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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Mada super star

Numa troca de mensagens com uma amiga:

- Então e a Mada, está muito triste com isso do gesso?

- Triste??? A Mada está nos píncaros! Atingiu praticamente o pináculo da promoção infantil. Primeiro foi o aparelho, agora o gesso... só lhe faltam as canadianas para chegar ao cume da pirâmide social escolar. 

😳😎

 

Sai um braço engessado para a mesa do canto!

Estamos numa reunião com a professora de um. 

Ao sair, constatamos que temos duas chamadas da escola de outro e mais chamadas da minha mãe.

Houve azar, de certeza.

Ligamos para a minha mãe que diz:

- Stou.. ir...agem... ar... ão... inho... arro... agem... pera....

Ok, está a sair da garagem, a rede escasseia.

Aguardamos por melhor sinal.

- Estou? Já me ouves? Estou a sair de carro para ir buscar a Mada! Ela caiu e magoou o braço, dizem que é melhor ir ao hospital.

- Ok, então deixa. Estamos perto, vamos nós.

Chegamos e ela está com um ar infelicíssimo, os olhos inchados de chorar, gelo no braço, o braço todo inchado e dobradinho.

Seguimos para o hospital.

Espera.

Raio x.

Espera.

Médica da urgência.

Ortopedista.

Gesso. 

Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhhh! Maio está a ser um mês incrível!

Quem é o próximo? 

Aceitam-se apostas.

 

Comprimidos para flores

Estava a pôr rosas em jarras quando me lembrei da teoria de que com a adição de uma Aspirina na água duram mais tempo. A minha mãe estava a ajudar-me na tarefa. Fui à procura de Aspirina no armário dos medicamentos. Não encontrei e gritei da casa-de-banho para a minha mãe, que estava na cozinha:

- Tem mesmo de ser Aspirina? Será que não dá para ser Benuron? Brufen?

 

(a minha mãe mandou uma gargalhada mas eu enfiei um brufen 400 em cada jarra e posso garantir que as rosas estão lindas)

Aprender a morrer é aprender a viver

"Montaigne acreditava que, já que não podemos derrotar a morte, a melhor forma de contra-ataque é tê-la constantemente em mente: pensar na morte sempre que o nosso cavalo cai ou cai uma telha dum telhado. Devíamos ter o sabor da morte na boca e o seu nome na língua. Antecipar assim a morte é soltarmo-nos da sua servidão: além disso, se ensinarmos uma pessoa a morrer, ensinamo-la a viver."

Julian Barnes - Nada a Temer. Quetzal. 2011

 

(obrigada ao António e a toda a ajuda que me tem dado neste difícil processo digestivo, nomeadamente com este livro)

 

Não é uma guerra, é apenas um debate de ideias

newborn.jpg

 

Houve vários comentários ao post anterior, da Diana e da sua gravidez.

Dois deles tocaram-me particularmente.

O primeiro foi este: "Acho que ter filhos desta forma artificial, e solitária, é um ato de egoísmo. É sempre para satisfazer um desejo (ou capricho) pessoal e por isso acho que a procriação medicamente assistida estava muito bem reservada apenas aos casais heterossexuais. Quando o Homem quer assumir o lugar do criador/criação ( e não estou a falar de religiões ou crenças em deus/es) o mundo não caminha para um lugar muito bom. 
É apenas a minha opinião, não vale a pena começar uma guerra por ser diferente da de toda a gente."

Ora, este comentário remete-me para algumas questões, nomeadamente: o que é ter filhos, afinal? Não será sempre, de algum modo, um acto de egoísmo? Mesmo quando nascem de forma "natural", da união entre um homem e uma mulher? Afinal, temo-los porquê? Para perpetuar a espécie humana? Não me parece. Para contribuirem para a prosperidade de uma sociedade activa? Hummm... também não. Para o aumento da produtividade e curva de crescimento do país? Nop. No fundo, temos filhos porque... queremos. Porque temos vontade. Porque ansiamos por um bebé no nosso colo. Porque queremos criar e educar um ser humano. Fazer igual ao que os nossos pais fizeram ou radicalmente diferente. Ou seja, temos filhos justamente para "satisfazer um desejo (ou capricho) pessoal". Ter filhos é sempre, em última instância, um acto egoísta (excepto, talvez, quando se adopta, em que para lá do desejo pessoal está também a vontade de se dar a alguém que não nasce de nós uma vida diferente da que o destino - Deus? - lhe deu).

Também acho curioso que para a leitora só seja sinistro que o Homem queira assumir o lugar do criador no caso de ser uma mãe solteira, um homem ou casais gays. Porque se for um casal heterossexual, então já não parece haver problema com a procriação medicamente assistida nem com a substituição de Deus nestas matérias. Estranho.

Uma vez mais, não é um ataque. É só um outro ponto de vista.

 

O segundo comentário que mexeu comigo foi este: "Fiquei sem pai aos 12 anos. Tenho 42. Todos os dias sinto a falta dele. O meu filho ficou órfão de pai aos 6 anos. Hoje tem 12 anos e todos os dias sente necessidade de falar sobre o pai. Não concordo com isto e não o digo com maldade mas acho de um egoísmo atroz trazer uma criança ao Mundo que nunca vai ter pai."

 

Ter um pai e deixar de o ter provoca uma dor, uma sensação de perda. Por vezes, o pai nem era grande coisa (não estou a dizer que é o caso, atenção), mas a criança, ao perdê-lo, cria uma imagem de pai perfeito que, por desventura, perdeu. Se o pai, por sorte, era efectivamente um pai presente, envolvido na educação e capaz de esbanjar amor, então a dor é ainda maior. E ficará sempre um vazio na pessoa que o perdeu. Pelo que percebi do comentário, esta é a sua experiência, tem o seu valor, a sua importância, a sua marca indelével. Mas, na verdade, não tem nada - nadinha - a ver com aquilo de que falávamos no post anterior. 

Porque outra coisa, totalmente distinta, é nascer e continuar a existir sem um pai. É uma condição de princípio. Com a qual se vive, sem qualquer sentimento de perda, porque não se pode perder o que nunca se teve. Ter uma mãe com amor de sobra para dar (e quem diz uma mãe, diz um pai) é o bastante para uma vida equilibrada e feliz. Até porque nós nunca crescemos sozinhos com as pessoas com quem vivemos. Há - felizmente - muito mais gente no crescimento de uma criança: avós, tios e tias, irmãos, primos, professores, colegas, vizinhos, amigos. A teia é grande, pode ser enorme. Desde que haja amor... chega. E acreditem no que vos digo, por muito do que tenho visto: por vezes é melhor não ter do que ter uma bela merda.

 

 

Mulheres do caraças #3

diana.jpg

Diana tem 36 anos e está grávida de seis meses. 

Martim, 12 anos, é o seu primeiro filho. Diana sempre quis ser mãe, antes de querer ser outra coisa qualquer. Quando engravidou de Martim, aos 23 anos, foi olhada de lado na vila pequena onde vivia. Não estava casada, ninguém esperava, foi um diz-que-disse. Quando o par se separou, ainda antes de Martim nascer, o falatório cresceu ainda mais. Diana não quis nem saber. A relação tinha chegado ao fim pacificamente e o pai do filho sempre foi - e continua - a ser um pai presente. Nem tudo pode ser sempre como nos contos de fadas. De resto, raramente é.

Os anos foram passando e Diana sempre a sonhar ser mãe novamente. "Nunca quis ter só um filho". Mas sem relações sérias ou estáveis ou importantes, o sonho foi sendo adiado. Porém, a ideia de ser mãe sozinha começou a ganhar cada vez mais terreno. E, no ano passado, ao fazer 36 anos, sentiu que ou era agora ou já não era mais.

Avisou a família que ia ser mãe sozinha. Ninguém se chocou, até porque o tema já não era novo. A mãe, a avó e a irmã apoiaram sempre, mesmo que talvez até tenham pensado que aquilo era estranho. Ou talvez nem sequer tenham pensado isso, a julgar pelo comentário da avó, com 80 anos: "Ó filha, fazes muito bem! Não é preciso cá homens! Se consegues ter um filho assim, melhor!"

A lei da Procriação Medicamente Assistida para todas as mulheres ainda não tinha sido aprovada em Portugal e, por isso, Diana foi a Vigo (Espanha). Em Abril de 2016 teve a primeira consulta. Depois das análises feitas, fez a primeira inseminação artificial no mês seguinte. Não deu certo.

Em Junho, voltou. E no início de Julho fez a segunda inseminação, que acabou por também não resultar.

Entretanto, foi aprovada a lei em Portugal, mas faltava ainda a regulamentação. Diana ficou na dúvida se havia de fazer por cá ou voltar a Espanha mas, pelo sim pelo não, tentou uma consulta no Porto. "Foi completamente diferente. Fui recebida como uma ave rara. Perguntaram o meu estado civil, disse que era solteira. A seguir perguntaram o nome do meu marido. 'Acabei de lhe dizer que sou solteira'. A funcionária ficou baralhada: 'Então e o que ponho aqui no campo do nome do marido?'. Ponha o que quiser. Não tenho marido, logo não tenho um nome para lhe dar."

O médico não foi melhor. Que era preciso repetir todos os exames, todas as análises, como se tudo o que tinha sido feito em Vigo não tivesse valor. Que, de qualquer modo, era preciso esperar pela regulamentação. E que era a primeira vez. E que. E que. E que. "Não! Nunca mais cá volto! Telefonei para Vigo e tive consulta no final de Outubro. No dia 12 de Novembro foi feita a 3ª inseminação." Correu bem. E no final de Novembro, Diana soube que estava grávida. 

Para a pequena vila foi um bicho de sete cabeças. Como assim grávida? E o pai? Como assim, não há pai? Como assim, Espanha? Como assim, inseminação artificial? O que é que deu na cabeça da rapariga? Este mundo está do avesso.

Diana encolheu os ombros, indiferente. A vida é sua, as decisões também. O filho Martim estava feliz com a vinda de um bebé, absolutamente tranquilo, sem confusões, feitas muito mais pelas cabeças dos adultos do que pela dos miúdos.

Depois do rastreio bioquímico do primeiro trimestre, fez a ecografia. O médico, com a sensibilidade de um tractor

Ouvi de tudo, mais uma vez. Agora com mais segurança e maior indiferença aos comentários dos outros. A idade também traz coisas boas.

No rastreio bioquímico do 1º trimestre, sozinha no hospital, depois de uma ecografia demorada e silenciosa, chegou o primeiro veredicto. "Probabilidade de 1 para 6 de o bebé ter trissomia 21. Confesso que não foi um choque. O médico que me acompanhava disse para me preparar porque, por vezes, a idade dava aso a resultados elevados que depois acabavam por não se confirmar. E eu fui-me preparando sim, mas para a confirmação em si. Acho que há coisas que se sentem e já tinha falado dessa possibilidade com a família e os amigos mais próximos. E comecei a ler blogs de pais de crianças com trissomia 21 e a trocar mensagens com alguns. O que me diziam era sempre que não era o fim do mundo. Era difícil, claro, mas não o fim do mundo. E diziam-no sempre com leveza, com alegria."

 

 

Shot últimos a lavar os dentes!

Os jantares cá de casa deviam ser filmados. São qualquer coisa próxima da loucura. Um fala, o outro interrompe, o que falava enfurece-se, Ó pá eu é que estava a falar!, um terceiro canta (geralmente é o bebé mas pode acontecer que um dos crescidos se passe por momentos), Não se canta à mesa!, um diz uma parvoíce qualquer, os outros rebentam às gargalhadas, um não quer comer, o outro quer repetir, dois começam uma discussão por coisa alguma, o pai começa a tapar os olhos com as mãos revelando exaustão, um levanta-se e leva um berro, Vou só buscar água, calma!, e pronto, é uma anormalidade pegada. Há dias em que é giro e a gente acha graça, outros há em que o cansaço não permite vislumbrar qualquer deleite em tanta chinfrineira destravada.

Quando acaba o jantar, há sempre um que grita:

- Shot últimos a lavar os dentes!

E outro que quase se sobrepõe, numa pressa maluca:

- Shot segundos!

O primeiro retorna:

- Shot não lavo os dentes ao Mateus!

O segundo apanha a onda:

- Shot também não lavo os dentes ao Mateus.

O Manel, que geralmente se esquece sempre dos "shots" (espécie de palavra mágica que lhes permite esquivarem-se a fazer as coisas ou esquivarem-se a ser os primeiros a fazê-las), revira os olhos perante aquele circo, encolhe os ombros, levanta-se, pega na mão do Mateus e vai lavar imensos dentes - os seus e os do irmão. 

 

Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa

Na semana passada fomos assistir à aula de expressão musical, na escola do Mateus.

Esta semana fomos assistir à aula de expressão motora, na escola do Mateus.

Foi muito lindo ver os meninos todos a cantar e a tocar instrumentos. Menos o nosso.

Foi muito lindo ver os meninos todos a correr, a saltar e a rastejar. Menos o nosso.

Definitivamente, para o Mateus não há cá misturas. A escola é a escola. A casa é a casa. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. O único momento em que pode haver uma interseção de ambos os mundos é quando o levamos à escola e quando o vamos buscar. E ponto final parágrafo. 

Quando o obrigam a levar connosco na escola vira um bicho. De trombas, olhos fechados, sem cumprir uma única tarefa. "Devem pensar que sou um macaquinho de circo", parece dizer com aquele sobrolho carregado.

Coincidiu com o dia de ir assistir à aula de expressão motora o dia de irmos contar uma história à sala dele. Foi uma coisa a seguir à outra. Ambas uma maravilha. Na primeira, esteve sempre ao meu colo, a rosnar a quem quer que se aproximasse. Na segunda, esteve de olhos fechados, como quem diz "estão cá vocês, não estou cá eu, esqueçam que existo".

Um verdadeiro sucesso, estas incursões pela escola.  A intenção é boa. Ele é que é um cromo.

Evangelização

 

Todos os dias.

Todos os dias o irmão mais velho o ensaboa com os cânticos, com os nomes dos jogadores, com hinos e lemas e o diabo a sete. 

O Mateus tem 2 anos e sabe as canções quase todas. E o nome dos jogadores. 

E pronto. Mais um a ser educado para a resiliência, resistência, perseverança (e poucos festejos e poucas alegrias). Meu rico filho.