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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Mudar de Vida #2: Sara Esteves

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Não fora a falta de coragem para ver sangue e Sara Esteves era capaz de ter seguido Medicina. Gostava da área da saúde, gostava da ideia de poder curar quem precisasse de cura. Assim sendo, e olhando para as opções disponíveis, escolheu Fisioterapia. Era também uma forma de curar mas mais limpa, sem sangue à mistura. E assim foi. Durante 10 anos endireitou pessoas, ajudou-as a recuperarem movimentos, posturas, flexibilidades perdidas. Primeiro em clínica privada, depois em ambiente hospitalar. E foi justamente o ambiente hospitalar que lhe trouxe o desencanto com a profissão que escolhera. Não só pelo facto de o sistema que temos estar mais orientado para a doença do que para a saúde, como pela questão da precariedade profissional: "A dada altura, exigiam cada vez mais e davam cada vez menos em troca. Cortaram o vencimento e as condições de trabalho eram realmente péssimas."

Insatisfeita, quis aprender outras coisas, encher-se de uma felicidade que, claramente, ali lhe principiava a faltar. Uma amiga falou-lhe nos cursos do Instituto Macrobiótico de Portugal (IMP) e ela, sem sequer perceber porquê, inscreveu-se logo no curso anual. Podia ter feito um daqueles cursos mais curtos mas não. Inexplicavelmente, atirou-se ao de um ano: "Quando cheguei a casa só pensava: mas porque é que eu fiz isto? E se não tiver nada a ver comigo? Vou ficar um ano ali agarrada?"

Logo no primeiro módulo do curso (que decorria entre as 10h e as 15h de um fim-de-semana por mês), Sara conheceu Francisco Varatojo e foi apresentada a uma nova filosofia de vida em que o ser e o pensar e o agir devem estar em conformidade, para que haja equilíbrio. O que ouviu fez-lhe tanto sentido que foi como se sempre tivesse o sabido mas estivesse esquecida: "Foi como se tudo aquilo me fosse estranhamente familiar. Foi como recordar algo que estivesse meio nublado. E, de repente, fez-se luz. Tudo encaixava."

Na semana seguinte, no hospital onde continuava a trabalhar como fisioterapeuta, queriam que assinasse um papel onde aceitava fazer mais 5 horas semanais pelo mesmo vencimento. E Sara, que já tinha iniciado a mudança de paradigma, não conseguiu assinar: "Com base no que já tinha aprendido pensei: se eu sinto que não devo assinar então não assino mesmo." Quinze dias depois foi despedida. Ficou apenas com o trabalho na clínica privada.

Entretanto, terminou o curso de cozinha e, apaixonada por tudo o que aprendera, meteu-se logo de seguida no Curso Curricular de Macrobiótica (está agora no 3º e último ano). A vontade de ter um negócio seu, que passasse por esta nova filosofia de vida, começou a ganhar sentido. Entretanto, em conversa com uma amiga, com o namorado e com a irmã a ideia tomou forma. Encontraram o espaço certo, na Ericeira, onde viviam, em Julho Sara despediu-se da clínica e, em Agosto de 2015, o BeU abriu. O BeU é um espaço que tem produtos biológicos, terapias alternativas, cozinha macrobiótica e estúdio de Pilates. É um espaço "do bem", que visa ajudar quem o procura a viver uma vida mais saudável, sustentável e equilibrada.

Hoje, Sara Esteves é chef de cozinha macrobiótica e faz refeições para take away: "Por 9,5€ os clientes levam sopa, prato principal e sobremesa." Mas Sara faz muitas outras coisas: "Descobri o verdadeiro significado de ser pequena empresária: faço limpezas, contabilidade, gestão de stocks, atendimento ao cliente, compras, parte comercial, cozinho refeições... mas adoro. Sinto-me muito realizada. A minha família sempre me apoiou, a mim e à minha irmã, que também trabalhava em ginásios e agora está aqui comigo. Antes, não tinha tempo para nada. Estava todo o dia fechada, nem sabia se chovia ou fazia sol. Tinha de fazer desporto todos os dias, senão parecia que rebentava de stress. Hoje tenho tempo para ir ver o mar, tenho uma vida muito mais calma, saudável... deixei de sentir aquela necessidade doentia de fazer desporto, que tinha a ver com o estado de nervos em que andava. O mesmo com o açúcar. Tinha uma dependência louca de açúcar, claro. Para me compensar. Hoje não preciso. Não tem comparação o equilíbrio que passei a ter."

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Fotografias: Raquel Brinca, HUG

 

Mais sobre o BeU AQUI.

 

 

O primeiro "Mudar de Vida" contava a história de Andreia Costa, uma enfermeira que deixou a Enfermagem para criar um hostel para famílias (AQUI).

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