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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Os Papa-léguas #2 (Catarina Portela Morais)

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Ninguém diria que por detrás daquele corpo franzino, de aparência frágil, a que se soma - para cúmulo do estereótipo da delicadeza feminina - um cabelo loiro e olho azul, se esconde uma mulher de ferro. A designação nem é essa, é mesmo "homem de ferro" (Ironman). Ou seja, por detrás daquela aparência angelical está, em bom rigor, um homem de ferro. Ele há coisas do arco da velha.

Catarina Portela Morais tem 38 anos, é advogada, e sempre praticou desporto: corrida, ginástica, equitação, natação, hóquei em campo. Depois, casou aos 22 anos, teve filhos de seguida (aos 25 já tinha três, hoje tem quatro), e ficou cerca de 10 anos sem fazer nenhuma actividade desportiva. "O meu marido era da selecção de Rugby, eu tinha de ficar com as crianças, de maneira que foi só quando ele saiu do Rugby, há 4 anos, que decidimos começar a correr. Íamos correr juntos e ele queria sempre que eu corresse mais. Mas tinha dores nos joelhos, nas pernas, não conseguia."

Foi então que contactou o conhecido treinador António Nascimento que lhe perguntou qual o seu objectivo. O objectivo da menina franzina, nessa altura, não era muito ambicioso: "Quero correr 10km numa hora, na boa. Sem dores." E assim foi. Começaram a fazer treinos de reforço muscular, ao sábado corriam no Jamor, tudo isto em Junho de 2011, um calor de ananases e ela a desfalecer pelo caminho. Os 10km fizeram-se, vieram os 15km, e António Nascimento lançou um novo desafio ao grupo que tinha começado os treinos ao mesmo tempo: "O vosso objectivo agora é a Maratona do Porto".

António Nascimento há-de ter percebido quem tinha à frente. A loirinha de olho azul podia enganar muita gente mas não conseguia enganar quem há muito treina atletas para as mais variadas provas. Ali havia garra. Havia determinação, perseverança, ganas de superação. Em Novembro de 2011, cinco meses depois de ter começado a correr, Catarina Portela Morais fez os 42,195 km no Porto, em 4 horas e 30 minutos. "Fui muito disciplinada, levava os treinos muito a sério. Lembro-me, por exemplo, que faltei ao casamento de um amigo porque tinha de correr 28km e não podia beber nem comer excessos. Estava mesmo focada. Levei os filhos mais velhos para torcerem por mim, acabei a chorar, adorei. Achei mesmo espectacular. Passados uns dias estava a inscrever-me na Maratona de Paris, que é em Março."

Na Maratona de Paris, 4 meses depois, Catarina conseguiu bater o seu tempo em 15 minutos. E em 2012 fez 3 maratonas, vários trails e ultra-trails como a Ultra-Maratona Atlântica Melides-Tróia ou o Ultra Trail de Serra D'Arga (completou os 53km em 9h30m). Pelo caminho, recomeçou a nadar: "Era uma forma de não massacrar muito os músculos entre corridas. Para não parar completamente, nos intervalos comecei a nadar."

E, se já nadava, por que não meter-se no triatlo? Foi o que lhe perguntou o treinador António Nascimento, esperto, a saber de ginjeira que aproximar a chama a um pavio curto dá incêndio na certa, e que Catarina era, toda ela, vontade de encarar novos desafios e obviamente vencê-los. E assim, em 2013, Catarina nadou 1900 metros, pedalou 90km e correu 21km, terminando o seu primeiro half Ironman em seis horas. "Correu muito bem e continua a ser a minha prova preferida de todas." 

Ora, depois de atingir o primeiríssimo objectivo, que era correr 10km, depois de conquistar a maratona (repetindo a prova várias vezes), depois de fazer trails e ultra-trails, depois de chegar ao fim do Half Ironman... estava-se mesmo a ver que havia de lhe dar a vontade de se atirar ao homem-de-ferro por inteiro. Afinal, Catarina Portela Morais não é mulher de fazer as coisas pela metade. A inscrição no Ironman de Florianópolis (Brasil) foi, por si só, uma aventura: "Éramos uns 10 amigos, que começámos a treinar juntos e que íamos juntos embarcar nesta aventura. Só que todos sabíamos a dificuldade de conseguirmos inscrever-nos. É preciso estar com o dedo pronto na precisa hora em que abrem as inscrições. A minha irmã estava incumbida de inscrever o meu marido, eu ia inscrever-me a mim. Fomos os únicos que conseguimos, do nosso grupo. As 2000 inscrições esgotaram em 8 minutos. Foi uma loucura!"

Inscrita, treinou durante um ano. Nadou, correu, pedalou muito. Acordava por volta das 5.30 da manhã para treinar, trabalhava, ia buscar os miúdos e tratava deles, e ao final do dia voltava aos treinos. Muitas vezes pedalava das 19h às 22h, em casa, enquanto via televisão ou ajudava os filhos nos trabalhos de casa. Aos fins-de-semana nadava na Praia da Torre (Oeiras), corria, pedalava. "Foi um ano muito chuvoso, lembro-me de acordar às 5.30/6h e de chover a potes... pensava: lá vou eu, acabada de sair da cama quentinha, correr debaixo desta chuva toda! Às vezes custava." Leu e aprendeu muito sobre nutrição. Percebeu que estar bem alimentada antes e durane a prova é boa parte da chave para o sucesso.

E no dia 25 de Maio de 2014, em Florianópolis, Brasil, Catarina Portela Morais nadou 3.800 metros, de seguida pegou na bicicleta e percorreu 180km, depois dos quais correu, nada mais nada menos que... uma maratona (42km). "Quando peguei na bicicleta, às 9h da manhã, pensei: 'só vou largá-la às 16h...' e senti um calafrio. Mas depois comecei a repetir mentalmente 'calma... relaxa... pensa na vida". Quando a larguei, calcei os ténis e comecei a correr tive a melhor sensação do mundo. Corri os 42 km, eu que tinha pensado que ia correr uns 25km e depois ia fazer o resto a andar."

Catarina terminou o Ironman num tempo fantástico: 13h48m (o limite para terminar a prova era de 17 horas) e tornou-se a 15ª mulher portuguesa a concluir o Ironman.

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Uma conquista impressionante. De relembrar o aspecto franzino e frágil (as aparências iludem). De relembrar que é advogada, que tem 4 filhos, que tinha então 36 anos. Que treinou em todos os intervalos que a vida lhe permitiu. Que se focou. Que acreditou. E conseguiu. 

Em Agosto de 2015, depois de mais um half Ironman feito em Junho em Inglaterra (e no qual fez parte da equipa do chef Gordon Ramsey, angariando muito dinheiro para solidariedade), Catarina Portela Morais começou a sentir-se mal. Tinha falta de ar, estava cansada. "Pensei: isto foi de ter ido ao MEO Sudoeste, já estou velha, deve ter sido do pó". Mas não. Exames depois de exames, descobriu-se que tinha uma embolia pulmonar. "Entrei em choque, no hospital. Estive a morrer e senti-me a morrer. Foi horrível." Houve logo quem se apressasse a apontar o dedo às corridas. "Isso não dá saúde, deve ter sido do exagero". Ela própria se pôs - e pôs aos médicos - essas questões. A resposta veio no sentido inverso. "O que me disseram foi que se eu não tivesse habituado o meu coração e os meus pulmões a uma actividade tão intensa, eles não teriam aguentado. E que o facto de correr e de fazer tanto desporto não tiveram qualquer tipo de relação com a embolia."

Os trombos que tem nas artérias pulmonares continuam lá. Não são removíveis cirurgicamente e não se sabe se podem libertar-se, provocando um sarilho tão grande ou maior do que o anterior. Por isso, Catarina está impedida de fazer desporto, pelo menos para já. Durante os primeiros 6 meses, nem vontade tinha. Estava demasiado cansada, assustada, grata por não ter ido desta para melhor. Nesses primeiros meses, fez a vontade ao corpo e deixou-se estar quieta sem sequer questionar. Mas, claro, quando há genuíno prazer no desporto e na sensação de superação que ele traz consigo, a vontade volta. E voltou. Está lá, acesa. E, quando fala no assunto, já não consegue esconder a tristeza que lhe vai dentro, só de pensar em nunca mais se propor a um desafio, nunca mais cruzar uma meta, nunca mais sentir a felicidade suprema da superação pessoal. "Para já os exames indicam que os trombos não estão a causar dano ao coração. Acho que tenho de arranjar um cardiologista que também corra, e que me perceba. (risos)".

Para já, não quer arriscar. Tem 4 filhos. Não é inconsciente. Mas é uma mulher de ferro. E é difícil dizer a uma mulher de ferro para vergar.

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 Fotos: Raquel Brinca, HUG

 

 

(esta é a segunda de muitas histórias de corredores que se contarão por aqui. Leia AQUI a primeira)

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