Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Faltam dois dias (e eu estou a começar a enervar-me)

Primeiro, às 8.05 da manhã, 1500 metros a nadar nas águas límpidas e cristalinas do Tejo, ali mesmo junto ao Ocearário. Hummm... há lá melhor forma de começar o dia?

Captura de ecrã 2017-05-3, às 13.00.31.png

 

Depois, tirar o fato, enxugar o corpinho, arrumar tudo (a desarrumação desclassifica), e seguir na bicla para 45 km.

Captura de ecrã 2017-05-3, às 13.00.46.png

 

Por fim, desmontar da bicla, retirar os sapatos de encaixe (sim, que a pessoa vai com os pés presos aos pedais), calçar os ténis e começar então a correr 10 km.

Captura de ecrã 2017-05-3, às 13.01.13.png

Tenho o coração um bocado apertado, confesso. 

Acho que estou mais ou menos preparada mas toda a logística me inquieta. É muita tralha! O mister Pedro Almeida mandou-me a check list e tem VÁRIAS PÁGINAS! Credo!

Pronto. 

Faltam dois dias para despachar isto. É no domingo, dia 7. Dia da Mãe (dia da mãe se esfalfar em frente aos filhos)

 

 

Luz dentro do armário

Comprei um novo roupeiro para o meu quarto (a culpa é da loja do demo, aka Happy Company, e o meu marido está inclusivamente a pensar entregar-lhes a factura para que procedam ao pagamento). De caminho, ao ver os roupeiros, enlouqueci com as luzes com sensores (como nos hotéis - acendem quando abrimos a porta).

Gostei tanto que já lá voltei para comprar luzes para os outros armários já existentes e posso dizer que a iluminação no interior dos roupeiros está para mim como a revolução industrial esteve para os países no século XIX.

Como diz, e muito bem, o senhor meu marido: nada como trazer luz para dentro do armário (para o caso de não terem percebido a metáfora: discernimento para dentro da alma, paz interior). Estou nessa fase (real e metafórica).

FullSizeRender-33.jpg

 Serviço público: comprei no Ikea, há eléctricas e a pilhas (as eléctricas custaram 25€, salvo erro e a maior a pilhas custou 16€)

Pedro Choy

O meu sogro trouxe, há umas semanas, o caderno com os meus trabalhos do DNA de 2003.

Entre eles, estava esta entrevista, que fiz ao Pedro Choy.

Uma história de vida muito impressionante, que refiro muitas vezes quando alguém se queixa da vida. Lembro-me que a minha própria irmã, numa fase da sua vida em que gostava de se lastimar de alguma má sorte que tinha tido, ouviu muitas vezes esta história. 

Vale mesmo a pena conhecer.

 

Entrevista de Sónia Morais Santos

Fotografias de Augusto Brázio

FullSizeRender-32.jpg

Tem um aperto de mão como deviam ser todos. A mão aberta, primeiro. A mão fechada, depois. Os ossos da gente uns de encontro aos outros, um calor que permanece durante um pedaço e a sensação de que, efectivamente, se foi cumprimentado. 
Pedro Choy tem 43 anos. Filho de pai português e mãe chinesa, nasceu em Macau mas foi em Portugal que passou toda a infância, que cresceu e se fez homem. Um homem que vive ainda obstinado pela ideia da perfeição, incutida desde sempre pelo pai, e que se reflecte em tudo o que faz. Provavelmente até nos apertos de mão.
Estudante de Medicina em Coimbra, foi-se desiludindo com o curso e com a realidade que observava nas urgências do hospital: as pessoas eram tratadas como máquinas cujas peças tinham uma avaria, sem sentirem qualquer humanidade por parte dos médicos que as atendiam. «Este não é o meu ideal de Medicina», decidiu. Com o 4º ano concluído, seguiu para Marselha com o objectivo de tirar o curso de Medicina Tradicional Chinesa. Cinco anos depois, abria a primeira clínica em Coimbra. Pedro Choy tem actualmente 18 clinicas espalhadas pelo país, é presidente da Associação Portuguesa de Acupunctura e vice-presidente da Federação Europeia de Medicina Tradicional Chinesa. A Salvaterra de Magos, onde vive, chegam pessoas de todo o mundo para serem consultadas por ele. Talvez assim não seja de estranhar que sofra de
um complexo de superioridade. A verdade é que a mania da perfeição o persegue. Até mesmo nos apertos de mao.

Há quanto tempo está a viver em Salvaterra de Magos?

- Há cerca de cinco anos, altura em que decidi que viver em Lisboa fazia mal à saúde.

Não recomenda a ninguém viver em Lisboa.

-  Não, de maneira nenhuma. As pessoas têm um stress muito grande, passam horas no trânsito, andam enervadas, atrasadas, sem paciência para ninguém, agridem-se verbalmente, agridem-se fisicamente. Estava cansado.

Nota essa diferença nos seus pacientes, aqul em Salvaterra?

- Sabe, eu recebo aqui pessoas vindas não só de todo o país como de todo o mundo. Vêm cá pessoas de África, do Brasil, de propósito para me consultar. Por incrivel que pareça já veio cá uma pessoa de Pequim para me consultar. É um absurdo, não percebo porquê. Penso que tem um bocado a ver com a comunicação social. 

E com o facto de as pessoas terem já uma confiança no seu trabalho. Porque muitas vezes, nesta área, existe um certo receio por parte do paciente em relação a algo que ainda lhe é relativamente desconhecido. . .

- O facto é que a formação em Medicina Chinesa nem sempre é boa. E como não existe regulamentação das chamadas Medicinas nao convencionais, há por todo o lado pessoas a exercer sem competência. Isso faz com que o cidadão não sinta, efectivamente, essa confiança.

A ausêncla de lei torna este um território fértil para pessoas menos sérlas.

- Posso dizer-lhe que conheço vários casos de chineses a trabalhar em acupunctura na Europa, e em Portugal também, que na terra deles eram auxiliares de cozinha. 

Isso é assustador.

- E quando digo isso, refiro-me também aos ocidentais. A maioria das pessoas que exerce em Portugal não tem formação. Existem honrosas excepções à regra. Mas sem lei, seja em que profissão for, haverá sempre pessoas desonestas que vão exercer sem a formação adequada.

Quantos anos de estudos são precisos para se ter uma formação adequada?

- Um curso de Medicina tradicional chinesa tem no mínimo cinco anos.

Tem sido um lutador incansável pela legalização da Medicina chinesa.

- Desde o primeiro dia em que comecei a trabalhar em Portugal, creio que em Outubro de 1086. De resto, o meu primeiro dia de trabalho não foi clínico. Reuni os jornalistas em Coimbra (foi lá que comecei a exercer) e fiz questão de lhes explicar quem era e qual a minha actividade. Na altura a situação era ainda mais grave porque ninguém conhecia o termo Medicina chinesa, nem valia a pena falar dele. Além disso, a acupunctura era sobretudo praticada por pessoas que faziam simultaneamente vidência, adivinhação, leitura de cartas, astrologia. Não tenho nada contra esse tipo de práticas, todas as pessoas têm direito às suas crenças. Agora, cada coisa no seu lugar.

E foi isso que foi dizer aos jornalistas?

- Foi. Confesso que, na altura, não tinha noção do grau de ignorância em relação à Medicina chinesa. Era muito maior do que eu pensava. Quando cheguei aos jornalistas e disse quer era acupunctor, a primeira pergunta de todos foi: "O que é isso?" Houve até um hornalista que perguntou: "Apicultor? mas como é que se pode criar abelhas numa cidade?"

É uma prática relativamente recente em Portugal.

- Na altura era. Penso que agora já toda a gente conhece a Medicina chinesa.

De qualquer forma, a acupunctura continua a ser mais conhecida do que o resto da Medicina chinesa.

- Eu próprio achei que tinha de se travar uma batalha de cada vez. Por outro lado, naquele tempo, usar-se o termo Medicina era meio caminho andado para se ser preso. A lei portuguesa é clara em relação a isso. É uma lei de 1942 e, portanto, temos que nos reportar à época. Por um lado, em 1942 vivíamos sob um regime ditatorial. Por outro, os únicos conhecedores de saúde em Portugal eram os médicos. Um enfermeiro tinha a 4ª classe e depois, durante seis meses, frequentava um curso de enfermagem. Os tempos mudaram. Hoje um enfermeiro tem um curso superior de cinco anos.

Os tempos mudaram mas a lei é a mesma.

- É a mesma e diz o seguinte: quem se intitular médico e tratar pessoas, se não for médico e não estiver inscrito na Ordem os Médicos Portuguesa incorre em pena de prisão. Para a lei portuguesa não basta ser médico para se exercer Medicina. É preciso também estar-se inscrito na Ordem dos Médicos. Portanto, na altura, utilizar-se o termo Medicina podia levar um indivíduo honesto à cadeia, mesmo fazendo outro tipo de Medicina que não tivesse nada a ver com a Medicina tradicional.

Acha que ainda estamos muito longe do dia em que a Medicina tradicional chinesa vai estar regulamentada?

- Existem lobbies poderosos muito interessados em impedir a evolução destas práticas. O mais poderoso é o lobby do medicamento. Porque é sobretudo o lobby que perde dinheiro com as Medicinas ditas não convencionais. Não são os médicos. E a Ordem dos Médicos tem sido instrumentalizada por esse lobby das mais diversas maneiras.

Quantos processos é que a Ordem dos Médicos já lhe moveu?

- Cerca de dez.

Perdeu algum?

- Não. Ficaram todos arquivador na primeira instância. Nenhum chegou sequer a julgamento. Não havia matéria para julgamento. Os juízes do ministério público, logo na fase de instrução, resolveram todos invariavelmente arquivar os processos.

Já se diverte.

- Até faço mais: vou à comuniação social dizer que me moveram mais um processo e passado um mês ou dois mando um fax à Ordem dos Médicos a agradecer.

A agradecer?

- Graças a eles, e aos processos que me movem, a minha clientela vai aumentando. Aliás, acho que devo parte do meu sucesso à Ordem dos Médicos e aos processos que me move.

Hoje em dia, ainda há pouco falávamos sobre isso, praticamente toda a gente sabe o que é a acupunctura. Ainda assim, pedia-lhe que me falasse um pouco sobre esta prática.

- A acupunctura é um ramo da Medicina tradicional chinesa, em que se utilizam agulhas para interferir nas ordens de comando do organismo, via sistema nervoso, no sentido de promover um equilíbrio e uma regularização do organismo. Ou seja, introduzindo agulhas em terminações nervosas, conseguimos produzir estímulos no sistema nervoso periférico (e acessoriamente central) que vão promover um acto reflexo e fazer com que o organismo responda, promovendo uma alteração positiva do seu comportamento. De uma forma simplista para o cidadão comum, há pontos de acupunctura que odem acelerar o ritmo cardíaco e há pontos de acupunctura que podem reduzir o ritmo cardíaco. Ou o mesmo ponto estimulado de uma maneira pode aumentar o apetite, estimulado de outra pode diminuir o apetite. Estes pontos de acupunctura ficam em terminações nervosas.

Que são muitas.

- São cerca de 4000. Há 365 pontos ditos principais. A maior parte dos acupunctores que têm baixa formação dizem que existem 365 pontos de acupunctura. É frequente ver-se escrito esse tipo de informação errada. Só para ter uma ideia do quão errado isto é, digo-lhe que só a orelha, o pavilhão auricular, tem 390 pontos.

Conhece-os a todos?

- Não posso garantir que, instantaneamente, sei exactamente onde é que estão os 4000, 5000 pontos do nosso organismo. Porque são realmente muitos. É a mesma coisa que perguntar a um médico se ele conhece todos os medicamentos. Nenhum médico conhece todos. Mas terá acesso a manipular qualquer um dos medicamentos existentes se for necessário, porque tem a formação suficiente para os procurar e descobri-los.

A saúde, para a Medicina tradicional chinesa, baseia-se no equilíbrio das energias. O que é que pode provocar desequilíbrio e, logo, a doença?

- Em primeiro lugar viver. A vida é um desequilíbrio, é um caminhar entre dois pólos, como tudo na natureza. Tudo tem um pólo positivo e um pólo negativo. Viver promove desequilíbrio, promove desgaste. A primeira condição para se estar doente é estar-se vivo. Todos nós, sem excepção, estamos doentes. Uns mais, outros menos. Se levar um médico chinês a uma maternindade, ele encontra doença em todos os recém-nascidos. Doença presente e doença hipoteticamente futura. Porque consegue classificar, de acordo com alguns sinais e sintomas do recém-nascido, sinais de reconhecimento de desequilíbrios das energias.

Um médico chinês numa maternidade seria o pavor de todas as mães.

- Poderia ser para as mães ocidentais, não habituadas a este tipo de conceito. Aliás, essa é uma das grandes diferenças da educação ocidente-oriente. E penso que a educação ocidental é responsével por muita da patologia psicológica e psicosomática do adulto jovem.

Porquê?
- Porque as pessoas são educadas num mundo cor de rosa. Um mundo em que não há Yin e Yang, não há bem e mal. Às crianças só é dado ver o bem. E, a dada altura, descobre-se o mal, porque ele faz parte da própria vida. Esta dicotomia entre dois pólos opostos existe sempre em todo o lado.

Isso é interessante. Os ocidentais escondem o pólo negativo para proteger os mais novos?
- E acabam por prejudicá-los. Os orientais são educados desde que nascem na noção de que qualquer coisa tem o seu contrário em simultâneo. Bern e mal existem sempre juntos. Então, não têm o mesmo choque de adolescência e de jovem
adulto que têm os ocidentais, que criam graves conflitos existenciais com repercursões que, às vezes, ficarn para sempre.

A acupunctura pode curar tudo o que a Medicina chamada convencional pode curar? Dou-lhe um exemplo: alguns tipos de
cancro, detectados precocemente, são curáveis pela Medicina convencional. A acupunctura tem essa capacidade também?

- A acupunctura pode ser aplicada em qualquer problema de saúde, seja ele qual for. Mas o mais importante é o facto de ambas as Medicinas serem perfeitamente compatíveis. E poderem ser exercidas em simultâneo, para beneficio do paciente. Justamente por terem mecanismos de acção tão distintos, tão diferentes, que nunca se chocam, nunca colidem. É por isso que a definição de Medicinas paralelas é tão perfeita. Porque é realmente o que são: podem caminhar lado a lado, em simultâneo, sem nunca se tocar.

Reencaminha, em algumas circunstâncias, os seus pacientes para os médicos ditos convencionais?
- Trabalho sempre em colaboração com a Medicina convencional, quer o médico que está a tratar dos meus pacientes o saiba, quer não saiba. Dizemos sempre ao paciente que não pode, de maneira nenhuma, abandonar a Medicina convencional, nem os medicamentos que está a tomar. Em contrapartida, como a Medicina chinesa trata sobretudo a causa
das doenças, mais cedo ou mais tarde, o paciente vai melhorar dos sintomas. E será o próprio médico o primeiro a retirar-lhe os medicamentos quando eles deixarem de ser necessários. E a retirá-los da forma que têm de ser retirados. Porque tudo tem técnica. Dar fármacos tem técnica e retirá-los também. E deve ser quem os prescreve a retirá-los.

Não toma fármacos?
- Tomo quando é preciso. E não tenho problema nenhum, não tenho nada contra. Não se deve ser fundamentalista.

Também exlste o contrário? Médicos da chamada Medicina convencional a reencaminharem os pacientes para a Medicina tradiclonal chlnesa? 

- Sim. Todos os dias recebo pacientes enviados do médico. E todos os dias envio pacientes ao médico. E recebo muitos médicos na qualidade de pacientes.

A Medicina tradicional chinesa é cara?

- Infelizmente, para a maioria das pessoas é. Uma das circunstâncias pelas quais me tenho batido é a necessidade de o cidadão ter acesso a estas práticas também pela via estatal. A Associação Portuguesa de Medicina Chinesa, a que eu presido, está a criar centros de atendimento gratuito. Há já um centro a funcionar em Almeirim, destinado a uma população carenciada. Estão neste momento em projecto outras clínicas gratuitas, que serão patrocinadas por mim e pela Associação Portuguesa de Acupunctura. Mas isto devia competir ao Estado Português.

Quanto custa exactamente uma consulta, um tratamento?

- A Associação Portuguesa de Medicina Chinesa recomenda que se cobre 50 euros por uma consulta e 30 euros por uma sessão de acupunctura. Estes valores estão abaixo dos praticados por qualquer especialidade de medicina convencional. Bastante abaixo até. O problema é que a acupuntura exige uma repetição de sessões. São tratamentos de longo prazo.

Esses são valores recomendados pela Associação Portuguesa de Acupunctura. São os que pratica?

- Não. São os que praticam as minhas clínicas. Eu, Pedro Choy, cobro 120 euros por uma consulta.

Como tem 18 clinicas, imagino que esteja rico.

- Depende do que se entende por rico. Estou longe de ser uma pessoa pobre. Penso que, enquanto indivíduo, devo ser das pessoas que paga mais impostos em Portugal.

Gostava muito de poder dlzer o mesmo.

- De qualquer das formas - e isto vai parecer que é conversa - acho que o dinheiro não tem nenhum valor. Nada do que fiz foi feito por dinheiro. Não foi a minha motivação.

Mas que dá muito jeito, dá.

- Não me queixo de ter muito. Mas penso que conseguia viver com aquilo com que vive qualquer cidadão português e ser feliz na mesma.

Em que é que gasta o dinheiro? Quais são os seus prazeres?

- Tenho um vício que passa pela adrenalina. Quem me vê não imagina, porque sou uma pessoa muito calma, tranquila. Justamente porque a minha adrenalina está muito domesticada pelo facto de fazer karaté há 37 anos.

Chegou a trelnar um campeão do mundo.

- Fiz vários campeões do mundo. Fui o primeiro português a fazer um campeão do mundo. Acho que quando se faz artes marciais a um nivel internacional fica-se um bocado viciado em adrenalina. Quando era novo descarregava isso nas motas. Hoje tenho tendência para gostar de carros desportivos. Costumo ter carros desportivos. É a única coisa em que faço alguns excessos. Não sou pessoa de excessos. Tenho uma vida perfeitamente normal, visto-me normalmente, não compro roupas de marca. Nunca comprei roupas de marca na vida. As roupas que trago hoje devem ter, pelo menos, uns sete ou oito anos, se nao tiverem mais. Alias, vê-se, estas calças já estão desfeitas na baínha, esta camisa já está descolorada. Não ligo a coisas materiais, nunca liguei. Tenho uma ascendência rnuito pobre, sou filho de gente muito pobre.

Nasceu em Macau. Com que idade veio para Portugal?
- Com três meses. O meu pai era militar de baixa patente. Quando rebentou a guerra colonial chamaram todos os efectivos que consideravarn válidos para a guerra. Foi assim que viemos para Almeirim, onde vivia a minha avó. Nos primeiros meses ficámos a viver em casa dela. Um ano depois de termos chegado a Portugal, o meu pai foi mandado para a guerra. E passou lá os primeiros 14 anos da minha vida.

A sua mãe ficou sozinha com quantos filhos?
- A minha mãe, que é chinesa, ficou sozinha com quatro filhos, três rapazes e uma rapariga. Sozinha, numa terra estranha, sem falar uma palavra de português. Quando digo que éramos pobres, não exagero. Tive electricidade pela primeira vez aos 15 anos. Havia uma única torneira em casa, as instalações sanitárias eram no fundo do quintal e consistiam num buraco feito no chão, rodeado por uma cabana de madeira feita por nós, crianças, com tábuas e pregos. Todos os anos tapávamos aquele buraco com terra e abríamos outro buraco ao lado. Isto eram as nossas instalações sanitárias. Além disso, partilhava a cama com o meu irmão mais velho, na cozinha. Estudávamos à luz dos candeeiros a petróleo, mas estivemos sempre entre os
melhores alunos no liceu. De outro modo não teriamos ido para Medicina.

Foram todos para Medicina?

 

 

Conta-me #4

gavetas.jpg

 

Sim, acabou por não ser mau de todo. Quer dizer, não tem comparação com a casinha onde estavam antes, que isto é mesmo assim. Era uma gaveta forrada a madeira e veludo, não tinha ponta de humidade. Vi outras ao lado, abertas, todas cheias de musgo, a gente punha a mão e estava molhado. A dos meus pais não. Sequinha. Nem cheirava a mofo. Tinha de ver. Uma maravilha, realmente. Foi o Armando, nosso vizinho lá nas Paivas, que se ofereceu para fazer aquele serviço em honra aos meus pais que o ajudaram muito em vida. Que Deus os tenha em sossego, coitadinhos. Eram boa gente. Sempre prontos para ajudar. O Armando também não era mau rapaz, o que é que tinha a cabeça fraca para o vinho. Começava a beber e depois pronto, estava tudo estragado. Faltava ao emprego, não aquecia o lugar muito tempo. Andava à pancada nos cafés, na rua, em todo o lado. Volta não volta aparecia com um olho à banda. Então, Armando, o que foi isso rapaz? Ó ti Júlia - ele tratava-me sempre por ti Júlia, coitadito - Ó ti Júlia caí. Ai, rapaz, muito cais tu. Ele ria-se. Daí a tempos, outro olho. Então, Armando? Caíste, foi? Tenho o pé pequeno, ti Júlia, isto para o equilíbrio é o diabo! Eu ria-me. Desgraçava-se, coitado. Diz que nem sempre foi assim. A Odete, do 36, diz que foi desgosto. Parece que a mulher o deixou, que o trocou pelo irmão. Diz ela! Que eu não ouvi pela boca dele, nem vi nada, não sei. Mas se assim foi também não se faz. Um irmão roubar a mulher a outro? Também é chato, coitado do homem. Não sei se foi isso ou não e agora também já não posso perguntar-lhe, que já não está entre nós. Sim, há coisa de uns meses levou uma pancada de um carro - bêbado que nem um cacho - e ficou-se logo ali, como um passarinho. Pobre diabo.

Bom, mas de uma coisa não há dúvida. Era muito jeitoso de mãos, o Armando. Foi um dia lá medir o espaço, comprou a madeira, o veludo bordeaux. Ficou um primor. Por isso, sim, quando nos disseram que a porta da gaveta não tinha arranjo e que tínhamos de encontrar outra para meter os meus pais fiquei arreliada, não vou dizer que não. Para ser franca, nem dormi nessa noite. Estas coisas mexem com a gente. Os meus paizinhos lá na sua gaveta, tão bem acomodados, e agora isto? Ter de os mudar, ter de os desassossegar. Os mortos querem-se em sossego. Não é cá para andar a mudar de casa, que muito já eles andaram em vida. Não é? A morte quer-se quieta.

Lá fui, então. Vesti o vestido preto e levei o lenço de renda na cabeça, também preto. Não consigo entrar de outra maneira no cemitério, acho que o preto é a cor do respeito pelos mortos. Mesmo que não estejamos de luto no dia-a-dia, porque aí temos de respeitar os vivos. Mas ali, na morada dos que já partiram, o preto é a nossa forma de lhes dizer que temos saudades. Comprei umas gerberas bonitas, uma mão cheia de gipsofila, prendi tudo com papel de alumínio e fui então à procura de uma gaveta livre que pudesse servir de nova morada aos meus pais, que Deus os tenha. Não sei explicar a razão mas sinto sempre o peito apertado, quando caminho por aqueles corredores com gavetas de gente morta. Levo sempre a cabeça baixa, quase como se tivesse medo. Disparate, não é? Medo de quê? A gente tem de ter medo é dos vivos, esses é que podem fazer-nos mal. Os mortos, coitadinhos, estão para ali em sossego e não podem fazer nada a ninguém, mas há coisas que não se explicam, até parece que sinto assim uma culpa por estar viva e eles não. Acho que é isso. Caminho como se pedisse desculpa. E como se estivesse triste, como se a vida não valesse assim tanto a pena, que é para os mortos não ficarem sentidos. Parvoíces minhas. Adiante.

Andei corredor acima, corredor abaixo, e nada. Só gavetas muito rentes ao chão, ia lá pôr os meus ricos pais ali? Numa gaveta tão em baixo, logo eles que sempre estiveram num andar alto? É tolice, claro. Eles não apreciam a vista. Ai, credo, Deus me perdoe, tanta parvoeira junta. Mas é assim que eu sou. Tenho estas manias. E digo sinceramente: ali, rente ao chão, não ia pôr os meus pais. Sujeitos a levar com toda a lixarada, as folhas, as porcarias todas? É que a gente sabe como é: não andam sempre a varrer. E depois? A sujidade toda a entrar na gaveta? Não. Pode parecer estúpido e admito que seja, mas relembro que os meus pais tinham uma gavetinha muito jeitosa, toda forrada pelo Armando, que era fraco para o vinho mas tinha umas mãos de ouro. 

Finalmente, já derreada das pernas e aflita dos joanetes, encontrei. É uma gaveta alta, está num corredor largo, um bocadinho mais afastado da entrada mas paciência, também não vou lá todos os dias. Não é a mesma coisa, que isto é mesmo assim. Falta-lhe o interior de madeira e veludo bordeaux, é fria, tinha algumas ervitas que já arranquei, mas pronto. O que não tem remédio remediado está. Já não há Armando para fazer o forro e, sinceramente, também não me sinto com forças para ir agora à procura de quem faça um trabalho como deve de ser. Sim, acabou por não ser mau de todo. Que Deus os tenha em sossego. Eram boa gente. E, já agora, que Deus não se esqueça também do Armando. E dos outros todos, que morrem. É triste morrer. Tão triste que a gente, mesmo que já não esteja de luto, continua a entrar de cabeça baixa nos cemitérios. Como se pedíssemos desculpa por estarmos vivos. 

Sónia Morais Santos

Verde de inveja

Há vidas que me deixam assim mesmo roidinha de inveja. Ok, se conseguisse esta vida para mim não poderia ter filhos, e isso seria muito triste. É sempre assim: não se pode ter tudo. Mas pronto, digamos que, numa outra encarnação, não me importaria de ter a vida deste casal (e o corpinho dela, já que estamos numa de sonhar).

Jack Morris, de 26 anos e a namorada Lauren Bullen, de 24, têm blogues e Instagrams famosos (e uma vida de babar). Basicamente, eles viajam por todo o mundo, e ganham verdadeiras fortunas ao promover marcas e locais através das suas fotografias incríveis. Ele deixou a escola aos 17 anos, trabalhou numa empresa de limpeza de tapetes, até que um dia, aos 21 anos, empacotou a vida e comprou um bilhete de ida para Banguecoque, onde a sua nova vida de aventuras começou.

Com mais de 3 milhões de seguidores, ganham cerca de 7 mil euros por post! 

Conheceram-se nas ilhas Fiji e actualmente vivem em Bali (quando não estão a viajar). É evidente que terão dias maus, como toda a gente, mas fica mesmo difícil imaginar dias maus numa vida de viagens e destinos de sonho.

Poder passar a vida a viajar com o meu marido e viver disso? Eissshhhhhh... Se pudesse levar a tropa toda atrás e uma professora que lhes desse aulas acho que estava feito! 

Quem mais se confessa verde de inveja?

FullSizeRender-18.jpg

FullSizeRender-31.jpg

FullSizeRender-30.jpg

FullSizeRender-29.jpg

FullSizeRender-28.jpg

FullSizeRender-27.jpg

FullSizeRender-26.jpg

FullSizeRender-25.jpg

FullSizeRender-24.jpg

FullSizeRender-23.jpg

FullSizeRender-22.jpg

FullSizeRender-21.jpg

FullSizeRender-20.jpg

FullSizeRender-19.jpg

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jardim Zoológico

No sábado à tarde já pequeno Mati parecia outro. Ainda tinha um bocadinho de tosse de cão mas nada de falta de ar. Aproveitámos o facto de estar cá a minha irmã, cunhado e sobrinho para irmos todos ao Zoo. O meu pai teve um imprevisto de última hora mas a minha madrasta também foi connosco e acabou por ser uma tarde mesmo divertida. Andámos de teleférico, de comboio ("o béu, o béu!!!!"), e vimos a bicheza toda. 

IMG_7967.JPG

IMG_7965.JPG

IMG_8349.JPG

IMG_8354.JPG

 Leões a fazer aquilo que têm feito melhor nos últimos tempos: dormir 😬🙊

 IMG_8362.JPG

IMG_8364.JPG

IMG_8367.JPG

IMG_8370.JPG

IMG_8386.JPG

IMG_8400.JPG

Sobrinho mais querido 

IMG_8412.JPG

IMG_8422.JPG

 Pequeno Mateus, a quem chamo "Zebra", perto das suas homónimas mas com tromba de elefante 😂

Fim-de-semana prolongado com visitas ao hospital

No sábado de manhã foi o Mateus. Acordou com uma tosse de cão, sem conseguir respirar, ficou cianótico. Percebi logo que eram as vias áreas superiores, que não era nada profundo, calculei que fosse uma laringite. Eram 4h da manhã, abrimos a janela, pusemo-lo a respirar ar fresco, melhorou. Mas às 8h estava outra vez péssimo, com tiragem intercostal e as narinas todas abertas, e fomos com ele para o hospital. Esteve a levar adrenalina e hoje é a última noite de corticóides. Está impecável (aliás, ficou logo impecável horas depois de receber adrenalina).

No domingo de manhã fui eu. O Ricardo e o meu cunhado foram correr para o Monsanto e eu aproveitei que a minha irmã estava em casa para ir também fazer um treino de bicicleta pela Expo. Já ia com 36 km (ia fazer 40km) quando me enfiei num carril quase submerso por uma poça de agua, ali perto do Lux. Voei e aterrei de cabeça. O impacto foi tão forte que me saiu sangue pelo nariz. Fiquei dentro da poça de água, atordoada, confusa, e a achar que me ia apagar. Do nada veio na minha direcção uma mulher que estava a treinar a caminhada porque dentro de dias vai a Fátima a pé. Ajudou-me, deitou-me em cima da sua capa para a chuva, pediu gelo nas proximidades, pôs-me a falar para não adormecer, despiu-me a t-shirt ensopada, despiu a sua camisola e vestiu-ma porque comecei a tremer de frio (ela tinha um corta-vento). Foi um verdadeiro anjo que me apareceu (só sinais do Universo, nos últimos tempos). Ligou para o Ricardo, que já tinha terminado o seu treino e andava de carro com o meu cunhado por ali perto a ver se me via. Foi ele que me foi buscar e foi o meu cunhado que viu que o capacete estava partido. O impacto foi de tal ordem que consegui a proeza de partir o capacete, que é rijo como tudo.

Mas pronto. Tudo acabou bem. A TAC não revelou quaisquer problemas ao nível da mona (tirando os que já possuía, mas quanto a isso nada a fazer), e só tenho um braço todo raspado e negro e uma perna toda roxa, que é uma cor que por acaso não aprecio. Sinto-me um bocado dorida e moída mas contente porque podia ter corrido mesmo mal. Se não tivesse capacete acho que não estava mesmo cá para contar esta história. 

USEM SEMPRE CAPACETE, PESSOAS! 

Faltam 5 dias para o meu primeiro triatloooooo! 😬

Pág. 8/8