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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

O meu cavalo bravo de coração manso

Já o disse aqui várias vezes. O meu filho do meio é a pessoa mais surpreendente que eu conheço. Ora parece ser frio e distante, insensível até, ora revela ter um coração muito mais suscepítvel e delicado do que qualquer um de nós. O Martim não é grande amante de beijos e abraços, prefere de longe que o deixem em paz no seu mundo mas, no fundo, se o agarrarmos e lhe pregarmos valentes beijos ele vai sorrir como que a dizer: «Aaah, apanhaste-me, eu até gosto disto!»
O meu cavalo bravo tem um coração de manteiga. Quando viajamos sem eles, é o filho que mais sofre. É o filho que tem de dormir com o nosso retrato debaixo da almofada. E, no entanto, quando contamos isto aos nossos amigos ficam a olhar para nós incrédulos: «Sério?? O Martim???´»

Hoje, quando o fui buscar à escola para irmos almoçar todos, achei que vinha triste. Não foi preciso puxar muito por ele para me confidenciar, no carro, que sim, estava triste. A professora não lhe tinha dado os parabéns. Expliquei-lhe que a professora tem muitos meninos, que já não é uma rapariguinha, que está cansada e que é normal não se lembrar de tudo. Ele permanecia inconsolável. Que ela não se tinha esquecido do aniversário de ninguém. Só do dele. Que ela prometeu nunca se esquecer de ninguém e dele tinha-se esquecido. Fiz das tripas coração para lhe explicar que as pessoas não são máquinas, que não são infalíveis, e que são coisas que acontecem. Mas que achava que ele devia ter-lhe dito, simplesmente, em vez de ter guardado a tristeza no coração: «Porque é que não disseste à tua professora "eu hoje faço anos!". Ias ver que ela dava um salto na cadeira e te dava logo os parabéns! Porque é que ficaste calado, a fazer crescer a tristeza?» O Martim largou num pranto: «Porque quis ver se ela se lembrava...»
O meu cavalo bravo tem um coração manso como o de um cordeiro. E sofre provavelmente mais do que muitos outros, justamente porque quase todos acham que ele não está nem aí. Mas está. Atento, sensível e triste, se porventura o magoam. Espero que o bolo conserte a mágoa da manhã.

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