Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Burro e estúpido

Às vezes o Manel chama burro ao irmão. E estúpido. Nós chamamo-lo à razão, dizemos sempre «não chames isso ao teu irmão, ele não é burro nem estúpido e mesmo que fosse não é coisa que se faça, chamar nomes às pessoas, ainda mais o teu irmão». Ele pede desculpa. Mas depois passa um dia, passa outro, e esquece-se. «Que burro!». «És tão estúpido!»
Há duas noites, deitámo-los, fomos para a sala e estávamos em plena leitura dos nossos livrinhos quando apareceu o Manel, lavado em lágrimas. Tinha estado a pensar na vida, deitado na sua cama, e estava muito triste por chamar burro ao irmão, e também estúpido, e queria pedir-lhe desculpa mas não estava a conseguir. Perguntámos se queria que fôssemos lá com ele, fazer uma espécie de mediação diplomática, mas ele preferiu ir sozinho. Esperámos um pouco e ficámos a tentar ouvir qualquer coisa, um eco, por mínimo que fosse, do que se estaria a passar naquele quarto. Nada. Talvez um soluço ou outro, abafados. Decidimos ir espreitar. Demos então com os dois irmãos, abraçados na cama do mais pequeno, o grande a pedir desculpa e a dizer que o adora e que não quer ofendê-lo, que os nomes que lhe chama não são sentidos, são só palavras que saem nos momentos mais intensos; e o outro meio aparvalhado com aquilo tudo, a dar palmadinhas desajeitadas na cabeça do irmão como quem afaga um cão vadio, e proferindo pérolas como «podes chamar-me burro à vontade, que eu não me importo» ou «a sério, Manel, podes continuar a chamar-me estúpido, que eu não ligo, não faz mal, vá lá, não chores mais.»

A sério, eu adoro ter filhos.

42 comentários

Comentar post

Pág. 1/5