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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Mudar de Vida #10: Paulo Duarte

Paulo Duarte nasceu a 26 de Outubro de 1979, em Portimão. Filho único, mãe e pai ligados à hotelaria, Paulo cresceu a querer ser veterinário, especializado em cetáceos. A família era católica pouco praticante, tirando a avó Constança, uma alentejana de Odemira que estava sempre a rezar: "Foi uma mulher que me marcou muitíssimo. Era uma velhinha viúva (o meu avô morreu quando eu tinha 4 anos), de lenço na cabeça, que não sabia ler nem escrever mas tinha um humor extraordinário. Teve 11 filhos, morreram 8 e impressionou-me sempre muito a sua força, a sua serenidade e a sua alegria, apesar de toda a perda que já tinha sofrido. Quando lhe dizia “ó vó, está sempre a rezar?”, ela respondia: 'então, filho, é o que eu sei fazer!'".

Paulo era um miúdo tímido, sofreu bullying durante 4 anos numa altura em que ainda não havia nome para a perseguição gratuita dos colegas, apenas por ser diferente, por preferir ficar a ler do que a jogar à bola. Na adolescência, tornou-se o oposto do que sempre tinha sido. Passou a ser extrovertido, popular, fez grandes amigos que ainda mantém.

A morte de uma grande amiga, aos 15 anos, num acidente com um carrinho de choque, aliada ao fervilhar de dúvidas típico da adolescência fez o primeiro clique: afinal, quem é Deus? Quem é esta entidade que tem o poder de tirar a vida à minha amiga? "Houve como que uma explosão de questões. Acabei a integrar um grupo de jovens. Fiz a Primeira Comunhão com 16 anos e também a Profissão de Fé. O Crisma aos 18." Nessa altura, uma passagem do Evangelho ficou a bailar-lhe na consciência: "A messe é grande e os operários são poucos." Sempre que a lia ou escutava sentia como que uma agitação interior que não sabia explicar. Mas era cedo. Tinha ainda muito por onde se distrair. No 11º e 12º anos meteu-se em tudo o que havia para fazer: ginástica acrobática de competição, teatro, era delegado de turma. Nessa altura de grande hiperactividade, concorreu à TAP mas foi eliminado por roer as unhas. "Percebi mais tarde que até esse tique me tinha ficado do período do bullying. Fiquei tão incomodado com aquela rejeição por causa das unhas roídas que me decidi a acabar com a mania! E acabei!"

Mesmo sem ter entrado para a TAP, as notas sofreram com a sua multiplicação de interesses e Paulo acabou por não conseguir entrar para o curso de Medicina Veterinária. Optou por Ergonomia.

Mudou-se de Portimão para Lisboa, alugou um quarto, adaptou-se à faculdade como peixe na água, fez novos amigos, envolveu-se na associação de estudantes. Também continuou na sua busca pela espiritualidade e acabou por entrar num grupo de universitários católicos (GRATIS: Grupo Reunido na Amizade e Todos Invocando o Senhor). João Delicado, o amigo que conheceu no GRATIS, falou-lhe então do CUPAV (Centro Universitário Padre António Vieira), dos jesuítas, e Paulo começou a ir à missa no Campo Pequeno. Simultaneamente, o bichinho dos aviões tinha-se-lhe colado à pele e, no segundo ano do curso, concorreu à Portugália (PGA). Passou todas as provas e acabou por ser um dos 20 selecionados: "Seguiram-se dois meses de curso e, depois, disponibilidade total. O curso passou a ser mais um hobby. Foram três anos maravilhosos." Quando recorda esse tempo em que andou nas nuvens Paulo Duarte tem um brilho especial no olhar.

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Foi numas férias da Portugália que decidiu participar numa peregrinação organizada pelo CUPAV. "A ideia que tinha de uma peregrinação era velhos de joelhos. E foi com surpresa que me deparei com 200 pessoas da minha idade, a rir, a rezar, a cantar, a partilhar coisas da vida. No ano seguinte, aproveitei de novo as férias e fiz parte da organização. Lembro-me de haver um momento de profunda comoção. Chorei uma tarde inteira e a ideia de vir a ser jesuíta, de vir a ser padre começou a ganhar forma e espaço. Lembro-me de pensar: 'tenho uma vida óptima, ganho bem, faço o que gosto, estou a viajar... o que é que se passa?'"

Para perceber o que se passava, Paulo Duarte foi fazer o Discernimento, um exercício tipicamente inaciano (Santo Inácio de Loyola foi o fundador da Companhia de Jesus) que permite compreender se existe, de facto, uma vocação e ajudar na tomada de decisão. E quando finalmente decidiu, tinha ainda pela frente dois difíceis momentos: contar aos pais e despedir-se da Portugália. "2003 foi o verão mais quente da minha vida. Quando disse aos meus pais que ia ingressar na Companhia de Jesus entraram em choque. E eu senti-me perdido com a reacção deles. Mas, por outro lado, foi importante para perceber que aquilo era mesmo o que eu queria. Porque, se não fosse Deus e a minha vocação, perante a desilusão e tristeza do olhar dos meus pais eu teria desistido." Os pais sentiam que perdiam o filho único, como se a vida religiosa fosse uma espécie de buraco negro por onde se desaparece sem deixar rasto. "Foi muito difícil para eles, muito difícil para mim." Hoje esse sentimento de perda está sanado. Os pais aprenderam a sentir orgulho da escolha do seu único filho e da força da sua entrega. Mas foi preciso dar-lhes tempo.

Na Portugália, entregou a carta de despedimento à chefe. Ela ficou incrédula (ele acabara de se tornar efectivo). “Vais para a TAP?” Paulo sorriu: “Não, vou para outra companhia. Para a Companhia de Jesus.» O seu último voo, foi uma chacota. «Chamavam-me: “Ó bispo, anda cá!” Quando ia servir o comandante, ele exclamou: “Tu não podes servir-me! Um padre jesuíta a servir-me?” Eu respondi: “Eu vou entregar a minha vida aos outros, acho que também o posso servir a si!”.»

Depois das despedidas, o futuro padre entrou para o noviciado, em Coimbra, onde ficou dois anos, só saindo para passar o Natal com a família e apenas mais 3 ou 4 dias de férias no Verão. Paulo, então já estudante de Filosofia na Universidade Católica, fez os votos de pobreza, castidade e obediência, num importantíssimo passo de entrega da sua vida. Uma festa linda e comovente. Constança morreu nesse mesmo dia (1 de Novembro de 2005), no final da cerimónia. "Esperou por mim e partiu." Da avó só quis a aliança (que traz pendurada num fio, sempre encostada ao seu peito) e a chave de ferro grande e pesada da sua casa, lugar de tantas memórias de infância.

Fez o curso de Filosofia e, paralelamente, começou a ter aulas de dança. Sentia que o corpo precisava expressar todas as transformações por que a alma passava. Antes de se tornar padre, Paulo esteve ainda três anos em Madrid, a estudar Teologia e fez o mestrado em Teologia Fundamental, em Paris. A par e passo com o estudo, fez muito trabalho prático, de acompanhamento pastoral: deu apoio a mulheres vítimas de violência doméstica, a emigrantes ilegais, refugiados. 

O dia da Ordenação (5 Julho de 2014, em Coimbra) foi dos mais felizes da sua vida. Dias depois, rumou a Fátima, onde foi confessar centenas de pessoas. As suas penitências espantavam quase todos: "Hoje vai chegar a casa, vai olhar para o espelho e dar a si própria um grande abraço" ou "a sua penitência são 2 dias de descanso" ou ainda "vai fazer um jantar especial e dizer que gosta muito de si". Para quê mandar rezar avé Marias e Pai Nossos a quem só precisa de um pouco de amor próprio e capacidade de se livrar das culpas?

Foi também com este profundo sentido de fé na renovação do ser humano, e na conversão do mal em bem, que Paulo Duarte fez a sua homilia, na primeira missa que celebrou em Portimão. Começou a missa da forma mais peculiar que os fiéis já devem ter escutado: "Bem-vindos a bordo, welcome a board". Quis que se percebesse, desde o primeiro minuto, que estava ali um padre diferente. Citou Marguerite Yourcenar – "Quando se gosta da vida gosta-se do passado, porque ele é o presente tal como sobreviveu na alma humana" - e pediu aos presentes que nunca reneguem a sua história, ainda que ela tenha episódios negros, porque são todos parte de nós. Tal como a pérola, que é a forma de alguns moluscos reagirem às impurezas: "Das nossas impurezas podem nascer pérolas."

Paulo é hoje professor e padre num colégio perto do Porto. Lidar com os miúdos tem sido uma fonte de energia permanente. Vive a sua vocação de uma forma muito especial, com uma alegria e um sentido de missão inegáveis. Quanto aos tempos em que vivia outra vida, a cruzar os céus, sente saudades e tem aquele brilhozinho no olhar que não engana. Mas, na verdade, ele continua em contacto com as alturas, só que agora de uma forma muito mais profunda.

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