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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Este miúdo...

Está em casa, doente.

A meio da noite, entre febres e vomitados, pediu-me para cantar. Como está farto das cantigas do costume, gosta que se invente novas. Mas às 4h da manhã, depois de tirar lençois pela segunda vez enquanto o pai lhe dava banho, confesso que a minha veia criativa não estava no seu melhor. Comecei então a cantar a história de um porco fofinho com ranho no focinho, entre outras rimas parvas que o sono me permitia. Ele olha para mim e exclama:

- Oh pá, a sério???

 😂😂😂😂😂

Dentes incisivos: uma história de amor

A Mada foi à sua dentista de sempre (Drª Filipa Cordeiro) na MD Clinica e o óbvio foi confirmado: além de ter os dentes todos tortos (possivelmente por falta de espaço), tem mordida cruzada muitíssimo acentuada e a precisar de correcção urgente - o que, por si só, por vezes faz logo alinhar os dentes todos, sem ser preciso mais nada. 

Como a especialidade da Drª Filipa não é ortodontia, passou-a para a Drª Cristina Mourinho. E pronto, mais uma super querida, e lá ficámos de novo completamente rendidos a esta clínica em que cada nova especialidade ou cada médico por que passamos é uma boa surpresa. Gosto mesmo disto de haver um piso só para adultos e um piso só para crianças, e de num caso e no outro sermos encaminhados para diferentes especialistas, conforme o caso. 

A Drª Cristina Mourinho explicou então, há duas semanas, que o aparelho que a Madalena ia pôr ia alargar-lhe o espaço para os dentes do maxilar superior se endireitarem. E deu trabalho diário para casa. Uma espécie de chave para todos os dias de manhã e todos os dias à noite enfiar num buraquinho e alargar o aparelho (e o osso - MEDO). Uma coisa com um ar um bocado medieval, confesso, houve dias em que até me arrepiava a fazer aquilo, sobretudo quando ela arregalava os olhos durante o processo, como que a sentir o alargamento dos ossos (auchhhh). Mas a dentista, super habituada a lidar com crianças, desmontou todo o horror que aquilo parecia ser e contou uma história que eu achei maravilhosa:

- Sabes, Madalena, os teus dentes da frente vão afastar-se muito um do outro, durante estes 15 dias. Mas eles têm uma linda história de amor. E quando terminar este processo do alargamento, vais continuar com o aparelho na boca, e a seguir eles voltam a juntar-se. O espaço ganho continua lá, e os dentes que nasceram tortos, vão provavelmente alinhar-se porque ganharam lugar. Mas os dois dentes incisivos amam-se e não podem ficar afastados muito tempo, por isso, voltam a juntar-se. 

Achei lindo. Até quando falamos de dentes podemos criar histórias bonitas, que apaziguem um bocado o medo deles (e o nosso, vá).

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 Ontem foi o último dia de alargamento. Relembro que foram 15 dias. Vejam só a diferença.

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 Foto tirada dia 13 de Março

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Foto tirada ontem, dia 27 de Março 😱

 

Clube de Leitura: o próximo encontro é no dia 5 de Maio. Tudo a começar a ler!

Como é, minha gente? Quem alinha em encontrar-se comigo daqui a um mês para discutirmos os livros que vamos ler?

Eu já escolhi o meu e estou perfeitamente rendida. É o "Jesus Cristo Bebia Cerveja", de Afonso Cruz. É tão, mas tão, mas tão bonito. Estou sempre de lapiseira em punho, para sublinhar passagens que me comovem. Conclusão? Mais parece um livro de estudo - todo anotado e sublinhado.

Bom, a Fnac gostou deste muito projecto e cede o espaço para as nossas reuniões. 

Assim, o próximo encontro vai ser na sexta-feira, dia 5 de Maio, às 19h, na Fnac do Colombo.

Nada temam: sentamo-nos todos ao mesmo nível, não será preciso ir ninguém para aquela espécie de palco falar. A ideia é ser mesmo uma conversa e não uma apresentação formal.

Se quiserem incluir os miúdos aí de casa, se eles forem desembaraçados e acharem graça à ideia de também poderem contar os livros que leram... óptimo!

A Fnac não quis deixar de sugerir alguns livros, para todos os gostos. 

Para os mais pequenos, o novo livro da colecção Uma Aventura (sai hoje): Uma Aventura em Conimbriga, de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada

Para quem adora mistérios, A Viúva Negra, de Daniel Silva

Para quem gosta mais de romances: Coração Mais Que Perfeito, de Sérgio Godinho

 

Inscrevam-se! Só para ter ideia de quantas pessoas vão e quantos livros poderão ser comentados.

Estou a tentar arranjar aí uns miminhos! Acho que vai ser muito bom!

 

 

 

Conta-me #3

Foi logo depois do enterro. Caminhávamos ainda com os pés pesados, aquele andar arrastado de quem traz a dor presa às pernas, seguíamos entre ciprestes (sempre os ciprestes) com aquele silêncio condoído de quem traz também a dor agarrada às cordas vocais, e foi então que ela me perguntou:

- Tu sabes que o avô nunca foi mineiro, não sabes?

Engelhei o nariz, franzi o olhar como se me tivesse tornado míope e não conseguisse ver quem me fazia a pergunta.

- Hã?

Chamava-se Manuel Barriga, o meu avô, e viveu toda a sua longa vida na aldeia de Mina de São Domingos, concelho de Mértola, Alentejo profundo. Tinha sido mineiro. Vida dura, passada debaixo de chão. O mesmo chão onde o tínhamos deixado ainda agora, como que um regresso às origens.

Lembro-me de me sentar ao seu colo e de o ouvir contar as histórias de quando ia, com os outros, para os seus dias de escuridão. Acordava às cinco e meia da manhã, todos os dias. A mulher - minha avó - a essa hora já lhe havia feito o pequeno-almoço e a marmita para levar. Beijavam-se longamente porque a minha avó tinha sempre medo de não o tornar a ver. Findo o beijo, ele dava-lhe uma festa na cabeça, e dizia:

- Até já, minha loira.

Todos os dias isto. Como um guião a que tivessem de obedecer.

De seguida, o meu avô Manuel saía para a escuridão da madrugada, que ainda assim era mais luminosa que o negrume da mina.

A mina. Lugar de toupeiras. Cheiro a terra, a cobre, a medo. Gélida pela manhã, um braseiro quando o sol ia alto. Lá dentro, os homens-toupeira sabiam que o sol ia alto pelas gotas de suor que lhes deslizavam cara abaixo, corpo abaixo, acresentando ao cheiro a terra, cobre e medo também o cheiro ácido a calor e a esforço.

O meu avô contava as histórias da mina com uma intensidade dramática, gesticulando muito, levantando a voz, fazendo sons guturais que me povoavam os sonhos e os pesadelos e a infância inteira.

Lembro-me vividamente do relato da derrocada. Os homens todos ali, enterrados vivos, ofegantes, surpreendidos pela terra que os devorava, faminta. Uns ficaram soterrados, os outros, presos numa galeria, fizeram o que o desespero mandou. Uns prantaram-se de joelhos a rezar ("Alguns diziam-se ateus, António! Mas na hora do aperto... ai, na hora do aperto, sabiam as preces de cor!"), outros choravam pelos filhos, pelas mulheres, pelas mães. Poucos se mantinham homens, como antes. A maioria tinha como que regressado a um estado infantil, de uma fragilidade confrangedora. Aos gritos, aos saltos, a pedirem mimo, como numa birra de sono. O meu avô jurava que alguns haviam mesmo diminuído de tamanho ("não era só na altura, António, eles estavam como que reduzidos, mirrados, esvaziados deles mesmos").

- Hã? Como assim, "o avô não era mineiro"?

Dois dias ali metidos, sem saber se os iam conseguir salvar. Defecando no espaço exíguo, comendo nada, bebendo coisa nenhuma, vazios de esperança e de humanidade. Salvaram-se. O meu avô ficou manco de uma perna, a maior parte ficou manca da cabeça, com pesadelos, medos, angústias, choros. Homens para sempre feitos crianças, por culpa da terra. 

- O avô nasceu manco, António. Foi mal de nascença.

- Hã?

Foi então ali, entre ciprestes, que a minha irmã me disse palavras ao início incompreensíveis. O nosso avô nasceu com uma perna diferente da outra. Mais curta, mais estreita, mais fraca. Nunca andou direito, teve sempre de se amparar a duas canadianas para conseguir caminhar. Incapaz, nunca pôde trabalhar. Ainda para mais na mina, único posto de trabalho que a aldeia oferecia aos homens ali nados e criados. Trabalho para homens completos de pernas, braços, de corpo inteiro. De maneira que o meu avô passou a vida inteira a ver os homens passarem de manhã, beijando as mulheres e levando na mão as marmitas preparadas por elas com desvelo, para voltarem ao final do dia, mascarrados e exaustos, com cheiro a terra, cobre e medo. Encontrava-se com eles ao entardecer, na taberna do Arnaldo, para lhes sorver as histórias. Histórias de vidas duríssimas, que ninguém no seu juízo perfeito poderia invejar. E, no entanto, o meu avô daria tudo para ser um deles. Daria tudo para ter também aquela vida dura, feita de escuridão. Porque qualquer negrume seria melhor do que o seu, que era oco, estéril, seco. Inútil. 

Parei, entre ciprestes. Voltei para trás. Ajoelhei-me na campa do meu avô mineiro, limpei as lágrimas, e segredei-lhe:

- Chegaste a casa, finalmente, avô. Descansa.

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Foi um prazer!

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Ontem o Observador trouxe um artigo sobre mim e sobre a Mónica Barbosa, em contramão com o parecer da Ordem dos Médicos, emitido na semana passada, contra a presença dos pais nos partos cirúrgicos. Muito bem escrito pela Tânia Pereirinha. Podem lê-lo AQUI. E não, não precisam agradecer. Acreditem que foi das lutas que mais prazer me deu travar.

Vítor de Sousa

O meu querido sogro continua a trazer-me pastas com os meus trabalhos para o DNA. Cada sexta-feira que nos encontramos, lá vem mais uma, com a reunião de todos os trabalhos desse ano. Cada sexta-feira é um novo momento de reencontro com coisas que fiz e que trazem memórias desse tempo incrível, que infelizmente não volta.

Na semana passada trouxe-me o ano de 2003, um ano muito produtivo profissionalmente. Foi um ano tramado da minha vida, mas talvez um daqueles que me trouxe maior crescimento pessoal. 

Entre os vários trabalhos desta nova pasta, estava esta entrevista ao actor Vítor de Sousa, que aqui transcrevo.

 

Entrevista de Sónia Morais Santos

Fotografias de Augusto Brázio

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Encontrámo-nos no Teatro da Trindade, em Lisboa. Se fosse uma peça de teatro, a nossa conversa seria uma peça em dois actos. No primeiro dia sentámo-nos numas conversadeiras deliciosas, cadeiras feitas com o propósito da cavaqueira, uma virada para a outra, numa proximidade a pedir a partilha de segredos e histórias. No segundo dia, o actor falou mais sobre si e sobre a sua vida, desta vez no camarim onde se despe de si e se veste de outro.

Vítor de Sousa tem 56 anos, quase 40 dedicados à arte de representar. Para trás, uma história de solidão, de abandono e de reencontro. Um pai perdido no tempo, reencontrado numa estação de correios da baixa lisboeta, um pai a querer pedir desculpa, um filho a procurar apaziguar 56 anos de perguntas sem resposta.

 

Conte-me a história da sua vida.

- Nasci em Lisboa, no dia 18 de Novembro de 1946, filho de pais divorciados (divorciaram-se um ano depois de terem casado, a minha mãe tinha 18 anos e o meu pai 19, creio). Tive uma infância complicada. Sozinho, muito sozinho.

Infeliz?

- Não. Fui feliz no meio dessa solidão da minha infância. Fui um aluno aplicado, muito dedicado...

É essa a imagem que tem de si na infância? A de um aluno aplicado?

- A de um menino bem comportado, sim.

Diz-se que os meninos muito bem comportados são muitas vezes meninos tristes.

- Mas eu fiz muitos disparates! Uma vez (andava na instrução primária), saí de casa, deixei a porta entreaberta e fui para o Jardim Zoológico sozinho. O difícil foi depois ter chegado a casa e não poder falar de todos os animais que tinha visto à minha frente! Uma outra vez fui também sozinho para qualquer outro sítio e a porta fechou-se. Para não enfrentar a minha mãe, para que ela não desse pela minha falta, saltei do 3º andar esquerdo para o 3º direito, pela varanda. Não morri porque não calhou!

A sua mãe era severa?

- Não. Era até muito benevolente. Quando nos zangávamos, a pior coisa que ela fazia era tratar-me por voê. Aquilo magoava-me muito. Tratarmo-nos por você era um castigo muito grande para mim.

Fale-me da solidão da sua infância.

- A questão é que eu saía da escola ao meio-dia e passava a tarde sozinho em casa. Não queria ir para a rua jogar à bola e ao berlinde. Não gostava de andar à pancada. Preferia de longe ficar em casa, quieto. Sozinho.

A que é que brincava?

- Às missas. Disse muitas missas sozinho.

Missas?

- Achava muita graça. Tive uma educação católica, andava na catequese. Lembro-me perfeitamente de acabar as aulas da catequese e de ficar em casa da catequista à espera que a minha mãe me fosse buscar. Ainda hoje mantenho contacto com a catequista. A menina Lurdinhas.

E gostava da catequese e da missa ou eram aborrecimentos a que se sujeitava como menino obediente que era?

- Gostava, sentia que estava a aprender coisas. As histórias da Bíblia eram fascinantes! Cheguei a ser sacristão. Fiz casamentos, baptizados e funerais.

Palavra?

- E levava tudo aquilo muito a sério. Quis ser padre e tudo! Lembro-me de faltar às aulas para ir aos cemitérios tirar flores das campas que tinham muitas para pôr nas campas que não tinham nenhumas.

Isso é tão bonito!

- Fiz isto muitas vezes. Fazia-me impressão o esquecimento a que alguns mortos pareciam estar votados.

No fundo, a solidão.

- Talvez. E sobretudo o facto de uns terem muito e outros nada.

Teve então um contacto prematuro com a morte, quer nas celebrações de funerais, quer nessas idas ao cemitério. Que idade tinha?

- Uns doze anos.

Lembra-se se pensava na morte?

- Pensava na morte. Vi muitos mortos ao vivo. Houve um padre que morreu agarrado à minha mão, e eu percebi que ele se extinguiu naquele momento. Todo esse contacto com a morte fazia-me sentir que nada valia a pena porque tudo tinha um fim. Mas não era uma visão aterradora, pelo contrário. Apredi a encarar a morte com muita serenidade.

Há pouco dizia-me que quis ser padre mas não percebi se foi um daqueles sonhos inconsequentes da infância ou se chegou a ser uma intenção determinada.

- Foi um desejo intenso, uma certeza. Julgava ter encontrado a minha vocação. De resto, o arcebispo que me deu o crisma chegou a dizer-me que iriam mexer uns cordelinhos para que eu entrasse para o seminário. A verdade é que os cordelinhos eram mais uns cordelões, uma vez que só o Vaticano podia autorizar que um filho de pais divorciados ingressasse no seminário.

Não sentiu raiva que fosse algo exterior a si - neste caso, o divórcio dos seus pais - que lhe barrasse o caminho que tinha escolhido?

- Não, julgo que não senti raiva. O facto é que aquela contrariedade foi-me adormecendo. E a dada altura percebi que estaria talvez mais atraído pela encenação da liturgia, pelo espectáculo das homilias.

Percebeu isso na altura?

- Mais tarde. Pode ter sido apenas uma forma de me defender da impossibilidade de ir por ali, por aquele caminho que tinha escolhido. Mas estou convencido de que a encenação era efectivamente o que me deslumbrava mais. Estou convencido de que não teria sido um bom padre.

Viveu sempre sozinho com a sua mãe.

- SIm. E a partir de determinada altura também com a minha avó.

Fale-me da sua mãe, essa figura tão central na sua vida.

- É uma figura muito central porque foi pai, foi mãe, foi irmã, foi tudo. Tenho uma família muito reduzida, duas tias, quatro primas, e se calhar já estou a exagerar.

Isso é triste para si, essa árvore com poucos ramos?

- Habituei-me. E habituei-me até a não fazer perguntas em relação ao que não correu bem no casamento da minha mãe. Só muito mais tarde é que fui fazendo perguntas. Achei que não tinha o direito de tentar entrar nesse mundo ou de fazer a minha mãe viajar para esse mundo.

Por perceber uqe isso lhe causava dor. E o seu pai?

- Conheci-o muito mais tarde, já tinha 30 anos. Um dia ligou lá para casa um homem com uma conversa muito estranha. Quando desliguei disse à minha mãe: "Que disparate! Era um cidadão a dizer que eu tinha assistido a um acidente e que queria que me desse como testemunha... uma coisa sem pés nem cabeça, deve ser um doido que apanhou este número." A minha mãe deixou-me acabar e disse: "Se calhar foi o teu pai".

E era.

- Era o meu pai. Inventou aquela história toda porque estava a ganhar coragem para me conhecer e para me pedir desculpa por me ter abandonado.

Com a separação da sua mãe ele cortou totalmente a ligação convosco?

- Sim, foi para África, refez a vida, tornou a casar e voltou 30 ou 40 anos depois. Há até uma coisa muito engraçada (se quiser eu vendo-lhe os direitos e faz uma telenovela): ele chegou a ver-me em teatro sem saber que eu era o filho dele. Eu sou Sousa mas o meu pai era Araújo. De modo que chegou a ver-me representar sem saber.

Então e como é que se conheceram?

- Marcámos encontro à porta da estação dos correios dos Restauradores, que é um sítio muito bom para conhecer pessoas, principalmente pais. Fui com um amigo e pedi-lhe para ir à minha frente ver qual era o aspecto do meu pai: "Se for um gajo giro eu vou. Se for um borra-botas, um maltrapilho, viro costas." Mas não. O meu pai tinha muito bom ar, parecia um embaixador. E lá fui.

O que é que lhe disse? "Olá pai"?

- É estranho, não é? Não, não caímos nos braços um do outro a chorar. Cheguei e disse-lhe "Olá!"

Não está a pintar o quadro demasiado friamente?

- É claro que na altura tudo isto me emocionou muito. Passei noites sem dormir. E depois não era só o facto de eu ir conhecer o meu pai, era também o perceber que teria que contar à minha mãe. E eu temia por ela, por saber que teria com certeza um lado doloroso.

Por ser a tal viagem.

- A tal viagem que eu nunca me permiti obrigá-la a fazer. E sabia que iriam surgir as tais perguntas que até então nunca me atrevera a colocar.

Nem em menino lhe fez perguntas? Porque é natural que as crianças ponham questões. E estou a imaginar que, quando percebeu que todos os meninos têm pai e mãe, terá ficado com dúvidas sobre a sua vida. A sua mãe nunca lhe contou a história, ainda que resumidamente?

- Não. A minha mãe não falava do meu pai. Eu às vezes tentava obter mais informações pela minha avó Emília, mãe da minha mãe, mas soube pouquíssimas coisas. E a verdade é que nunca quis desenterrar esse passado.

Pela sua mãe ou por si?

- Pela minha mãe. Eu acho que, no fundo, tinha muita curiosidade em saber. Imagine que ainda hoje não faço ideia de como é que eles se conheceram.

Então e depois desse encontro na estação dos correios?

 

 

 

 

A Maria precisa de todos

Quem diz a Maria diz o Manel, o João, a Luísa, tantos.

Mas hoje vamos falar da Maria.

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A Maria tem leucemia mielomonocitica juvenil e precisa urgentemente de transplante de medula óssea.

Será que quem está a ler este post é compatível com ela? Será que quem está a ler este post pode salvá-la?

Já aqui apelei, tantas e tantas vezes, para que se inscrevam como dadores de medula. É uma picadinha, igual a tirar sangue, e ficam inscritos. Se um dia forem compatíveis, o procedimento é um pouco mais complexo mas não consigo imaginar maior satisfação do que a de salvar uma vida. Qualquer vida. Mas hoje é da Maria que falamos. Esta coisinha querida, com tanto para viver.

A página de apoio à Maria está AQUI.

Podem inscrever-se nos locais em baixo mas também em vários outros sítios, que podem consultar AQUI.

 

 

LISBOA - Centro de Sangue e da Transplantação

Recinto do Hospital Pulido Valente

Alameda das Linhas de Torres, 117

1769-001 Lisboa

Contacto: 217 504 100 / cedace@ipst.min-saude.pt

HORÁRIO: 2ª a 5ª feira (8h às 16h) e 6ª feira (8h às 15h)

 

LISBOA - Centro de Sangue e da Transplantação de Lisboa

Parque da Saúde, Pav. 17

Avenida do Brasil, 53

Contacto: 217 921 000

HORÁRIO: 2ª a Sábado (8h às 19h30)

 

 

Força para a Maria e para a família.

Eu já estou inscrita e adoraria poder ajudar. Continuo à espera de ser compatível com alguém.

Avenida Q

Se não tivessem sido as excelentes críticas que li e ouvi por todo o lado era bem capaz de não ir ver um musical onde actores contracenam com bonecos. Aliás, a primeira vez que ouvi falar nesta peça ainda ela não estava em cena e foi a Júlia Pinheiro que me falou dela, num jantar. Ok, ela podia ser suspeita, por ser a mãe de um dos actores que entram na peça, mas tornou-se logo menos suspeita quando disse "odeio coisas que metam bonecos e fui ver por ser o Rui e sempre a achar 'como é que eu vou disfarçar, como é que lhe vou dizer que é giro??' mas depois fui e vou-vos dizer: é mesmo, mesmo, mesmo bom! Saí de lá rendida!" Depois disto, a peça estreou e só vi e ouvi elogios.

Fomos ontem, ficámos mesmo na fila da frente, e adorei. Tão divertido, tão divertido. Chorei a rir logo no início, mas assim a ponto de já terem passado duas cenas e eu continuar a rir daquela fala, sem conseguir parar (obrigada Rui Pêgo pelo momento de introdução à tua personagem 😂😂😂).

A peça (uma adaptação de um musical da Broadway), ao mesmo tempo que é de rir, também traz as nossas angústias: o desemprego, o preconceito, a homossexualidade escondida no armário, o amor que não chega, os sonhos que temos e não conseguimos realizar, as saudades de quando éramos só estudantes da faculdade e tínhamos o mundo todo para conquistar (mas não conquistámos). Muito bom quando uma peça consegue tocar nestes pontos sensíveis fazendo-nos escangalhar a rir ao mesmo tempo. 

E agora parar de cantar o "Que merda que eu sou"? 

Não sei se ainda há bilhetes (a peça está em cena até dia 2 de Abril) mas se houver não deixem de ir. Ah, claro, se forem pessoas capazes de aguentar vernáculo.

O Avenida Q está no Teatro da Trindade, em Lisboa.

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La La Land

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Fui ver. Gostei mas não compreendo (e admito que possa ser problema meu) todas as nomeações e comoções várias à volta do filme. Por mim, achei fofinho. Querido. Bonito. A Emma Stone é linda de morrer, parece uma bonequinha querida. E é uma boa actriz, sem dúvida. O Ryan não me fascinou. Pensei que ia haver mais momentos de musical deslumbrantes. Não houve. Houve lá um momento em que tive sono e achei que ia adormecer.

A única coisa que, para mim, salvou o filme de ser só mesmo uma coisinha querida, foi o final. O final fugiu ao esperado e ainda bem. Foi só quando vi o "The End", depois daquele olhar tão forte dela e dele, dele e dela, que senti uma reconciliação com o filme. Se não tem sido aquele final, La La Land teria sido mesmo só lalalalalalala-coiso. Ainda assim, ainda bem que ganhou o Moonlight.

Mas isto sou eu, ok? Quem o amou de paixão escusa de começar já a atirar pedregulhos, que agora a pessoa até tem medo de opinar. 

 

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