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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

A adolescência não pode (nem há-de) matar-nos

O meu filho Manel entrou na adolescência. Diz que é a partir dos 12 mas ele antecipou-se uns meses. Mudou. Mas mudou radicalmente, assim, de um dia para o outro. São mais os momentos em que está bruto como um camião do que aqueles em que é doce, como era. Deixa-se afagar mas é coisa de pouco tempo. Protesta por tudo e por nada, trata toda a gente como se ele é que tivesse os neurónios e o resto do pessoal fosse desprovido deles. Está muitas vezes no seu mundo, se bem que eu tento trazê-lo de novo para o nosso. Tudo é uma seca, um enfado, um enjoo. Sei que me esconde coisas, porque tenho a sorte de não ser burra, e isso parte-me o coração. Porque mesmo não sendo coisas graves, o facto de não as partilhar comigo significa que começa a ter, de facto, uma vida para lá da minha. Existe, para lá de mim. E isso, sendo maravilhoso, não é isento de dor. Tenho saudades dele. Não são ainda aquelas saudades doloridas, que oiço da boca de alguns pais, aquelas saudades de quem já nem lembra bem como eram os filhos antes de terem seguido o seu rumo, não são ainda essas. Ainda temos momentos de cumplicidade, de ternura, ainda o abraço, e ainda rimos muito. Mas tenho saudades por causa deste «ainda», assim repetido tantas vezes. Tenho medo que este «ainda» seja substituído por um «nunca mais». Parece uma inevitabilidade. É difícil, tão difícil para uma mãe ver um filho escorrer-se-lhe por entre os dedos. Não é que se perca o controlo da situação, não é que haja nisto um drama, não é que o rapaz se me vá fugir para a droga ou para a má vida. É só a lei das coisas. Eu sei como é porque passei por isso, e não me esqueci. Recordo-me até bastante bem de ser insuportável e de me achar insuportável mas de não conseguir fazer nada para me contrariar. O meu maior medo é o fosso que se pode criar entre uma mãe ou um pai e um filho, na adolescência, sobretudo quando ela começa tão cedo (e leva tanto tempo a acabar). São muitos anos de conflito, de tensão, de dois lados da barricada. De um lado os pais, que os querem deixar voar mas evitando que se esbardalhem todos, não ficando osso sobre osso; do outro lado os filhos, sobranceiros, altivos, com tantas certezas. Tenho medo que no meio desta conversa de surdos, alguma coisa de essencial se perca pelo caminho. Que nos percamos uns dos outros. Que aquele cordão maravilhoso e invisível que nos unia se quebre. E que depois nunca mais seja possível colá-lo. É por isso que o abraço e que o beijo e que tenho a obrigação de não me esquecer de o fazer, mesmo que ele seja tão parvo e arrogante que só me apeteça bater-lhe. É preciso não perder de vista o amor. É preciso não perder de vista a cumplicidade. É preciso respirar fundo, fechar os olhos, e relembrar aquele primeiro olhar que ele me deu, acabado de nascer. E o primeiro sorriso. E a primeira palavra. E os primeiros passos. É preciso não esquecer todo um caminho. E continuar a caminhar, sem deixar que se quebre o cordão invisível. E esperar que, quando a adolescência passar, tenhamos encontrado um amor diferente na forma, mas igual na essência.
 
 

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