Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Itália: dia 6

O dia não começou bem. Nada bem. Sabíamos que o comboio para as Cinqueterre (são cinco terras, aqui na costa da Ligúria, todas umas ao lado das outras, declaradas Património da Humanidade pela Unesco) partia às 10.08h e, por isso, acordámos mais cedo, tomámos o pequeno-almoço e, às 9:45 estávamos na bilheteira. Estavam seis pessoas à nossa frente e ali ficámos, tranquilos da vida. Só que... estava apenas um senhor a atender. E o senhor... era tão calmo, tão calmo, tão calmo, que eu sinceramente só gostava de saber o que é que ele toma para tomar também. O que sei foi que às 10.08 toda a fila (que entretanto se tinha transformado num monstro atrás de nós) estava aos gritos porque o próximo comboio era... às 11.00h! Foi mesmo mau morrer na praia. Fomos atendidos já o nosso comboio tinha partido e a nós, que esbracejávamos na fila, só nos apetecia partir os dentes ao homenzinho, que lá continuava, imperturbável. Alguns italianos culpavam um certo jeito genovês de ser (pareceu-me) mas de nada valeu tanta gritaria. Ficámos uma hora à espera na estação e eu nem queria acreditar. Tanta coisa linda para ver e nós ali, uma hora pendurados! Argh!
Aqui a fila já era pequena (e nós já estávamos a tomar café em frente, a ver se nos passava a azia, enquanto esperávamos uma hora pelo próximo comboio)


A verdade é que toda a ira nos passou quando, às 12.20, e depois de passarmos por 27 túneis (sim, eu contei-os, tenho essa estranha mania de contar cenas, perante o gozo do Ricardo, que foi todo o caminho a tentar baralhar-me as contas), chegámos por fim a Riomaggiore. Decidimos começar pela terra mais distante das cinco e depois vir andando, de terra em terra, em direcção a Rapallo, onde fica o nosso hotel (conselho dos locais). Riomaggiore deixou-nos logo de cara à banda.




Infelizmente, a via dell'amore estava fechada por razões de segurança. Ooooh...



Não podendo ir a pé até à terre seguinte, apanhámos de novo o comboio e saímos em Manarola, onde outros «aaaahs» de espanto foram proferidos.


A vista de umas terre para as outras é esta, mais coisa menos coisa. 
Esta é a vista de Corniglia para Manarola. De cortar a respiração.


Em Corniglia estava a morrer de sede. Sou tipo camelo, aguento muito tempo sem beber, mas quando fico com sede já ninguém me atura. Há fotografias em Corniglia onde já estou com um ar enjoado e desfalecido. Eram quase três da tarde e foi então que demos com este sítio, tão giro, tão giro, chamado «La Cantina de Mananan». Havia muitos outros, com esplanadinhas sobre o mar, mas este além de giro era fresco e prometia muito. Não nos enganámos. Tirando a antipatia do dono (de resto, praticamente só encontrámos gente antipática durante toda a viagem - foi uma surpresa porque tínhamos a ideia de que os italianos eram, em geral, simpáticos), e a cerveja artesanal (ho-rrí-vel, apesar do meu gajo ter bebido a dele e a minha e do senhor da mesa ao lado só exclamar «oh, good beer, good beer!») o restaurante era mesmo uma maravilha.

O momento em que o homem vê o spot e diz: «Ooooooh, tão giro!». 
E era mesmo.



Blhéc! Cerveja artesanal - até tinha corpo, era opaca! 
O que me salvou foi o vinho branco da casa, servido a copo



Estão a ver quando vos digo que depois desta viagem terei de ficar uns 3 meses à míngua? 

Já sem sede e sem fome, voltámos a meter-nos no comboio e a sair na estação seguinte: Vernazza. Linda de morrer. E aí, cheios de calor, tomámos um grande banho. Não, não estávamos de bandulho assim tão cheio. Um pratinho de enchidos e um carpaccio de polvo mais uma panna cotta a meias não chegam para encher aqui as bestinhas. De maneira que... pumbas, lá fomos. Não há areia, só rochas onde a malta põe a roupa e, por isso, não ficámos a jiboiar, foi mesmo só mergulhos. A água estava deliciosamente gelada, aquele sal todo do Mediterrâneo a fazer o corpo flutuar... hummmmmm.... inesquecível.


 

Por fim... a última das Cinqueterre (ou a primeira, depende por onde se começa). Para Monterrosso fomos de barco. A vista, do mar para terra, também vale muito a pena e, assim, tivemos de tudo. Monterrosso é mais estância balnear, com praia de areia grossa (e pedras), e foi perfeito para terminar a viagem porque descansámos deitados na areia e voltámos a nadar no Mediterrâneo. 


E pronto. Dizer que estas Cinqueterre me encheram as medidas. Que são de uma beleza única. Portofino é lindo, sim, é delicado, refinado, elegante, mas as Cinqueterre, apesar de serem parecidas na beleza natural e na arquitectura, na construção das casas e nas cores garridas e nas portadas das janelas, são mais caóticas, mais vividas, mais verdadeiras. Como se em Portofino tivéssemos de levar uma roupa melhor e engraxar os sapatos, e nas Cinqueterre pudéssemos ir de biquíni e chinelo no pé. A beleza de uma é refinada, a beleza das outras é pura. O que é certo é que tenho os olhos e a alma lavados. E que nunca mais me vou esquecer destes lugares todos.

19 comentários

Comentar post

Pág. 1/2