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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

A reportagem do post anterior

Saiu no Diário de Notícias, no dia 28 de Março de 2007, e rezava assim:

 
Com fartura deenergia sempre pode ser mais barata para a gente

A maior central solardo mundo é inaugurada hoje, no concelho de Serpa. Em Brinches, aldeia vizinha,a população oscila entre o entusiasmo e a dúvida. Será que tanto aparato vaireduzir a conta? Poderá trazer mais gente à terra? Mais calor? O DN foi ouviras perguntas e assistiu à excitação de uma aldeia que entra no mapa

Sónia Morais Santos (por acaso nesse dia enganaram-se epuseram o nome da então minha colega, Sónia Correia dos Santos. O enganopermanece, no artigo online. É o que dá ter na mesma redacção duas jornalistascom nomes tão parecidos)

«Ai que coisa mai linda, jáviste Arminda? Parece o mar... Tão lindo!» Arminda das Neves Correia tem 82anos e acena que sim com a cabeça, «não haja dúvidas, é um trabalho bonito» queali está, na terra que a viu nascer e que lhe há-de comer os ossos. As quatromulheres estão rodeadas de placas de metal por todos os lados, em plenaplanície alentejana. É a primeira vez que botam os olhos, assim tão de perto,na maior central solar do mundo, que vai ser inaugurada hoje em Brinches,concelho de Serpa.
Em construção desde o Verãodo ano passado, a Central Solar Fotovoltaica de Serpa (Beja) será, segundoPiero dal Maso, da Catavento - a empresa portuguesa de energias renováveis quedesenvolveu e gere o projecto - «uma promissora fonte de energia alternativa,limpa e fiável» (ver entrevista pág. ao lado).
As quatro mulheres não sabembem o que aquilo é - «diz que é para dar luz, não é verdade?» -, nem sabem bemse vai ser bom para a terra - «ruim não há-de ser, a senhora não acha?...» -mas para já gostam do que vêem precisamente nas terras onde já muito penaram:«Nasceu e caiu muito cabelo à gente neste sítio. Andámos aqui todas na monda,na ceifa... Quem diria que vinha a nascer aqui isto? É uma maravilha.»
Arminda concorda. E põe-se arelembrar tempos idos: «Vim para estas terras aos 19 anos... Muito sanguedeitei dos pés, com as frieiras que a geada fazia. O meu patrão até teve penade mim e deu-me quatro mil réis para ir comprar uns sapatos. Se a gente sonhavaque em lugar de trigo ia aqui nascer esta coisa...».
Luís Guerreiro do Cabo, 76anos, e José Jacinto, 79, também miram, em verdadeiro êxtase, a paisagemmodificada. «É pá! O que para aí vai de placas... Tchhhh! Está aqui muita obra.Até me admiro disto! Como é que fizeram isto tão leve [depressa]?» José Jacintopuxa o chapelinho preto para o lado e coça a cabeça: «Ainda aqui não tinhaarrimado! Já tinha visto de longe, mas assim ao pé é que a gente vê bem.Cuidava que fosse uma obra mais pequena.»
Mas não é. Instalada numaárea de 60 hectares, dos quais 32 estão cobertos por 52 mil painéisfotovoltaicos, a central é a primeira grande instalação a entrar em produção emPortugal, e será a maior do mundo até à entrada em funcionamento da centralfotovoltaica projectada para a Amareleja, no vizinho concelho de Moura.
Para já, em Brinches sobramas dúvidas. «Se houver fartura de energia sempre pode ser mais barata para agente. É cá o meu entender», afirma, esperançoso, o senhor Luís. «O pior é sehá fartura de energia e a gente paga o mesmo ou mais», responde Zé Jacinto. «Láisso é verdade. Há sempre quem se governe bem e quem se governe mal...»
Mais adiante, IdáliaFerreira, 65 anos, deixa uma correcção importante, para que seja feita justiçano que toca aos protagonismos: «Estão sempre a dizer que a central é em Serpa.A central não fica em Serpa. Fica em Brinches. O concelho é Serpa mas o sítiocerto é Brinches! A nossa aldeia. Amanhã vem cá o Presidente Cavaco e Silva. Ànossa aldeia!»
O orgulho de pertencer àaldeia que entra agora para o mapa dos acontecimentos contrasta com o desgostopela ausência de empregos, que a central não veio resolver. Maria de GuadalupeCarvalhuço, 40 anos, desempregada, tem tristeza e desalento no olhar:«A centraldeu trabalho a muita gente durante a construção, mas agora... Agora nada. Istoé uma miséria. Deviam era construir fábricas para dar trabalho à gente.»
O mesmo lastima PedroAbrantes, 30 anos, soldador. «Trabalhei na central, a soldar as placas. Foimuito bom mas agora acabou-se. E é assim que vamos ficando esquecidos, aqui noAlentejo.»
Há em Brinches quem acrediteque virão pessoas para «ver isto», há quem não pense da mesma maneira. JoãoGalamba, 55 anos, taxista, abre o vidro do Mercedes e encolhe os ombros,desalentado: «A central é boa para o País mas para o Alentejo não vejobenefício nenhum.» E não acha que vão aparecer aí turistas, para ver a maiorcentral solar do mundo? O taxista sorri um sorriso desesperançado. «Não...Aquilo tem pouco de ver. É um montão de latas e mais nada.»
Maria Gertrudes Almada, 68anos, não renega a central, que acha bonita, «ó lá se acho». Mas olha-a comrespeito e prefere esperar para ver: «Dizem que aquilo vai fazer aqui maiscalor... Ora, a gente já leva com 39º à sombra! Então é que a gente morreassados como as sardinhas! Ai mãe. Jesus!»

 

 
 

Fotos de Rodrigo Cabrita

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