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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Eu, Sísifo?

Um dia, aquando da apresentação de um dos meus livros, o João Miguel Tavares, que já me conhece há uns anos valentes, definiu-me da melhor forma que alguém já me tinha definido. Dizia ele que eu era insaciável. Que ou as coisas me apaixonavam visceralmente ou então perdia o entusiasmo e esmorecia. Até brincou dizendo que o Ricardo devia ser um tipo incrivelmente multifacetado e apaixonante, para conseguir estar sempre à altura das minhas exigências frenéticas. O João Miguel tinha toda a razão. Não sei qual o motivo, mas a verdade é nada parece chegar-me. Estou sempre a inventar. Não consigo simplesmente viver uma vidinha assim-assim. Invento, crio, agora um livro, agora uma nova rubrica, agora outra, agora vou propor isto a não sei quem, agora uma conferência, agora uma maratona, agora mudo de casa, agora um curso, agora o triatlo, agora um novo desafio. Nada é suficiente. Quando atinjo um objectivo, fico contente por pouco tempo. Logo se instala a vontade de abraçar um novo projecto. Não largo o anterior, não o deixo cair. Mas rapidamente deixa de me apaixonar, de me fazer vibrar. Preciso de mais. E mais. E mais. Digamos que vivo para os meios, não para os fins. O que me move é o tentar alcançar o objectivo. Não tanto a meta em si. 

Mal comparado (porque não existe, do meu lado, a carga de sofrimento que há na história que se segue), faz lembrar a história de Sísifo, figura da mitologia grega que carregava diariamente uma enorme pedra até ao cimo de uma montanha e, uma vez lá chegado, deixava que ela se soltasse das suas mãos e rolasse pelo desfiladeiro abaixo para, de seguida, voltar a carregá-la para o cimo da montanha, num movimento perpétuo e inacabado.

Às vezes fico extenuada e, de seguida, frustrada com esse cansaço que não entendo de imediato. Porque é que eu estou cansada, que diabo? Depois lembro-me da razão. Pareço-me com os malabaristas, que não contentes de rodopiarem 3 maçãs no ar, lhes juntam mais uma, e depois outra, e outra, acelerando o ritmo, juntando uns passos de dança, tentando nunca deixar cair nenhuma das maçãs. 

Como sempre fui assim, se acaso tivesse nascido uns anos mais tarde, era quase certo que não me escapava a umas boas doses de Ritalina. Livrei-me da Ritalina em criança, mantenho a inquietação. Se é bom ser assim? Por um lado é. Porque nunca se pára. Nunca há lugar para a monotonia. Há sempre ideias, criação, fervilhar. Também é bom porque, como nunca há uma excessiva valorização dos sucessos, nunca se perde o pé. Mas... por outro lado... é uma vida inacabada. Permanentemente. Como a de Sísifo. Mas sem calhaus.

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