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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Os olhos tristes de um homem velho

Tenho pena. Tenho muita pena de ver um homem velho a chorar. Às vezes, quando não conheço o velho em questão, penso que se calhar é um velhaco qualquer, que pode ter sido um filho da mãe toda a vida, que porventura merecerá, até, as lágrimas que agora lhe caem. Que não é por ser velho que fica imune ao sofrimento e que, se o merece, então que o sofra sem piedades. Penso isto para evitar a dor que aqueles olhos pisados, de quem já viveu tanto, me causam. Afinal, nem todos os velhos são boa gente. Às vezes esquecemo-nos disso. Como se a velhice trouxesse com ela uma aura de santidade qualquer. «Ah, deixa lá, é velho». Como se a idade trouxesse um apaziguamento, uma limpeza dos pecados, um desinteresse de tudo, seja de bom ou de mau, «deixa lá, é velho». Como que a dizer: «Deixa lá, não interessa. Já não interessa.» E, assim, até a maldade dos velhos fica isenta de importância, porque naquele estágio da vida já ninguém quer saber. E ao invés de ser bonita, essa imunidade, é antes profundamente triste porque significa a total e absoluta indiferença e desapego por parte dos que o rodeiam.
Enfim, estou a perder-me do foco. O que eu queria dizer é que tenho muita pena de ver um homem velho a chorar, sobretudo quando o conheço e sei que não há justiça naquele sofrimento. Um corpo que já foi grande, agora frágil, as rugas que teriam tantas histórias para contar, uma vida inteira de sabedorias, a proximidade do fim, e depois aquela mágoa, aquela tristeza que não tem reparação possível porque já não há tempo suficiente para a reparar.
Hoje vi um homem velho a chorar e comovi-me imensíssimo. Porque sei que é boa gente. Não é um velhaco qualquer, nem foi um filho da mãe toda a vida, nem lhe são devidas as lágrimas que agora lhe caem. Dei por mim a abraçá-lo, ainda que a nossa relação não preveja tamanha proximidade física, porque aquilo mexeu comigo. Saber que naquele coração, que já bateu tantos anos (tantos mais do que os que ainda irá bater), mora uma dor incomensurável. Sem cura, sem remédio. Sem fim à vista. Tenho pena. Tenho mesmo muita pena de ver um homem velho a chorar. E de saber que há-de morrer com aquela tristeza funda no olhar, sem que ninguém pareça ralar-se muito com isso.

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