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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Mais uma chapa, mais uma volta

Na segunda-feira tive treino de demónio com o mister Pedro Almeida (creio que foi o pior de sempre).

Terça fiz 30 km de bicicleta em rolos.

Ontem nadei 1500 metros.

Hoje o meu plano de treino manda-me nadar 2500 metros.

Dito assim já não me assusta assim tanto.

Mas quando penso que são 100 piscinas seguidas sem parar... até sinto a cabeça a andar à roda. 😬

 

 

 

 

Os Papa-léguas #4 (Paulo Neto Leite)

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157. Eis um número que Paulo Neto Leite nunca vai esquecer. Foi este o peso máximo que atingiu, em 2006. Três pesados dígitos que foi acumulando por inércia, por preguiça, por gostar tanto de comer. "Fui deixando andar. Sou engenheiro químico, tinha horários desregrados, muito trabalho, comia mal durante o dia e depois quando chegava a casa comia alarvemente. E depois eu adoro cozinhar, ir à praça escolher, comer, beber, conversar à mesa. Enfim, foi uma espiral. Às tantas já é indiferente se pesas 120, 130, 150. Perdes o controlo. És gordo, pronto."

Teresa, a mulher com quem casou em 1997, foi assistindo à transformação com alguma benevolência. Afinal, o casamento é para manter, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, "não diz lá nada sobre a gordura e a magreza". As filhas, nascidas em 2000 e 2002, praticamente não conheciam o pai sem ser em formato king size. Era o seu pai gigante. 1,84m de altura e 157 quilos de peso. Um super-pai.

Paulo não se sentia propriamente mal. Bom, para apertar os sapatos era um caso sério. E sim, se fosse de fim-de-semana para um destino de praia, tinha de levar uns 3 fatos de banho: "Não podia dar-me ao luxo de levar apenas um fato de banho. Se por acaso se rasgasse, o que fazia? Só se fosse a qualquer lado pedir um toldo!" 

Em 2005 foi-lhe diagnosticado um tumor num testículo. Felizmente não era maligno mas foi a primeira vez que Paulo sentiu o peso pesar: "Tive muita dificuldade em sarar a costura da cirurgia. E foi então que me cansei. Decidi procurar ajuda e optei pela banda gástrica. No mês de preparação para a cirurgia é preciso ficar a dieta líquida. Emagreci 12 quilos e pensei: se calhar não faço a operação, não preciso. Mas felizmente fiz. Não ia dar para ficar a líquidos a vida toda."

Foi operado a 16 de Março de 2006 e esteve acompanhado, em todo o processo, por um cirurgião, um nutricionista e um psicólogo. Certa vez, em dia de festa de aniversário, havia na mesa o seu doce preferido: uma tarte de amêndoa por encetar, com uma fatia larga já partida, a olhar para ele. "Esperei que todos saíssem, sentei-me à frente da tarte e pensei: se não conseguir ficar aqui 15 minutos sem lhe tocar não vou conseguir levar isto para a frente". E ali ficou. A olhar fixamente para o objecto do seu desejo. Passados 15 minutos, levantou-se. "Acho que se tivesse ficado lá 16 minutos em vez de 15 tinha-me atirado à tarte! Foi uma violência!"

No final de 2006 já pesava 116 quilos. Por razões profissionais, foi com a família viver para São Paulo, Brasil. Entre comer fora, experimentar comidas novas, adaptar-se às novas rotinas... chegou aos 125 quilos. "Senti-me a derrapar. E não quis. Não, não vou deixar isto acontecer! E então comecei a correr. Lembro-me que fiz a primeira prova de 5km, no Brasil, em 2011. Achei que ia morrer. Passei o resto do dia deitado, a pôr gelo nas pernas."

A família voltou do Brasil em 2013 e Paulo, que continuava a correr, começou a fazer provas de 10km e em 2014 fez a Meia Maratona dos Descobrimentos. Pesava 103 quilos. Continuou a correr e a emagrecer até chegar aos 95, 96 quilos. Estava no bom caminho. 

"Há, porém, um momento que creio ter marcado a minha vida para sempre. Em Agosto de 2015, volto de férias, e quando me peso percebo que tenho 99, 9 quilos. Ou seja, já estava disparado outra vez. Praticamente nos 3 dígitos de novo. Passei-me. Foi o chamado 'life changing event'. Saí disparado para o computador, à procura de uma prova onde me inscrever, para me motivar a treinar. Encontrei o Triatlo de Cascais. E disse: é isto!"

Mal sabia ele que estava, de facto, a operar a mudança da sua vida.  

 

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Paulo Neto Leite não nadava há 20 anos. Comprou touca, óculos, inscreveu-se numa piscina. No fim dos primeiros 25 metros, achou que ia morrer. Faltava 1 mês para o super sprint do Triatlo de Cascais, que incluía nadar 300 metros, ou seja, 12 piscinas. Contratou um professor. Treinou a corrida e a bicicleta. E terminou a prova com uma alegria que se lhe agarrou ao corpo e à alma. A família foi toda mobilizada e estava lá, a gritar por ele como se aquele fosse o desafio da sua vida. E era. Era o primeiro de uma existência novinha em folha.

Quinze dias depois, em Setembro de 2015, fez o triatlo em Lisboa. 

E nunca mais parou..

Tornou-se membro da equipa de triatlo do Estoril-Praia. Passou a treinar todos os dias, sem descanso, sendo que em alguns destes dias treina duas vezes, duas modalidades diferentes. Com uma "agravante": mora na Marisol (margem Sul), treina no Estoril, trabalha no Aeroporto de Lisboa. Um triângulo que o obriga a uma ginástica suplementar: a de encaixar tudo na sua vida, sem esquecer a mulher e as duas filhas, parte fundamental de si e do sucesso da sua luta contra o peso: "O meu emagrecimento é um projecto de família. Estamos todos nisto. Costumo dizer que não mereço a mulher que tenho. Não só aturou o gordo como agora atura toda a minha louca rotina desportiva. Mas ela sabe que é importante para mim. E eu também procuro compensá-la... ainda na terça-feira fomos jantar fora e bebemos uma garrafa de vinho os dois. Também não sou Xiita!"

Não é, mas quase. Pelo menos tem uma disciplina quase radical. Acorda todos os dias às 5:15h da manhã. Às segundas, quartas e sextas faz natação e à noite bicicleta, em casa, nos rolos. Às terças e quintas corre. Algures na semana faz treino de reforço muscular e ao fim-de-semana tem os treinos longos ou as provas. Para conseguir esta super-gestão, tornou-se ainda mais organizado do que já era. Na véspera prepara tudo - e só quem faz triatlo sabe que há tanto para preparar (touca, óculos, fato de banho, chinelos, toalha, barbatanas, palas para as mãos; ténis, roupa de correr; calções reforçados para a bicicleta, sapatos de bicicleta, capacete, luvas, acessórios diversos, gadgets devidamente carregados, comidas, suplementos).

O seu rigor e a alteração que operou na sua vida fizeram com que hoje seja até um atleta patrocinado. "Não é incrível? A N10 Bike Shop patrocina-me. A mim! O tipo que pesava 157 quilos! Às vezes até eu fico incrédulo com tudo isto."

Paulo tem 46 anos, mede 1,84m e pesa agora 90kg. Tem o objectivo de chegar aos 83 mas não se percebe bem porquê. Está irreconhecível. É outro homem. Outro corpo, outra cara, outra alma.

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A sua relação com a comida será sempre uma relação complicada. Continua a gostar de cozinhar, ir à praça escolher, comer, beber, conversar à mesa. E sabe que tem uma adição, tal como se fosse álcool, droga ou jogo. É porventua mais tortuosa, porque nesses casos um dos segredos para a cura é nunca mais repetir. No seu caso, é imperioso que continue a conviver diariamente com o objecto da sua adição, por uma questão óbvia de sobrevivência. Só é preciso saber dosear. E graças ao acompanhamento de uma nutricionista e da sua força de vontade notável, tem conseguido fazê-lo. Mas sabe que a luta é para sempre. Se porventura engorda, a fotografia de fundo do seu computador passa logo a ser uma do tempo em que era obeso. Só para não que não haja dúvidas.

A vida mudou em muitas coisas. Na verdade, quando se lhe pergunta o que sentia antes não sabe dizer. Mas sabe dizer o que sente agora: "Perdi uma pessoa inteira, em peso. Perdi a minha mulher e mais um bocado. Até faço a comparação. É como se tivesse deixado de andar todo o dia com ela ao colo. Vestia o 3XL. Nunca ninguém me oferecia roupa. Sabiam lá que número oferecer! No outro dia fui comprar umas calças para treinar e tive de trazer o M, porque o L estava largo. Fiquei incrédulo! Durmo melhor, respiro melhor, brinco com outra energia com as minhas filhas. Posso ir para a praia só com uns calções na mala porque se acontecer alguma coisa... é só ir à loja mais próxima. E tudo isto tendo encontrado algo que me apaixona! Sou realmente um apaixonado pelo triatlo! Não é monótono, é intenso... entusiasma-me mesmo muito. E sim, sinto-me imensamente especial de cada vez que acabo."

O seu caso também entusiasma muita gente. Tem contagiado muitos a perder peso, outros tantos a meterem-se no triatlo. Escrevem-lhe pessoas de todo o mundo. O mais distante vive na Índia. Inspirado pelo seu caso, também deixou de ser obeso e já fez o primeiro triatlo. Numa palestra motivacional para a qual foi convidado, levou para o palco 15 garrafões de 5 litros. O equivalente ao seu peso perdido. 

 

Paulo vai fazer o primeiro Half-Ironman em Setúbal, no dia 9 de Abril (1900m a nadar, 90km de bicicleta, 21km a correr). Repetirá a proeza em Lisboa, no dia 7 de Maio. E de novo em Cascais, a 3 de Setembro.

Para o ano, será a vez de se atirar a um Ironman (3800m a nadar, 180km de bicicleta, 42km a correr).

O sonho é ir ao Ironman do Havai, que foi, de resto, o berço desta prova e para o qual é preciso tempos mínimos (muito apertados). O modo como ele fala do sonho revela que é quase certo que vai tornar-se realidade: "Eu hei-de fazer o Ironman do Havai. Tenho a certeza disso. Não é uma questão de acreditar. É uma questão de saber. Eu vou lá chegar!"

Olhando para a sua transformação... não fica qualquer espécie de dúvida.

 

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 Fotos: Raquel Brinca, HUG

1 ano

Fez ontem hoje um ano que a minha vida mudou. É estranho dizer isto mas é verdade. A vida tem sido gentil para comigo em vários aspectos, nomeadamente nisto de me levar pessoas queridas. Fui muito poupada a mortes, com excepção para os meus queridos avós, mas disso, enfim, já estamos à espera. O Tiago foi o primeiro amigo que partiu. Fez ontem um ano. O Tiago foi vizinho do mesmo prédio durante 20 e muitos anos, amigo de infância e adolescência. Muitas das coisas que vivemos pela primeira vez, vivemo-las juntos. O Tiago, também conhecido por bombeiro porque uma vez apagou um fogo que deflagrou debaixo da sua janela (se a memória não me falha), era alegre, era livre, era combativo. Ajudou a construir um hal-pipe nas traseiras dos nossos prédios e foi feroz quando houve quem quisesse acabar com aquilo. Era bravo. Não se deixava atemorizar por dá cá aquela palha. Durante muitos anos teve um cão, o Doggy, e parece que ainda o consigo ouvir a gritar o seu nome pela rua, com aquele vozeirão de homem acabado de formar: "Doooggy! Doooggy! Dooooggy!"

Soube que se tornou um lutador pelos seus sonhos. Quando morreu, tinha uma escola de surf sua, em Carcavelos, e dias antes de partir confidenciava que era triste que a doença ruim lhe acontecesse agora, logo agora que estava tudo a correr tão bem.

A perda do Tiago foi dura. Nós, os amigos de sempre, juntámo-nos para um luto comum. O nosso grupo no messenger serviu de catarse à tristeza. Partilhámos fotos, revivemos histórias, rimos, chorámos. Creio que não exagero se disser que ficámos atordoados. Um pouco como se fosse impossível um de nós morrer. De certo modo, foi como se uma parte de nós, da nossa história, morresse com ele. Ver os amigos de sempre carregarem, de queixo a tremer, o caixão do Tiago foi muito perturbador. E isso, seguido de outro episódio doloroso, mudou muita coisa cá dentro.

Ontem foi dia de homenagem. Na praia de Carcavelos. Família, amigos, flores brancas jogadas ao mar.

Estava com medo da intensidade do momento mas foi sereno, bonito sem ser dilacerante, tranquilo e apaziguador, até.

O Tiago partiu mas continua vivo em cada um de nós. E isso é reconfortante de ver.

Malabarismo

Sempre que apanho malabaristas em semáforos, saco da carteira. Talvez tenha sido artista de circo numa outra vida, talvez me dê gozo encontrar uma forma de arte quando menos a espero (entre emissões de monóxido de carbono, aguardando que o vermelho passe a verde), ou talvez me agrade simplesmente ver quem faz pela vida, em vez de simplesmente estender a mão para a esmola. Estes novos "pedintes" (e são-no, efectivamente, porque nos pedem) têm um saber que eu não possuo e, só por isso, merecem a minha atenção. Atiram quatro ou cinco coisas ao ar e deslumbram-me com a sua perícia. Naqueles breves segundos, mostram a sua habilidade, sorriem, tiram o chapéu e curvam-se para agradecer aos espectadores ocasionais. Hoje, estava com a minha mota num desses semáforos povoados por artistas circenses e, no final da actuação, bati palmas. O rapaz sobressaltou-se. Voltou a cabeça na minha direcção, quase assustado. Não esperava a ovação, o que me entristeceu. Um artista em cena, que não conta com o aplauso, só pode ser um artista infeliz. Sorriu-me. Sorri-lhe de volta. Estendi-lhe o parco pagamento pela curta performance. Depois, o sinal mudou e eu avancei. Ele continuou por lá, a existir entre o vermelho e o verde, sem esperar aplausos. 

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Há um novo lanche para a escola

É das maiores dores de cabeça de muitos pais: o que mandar para aqueles lanchinhos de meio da manhã e de meio da tarde? Se mandamos sempre fruta torcem o nariz, se mandamos sempre bolachas sentimo-nos mal porque são bolachas a mais, se mandamos pão e eles já comeram pão de manhã fica pão a mais, se mandamos aquelas opções embaladas é uma chatice porque muitas vezes têm excesso de gordura e açúcar, se mandamos gelatina chega lá líquida... aaaaaaaaaarghhhhh!!!!!

Uma coisa é certa: estamos (felizmente) cada vez mais preocupados com a alimentação dos nossos filhos e eles próprios já sabem que não dá para comer qualquer porcaria. No outro dia ouvi a Madalena em conversa com as amiguinhas e estavam muito preocupadas com um colega cujos lanchinhos lhes pareceram ser muito pouco saudáveis. Achei muito curioso que elas revelassem esta preocupação e já este saber sobre o que é definitivamente errado na alimentação.

O que muitas vezes acontece, quando a educação não é feita logo desde pequeninos, é que mais tarde, quando têm conta corrente na cantina da escola, ou quando levam dinheiro para comer, só fazem escolhas erradas. Falo por mim: como quando era miúda não havia tantas preocupações com a alimentação, lembro-me de comer muuuuita coisa errada na cantina da escola.

Das refeições diárias recomendadas para as crianças, o lanche é responsável por proporcionar 10-15% da energia diária, ajudando a manter os níveis de desempenho e concentração nas suas atividades diárias. O lanche deve ser planeado e, para ser completo, deve idealmente incluir água, fruta, cereais e lacticínios.

 

Foi a pensar no momento do lanche que a Danone desenvolveu um produto novo, que pode ser uma excelente escolha para levar para a escola. Chama-se justamente Danonino Para Levar. Para além de ser delicioso, é prático para transportar e consumir e aguenta até 4 horas fora do frio. Uma opção prática para o lanche da manhã ou um bom complemento para o lanche da tarde.

Danonino Para Levar, com sabor a morango, é uma opção adequada já que para além de ser um lacticínio é fonte de cálcio, vitamina D e proteína, sem conservantes, sem corantes artificiais e sem aromas artificiais.

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(post escrito em parceria com a Danone)

 

Este miúdo...

Está em casa, doente.

A meio da noite, entre febres e vomitados, pediu-me para cantar. Como está farto das cantigas do costume, gosta que se invente novas. Mas às 4h da manhã, depois de tirar lençois pela segunda vez enquanto o pai lhe dava banho, confesso que a minha veia criativa não estava no seu melhor. Comecei então a cantar a história de um porco fofinho com ranho no focinho, entre outras rimas parvas que o sono me permitia. Ele olha para mim e exclama:

- Oh pá, a sério???

 

 😂😂😂😂😂

Dentes incisivos: uma história de amor

A Mada foi à sua dentista de sempre (Drª Filipa Cordeiro) na MD Clinica e o óbvio foi confirmado: além de ter os dentes todos tortos (possivelmente por falta de espaço), tem mordida cruzada muitíssimo acentuada e a precisar de correcção urgente - o que, por si só, por vezes faz logo alinhar os dentes todos, sem ser preciso mais nada. 

Como a especialidade da Drª Filipa não é ortodontia, passou-a para a Drª Cristina Mourinho. E pronto, mais uma super querida, e lá ficámos de novo completamente rendidos a esta clínica em que cada nova especialidade ou cada médico por que passamos é uma boa surpresa. Gosto mesmo disto de haver um piso só para adultos e um piso só para crianças, e de num caso e no outro sermos encaminhados para diferentes especialistas, conforme o caso. 

A Drª Cristina Mourinho explicou então, há duas semanas, que o aparelho que a Madalena ia pôr ia alargar-lhe o espaço para os dentes do maxilar superior se endireitarem. E deu trabalho diário para casa. Uma espécie de chave para todos os dias de manhã e todos os dias à noite enfiar num buraquinho e alargar o aparelho (e o osso - MEDO). Uma coisa com um ar um bocado medieval, confesso, houve dias em que até me arrepiava a fazer aquilo, sobretudo quando ela arregalava os olhos durante o processo, como que a sentir o alargamento dos ossos (auchhhh). Mas a dentista, super habituada a lidar com crianças, desmontou todo o horror que aquilo parecia ser e contou uma história que eu achei maravilhosa:

- Sabes, Madalena, os teus dentes da frente vão afastar-se muito um do outro, durante estes 15 dias. Mas eles têm uma linda história de amor. E quando terminar este processo do alargamento, vais continuar com o aparelho na boca, e a seguir eles voltam a juntar-se. O espaço ganho continua lá, e os dentes que nasceram tortos, vão provavelmente alinhar-se porque ganharam lugar. Mas os dois dentes incisivos amam-se e não podem ficar afastados muito tempo, por isso, voltam a juntar-se. 

Achei lindo. Até quando falamos de dentes podemos criar histórias bonitas, que apaziguem um bocado o medo deles (e o nosso, vá).

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 Ontem foi o último dia de alargamento. Relembro que foram 15 dias. Vejam só a diferença.

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 Foto tirada dia 13 de Março

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Foto tirada ontem, dia 27 de Março 😱

 

Clube de Leitura: o próximo encontro é no dia 5 de Maio. Tudo a começar a ler!

Como é, minha gente? Quem alinha em encontrar-se comigo daqui a um mês para discutirmos os livros que vamos ler?

Eu já escolhi o meu e estou perfeitamente rendida. É o "Jesus Cristo Bebia Cerveja", de Afonso Cruz. É tão, mas tão, mas tão bonito. Estou sempre de lapiseira em punho, para sublinhar passagens que me comovem. Conclusão? Mais parece um livro de estudo - todo anotado e sublinhado.

Bom, a Fnac gostou deste muito projecto e cede o espaço para as nossas reuniões. 

Assim, o próximo encontro vai ser na sexta-feira, dia 5 de Maio, às 19h, na Fnac do Colombo.

Nada temam: sentamo-nos todos ao mesmo nível, não será preciso ir ninguém para aquela espécie de palco falar. A ideia é ser mesmo uma conversa e não uma apresentação formal.

Se quiserem incluir os miúdos aí de casa, se eles forem desembaraçados e acharem graça à ideia de também poderem contar os livros que leram... óptimo!

A Fnac não quis deixar de sugerir alguns livros, para todos os gostos. 

Para os mais pequenos, o novo livro da colecção Uma Aventura (sai hoje): Uma Aventura em Conimbriga, de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada

Para quem adora mistérios, A Viúva Negra, de Daniel Silva

Para quem gosta mais de romances: Coração Mais Que Perfeito, de Sérgio Godinho

 

Inscrevam-se! Só para ter ideia de quantas pessoas vão e quantos livros poderão ser comentados.

Estou a tentar arranjar aí uns miminhos! Acho que vai ser muito bom!

 

 

 

Conta-me #3

Foi logo depois do enterro. Caminhávamos ainda com os pés pesados, aquele andar arrastado de quem traz a dor presa às pernas, seguíamos entre ciprestes (sempre os ciprestes) com aquele silêncio condoído de quem traz também a dor agarrada às cordas vocais, e foi então que ela me perguntou:

- Tu sabes que o avô nunca foi mineiro, não sabes?

Engelhei o nariz, franzi o olhar como se me tivesse tornado míope e não conseguisse ver quem me fazia a pergunta.

- Hã?

Chamava-se Manuel Barriga, o meu avô, e viveu toda a sua longa vida na aldeia de Mina de São Domingos, concelho de Mértola, Alentejo profundo. Tinha sido mineiro. Vida dura, passada debaixo de chão. O mesmo chão onde o tínhamos deixado ainda agora, como que um regresso às origens.

Lembro-me de me sentar ao seu colo e de o ouvir contar as histórias de quando ia, com os outros, para os seus dias de escuridão. Acordava às cinco e meia da manhã, todos os dias. A mulher - minha avó - a essa hora já lhe havia feito o pequeno-almoço e a marmita para levar. Beijavam-se longamente porque a minha avó tinha sempre medo de não o tornar a ver. Findo o beijo, ele dava-lhe uma festa na cabeça, e dizia:

- Até já, minha loira.

Todos os dias isto. Como um guião a que tivessem de obedecer.

De seguida, o meu avô Manuel saía para a escuridão da madrugada, que ainda assim era mais luminosa que o negrume da mina.

A mina. Lugar de toupeiras. Cheiro a terra, a cobre, a medo. Gélida pela manhã, um braseiro quando o sol ia alto. Lá dentro, os homens-toupeira sabiam que o sol ia alto pelas gotas de suor que lhes deslizavam cara abaixo, corpo abaixo, acresentando ao cheiro a terra, cobre e medo também o cheiro ácido a calor e a esforço.

O meu avô contava as histórias da mina com uma intensidade dramática, gesticulando muito, levantando a voz, fazendo sons guturais que me povoavam os sonhos e os pesadelos e a infância inteira.

Lembro-me vividamente do relato da derrocada. Os homens todos ali, enterrados vivos, ofegantes, surpreendidos pela terra que os devorava, faminta. Uns ficaram soterrados, os outros, presos numa galeria, fizeram o que o desespero mandou. Uns prantaram-se de joelhos a rezar ("Alguns diziam-se ateus, António! Mas na hora do aperto... ai, na hora do aperto, sabiam as preces de cor!"), outros choravam pelos filhos, pelas mulheres, pelas mães. Poucos se mantinham homens, como antes. A maioria tinha como que regressado a um estado infantil, de uma fragilidade confrangedora. Aos gritos, aos saltos, a pedirem mimo, como numa birra de sono. O meu avô jurava que alguns haviam mesmo diminuído de tamanho ("não era só na altura, António, eles estavam como que reduzidos, mirrados, esvaziados deles mesmos").

- Hã? Como assim, "o avô não era mineiro"?

Dois dias ali metidos, sem saber se os iam conseguir salvar. Defecando no espaço exíguo, comendo nada, bebendo coisa nenhuma, vazios de esperança e de humanidade. Salvaram-se. O meu avô ficou manco de uma perna, a maior parte ficou manca da cabeça, com pesadelos, medos, angústias, choros. Homens para sempre feitos crianças, por culpa da terra. 

- O avô nasceu manco, António. Foi mal de nascença.

- Hã?

Foi então ali, entre ciprestes, que a minha irmã me disse palavras ao início incompreensíveis. O nosso avô nasceu com uma perna diferente da outra. Mais curta, mais estreita, mais fraca. Nunca andou direito, teve sempre de se amparar a duas canadianas para conseguir caminhar. Incapaz, nunca pôde trabalhar. Ainda para mais na mina, único posto de trabalho que a aldeia oferecia aos homens ali nados e criados. Trabalho para homens completos de pernas, braços, de corpo inteiro. De maneira que o meu avô passou a vida inteira a ver os homens passarem de manhã, beijando as mulheres e levando na mão as marmitas preparadas por elas com desvelo, para voltarem ao final do dia, mascarrados e exaustos, com cheiro a terra, cobre e medo. Encontrava-se com eles ao entardecer, na taberna do Arnaldo, para lhes sorver as histórias. Histórias de vidas duríssimas, que ninguém no seu juízo perfeito poderia invejar. E, no entanto, o meu avô daria tudo para ser um deles. Daria tudo para ter também aquela vida dura, feita de escuridão. Porque qualquer negrume seria melhor do que o seu, que era oco, estéril, seco. Inútil. 

Parei, entre ciprestes. Voltei para trás. Ajoelhei-me na campa do meu avô mineiro, limpei as lágrimas, e segredei-lhe:

- Chegaste a casa, finalmente, avô. Descansa.

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Foi um prazer!

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Ontem o Observador trouxe um artigo sobre mim e sobre a Mónica Barbosa, em contramão com o parecer da Ordem dos Médicos, emitido na semana passada, contra a presença dos pais nos partos cirúrgicos. Muito bem escrito pela Tânia Pereirinha. Podem lê-lo AQUI. E não, não precisam agradecer. Acreditem que foi das lutas que mais prazer me deu travar.

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