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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

O que é que se passa em Inglaterra, afinal?

Confesso que vi a reportagem da Ana Leal, na TVI, boquiaberta. Em choque. Confesso que a emoção desabou sobre mim e chorei como uma criança na segunda parte da reportagem (a primeira parte passou sábado, a segunda passou ontem), quando vi as imagens do nascimento do Santiago e ao ouvir aqueles pais falarem de como 5 dias depois de o bebé nascer lho retiraram e como nunca mais o viram, estando neste momento o seu bebé de 7 meses prontinho a ser adoptado.

Depois da reportagem acabar, já li de tudo nas redes sociais. Já li muitas certezas, porque em tudo as pessoas vomitam certezas. As que ficaram como eu, em choque, a vomitarem certezas sobre o que se passa em Inglaterra; e depois as outras - as que têm família ou amigos a viver no Reino Unido e que nunca viram nada disso acontecer; as que odeiam a TVI cheias de certezas sobre o sensacionalismo e mentiras que ali se veiculam; as que simplemente não creem que isto seja possível e o garantem cheias de certezas.

Eu não tenho certezas de nada. Se querem mesmo saber, custa-me acreditar que, em pleno século XXI, num país evoluído, uma coisa destas seja possível. Assim, desta forma. Custa-me muito acreditar que num país civilizado uma nódoa negra seja o suficiente para se retirar uma criança a uma família. Afinal, todos nós sabemos como as crianças acumulam nódoas negras, sobretudo se forem felizes e irrequietas como todas as crianças deviam ser. Custa-me muito acreditar que possa ser suficiente uma criança dizer na escola que a mãe ou o pai deram uma palmada para ser de imediato retirada à sua família. Custa-me.

Mas sei o que vi ontem. Sei que na reportagem estava Dulce Rocha, que foi Presidente da Comissão Nacional de Protecção das Crianças e Jovens em Risco, e hoje é Procuradora da República, e sei que o que vi foi uma mulher profundamente chocada. Sei que vi o advogado Pedro Proença falar de um verdadeiro negócio das agências de adopção, que são entidades PRIVADAS, e que há fortunas em jogo neste drama. Sei que a Ana Leal falou de factos e os factos são:

Antes de estar em vigor o sistema de agências de adopção privadas havia 10 mil crianças por ano retiradas aos pais.

Depois de estar em vigor esta ideia peregrina de pôr agências privadas ao barulho, passaram a ser 125 mil as crianças retiradas por ano às suas famílias.

De 10 mil para 125 mil. 

Creio não ser preciso estar cheio de certezas para compreender que há aqui um grande negócio por detrás.

Também não julgo ser preciso ser particularmente esperto para achar que a história da Iolanda Menino (mãe do Santiago) é inacreditavelmente cruel. Então uma mãe recusa-se a abrir a porta de casa à assistente social que veio ver o bebé e, por causa disso, retiram-lhe o filho e dão-no para adopção? Não, não estou a esconder nada. A mãe teve o bebé e 5 dias depois foram-lho tirar pura e simplemente porque ela não quis abrir a porta à senhora dos Serviços Sociais. Fez bem em não abrir a porta? Não. Se era uma obrigatoriedade legal que tinha, devia ser castigada? Sim, com uma coima qualquer. Que lhe exigissem 5 mil libras de multa. Agora... o castigo foi retirar-lhe o filho e NUNCA MAIS DEIXAR OS PAIS PÔR-LHE A VISTA EM CIMA???? A sério que há uma alma que acha isto normal?? O Santiago tem 7 meses e está neste momento só à espera que uma família o adopte. E eu já vi nas redes sociais mulheres dizerem "é bem feita, quando estás num país tens de acatar as leis desse país". E é normal, pergunto, num país de primeiro mundo, castigar-se uma mãe por não ter cumprido a lei, retirando-lhe o filho? Ela teve 5 míseros dias para provar que era "má mãe". Bastou-lhe não abrir a porta para ficar carimbada como incapaz de cuidar do seu bebé?? Mas está tudo doido??

 

Quanto aos que dizem que a TVI faz reportagens sensacionalistas, que a Ana Leal não sei quê, que é tudo para o choradinho e que não há investigação e que não há seriedade... se calhar têm de ler o artigo da Visão AQUI

E talvez ver todas as publicações que já foram feitas sobre o assunto.

A BBC já fez trabalhos sobre isto AQUI e AQUI. Vamos também duvidar da BBC?

Mas talvez queiram ver também AQUI ou AQUI.

escrevam "Forced Adoption UK" no Google. E percebam como este assunto já dá que falar há bastante tempo. Não foi uma invenção da Ana Leal, nem da TVI.

 

Ou então talvez não estejam para isso e podemos todos fingir que isto não acontece. Que é tudo um equívoco. Um mal entendido. Uma cabala.

Bom. Como disse, eu não tenho certezas de nada. 

Minto. Há uma certeza que eu tenho: não vou continuar indiferente a tudo isto. Não posso. E a confirmarem-se - como parece por tudo o que já li - as suspeitas de que os Serviços Sociais ingleses literamente raptam crianças sem fundamento, aproveitando-se da fragilidade social e da debilidade financeira destes pais, de uma coisa eu tenho a certeza: não serei um ser humano digno desse nome se continuar alegremente com a minha vida, sem fazer um único movimento que ponha fim a isto. Só sou uma. Sou uma formiga. Pois sou. Mas sei que há por aí mais gente com um coração no lugar de uma pedra. E juntos talvez possamos fazer barulho. Sempre é melhor que fazer nada.

 

 

Para quem não viu a reportagem, em duas partes, aqui fica: