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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Liberdade Interdita

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Foto: Augusto Brázio

 

Os ponteiros do relógio brilham no escuro e marcam onze horas e vinte e cinco minutos. António (chamemos-lhe assim) deixou passar a hora do sono mais uma vez. Agora, deitado na cama dura, sente-se afogado em pensamentos que não domina, não consegue dominar. Há noites em que parece que vai dar em doido, agarra a cabeça com as duas mãos para segurar o que lhe vai dentro, só que tudo gira a grande velocidade, à velocidade de três disparos certeiros. Um metro acima de si, Carlos parece passar pelo mesmo. O movimento incessante do corpo não engana, os lençóis em alvoroço para a esquerda e para a direita ajudam a confirmar que, um metro acima de si, Carlos combate a tortura do mesmo pesadelo de todas as noites.

António levanta-se. É escusado tentar dormir. Caminhar ajuda a cansar as ideias. Quatro ou cinco passos para cá, quatro ou cinco passos para lá. Quatro ou cinco passos é tudo o que tem para andar. Junto à porta verde de ferro, imagina-se a abri-la e a sair para a rua. Só isso. Sair para a rua. Deixar que os passos o levassem para onde quer que o desejo escolhesse. Só isso. Ir. Apanhar no rosto o frio da noite, fumar um cigarro. Ir até à horta, ver o estado das suas coisas, o lugar onde antes estavam as couves, o lugar onde antes cresciam os tomateiros, o sítio das batatas. Tudo coberto de ervas daninhas, tudo abandonado, toda a sua vida abandonada de um momento para o outro. Encostado à porta verde de ferro, resta-lhe a imaginação. Quando se vira, dá com os olhos do Carlos, sentado no beliche, também desistente do sono. Ambos sabem o que ambos pensam. Porque ambos dispõem apenas dos mesmos quatro ou cinco passos para cá e quatro ou cinco passos para lá. Porque os dois sonham acordados com o mesmo: liberdade.

António tem 62 anos e está detido no Estabelecimento Prisional de Alcoentre há sete anos e oito meses. Faltam-lhe doze anos e quatro meses para o final da pena. António espera pela liberdade condicional com a ânsia normal de quem está privado da autonomia, mas com o temor próprio de quem pouco tem para lá dos muros da cadeia. 

Em Setembro de 1994, perdeu tudo: a mulher com quem viveu 25 anos, o emprego, o sossego da consciência, a liberdade. Nessa noite que jamais esquecerá (até porque os pensamentos vivem uma vida própria no interior da sua cabeça), o mundo desabou à velocidade de três disparos certeiros.

Nessa noite, em Setembro, António e a mulher tinham acabado de jantar. Como sempre, ele foi tomar um banho rápido antes de se meter na cama e ela foi para uma casa contígua, lavar a loiça da janta. A certa altura, no banho, António estranhou o ladrar dos cães. Estavam demasiado inquietos para o seu gosto. Suspeitando que alguém teria entrado na sua propriedade, provavelmente com o intuito de roubar, pegou na caçadeira e fez-se ao caminho, pé ante pé, para surpreender a gatunagem. Procurou nos vários recantos do terreno sem descobrir vivalma. Até que se encaminhou para a casa das máquinas. Foi aí que os seus olhos viram o que jamais deviam ter visto. A mulher com quem comemorara as bodas de prata estava ali, nos braços de outro, ela sem camisa, o outro desabotoado, as ideias de António confusas, Juntar? Amantizar? Sou alguma galdéria ou quê? Porque é que não posso casar, como as outras, na Igreja, de papel passado, tudo certo aos olhos dos homens e aos olhos de Deus?, a sua Alzira, tão temente a Deus, uma mulher católica e de respeito assim, embrulhada com o vizinho na sua própria casa.

 

António diz que hoje talvez tudo tivesse tido um desfecho diferente se ela lhe pedisse desculpa e o tivesse chamado à razão. Mas ela enfureceu-se. A sua Alzira parecia zangada, transtornada por ter sido apanhada com outro, como se a interrupção a tivesse contrariado, como se ele, o marido, o dono da casa, fosse quem estivesse a mais. António, de arma em riste, disparou três vezes. Lembra-se de ver a mulher cambaleante, de ver o seu corpo tombar. António lembra-se de olhar para ela, para o seu corpo inerte e amá-la e odiá-la e pensar que, com toda a certeza, tudo não passara de um sonho mau. Depois, chamou os vizinhos e pediu-lhes que viessem, que chamassem uma ambulância. Desgracei a minha vida. Desgracei a minha vida. Foi a única coisa que o ouviram dizer.

A vida de António. Um casamento que julgava feliz, três filhos enterrados (uma primeira filha que morreu aos dois anos, um segundo que morreu aos 12, um terceiro rapaz que não durou mais que 18 dias, todos vítimas da consanguinidade dos pais), um emprego de 28 anos como motorista na Ford Lusitana, uma horta com couves, tomateiros e batatas. A vida de António. Desgraçada de vez numa noite de Setembro.

O tribunal, pesado e medido o percurso do homicida, deu-lhe oito anos e meio de pena. Era primário (nunca antes tinha cometido qualquer crime), tinha agido no impulso do momento, tresloucado por uma infidelidade que o desonraria aos olhos da aldeia. Atenuantes que o juiz levou em conta. Mas o advogado de António decidiu recorrer. Pediu-lhe mais dinheiro, 2500 contos na totalidade, e prometeu-lhe a redução da pena. No recurso, apanhou 20 anos. A pena máxima, na altura. A juíza disse, satisfeita com a sua própria decisão, que talvez assim o arguido, as testemunhas e o resto da assistência percebessem , de uma vez por todas, que a justiça cabe aos tribunais e que isto não é o faroeste, para andarmos todos aos tiros. António baixou a cabeça (e as ideias em frenesim dentro dela) e viu os portões fecharem-se atrás de si. Imaginou-os fechados durante 20 anos. Vinte anos de vida suspensa.

No Estabelecimento Prisional de Alcoentre há dois tipos de regime: o Regime Fechado e o Regime Aberto. No primeiro, não há saída para parte nenhuma. Para além das celas, individuais ou colectivas, os presos têm algumas áreas comuns cobertas, onde conversam, fazem ginástica, lêem, e um pátio onde a ilusão da liberdade é maior. No segundo regime há ainda uma subdivisão: o RAVI (Regime Aberto Voltado para o Interior) e o RAVE (Regime Aberto Voltado para o Exterior). O que diferencia um regime do outro é o tipo de trabalho. Enquanto que os presos do RAVI trabalham no interior do estabelecimento, os outros trabalham em empresas que têm protocolo com a prisão. Para que um recluso possa chegar ao regime aberto - onde a privação da liberdade não se faz sentir de forma tão pungente - tem de reunir certas condições. Por um lado, tem de manifestar bom comportamento, não ter processos pendentes, e revelar interesse pelo trabalho ou pelo estudo. 

Podia pensar-se que a ambição de todos os presos é passar para o Regime Aberto. Mas não. Há muitos para quem trabalhar não está sequer nos seus planos mais remotos e o bom comportamento é uma definição demasiado vaga e misteriosa. São aqueles para quem a privação da liberdade não é mais do que uma fase da vida. Os avós já passaram por isso, os pais já passaram por isso (por vezes pais e filhos encontram-se no mesmo estabelecimento), os irmãos já passaram pelo mesmo. Para esses, estar preso é uma etapa da existência, tão normal como nascer, casar, ter filhos e morrer.

Não é o caso de António, que está em RAVI, a trabalhar na adega. Todas as manhãs, pelas 7 horas, o ritual é o mesmo. Levanta-se, faz a barba, bebe o leite e come uma carcaça, e arranca para a adega, onde passa todo o dia. Depois, volta, janta e deita-se assim que o sono chega. Se deixar passar a hora do sono, já sabe. Os pensamentos voltam, à velocidade de três disparos certeiros. E o sorriso da mulher lá estará outra vez, como se nada fosse.

O dia da liberdade é um dia por que quase todos anseiam. António encolhe os ombros. Pouca coisa o espera, para lá dos muros que lhe tolhem os movimentos. A Ford despediu-o por faltas injustificadas, ainda que a justificação fosse evidente. Vinte e oito anos exemplares de casa e nenhuma indemnização. A reforma há-de ser uma miséria. O pai morreu assim que ele foi preso, a mãe não resistiu mais que oito meses. A mulher sorri-lhe nos retratos e nos sonhos mas é só. Os filhos desapareceram, um a um, há muitos anos atrás. António tem 62 anos. Diz que, se calhar, ainda morre antes de voltar a ser livre. Mas que liberdade será a sua, se os fantasmas teimam em persegui-lo? Que liberdade será a sua se a culpa mora dentro de si e tem vida própria? Que espécie de interesse pode haver numa liberdade sem gente dentro? António encolhe os ombros. Olha em redor e não tem ninguém. À hora da visita, continua como no resto das horas. Só. À noite, conta os passos dentro da cela e agarra a cabeça com as duas mãos, a ver se segura para sempre o sorriso da mulher e se volta tudo a ser como antes. Antes de desgraçar a sua vida. Liberdade? Que liberdade será a sua, se um dia os portões se abrirem à sua frente e tiver muito mais que quatro ou cinco passos para dar? Para onde se vai quando não se tem com quem ir?

Carlos não pensa da mesma maneira. Está sentado no beliche, na cama que fica um metro acima da cabeça inquieta de António. As pernas balançam, suspensas, num nervoso incontido que lhe desfaz as noites. Carlos não só deseja o dia da liberdade como se revolta a cada momento pelos dias de prisão injusta. Olha para António, junto à porta verde de ferro, e sabe bem o que faria se pudesse abri-la, se pudesse sair daquele espaço que não é seu, se pudesse despir a farda que não é sua, se pudesse dormir na cama que lhe pertence, junto à mulher com quem começava agora uma vida nova.

Carlos tem 32 anos e está preso em Alcoentre há onze meses. Faltam-lhe dois anos e um mês para cumprir a pena.

Foi em 1996 que Carlos teve o acidente que lhe virou a vida do avesso. Tinha vindo de uma festa, onde não bebera mais do que uma cerveja ou duas. Chegou a casa às quatro da manhã e como ia arrancar às seis para fazer uma viagem com a família, decidiu não se deitar. Não tinha sono, não tinha bebido, sentia-se lúcido, desperto, capaz. Seguiram viagem. A meio do percurso, Carlos adormeceu. O carro saiu desgovernado da estrada e o acidente foi aparatoso. A mulher, os dois filhos e os dois sobrinhos não escaparam. Carlos acordou no dia seguinte, com um ligeiro traumatismo craniano, e foi informado de que era o único sobrevivente do acidente que ele mesmo, negligentemente, provocara.

O trauma foi difícil de superar. Nunca se supera. A sensação que teve foi a de que a sua vida tinha terminado também. Seis anos depois, em 2002, quando já estava a viver com outra pessoa, a tentar refazer a sua história, bateram-lhe à porta. O senhor está detido. Seis anos depois, voltou tudo outra vez. O acidente, o chiar dos pneus, a mulher, os dois filhos, os dois sobrinhos, a morte dos mais queridos provocada, inadvertidamente, por si. O senhor está detido? Porquê? Homicídio por negligência. Carlos apanhou três anos de prisão, seis anos depois do acidente onde morreu toda a sua família, onde terminou bruscamente um capítulo único da sua vida. Na acusação não se referencia excesso de álcool, nem condução perigosa, nem desrespeito pelo código da estrada. Negligência, descuido, incúria. Essa é a sua culpa, que ele julgava ser já castigo suficiente.

Na cela onde dorme, quatro ou cinco passos para cada lado, Carlos fermenta todas as noites a raiva que o consome. Repete vezes sem conta que teria sido melhor darem-lhe um tiro na cabeça. Repete e torna a repetir que trabalha desde os 16 anos, que sempre foi cumpridor, que nunca se meteu em drogas, que nunca roubou, que nunca matou, que nunca fez nada. A não ser adormecer.

No Estabelecimento Prisional de Alcoentre, em RAVI, faz a sua vida e procura não se dar com muita gente. A maior parte das pessoas não lhe interessa, é gente perigosa, é gente com quem nunca teve interesse em relacionar-se. Levanta-se todos os dias por volta das 7, veste a farda, come qualquer coisa, e vai trabalhar com o tractor, fazer tudo o que é preciso. Ao menos enquanto conduz sempre vai tendo momentos em que esquece. São apenas momentos. Mas é melhor que ficar todo o dia a matutar no mesmo. Ao fim da tarde, volta para a cela, faz mais um risco no calendário que tem a loura das mamas grandes, e dorme. É essa a sua vida. A ausência de liberdade, a ele, mete-lhe raiva. Por ver que há muito mais que dois pesos e duas medidas na justiça portuguesa. Por saber que a companheira, viúva como ele, está lá fora à sua espera. Por temer que ela não espere o tempo que ainda lhe falta cumprir. Por ver que a filha dela, de seis anos, que é como se fosse sua própria filha, o abraça com muita força, à hora da visita, como que a dizer, Tenho saudades tuas, preciso de ti, já fiquei sem um pai, não quero perder outro. Por tudo isto, Carlos preferia que o tivessem matado. Ao menos o sofrimento acabava-se num instante, a grande velocidade. À velocidade de um carro despistado na estrada.

 

*Este texto faz parte de uma reportagem maior, de nome As Sombras da Liberdade, publicada no DNA a 22 de Março de 2003 (havia também a Liberdade Indesejada, sobre os monges do Convento da Cartuxa; e Liberdade Impossível, sobre Francisco Baptista, um manequim conhecido por Paco, que ficou tetraplégico num acidente de viação)

 

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