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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Motorcycle Woman

Durante muitos anos tive uma scooter, que o meu pai me deu. Foi uma promessa que me fez e que cumpriu, para grande tormento da minha mãe, coitadinha (hoje percebo-a bem). Foi, depois da minha irmã, o melhor presente que o meu pai me deu (se é que uma irmã pode ser considerada "um presente" mas para mim foi encarada como tal, como o maior de todos os presentes).

Na universidade era conhecida pela "motor" ou "motorcycle woman" porque chegava sempre na minha acelera e andava sempre com o capacete para todo o lado. Foram tempos do caraças. Lembro-me da sensação de liberdade, de autonomia. Como um grito. Tinha um namorado com mota, muitos amigos motards, aquilo fazia todo o sentido. Sabia os nomes das motas todas e os modelos, sabia quando avariava e era um problema da vela ou do cachimbo (etc), e ia aos encontros de motards e a minha roupa cheirava a tubo de escape (e eu gostava). 

No Verão, ia vezes sem conta para as praias da Costa, de barco, e sentia-me mesmo feliz por poder ir onde queria, à hora que queria, sem depender de ninguém.

Quando a minha irmã foi viver para Trancoso, ia por vezes ter com ela, de comboio. E, claro, lá ia a minha mota comigo, na carrugagem para o efeito. Saía em Celorico da Beira e lá ia eu até Trancoso, sentindo-me ainda mais aventureira por estar longe de casa, a fazer todo o percurso sozinha.

Um dia tive um acidente. Foi um acidente aparatoso, na José Malhoa, em que voei de uma faixa para a do lado. Um carro a sair de uma garagem deu-me um piparote e eu simplesmente voei. Ao voar, deu tempo para pensar que, quando aterrasse, na outra faixa, os carros que vinham a descer a avenida iam-me passar por cima. E não foi bom. Por sorte, o semáforo estava encarnado e os carros parados, pelo que ao aterrar tive a sorte de não ser passada a ferro. Ainda assim, a avenida ficou um tempão cortada nos dois sentidos e a minha mãe apanhou o cagaço da vida quando lhe ligaram com a típica frase: "É a mãe da Sónia? Está tudo bem mas..."

Fui de ambulância para o hospital, tenho uma cicatriz feia numa perna mas tive a felicidade de ser só isso. 

A minha companheira de aventuras foi para a sucata. E eu nunca mais tive mota.

Mas tenho umas saudades que nem imaginam.

Às vezes passa-me pela cabeça comprar uma mota, para os pequenos trajectos da cidade. Ainda mais agora, que vou trabalhar no Chiado. Dava um jeitão. Já não teria o mesmo apelo da liberdade e da autonomia, tão importantes naqueles tempos, mas teria outros apelos: evitar o trânsito caótico da cidade, gastar menos gasolina, chegar mais depressa (não pela velocidade mas pela possibilidade de não ficar parada em filas intermináveis). Mas depois penso nos meus 4 filhos. E na minha mãe. E penso que se calhar não vale o risco. Mas vontade... vontade não me falta. E saudades também não.

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