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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Conta-me #4

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Sim, acabou por não ser mau de todo. Quer dizer, não tem comparação com a casinha onde estavam antes, que isto é mesmo assim. Era uma gaveta forrada a madeira e veludo, não tinha ponta de humidade. Vi outras ao lado, abertas, todas cheias de musgo, a gente punha a mão e estava molhado. A dos meus pais não. Sequinha. Nem cheirava a mofo. Tinha de ver. Uma maravilha, realmente. Foi o Armando, nosso vizinho lá nas Paivas, que se ofereceu para fazer aquele serviço em honra aos meus pais que o ajudaram muito em vida. Que Deus os tenha em sossego, coitadinhos. Eram boa gente. Sempre prontos para ajudar. O Armando também não era mau rapaz, o que é que tinha a cabeça fraca para o vinho. Começava a beber e depois pronto, estava tudo estragado. Faltava ao emprego, não aquecia o lugar muito tempo. Andava à pancada nos cafés, na rua, em todo o lado. Volta não volta aparecia com um olho à banda. Então, Armando, o que foi isso rapaz? Ó ti Júlia - ele tratava-me sempre por ti Júlia, coitadito - Ó ti Júlia caí. Ai, rapaz, muito cais tu. Ele ria-se. Daí a tempos, outro olho. Então, Armando? Caíste, foi? Tenho o pé pequeno, ti Júlia, isto para o equilíbrio é o diabo! Eu ria-me. Desgraçava-se, coitado. Diz que nem sempre foi assim. A Odete, do 36, diz que foi desgosto. Parece que a mulher o deixou, que o trocou pelo irmão. Diz ela! Que eu não ouvi pela boca dele, nem vi nada, não sei. Mas se assim foi também não se faz. Um irmão roubar a mulher a outro? Também é chato, coitado do homem. Não sei se foi isso ou não e agora também já não posso perguntar-lhe, que já não está entre nós. Sim, há coisa de uns meses levou uma pancada de um carro - bêbado que nem um cacho - e ficou-se logo ali, como um passarinho. Pobre diabo.

Bom, mas de uma coisa não há dúvida. Era muito jeitoso de mãos, o Armando. Foi um dia lá medir o espaço, comprou a madeira, o veludo bordeaux. Ficou um primor. Por isso, sim, quando nos disseram que a porta da gaveta não tinha arranjo e que tínhamos de encontrar outra para meter os meus pais fiquei arreliada, não vou dizer que não. Para ser franca, nem dormi nessa noite. Estas coisas mexem com a gente. Os meus paizinhos lá na sua gaveta, tão bem acomodados, e agora isto? Ter de os mudar, ter de os desassossegar. Os mortos querem-se em sossego. Não é cá para andar a mudar de casa, que muito já eles andaram em vida. Não é? A morte quer-se quieta.

Lá fui, então. Vesti o vestido preto e levei o lenço de renda na cabeça, também preto. Não consigo entrar de outra maneira no cemitério, acho que o preto é a cor do respeito pelos mortos. Mesmo que não estejamos de luto no dia-a-dia, porque aí temos de respeitar os vivos. Mas ali, na morada dos que já partiram, o preto é a nossa forma de lhes dizer que temos saudades. Comprei umas gerberas bonitas, uma mão cheia de gipsofila, prendi tudo com papel de alumínio e fui então à procura de uma gaveta livre que pudesse servir de nova morada aos meus pais, que Deus os tenha. Não sei explicar a razão mas sinto sempre o peito apertado, quando caminho por aqueles corredores com gavetas de gente morta. Levo sempre a cabeça baixa, quase como se tivesse medo. Disparate, não é? Medo de quê? A gente tem de ter medo é dos vivos, esses é que podem fazer-nos mal. Os mortos, coitadinhos, estão para ali em sossego e não podem fazer nada a ninguém, mas há coisas que não se explicam, até parece que sinto assim uma culpa por estar viva e eles não. Acho que é isso. Caminho como se pedisse desculpa. E como se estivesse triste, como se a vida não valesse assim tanto a pena, que é para os mortos não ficarem sentidos. Parvoíces minhas. Adiante.

Andei corredor acima, corredor abaixo, e nada. Só gavetas muito rentes ao chão, ia lá pôr os meus ricos pais ali? Numa gaveta tão em baixo, logo eles que sempre estiveram num andar alto? É tolice, claro. Eles não apreciam a vista. Ai, credo, Deus me perdoe, tanta parvoeira junta. Mas é assim que eu sou. Tenho estas manias. E digo sinceramente: ali, rente ao chão, não ia pôr os meus pais. Sujeitos a levar com toda a lixarada, as folhas, as porcarias todas? É que a gente sabe como é: não andam sempre a varrer. E depois? A sujidade toda a entrar na gaveta? Não. Pode parecer estúpido e admito que seja, mas relembro que os meus pais tinham uma gavetinha muito jeitosa, toda forrada pelo Armando, que era fraco para o vinho mas tinha umas mãos de ouro. 

Finalmente, já derreada das pernas e aflita dos joanetes, encontrei. É uma gaveta alta, está num corredor largo, um bocadinho mais afastado da entrada mas paciência, também não vou lá todos os dias. Não é a mesma coisa, que isto é mesmo assim. Falta-lhe o interior de madeira e veludo bordeaux, é fria, tinha algumas ervitas que já arranquei, mas pronto. O que não tem remédio remediado está. Já não há Armando para fazer o forro e, sinceramente, também não me sinto com forças para ir agora à procura de quem faça um trabalho como deve de ser. Sim, acabou por não ser mau de todo. Que Deus os tenha em sossego. Eram boa gente. E, já agora, que Deus não se esqueça também do Armando. E dos outros todos, que morrem. É triste morrer. Tão triste que a gente, mesmo que já não esteja de luto, continua a entrar de cabeça baixa nos cemitérios. Como se pedíssemos desculpa por estarmos vivos. 

Sónia Morais Santos

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