os braços roçam, uma ou outra nódoa antiga, camisa de quadradinhos por debaixo, calças de bombazina castanhas, sapatos de sola gasta comprados no Paraíso do Calçado, estabelecimento comercial onde já o pai comprava sapatos, junto à estação. 

Ernesto Augusto Pacheco estava apaixonado. Laura era a mulher da sua vida, com os mesmos gostos pela leitura, os mesmos autores preferidos, a mesma forma correcta de escrever. Os dias eram tão diferentes agora. Tão alegres, tão cheios de surpresas e possibilidades. Já não se sentia sozinho, na profunda solidão da sua vida. E era um homem. Muito mais do que alguma vez havia sido.

Sónia Morais Santos

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 "Conta-me" é, como o nome indica (e não mente) uma rubrica de contos 

Conta-me #1

Imagino que me ache um monstro. Não, não, esteja à vontade, não lhe levo a mal. Eu própria às vezes olho para o espelho e digo, Maria Isabel, tu és um monstro. Depois há outros dias em que me desculpo, arranjo o cabelo, passo um rímel nos olhos, torno a olhar para o espelho e digo, Não, Maria Isabel, tu não és um monstro. Na verdade, era o melhor para todos.

O melhor. Ao que uma pessoa chega. Pensar no fim como o melhor. Parece impossível, é por isso que eu digo de mim paa mim, Maria Isabel tu não digas essas coisas a ninguém, tu fica-te com os teus pensamentos e nem te atrevas a comentá-los em voz alta, não vão as pessoas achar que não tens coração, que és má rês, que és um monstro. Mas depois também sinto necessidade de desabafar, compreende? No trabalho não falo, entro muda e saio calada, não gosto que saibam da minha vida, prefiro que não olhem para mim e pensem, Olha, lá vem a Maria Isabel, coitada. Sempre me afligiu essa ideia de ser uma coitada, mesmo sendo, como sou. E depois venho para casa e aqui fico. A romena que me ajuda fala pouco português, entendemo-nos quase só por gestos e pouco mais, é só: Violeta, a mãe comeu bem? Violeta, conseguiu dar-lhe os comprimidos todos? Violeta, onde é que está a minha camisola azul? Mas onde é que eu ia? Ah, sim, a necessidade de desabafar. Pois, também não é com a Violeta. Diga? Não... não... os meus filhos têm a vida deles. Chegam tarde a casa, metem-se no quarto e pronto. Mas também não me sentiria bem a desabafar com eles, afinal sou eu a mãe, eles os filhos, e não consigo dizer-lhes que estou cansada, que não aguento mais, que chego a desejar que isto acabe de uma vez por todas. Já viu se eles olham para mim e pensam, Mãe, tu és um monstro?

Mas agora diga-me. Olhe bem para ela. Quem não saiba até pensa que ela está ali entretida a ver a novela. É, não é? Mas a gente depois vem aqui, passa-lhe a mão diante dos olhos e ela, coitadinha, nem pisca. Tirando os dias em que está mais nervosa, em que parece que até espuma, valha-me Deus, é preciso a força de dois homens paa a agarrar. No outro dia, saiu-me para a rua sem a Violeta dar conta, só por milagre é que não foi atropelada, ia-me sem roupa, veja bem, uma senhora com 74 anos como veio ao mundo pela rua fora, foi aí um sarilho para a convencer a voltar para casa. Já viu o que isto é? Já viu o que é ligarem-me para o escritório e dizerem: a sua mãezinha fugiu de casa toda nua, andamos a ver se a apanhamos mas ela grita muito e debate-se e não há quem lhe deite a mão? Diga-me. Ponha-se no meu lugar e diga-me se isto é vida. Largo tudo, venho a correr, chego aqui e dou com aquele espectáculo, a minha mãe naqueles preparos, uma demente, e eu, Ó mãe, ó mãezinha, então?, venha para casa, vá, olhe que se constipa, tenha juizinho. As coisas que a gente diz. Juizinho...

E depois somos quatro nesta casa tão pequena, há dois anos que durmo encolhida, há dois anos que acordo vezes sem conta a meio da noite, há dois anos que ela se levanta ou grita ou então não diz nada e eu acordo sobressaltada a pensar: foi desta. O que e que sinto quando penso que foi dessa? É uma boa pergunta. Sinto... Quando vou no corredor a caminho do quarto atropelam-se-me os pensamentos: imagino-a morta e dói-me o peito, uma dor lancinante, um aperto muito forte, uma tristeza profunda. Sinto-me sozinha, percebe?, muito sozinha. Depois começo a pensar: ora então, ligar para a agência, arranjá-la, o que é que lhe visto?, o saia-casaco com que ela dizia que queria ir já não lhe serve, talvez lhe ponha a blusinha de seda e um casaquinho de malha. Imagine bem a patetice, vai-se rir, mas chego a pensar: ai, só o casaquinho de malha é pouco, vai mal agasalhada. Imagine ao que uma pessoa chega. Mal agasalhada... Ó Maria Isabel, a mãe vai morta, qual mal agasalhada! De que é que tens medo? Que se constipe? Ai , que isto até parece mal, estar aqui a rir-me que nem uma parva, mas é para rir. É para rir... Mas onde é que eu ia? Ah, o que é que eu sinto. Sinto medo, sim, sinto medo. Mas também sinto - e é aqui que me vai achar um monstro - também sinto alívio. Penso: olha, acabou-se. Descansa ela, descanso eu, descansamos todos. É isso, é. Um alívio, uma leveza, quase um contentamento. Não é fácil. Desculpe. Emociono-me muito. Pois é. Quer mais um cafezinho? Não? De certeza? E é assim. É assim a minha vida. Emagreci doze quilos desde que isto começou. As pessoas comentam, Ai a Maria Isabel está tão magrinha, está tão sumida... Depois há as que perguntam: Então a sua mãezinha? Está melhor? Melhor! Há alturas em que até sou bruta: Qual melhor? Isto tem lá melhoras? Isto é sempre a piorar, minha senhora. As pessoas fazem uma cara enfiada, encolhem os ombros e despedem-se com o inevitável: Então as melhoras. Já não digo nada. Desisto. De maneira que é assim. Há dias em que - sou muito franca - me sinto um monstro por desejar que isto acabe. Olho para mim e digo, Maria Isabel, tu és um monstro. Mas talvez não seja. Não sei. 

Sónia Morais Santos

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 "Conta-me" é, como o nome indica - e não mente - uma nova rubrica de contos