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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Conta-me #5

O corredor comprido. Vozes desconexas. O perturbante perfume do éter. Batas brancas e diagnósticos incompreensíveis. Luzes. O bater do coração. E o medo. 

O medo.
«Um brinde a nós, o sexo forte». Marta, a mais extravagante das cinco. Sempre gostou de provocar, contar anedotas porcas ao pé de velhinhas católicas. Dizem que um dia apalpou um padre, mas no grupo nunca se chegou verdadeiramente a saber se teve atrevimento para tanto. Os copos bateram uns nos outros com estrépito, ameaçando a integridade do cristal. «Olhem, os gajos da coleira já estão a rosnar». Referia-se aos empregados de mesa, irrepreensivelmente aprumados, de colete e Iaço ao pescoço. As gargalhadas do grupo das quintas-feiras despenteavam-lhes a sobriedade. «É espantoso como os tipos se sentem importantes e finos só por terem um fato engomado! Depois saem daqui e vão de autocarro para casa, a contar as gorjetas». As amigas não resistiam à sua rebeldia indomável. E riam. Margarida ria sempre muito às quintas. E a essa hora, a essa fatídica hora, ria também. Como podia rir? Como podia não ter sentido?

Nessa manhã, Margarida Rebelo acordou à hora do costume. O rádio aos gritos, como sempre. O marido a segredar-lhe «São horas», como todos os dias. Levantou-se a praguejar, frases desordenadas sobre o Euromilhões que não havia
meio de lhe sair e a tristeza de passar toda uma vida a trabalhar para os outros. Enfim, uma manhã idêntica às demais.

João dormia destapado, um pé a sair da cama. A mãe gostava de o ver dormir. Ficava muitas vezes assim, na ombreira da porta, com a caneca do café quente na mão, a escutar a sua respiração profunda. Parecia-lhe impossível que aquele matulão de um metro e oitenta tivesse realmente nascido de si. Comovia-a olhá-lo, como fazia 18 anos antes, quando ele era só uma nesga de gente. Nessa manhã, Margarida não o espreitou. Estava atrasada e não o espreitou. Não há dia que passe sem que se arrependa. 

"Minha senhora, vai ter de ser forte". Palavras desprovidas de sentido. As pernas fracas. Forte? "O seu filho está em coma". O bater do coração. O medo. E agora?

E agora?

"Sabem qual é a diferença entre uma loira e um mosquito?" A Marta, de novo. Talvez a pessoa com maior habilidade para contar anedotas. Tinha a magia de transformar uma graçola desenxabida numa piada de chorar a rir. "O mosquito quando leva uma pancada pára de chupar!" Na mesa ao lado há quem se volte ostensivamente, mostrando desagrado, homens de fato e gravata que fecham negócios, homens de fato e gravata que parecem nunca ter esboçado um sorriso sequer. Marta não controla as gargalhadas vibrantes. Os copos cansam-se dos brindes, tantos brindes. "Ao sexo forte", à felicidade, ao Euromilhões, à amizade. E as barrigas magoam de tanto riso, como no áureo tempo da faculdade, em que eram conhecidas como "As Cinco". Só quando estão juntas conseguem alcançar a leveza conferida pela irresponsabilidade. Só durante os almoços das quintas-feiras experimentavam esse desatinado prazer do regresso à juventude.

A impossibilidade. A impotência. Em coma? O corredor comprido. Luzes. O odioso cheiro do éter. O Pedro a chegar de lágrimas nos olhos. Os dois abraçados na mesma incredulidade. Como é que ele está? O bater descompassado de dois corações. O medo.

João tinha escolhido o horário da tarde na faculdade. Os pais tentaram dissuadi-lo, "E durante a manhã, o que é que vais fazer? Dormir?" mas ele teimou que não, estudaria de manhã com a cabeça fresca - sabia usar expressões que convenceriam os pais e "cabeça fresca" era uma delas - e depois ocuparia toda a tarde com as aulas. Foi assim no primeiro mês. Do segundo em diante passou a dormir todas as manhãs, a chegar atrasado às primeiras aulas, a sair todas as noites. A mãe sossegava o pai: "Deixa-o. Está na idade."

Nesse dia, João dormiu até tarde, como habitualmente. Acordou em sobressalto, passou fugazmente por baixo do chuveiro, vestiu uma t-shirt e umas calças de ganga, pegou na mota e arrancou à pressa, a mão a acenar à dona Ana. Foi a última vez que a porteira do prédio viu o seu Joãozinho. "Vá com cuidado, menino. Vá com cuidado!", gritara-lhe ela, no segundo imediatamente anterior a vê-lo a sumir-se.

Na 2ª circular, trânsito parado. À uma da tarde, três filas de automóveis estáticos, cabeças de fora dos vidros em busca de razões, sirenes ao fundo.

À saída do restaurante, Margarida a tentar caçar o telemóvel, submerso no interior da mala. Uma mão às apalpadelas, carteira, caixinha das pinturas, agenda, chaves do carro, chaves de casa, escova do cabelo. O telemóvel submerso, o toque abafado e incessante, a mão num desespero de escavadora.

Em Benfica, a porteira a varrer o terraço, a cumprimentar a vizinhança, a comentar a vida alheia, "Sabia que o sr. Mário já não está com aquela rapariga, a Adelaide?", "Não me diga...", "Digo, digo. Aqui para nós, que ninguém nos ouve, também parece que ela era assim a modos que um bocado nervosa...", "Ah, sim?", "Não lhe contaram o que é que ela fez na semana passada?"

"Minha senhora, vai ter de ser forte." Palavras. Palavras avulsas, vazias de significação. As pernas fracas. Forte? "O seu filho está em coma." O bater do coração. O medo. E agora?

E agora?

Margarida a alcançar o telemóvel, teimoso. "Está? Sou sim".

Pedro numa reunião no escritório. A sala cheia, dez homens parecidos com os engravatados do restaurante onde Margarida e as amigas regressavam à juventude, projectos, discussões, cafés em cima da mesa.

Os carros a passar devagarinho, os olhares curiosos e mórbidos à procura de sangue, João inerte no asfalto, a mota debaixo de uma camioneta, um homem de mãos a agarrar a cabeça. Ambulâncias, bombeiros, polícia.

"Dona Margarida Rebelo?" "Sou sim", "Fala do Hospital de Santa Maria, vou pedir-lhe que tenha calma". Margarida em pânico, o coração num disparo, o medo. "O que foi? O meu filho, onde está o meu filho? O que aconteceu ao meu João?"

A dona Ana apoiada na vassoura, à conversa com a porteira do prédio ao lado.

Pedro a receber um telefonema, "Eu disse-lhe que não me passasse chamadas, Cláudia". Cláudia a morder o lábio num pedido de desculpa. "Desculpe, Dr. É a sua mulher. E está muito nervosa."

As cinco amigas a grande velocidade para o hospital, Margarida aos soluços, o riso transformado em lágrimas, a alegria convertida em drama, no maior de todos os dramas imagináveis, a juventude metamorfoseada em velhice. Margarida subitamente envelhecida, engelhada, carcomida, senil.

O corredor comprido. Vozes desconexas. O perturbante perfume do éter. Batas brancas e diagnósticos incompreensíveis. Luzes. O bater do coração. E o medo.

O medo.

"Minha senhora, vai ter de ser forte." Palavras desprovidas de sentido. As pernas fracas. Forte? "O seu filho está em coma". O bater do coração. O medo. E agora?

E agora?

A impossibilidade. A impotência. Em coma? O corredor comprido. Luzes. O odioso cheiro do éter. O Pedro a chegar de lágrimas nos olhos. Os dois abraçados na mesma incredulidade. Como é que ele está? O bater descompassado de dois corações. O medo.

Durante dois dias, a esperança. Um fio ténue e invisível a permitir a sobrevivência. Durante dois dias, a fé. Durante dois dias, a luta de uma mãe e de um pai pelo regresso do filho. Margarida falou com ele quase ininterruptamente. Deu-lhe a mão. Afagou-lhe os cabelos. Pediu-lhe que ficasse. João não pôde ficar.

Já passou um ano mas a dor mantém-se intacta. E agora? Como existir depois de perder um filho? Para quê existir?

Naquela manhã, Margarida não o espreitou enquanto dormia. À hora do acidente, Margarida ria e brindava e tudo isso lhe parece agora demasiado grotesco. Como é que pôde não sentir? Como é possível que uma mãe não sinta no peito a dor instantânea da perda? A dor da dor de um filho?
Os dias teimam em passar, apesar de tudo. Dizem que a vida continua. Talvez. Se quisermos chamar vida à existência pura e simples. Se quisermos chamar vida ao acordar, ao respirar, ao levar um pé à frente do outro. Margarida e Pedro costumam dizer que não vivem. Subsistem. É essa a resposta de ambos para a pergunta que persiste ainda hoje, um ano depois. E agora?

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