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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

O cromo cota sou eu

No Sábado encontrei o meu amigo PRD na Fnac do Chiado. Às tantas, mostrou-me o filho, Olha só, tão grande. E eu fiquei boquiaberta. Eu andei com aquele miúdo ao colo e agora tenho de inclinar a cabeça para trás para falar com ele. Mede 1,80m, tem 15 anos, está um rapazola. E foi então que dei por mim a dizer as parvoíces que sempre ouvi os cotas dizerem-me, quando tinha a idade dele (ainda que eu nunca tenha passado do 1,60m):
- Eh pá, tu estás enorme! Mas como é que é possível? Xiiiiiii! Mas o que é que tu comes? Fermento? Eu andei contigo ao colo e agora...

Ao mesmo tempo que falava, havia uma vozinha dentro de mim, tipo grilo do Pinóquio, que sussurrava: O que é que tu estás a dizer, pá? Tu estás a ouvir-te, pessoa? Que raio de conversa é essa? "Fermento?", "Eu andei contigo ao colo"?
Mais um bocadinho e dizes-lhe aquela tão típica, também: "Vocês é que nos fazem velhos!"

Porque é que acabamos sempre a fazer o mesmo que nos fizeram? Porque é que dizemos as mesmas frases-feitas idiotas a que, anos antes, torcemos o nariz?
Olha, António, tu desculpa lá qualquer coisinha. Não sabias o que me responder, não foi? Pois, claro. Quando era comigo, também ficava calada. Calada e a pensar: mas que grande cromo!
No sábado passado, o cromo fui eu. Deixa lá, António. Daqui a uns 15, 20 anos, hás-de estar tu a encontrar um puto qualquer, que conheceste minúsculo, e hás-de-lhe dizer:
- Eh pá, tu estás enorme! Mas como é que é possível? Xiiiiiii! Mas o que é que tu comes? Fermento? Eu andei contigo ao colo e agora...

E nesse dia... nesse dia vais-te lembrar de mim.

Raízes fasciculares

O meu rapaz mais velho está grande, com voz grossa e postura de adolescente. Tem 8 anos mas já lhe vejo jeitos de rapazinho maior, e acho que até já lhe consigo vislumbrar as feições de jovem a fermentar hormonas.
Gosto de o ajudar a fazer os trabalhos de casa, gosto de estudar com ele para os testes. Sinto-me velha para caraças mas, ao mesmo tempo, sinto um calorzinho bom, de o ver tão crescido, a cumprir obrigações.
O Manel teve um teste de Estudo do Meio (no meu tempo era Meio Físico) e foi giro vê-lo a estudar as raízes aprumadas, fasciculadas e tuberosas, as plantas de folha caduca, os seres vivos e os não vivos, o que extraímos das plantas para a nossa vida do dia-a-dia.
Estudo com ele e relembro aprendizagens cobertas de pó. Algumas tão cobertas de pó que simplesmente sumiram dentro do meu cérebro. Outras vêm ao de cima com um simples sopro. Outras fazem-me arrepios e alergia... e não é do pó, é mesmo das próprias.
Como os problemas de matemática, aqueles que começavam com O João tem 23 laranjas, saiu de casa e encontrou mais não sei quantas laranjas mas depois veio a Susana e levou-lhe um porradão delas mas trouxe algumas metades, quantas laranjas tem o João? Ainda hoje, quando leio os problemas que o Manel tem de resolver, sinto um calafrio. Desce na minha mioleira uma espécie de muro e, pronto, fico burrinha, burrinha.
A tabuada é outra. Acho que nunca a soube de cor e salteado, de trás para a frente. Decorava uma, esquecia as outras, baralhava tudo. Agora, estou empenhada em fazer o Manel decorar. Estudamos todos os dias uma. E depois pergunto-lhe 4x4, 3x8, 5x9, 4x7 a ver se ele é menos totó do que eu. Conclusão? Pela primeira vez sei a tabuada. De cor e salteado. De trás para a frente.
Até por isto gosto de ter filhos: aprendo, reaprendo, colmato falhas que ficaram para trás, removo o pó a conhecimentos distantes. Já tenho 3 filhos, vou fazer isto 3 vezes. Dá-me ideia que é desta que vou ser uma aluna brilhante.

Fruta da época

O Martim esteve de molho. E agora sou eu. Depois de ter estado ontem uma hora à porta de uma escola, a fazer entrevistas às crianças que saíam, com um frio tão gelado que fiquei com o nariz tão vermelhinho como o da rena Rudolfo, estou oficialmente a chá quentinho e benurons. Tenho arrepios no corpo e vontade de ficar todo o dia enfiada no meu pijaminha polar. A Madalena está na mesma: ramelosa, ranhosa, com uma otite cerosa (tudo em osa, que é para rimar), e com uma tosse horrível que só me faz lembrar quando o Martim foi internado. A máquina dos aerossóis já saiu da caixa e ela experimenta pela primeira vez os vapores, para já só com soro fisiológico. Espero que não voltem ao nosso dicionário os Ventilans, Atrovents, e Celestones que nós, infelizmente, conhecemos tão bem.

Sem palavras

Venho aqui, olho a fotografia da Sofia e não consigo postar nada.
Tudo me parece fútil, pequenino, estúpido.
Obrigada a todos os que já se tornaram dadores, alguns esta semana, depois de verem a carinha sa Sofia, aqui em baixo.
É nestas alturas que eu não entendo a fé. Nestas e quando há Haitis e outras calamidades similares. Respeito muito quem a tem. Mas por cada Sofia e por cada vítima do Haiti fico mais longe de Deus.

Sofia



Esta é a Sofia. A Sofia tem a mesma idade da minha Madalena. A Sofia é até parecida com a minha Madalena. A Sofia está doente. Muito doente. E precisa da nossa ajuda. Da ajuda de todos. Se ainda não é dador de medula óssea, por favor, está na hora. Parte-me o coração pensar nos pais da Sofia, que podia ser a Madalena, e que, por isso, eles podiam ser nós. Inscrevam-se. É muito difícil encontrar um dador compatível e por isso quantos mais dadores disponíveis melhor. Aumenta a probabilidade de a salvar.
Inscrevam-se em qualquer Centro de Histocompatibilidade. Ajudem a Sofia a viver.
(Sofia: vou ficar aqui a fazer muita força, a juntar toda a energia positiva que conseguir, para que tudo isto não passe de um pesadelo medonho. Boa sorte, minha linda. Boa sorte!)

5

Ontem, quando lhe dei o beijinho de boa noite, disse-lhe: "É a tua última noite com 4anos". E não é que me deu vontade de chorar? Ouvi-me e deu-se-me um aperto cá dentro, cinco anos, pá, o meu catamiço já tem 5 anos, como é possível isto?

Hoje o Martim faz anos e está que não se aguenta, todo orgulhoso, cheio de anos.
Hoje levou um bolo para a escola e vai ter festa familiar cá em casa e no sábado mais uma, que quanto mais paródia melhor.
Hoje vou recordar o dia em que ele saiu da minha barriga e eu chorei quando ele chorou, porque senti a mesma pancada na cabeça que da primeira vez, uma espécie de atordoamento amoroso que nunca mais passa e aumenta todos os dias, e que para mim foi uma surpresa porque nunca imaginei que fosse possível sentir um amor assim mais do que uma vez. E não é que já foram três?
Hoje vamos cantar os parabéns e desejar que cantemos por muuuuuuitos anos, todos juntos e felizes e a gostarmos uns dos outros.
Hoje vou estar um nadinha mais lamechas, porque o meu pequeno esquilo está a crescer mais depressa do que eu gostaria.
Parvoíces.
Parabéns.
Uma mão cheia de beijinhos.

Mãe: 1; Madalena: 0

Hoje lixei-te.
Aqueci a sopa com batata doce. Cozi maçã e passei-a. Pus cada coisa no seu prato.
Enfiei-te um babete à prova de javardice. Pus um avental. Sentei-te ao meu colo, com um braço atrás de mim, a cabeça entalada, o outro braço agarrado. Peguei na colher, mergulhei-a na maçã, dirigi-a à tua boca. Fechaste-a muito bem fechadinha. Mas eu estava determinada a vencer-te. Forcei a entrada e a colher entrou na tua boca. Fizeste uma careta, o que só prova que és mesmo esquisitinha, que a maçã era doce como mel. A seguir, outra colherada de maçã, e tu furiosa, a fazer força mas sem saída. Depois, a sopa. Tu a quereres vomitar e eu a dar-te água e a soprar para a tua cara. Tu a arqueares o corpo, demoníaca, e eu a fazer uma força do caraças para te agarrar.
Hoje lixei-te.
Comeste para aí 6 colheres de sopa mais umas 5 de puré de maçã. Tens sopa seca nas orelhas e no cabelo e no nariz e nas pestanas. Mas comeste.
Agora vou só ali estender-me um bocado que eu lixo-te mas quem fica de rastos sou eu.

Alienação parental

Na sexta-feira aconteceu-me uma coisa que há muito não me acontecia. Comovi-me até às lágrimas com uma entrevistada. A reportagem que acabei de entregar é sobre alienação parental, isto é, mães e pais (mas sobretudo mães, porque é à guarda delas que ficam a maior parte das crianças) que afastam o outro progenitor da vida dos filhos, única e exclusivamente para os punir, para exercer represálias pela ruptura.
Na sexta-feira, uma história tornou a mexer-me por dentro. Foi, também por isto, que me tornei freelancer. Para fazer as histórias que me transformam, que me emocionam, que me fazem crescer. Há muito que não me sentia assim. Abananada. Há muito que não chegava a casa, depois de três horas a entrar na vida desesperada de alguém, para desabar no ombro do meu homem. Ele mesmo o notou: Há tanto tempo que não te via assim... pensava que tinhas perdido a capacidade de te comover.
Eu também pensava que sim. Mas não. Ainda bem.
No próximo sábado, na revista Nós Egoístas, dentro do jornal i, estão histórias inacreditáveis de pais que só queriam ser pais. Só queriam ter os filhos no colo, abraçá-los, dar-lhes amor, carinho, educação. E não puderam. Porque o egoísmo do outro progenitor não deixou, porque a justiça permitiu, porque o tempo ditou o fim dos laços. Revoltante. E triste. E a constatação de que eu voltei aos velhos tempos.

Haiti


Esta imagem...
Esta gente...
Esta terra que nos mostra, de vez em quando, como somos vulneráveis, como somos frágeis, como tudo muda, tudo acaba, em 35 segundos...
Hoje o meu coração está, inteirinho, no Haiti.

Ainda o cancro

A todos os que ficaram magoados com o post sobre o cancro: as minhas desculpas. Como imaginam, não queria ofender ninguém. Se há pessoa que respeita quem passa por esse martírio, sou eu. Se há pessoa que se borra de medo de ter um cancro, sou eu. Se há pessoa que conhece gente que já teve ou tem cancro, sou eu.
A todos os que estão, neste momento, a lutar contra cancros, desejo, do fundo do coração, que vençam esse maldito. Se eu pudesse espezinhá-lo e parti-lo aos bocados com um taco de baseball, acreditem, era eu própria que ia aí fazer-vos o serviço.
Eu e as minhas amigas temos esta coisa de gozar com tudo o que nos assusta e entristece. Podemos, aos vossos olhos, ser umas anormais. Se calhar somos mesmo. Mas mesmo quando uma colega nossa morreu, aqui há uns anos, a nossa melhor catarse era gozar com o assunto. Mesmo quando uma colega de uma de nós teve agora uma situação muito complicada de saúde, o nosso remédio caseiro é fazer humor negro. Parece que as coisas ganham uma nova dimensão. Ficam mais pequeninas.
Mas é claro que nem todos podemos ver as coisas do mesmo modo. Com certeza.
E se magoei alguém com o meu post pateta... desculpem mesmo qualquer coisinha. Eu tenho muuuuuuuuuuuitos defeitos. Mas sou mesmo muito boa pessoa. Longe de mim querer ofender aqueles que sofrem.

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