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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Vou tomar banho ou não vou?

O Martim acaba de se despir, entrar na banheira e fazer chichi lá dentro. Eu ainda não tinha visto a poça de mijo quando o ouvi dizer:
- O Matim vai tomar banho.
E respondi-lhe:
- Não vai, não. São nove e meia da noite, agora vai mas é dormir.
Ele não pareceu convencido.
- O Matim vai tomar banhinho.
Foi quando me aproximei da banheira para o tirar que vi aquele lindo lago amarelo. Ele olhou-me de lado e sorriu.
- O Matim vai tomar banho.
Abri o chuveiro e resumi-me à minha insignificância.
Não. Não lhe bati. Já tinha a mão a escaldar da palmada que lhe dei, minutos antes, quando baixou as calças na garagem e exibiu o pirilau. Não se aflijam os pais mais acesos contra a brutalidade de pais que sovam as criancinhas. A minha palmada deixou-me a mão a escaldar. Mas ele nem gemeu.

Choque frontal com o passado

Os meus pés conhecem de cor aquelas escadas. Aqueles corredores. Os sítios das coisas. A máquina do café. A secretaria de redacção. O centro de documentação. As salas disto e daquilo. O meu corpo conhece de cor cada espaço, cada recanto, a maior parte das pessoas, mesmo aquelas de que não sei o nome. Foram 10 anos, e 10 anos, como diz o outro, é muito tempo. Foi muito tempo. Hoje, ao percorrer os corredores que não percorria há uns 400 dias, senti uma coisa que não soube explicar. Mas que foi triste. Nunca tive saudades do DN. Estava cansada daquilo. Mas passei ali muito tempo, vivi ali muita coisa. Conheci ali o meu homem. Estive grávida duas vezes. Fiz alguns amigos, poucos, para dizer a verdade. Escrevi muitas coisas, aprendi muitas mais, cresci tanto, tanto. Ajudei a parir e a criar o DNA. E chorei muito com a sua morte. Mas sobrevivi e passei mais um ano no jornal, a adaptar-me, a reinventar-me, a ser uma mulherzinha, longe da asa do PRD, meu pai-profissional.
Estes dias foram terríveis. O meu corpo está amolgado por este regresso aos corredores que já foram a minha casa. Doem-me os músculos, de tanta tensão, tenho suspiros e ais dentro do peito. Agradeço muito-muito ao João Marcelino, que nos recebeu sem pestanejar. Ao Afonso Camões, que até ajudou a acartar computadores. Mas estou contente por amanhã já estarmos de regresso ao nosso cantinho. Este embate com o passado não me fez nada bem.

Fogo e água: a fúria dos elementos

E eis que, depois da bonita festa de sexta-feira, a Time Out ia ardendo. No Domingo ficámos todos a ver as imagens do incêndio na televisão, a tremer e a rezar (os que são católicos, ou seja, cerca de um) para que as nossas lindas instalações não pegassem fogo juntamente com o número 23 da Avenida da Liberdade. Roí as unhas, tomei kompensan porque o meu estômago borbulhava, recebi qualquer coisa como 143 890 mensagens e mais 234 telefonemas, tudo em pânico a perguntar se teríamos poiso na segunda de manhã.
E, hoje, não tínhamos poiso. A Time Out não ardeu mas inundou. A redacção era um desaire de água e cinza, ou seja, lama. E na parte comercial os tectos desabaram. Os computadores a boiar, papéis inutilizados, documentos perdidos. Um nó na garganta para não chorar. A Cláudia a mandar evacuar o sítio, com medo de soterramentos e outras desgraças a acumular àquela.
Hoje era dia de fecho da revista, o dia em que a revista vai para a gráfica, porque às quartas-feiras sai para as bancas. De modo que o João Miguel pegou no telefone e pediu asilo político ao Diário de Notícias, de onde ele e eu (e mais uns quantos) saímos para ir fazer a Time Out. E o director do DN disse que sim. Direcção e administração receberam uns gatos-pingados (nunca a expressão foi tão bem empregue) com uma hospitalidade impressionante, deram-nos uma sala nobre, ajudaram-nos a carregar torres de computadores, ecrãs, teclados. E nós conseguimos, em tempo recorde, fechar a revista. Quarta-feira, a menos que a gráfica arda, a Time Out vai estar nas bancas. E nós estaremos, provavelmente, ainda no DN, onde trabalhei 10 anos da minha vida. Foi esquisito? Foi. Mas a generosidade foi grande e nós estamos realmente agradecidos. Eu, pelo menos, estou.
Agora vou tomar um banho porque cheiro a febras. A minha moleskine cheira a churrasco e a minha vida, toda programada naquela agenda gorda, está agora desbotada, as letras esvaídas pela água, os projectos a escorrerem pelas páginas. Espero que não haja um segundo sentido nisto, que este empalidecimento dos meus dias futuros não seja uma metáfora. Amanhã lá vou para o DN. Eu e aquele edifício, se calhar, estamos destinados para sempre.

Ahahahahahah!

Ok. É oficial: o Casos da Vida de hoje foi, sem dúvida, o mais imbecil de todos. O que, atendendo ao ritmo a que já nos acostumaram, é uma conquista francamente difícil. Parabéns, pá! Os Casos da Vida fazem-me rir às gargalhadas todos os domingos à noite. E olhem que não era fácil arrancarem-me um sorrisinho sequer num domingo à noite. Obrigada, TVI. Hoje, então, até me dói a barriga. Vocês são impagáveis.

Reencontros

E no sábado, um almoço com uma amiga da minha mãe que eu não via há... 20 anos. A contabilidade da distância doeu. Como é que passa tanto tempo assim? Da última vez que ela me viu, eu era uma miúda. Tinha um namoro que dava com a minha mãe em doida (depois ela lá se habituou, e quando ela se habituou a coisa esboroou-se, como era de prever), estava no 12º ano e não sabia porra nenhuma, nada de nada (mas tinha um bom rabo).
Sábado à noite, jantaram cá em casa duas amigas. O jantar era sobretudo para uma terceira, ultimamente a precisar de socorros vários. Mas a traidora não veio. E fez muito bem. Passámos muito bem sem ti, ó macaca! E falámos imeeeeeenso de ti nas tuas costas... Não sentiste as orelhas a escaldar? Agora a sério, estamos a torcer por ti... Já tínhamos caimbras de tanto te apanhar à pazada.
A noite foi boa. Os putos também facilitaram. Pareciam uns anjinhos, a comer quando lhes dissemos para comer, a ir para cama à hora certa, a darem beijinhos de boa noite a toda a gente... A verdadeira família Von Trapp. Só faltou terem cantado antes de irem para a cama... E hoje passaram boa parte do dia a falar no bebé, o Pedro, 1 mês e meio de gente.
- Gostava de ter um bebé cá em casa, disse o Martim.
- Ah sim? E o que é que fazias, se tivesses um bebé como o Pedro cá em casa?
- Bater!
O Manel abriu a boca, horrorizado.
Calma, J.! Podes voltar sempre que quiseres. O Martim gosta de parecer mais selvagem do que na realidade é. Ou, pelo menos, eu quero acreditar que sim.