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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Conta-me #1

Imagino que me ache um monstro. Não, não, esteja à vontade, não lhe levo a mal. Eu própria às vezes olho para o espelho e digo, Maria Isabel, tu és um monstro. Depois há outros dias em que me desculpo, arranjo o cabelo, passo um rímel nos olhos, torno a olhar para o espelho e digo, Não, Maria Isabel, tu não és um monstro. Na verdade, era o melhor para todos.

O melhor. Ao que uma pessoa chega. Pensar no fim como o melhor. Parece impossível, é por isso que eu digo de mim paa mim, Maria Isabel tu não digas essas coisas a ninguém, tu fica-te com os teus pensamentos e nem te atrevas a comentá-los em voz alta, não vão as pessoas achar que não tens coração, que és má rês, que és um monstro. Mas depois também sinto necessidade de desabafar, compreende? No trabalho não falo, entro muda e saio calada, não gosto que saibam da minha vida, prefiro que não olhem para mim e pensem, Olha, lá vem a Maria Isabel, coitada. Sempre me afligiu essa ideia de ser uma coitada, mesmo sendo, como sou. E depois venho para casa e aqui fico. A romena que me ajuda fala pouco português, entendemo-nos quase só por gestos e pouco mais, é só: Violeta, a mãe comeu bem? Violeta, conseguiu dar-lhe os comprimidos todos? Violeta, onde é que está a minha camisola azul? Mas onde é que eu ia? Ah, sim, a necessidade de desabafar. Pois, também não é com a Violeta. Diga? Não... não... os meus filhos têm a vida deles. Chegam tarde a casa, metem-se no quarto e pronto. Mas também não me sentiria bem a desabafar com eles, afinal sou eu a mãe, eles os filhos, e não consigo dizer-lhes que estou cansada, que não aguento mais, que chego a desejar que isto acabe de uma vez por todas. Já viu se eles olham para mim e pensam, Mãe, tu és um monstro?

Mas agora diga-me. Olhe bem para ela. Quem não saiba até pensa que ela está ali entretida a ver a novela. É, não é? Mas a gente depois vem aqui, passa-lhe a mão diante dos olhos e ela, coitadinha, nem pisca. Tirando os dias em que está mais nervosa, em que parece que até espuma, valha-me Deus, é preciso a força de dois homens paa a agarrar. No outro dia, saiu-me para a rua sem a Violeta dar conta, só por milagre é que não foi atropelada, ia-me sem roupa, veja bem, uma senhora com 74 anos como veio ao mundo pela rua fora, foi aí um sarilho para a convencer a voltar para casa. Já viu o que isto é? Já viu o que é ligarem-me para o escritório e dizerem: a sua mãezinha fugiu de casa toda nua, andamos a ver se a apanhamos mas ela grita muito e debate-se e não há quem lhe deite a mão? Diga-me. Ponha-se no meu lugar e diga-me se isto é vida. Largo tudo, venho a correr, chego aqui e dou com aquele espectáculo, a minha mãe naqueles preparos, uma demente, e eu, Ó mãe, ó mãezinha, então?, venha para casa, vá, olhe que se constipa, tenha juizinho. As coisas que a gente diz. Juizinho...

E depois somos quatro nesta casa tão pequena, há dois anos que durmo encolhida, há dois anos que acordo vezes sem conta a meio da noite, há dois anos que ela se levanta ou grita ou então não diz nada e eu acordo sobressaltada a pensar: foi desta. O que e que sinto quando penso que foi dessa? É uma boa pergunta. Sinto... Quando vou no corredor a caminho do quarto atropelam-se-me os pensamentos: imagino-a morta e dói-me o peito, uma dor lancinante, um aperto muito forte, uma tristeza profunda. Sinto-me sozinha, percebe?, muito sozinha. Depois começo a pensar: ora então, ligar para a agência, arranjá-la, o que é que lhe visto?, o saia-casaco com que ela dizia que queria ir já não lhe serve, talvez lhe ponha a blusinha de seda e um casaquinho de malha. Imagine bem a patetice, vai-se rir, mas chego a pensar: ai, só o casaquinho de malha é pouco, vai mal agasalhada. Imagine ao que uma pessoa chega. Mal agasalhada... Ó Maria Isabel, a mãe vai morta, qual mal agasalhada! De que é que tens medo? Que se constipe? Ai , que isto até parece mal, estar aqui a rir-me que nem uma parva, mas é para rir. É para rir... Mas onde é que eu ia? Ah, o que é que eu sinto. Sinto medo, sim, sinto medo. Mas também sinto - e é aqui que me vai achar um monstro - também sinto alívio. Penso: olha, acabou-se. Descansa ela, descanso eu, descansamos todos. É isso, é. Um alívio, uma leveza, quase um contentamento. Não é fácil. Desculpe. Emociono-me muito. Pois é. Quer mais um cafezinho? Não? De certeza? E é assim. É assim a minha vida. Emagreci doze quilos desde que isto começou. As pessoas comentam, Ai a Maria Isabel está tão magrinha, está tão sumida... Depois há as que perguntam: Então a sua mãezinha? Está melhor? Melhor! Há alturas em que até sou bruta: Qual melhor? Isto tem lá melhoras? Isto é sempre a piorar, minha senhora. As pessoas fazem uma cara enfiada, encolhem os ombros e despedem-se com o inevitável: Então as melhoras. Já não digo nada. Desisto. De maneira que é assim. Há dias em que - sou muito franca - me sinto um monstro por desejar que isto acabe. Olho para mim e digo, Maria Isabel, tu és um monstro. Mas talvez não seja. Não sei. 

Sónia Morais Santos

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 "Conta-me" é, como o nome indica - e não mente - uma nova rubrica de contos 

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