Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Mateus, o artista

No fim-de-semana apareceu na nossa cama, de manhã, com a fralda cheia e xixi até aos olhos.

- Eisshhhh! Estás todo molhado!

- Foi... foi... foi o Outono!

- O Outono?

- Não, não! Foi... foi... foi o Van Gogh!

 

😳

 

(calma... não há aqui um q.i. superior, foi só uma visita que fez à exposição do Van Gogh que o marcou muitíssimo. Agora, tudo é obra do Van Gogh, até mesmo o seu xixi)

Os Papa-Léguas #6

image001.jpg

 Foto: Raquel Brinca, HUG

 

 

Olhando para ela, ninguém diz. Franzina, loira, de olho verde. Olhando para ela, sem se saber do (tanto) que é capaz, dir-se-ia que é delicada, frágil, até. E no entanto...

Rita Manso tem 46 anos e já corre há muito mais tempo do que este tempo em que correr se tornou moda. Sempre foi desportista mas certo dia, em 2003, o irmão desafiou-a a ir correr com ele, em Monsanto, Lisboa. Eram para ser só uns 5 ou 6 km mas ela correu 10 sem pestanejar. O irmão Francisco, que já corria muito, alvitrou: "Se consegues correr 10km com essa naturalidade, está na hora de fazeres uma Meia Maratona." E ela, que sempre gostou de desafios, aceitou. Treinaram juntos e correu bem. Quando terminaram, ambos viram o anúncio à Maratona de Lisboa, que ia acontecer duas semanas depois. Ambos viram mas nenhum comentou com o outro. Três dias antes da prova-rainha, Francisco ligou à irmã: "Sabes que daqui a três dias vai haver a primeira maratona em Lisboa?" Ela sorriu. Sabia. Mas de pouco lhe interessava. Ele lançou a escada: "E se nós lá fôssemos correr só 17km ou 21?" Nem foi preciso insistir muito.

Passados três dias, lá estavam os dois manos Manso. "Chovia torrencialmente. Havia pouquíssimos participantes, aí uns 50. Na rua, ninguém. Desolador. Mas nós lá fomos. Aí ao quilómetro 12 apareceu um fotógrafo, no meio do nada. Os dorsais tinham o nosso nome e nós tirámos a foto, todos contentes. [ver foto em baixo] Quando continuámos a corrida, comentámos um com o outro: epá, agora é chato. Já temos a foto oficial e não acabamos isto? E pronto. No fundo, nós só precisávamos de uma desculpa." E assim, a 7 de Dezembro de 2003, Rita Manso fazia a sua primeira maratona, com o tempo de 4 horas e 50 minutos. Como quem vai só ali num instantinho. Sem treino praticamente nenhum. Sem esforço. Sem géis energéticos ou qualquer suplemento. "Foi uma loucura, hoje sei. Uma inconsciência. Mas a verdade é que fizemos. E não custou assim tanto, para dizer a verdade. Acabei fresca. Não tínhamos ninguém à nossa espera porque ninguém sabia que íamos fazer aquilo. Nem nós! Mas senti-me o mais feliz possível."

thumb_IMG_0709_1024.jpg

A primeira de muitas maratonas, em 2003, feita como quem vai só ali dar um passeio no parque

 

A partir daí, nunca mais parou. Começou a correr com disciplina e a participar em maratonas. Os amigos (que hoje quase todos correm) achavam que ela não estava boa da cabeça. "Sugeriam que fizesse terapia. Falavam entre eles e depois vinham, com cuidado, falar comigo, a aconselhar-me a procurar ajuda. Não compreendiam." Mas, como ela não parava nem acedia a consultar um especialista, aprenderam a aceitar e, por fim, desfrutaram do prazer de a apoiar. "Quando fui fazer a maratona de Londres pela primeira vez um grupo de 20 amigos acompanhou-me. Fizeram um cartaz gigante, e pronto, redimiram-se de anos de incompreensão."

Para que se tenha uma ideia da sua paixão galopante, em 2007 fez 3 maratonas, em 2008 duas, em 2009 quatro, em 2010 oito (uma delas com 80km), e a partir daí foi sempre às oito, dez, doze de cada vez (com várias ultramaratonas pelo meio), excepto em 2015 que se "limitou" (entre muuuuitas aspas) a duas maratonas.

De todas, gosta de destacar a de Nova Iorque, uma das grandes (não em tamanho, que são todas iguais, mas em apoio do público e pelo facto de ser... Nova Iorque). Mas também a Comrades, na África do Sul. "São 89km, com muito desnível. Para eles é um life-achievement [a conquista de uma vida], vêem-se famílias inteiras a participar e o mais aplaudido é o último. Adoro. Já fiz duas vezes. Assim como a Two Oceans, que são 56 km, também na África do Sul, e que também já fiz duas vezes. Linda."

E como quase sempre acontece com quem corre, chega uma altura em que aparece o desejo de abraçar outros desafios. E é preciso não esquecer um detalhe importante. Rita vive com Tiago Dionísio. Lembram-se dele? Esse mesmo, o homem que já fez mais de 500 maratonas e que estreou a rubrica Os Papa-Léguas aqui no blogue. Ora, quando se junta a fome com a vontade de comer... dá banquete na certa. E o banquete destes dois é ora correr, ora nadar, ora pedalar, ora fazer tudo seguido e em grande. Sempre em grande.

Como daquela vez em que o Tiago inscreveu a Rita para participar com ele num projecto de solidariedade social na África do Sul chamado Unogwaja Challenge. Basicamente, a prova visa homeagear Phil Masterton-Smith, um jovem (com 19 anos, na altura) que queria muito fazer a ultramaratona Comrades mas vivia em Cape Town e não tinha dinheiro para pagar o bilhete de comboio até Durban (onde a prova começa). Então, ele fez o percurso de mais de 1660km de bicicleta, ao longo dos 10 dias anteriores à prova e, no 11º dia, participou na Comrades conseguindo chegar à meta em 10º lugar. Assim, o Unogwaja Challenge reúne 12 participantes do mundo, escolhidos a dedo, para fazerem os cerca de 1700k de bicicleta que separam Cape Town de Durban e, no 11º dia, correrem a Comrades, tal e qual como Phil Masterton-Smith. A prova visa angaridar dinheiro para instituições que fazem realmente a diferença na vida de crianças vítimas de abusos e abandono, na África do Sul.

Rita nunca pensou que fosse escolhida. Mas foi. "O Tiago tinha feito no ano anterior e eu tinha visto o que ele tinha sofrido. Pensei: 'nunca na vida'. Pois. Mas lá fui. Fazíamos cerca de 200km por dia de bicicleta. Começávamos às 6h da manhã e terminávamos por volta das 17h. Sofri horrores mas, quando vi um dos abrigos para os miúdos, que não tinha mais do que paredes e tecto, pensei: a que propósito é que eu tenho a lata de dizer que me doem as pernas e o rabo, quando estas crianças já passaram por dores inimagináveis, vivem um desalento total, sem qualquer horizonte? E assim fiz o percurso sem pensar em mim, mas sempre focada neles. Um dos objectivos era oferecer bicicletas a uns miúdos que levavam duas horas para chegarem à escola, a pé. Se tivessem as bicicletas a viagem ia reduzir para uma meia hora. É difícil ajudar de forma mais directa do que esta. E eu tive essa oportunidade."

Quando chegaram ao destino, Rita sentia-se exausta. Mas, como já tinha feito a Comrades, decidiu armar-se em forte e ir a apoiar outros membros do Unogwaja que se estreavam e um deles que ia vestido de rinoceronte (com o calor e desconforto que se imagina). Ao quilómetro 50, as pernas começaram a falhar. Caiu redonda no chão.

 

Ritual do banho

O Mateus, por ele, passava mais de metade do dia no banho. Adora. Deita-se, relaxa, brinca, faz chiqueiro. 

A rotina do banho é também rotina de mimo, de gargalhadas e de brincadeira. 

E há uma marca que nos acompanha, porque também já me acompanhou a mim, quando era criança, e à minha irmã, que nasceu 11 anos depois de mim. É daquelas marcas que não têm "ses". São nossas, fazem parte da nossa vida, da nossa história. São marcas de confiança. 

 *post em parceria com Johnson's

Fada Juju e a Festa dos Sentidos

Ontem fomos ao Teatro Villaret ver a nova peça da Plano 6, "Fada Juju e a festa dos sentidos".

Como sou uma fã incondicional da Plano 6 e da Paula Teixeira, achei que não havia melhor peça para ser a estreia de pequeno Mateus no teatro do que esta. Enganei-me. Não, não, calma! Não é que a peça não seja boa, que é. Pequeno Mateus é que não conseguiu aguentar-se mais que uns 5 minutos. A fada deu-lhe um medo do caraças e em menos de nada estava aos gritos. Primeiro começou a chorar baixinho, tremendo o queixo, e eu - ingénua - achei que estava comovido com a música, que amor. Afinal estava era a controlar-se para não largar num pranto, o totó. A pessoa não o leva a parte nenhuma e depois dá nisto. Sim, é verdade. O Manel foi a todos os teatros, todos os concertos, todas as experiências sensoriais-cognitivas-pedagógico-coiso; o Martim foi só a metade; a Mada foi a 1/3; e este... vê na televisão. Depois a pessoa um dia leva-o ao teatro e o desgraçado não se sabe comportar. Enfim.

Removido pequeno chorão da sala pelo pai, fiquei eu e a Mada. E foi bonito assistir a uma peça que fala de inclusão. Que fala de ouvir a voz do coração, de ver com as emoções, de andar com a fantasia de mãos dadas. Há uma personagem que está numa cadeira de rodas, há outra que não ouve e outra que não vê. E todas acabam a perceber que podem tudo, desde que tenham amigos que aprendam a comunicar com elas, e que a linguagem do amor é universal. Bonito e importante, não só para miúdos como para graúdos. E a Paula Teixeira, que faz da inclusão a sua vida desde sempre, é a pessoa certa para o papel principal.  

Parabéns à Ana Rangel pela autoria, ao João Ascenso pela encenação, a todos os actores e equipa técnica em geral.

juju-754x394.jpg

IMG_6160.JPG

Perdoem a alta qualidade desta foto 😬

 

A saída do Mateus com o pai teve uma coisa boa: foram os dois às compras e, quando saímos, os dois tinham um presente para mim. Coisas mais queridas. Sendo assim, podes continuar a chorar, Mati. 

 

Obrigada!

A todos  - e foram tantos! - que deixaram a contribuição para as povoações de Santa Comba Dão na escola Tutor T, muito, muito obrigada. Já foi tudo entregue, e distribuído pelas famílias com necessidades mais prementes.

unnamed.png

2.png

unnamed-2.png

 

 

Um acórdão que parece mentira

«Por outro lado, a conduta do arguido ocorreu num contexto de adultério praticado pela assistente. Ora, o adultério da mulher é um gravíssimo atentado à honra e dignidade do homem. Sociedades existem em que a mulher adúltera é alvo de lapidação até à morte.

Na Bíblia, podemos ler que a mulher adúltera deve ser punida com a morte. Ainda não foi há muito tempo que a lei penal (Código Penal de 1886, artigo 372.º) punia com uma pena pouco mais que simbólica o homem que, achando sua mulher em adultério, nesse acto a matasse.

Com estas referências pretende-se, apenas, acentuar que o adultério da mulher é uma conduta que a sociedade sempre condenou e condena fortemente (e são as mulheres honestas as primeiras a estigmatizar as adúlteras) e por isso vê com alguma compreensão a violência exercida pelo homem traído, vexado e humilhado pela mulher. Foi a deslealdade e a imoralidade sexual da assistente que fez o arguido X cair em profunda depressão e foi nesse estado depressivo e toldado pela revolta que praticou o acto de agressão, como bem se considerou na sentença recorrida.»

 

Esta passagem faz parte do Acórdão proferido pelo Tribunal da Relação do Porto no dia 11 de outubro de 2017. Um Acórdão escrito pelo relator, o Juiz Desembargador Neto de Moura, e assinado pela Juíza Desembargadora Maria Luísa Arantes. Podem lê-lo na íntegra AQUI

 

Hein? Percebi bem? Violência doméstica justificada pela conduta da mulher? A adúltera levou nos cornos porque... estava a pedi-las? De referir que (como se fosse preciso ainda referir mais alguma coisa) a mulher não levou uns tabefes (o que já seria inadmissível) mas o marido agrediu-a violentamente com uma moca cheia de pregos. E o Tribunal da Relação do Porto acha que sim senhor, o homem tinha lá as suas razões, afinal, tinha a honra manchada, e isso é que não pode ser. Porrada nela, mulher adúltera. Até há "sociedades em que a mulher adúltera é alvo de lapidação até à morte"... ou seja: muita sorte teve esta.

Sim, senhor. 

Se queriam assistir a um regresso à idade média... aí o têm. E nem foi preciso entrar numa máquina do tempo.

(estou agoniada com isto, a sério)

 

Mais um local de confiança para onde podem enviar ajuda

A Associação de Solidariedade Social Mercado dos Santos (iniciativa da verdadeira anja Marisa Barroca), vai no domingo para Oliveira do Hospital, avaliar necessidades e entregar apoio direto a cada pessoa afetada.

Ela pede encarecidamente ajuda, tudo o que tiverem por casa, roupas de criança e adulto, roupas de cama, de banho, artigos de higiene e limpeza e que possam ceder.

No sábado estarão todo o dia na Scholé ( Rua do Godinho 618 4450 Matosinhos) a receber as vossas ajudas, a separar e a embalar.

Uma certeza fica desde já: nada ficará arrumado em armazéns a estragar, tudo será entregue diretamente a quem esta a sofrer, à semelhança do que fizeram em Pedrogão.

A Marisa encontra as pessoas, no terreno, e entrega-lhes em mão os produtos que as ajudam. Como ela mesmo diz "para ficar tudo a apodrecer num pavilhão não contem comigo!"

 

Muito obrigada!

mercado dos santos.png

 

Pág. 1/5