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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Yes I Can

Não sei se acontece com mais alguém. Mas quando oiço a música feita por cima do magnífico discurso de Barak Obama sinto-me capaz de chegar, também eu, a presidente de qualquer coisa. (Talvez da administração do meu condomínio...)
A verdade é que aquilo tem um efeito catalisador em mim. Yes-we-can, yes-we-can, yes-we-can. Dou por mim a cantar Yes-I-can, yes-I-can, Yes-I-can!, e de repente parece que sou realmente capaz de tudo, Vamos lá embora, Vamos para a frente, Vamos para a luta, a vida é bonita, pá! Yes-we-can, yes-we-can, yes-we-can... Pelo sim pelo não já me proibi de voltar a ouvir aquilo. Tenho medo de me despedir ou de sair de cuecas para a rua, ou coisa assim.

Pais exemplares (desta vez)

Este fim-de-semana sinto-me uma mãe exemplar. Reuni cá em casa os antigos colegas do Manel, de quem ele fala com muitas saudades. Não lhe disse nada. Às três da tarde começaram a chegar perante o olhar atónito dele. "Mas... mas... mas...?" Quando percebeu a surpresa, abraçou-se em silêncio às minhas pernas. Ficaram 5 horas, os amigos. Jogaram à bola, jogaram Playstation, correram, riram. Beberam sumos, comeram pão com fiambre, bolos, arroz doce. Quando se foram embora disse: "Obrigada, pai-e-mãe. Vocês são queridinhos." O Ricardo sussurrou ao meu ouvido: "Achas que já garantimos mais uma visitinha ao lar?"

Viva as multidões

Ah, é verdade. A minha amiga do post mais abaixo, aquela que queria mas não podia, ou não devia ter mais um filho, afinal, vai virar-se do avesso para poder tê-lo. Não tenho nada contra quem decide não ter. Mas fiquei contente. Daqui a uns meses, quando estivermos juntos, seremos, ao todo, nove pessoas. Daqui a uns meses, quando estivermos juntos, seremos portanto uma multidão.

Vampira?


Sempre gostei de reportagens pesadas. Gente a sofrer, gente que sofreu, sofre e sofrerá. Nunca soube explicar muito bem porquê. Quem me conhece sabe que não é por qualquer gosto mórbido de exibir as misérias dos outros, não é prazer por qualquer choradinho bacoco, violinos a tocar em fundo, lágrima fácil ao canto do olho. Não é isso. Justifiquei-me sempre o melhor que soube: gosto de pessoas que já viveram, que já têm no corpo e na alma cicatrizes fundas. Porque, para mim, é na ruptura, é no limite que a gente se revela. Um divórcio inesperado. A morte. A dor. Uma doença súbita. Um sexo errado, um homem que devia ter nascido mulher, uma mulher que devia ter nascido homem. A fome. A guerra. O abandono. A demência. Só quem vive um dilema, só quem fica ou ficou encurralado pelo destino pode ter o peso que, a mim, me importa revelar.

Há quem brinque com isto. Há mesmo quem diga que uso as desgraças dos outros para camuflar a minha própria vida (supostamente) miserável. "Tu gostas dessas reportagens porque elas te fazem sentir imensamente feliz, quando te comparas com os casos que relatas."

Confesso que estas opiniões me deixaram a pensar: Será? Será que eu preciso de ver gente que sofre verdadeiramente para desvalorizar os meus mesquinhos queixumes? Será que é isso que eu faço? Vampirizar a desventura dos demais para enaltecer a minha existência?

Admito a hipótese. Mas acho que é muito mais que isso. Acho que quem vive e ultrapassa as mais inomináveis desditas merece a minha, a nossa atenção. E, sim, pode servir de exemplo para desvalorizar as nossas ridículas depressões. No entanto, uma coisa é certa: é-me muito mais difícil viver agora, longe das histórias pesadas que sempre foram o meu objecto de estudo. Talvez me falte o tal termo de comparação, se quiser acreditar nas más línguas. Ou então, como eu prefiro acreditar, talvez me falte a densidade das coisas. Talvez me falte a vida.

Querer não é poder

Uma pessoa de quem gosto queria ter mais um filho. Mas não pode. Pode mas não deve. Falta-lhe o tempo, a paciência, iria faltar-lhe a qualidade de vida que ainda lhe sobra, iria ter de roubar aos filhos que já tem algumas coisas. Só para ter mais um filho. E eu fico assim, a pensar na injustiça de tudo isto. Levantam-se políticos, preocupados com a baixa natalidade, o senhor presidente da República pergunta-se porque é que não nascem mais crianças. E eu não consigo dormir a pensar na tristeza da minha amiga. Que queria ter mais um filho. E não pode. Não deve. E a gente só vive uma vez. E acaba por fazer tão pouco daquilo que quer. Só a pensar no que pode, no que deve. Eu também gostava de ter mais um, apesar de não conseguir explicar porque é que gostava de ter mais um. Deve ser a maluca da natureza. Mas, lá está. Não posso, não devo. Falta-me o tempo, a paciência, iria falta-me a qualidade de vida que ainda me sobra, iria ter de roubar aos meus filhos algumas das coisas que eles já têm. Nós queríamos, senhor presidente. Mas não podemos. Não devemos. Não conseguimos.

O passado revisitado


O Pedro ontem descobriu-me. E hoje escreveu sobre mim. E sempre que ele o faz convém que eu tenha um lenço por perto. Hoje, na Time Out, quando interrompi o silêncio da tarde a dizer: "Ai meu deus, que o Pedro escreveu sobre mim", quem estava por perto soube que o momento seguinte ia ser de lágrima. Lágrima para mim, que sou uma choramingas, riso para eles, que acham graça ao meu saudosismo, e que talvez não possam nunca entender o que foi o DNA, o que foram aqueles anos, o que foi o que ali se semeou, construiu, criou, cresceu. E morreu como morrem todas as coisas, mesmo aquelas de que gostamos muito.

Abri o blogue do Pedro e li: "A Sónia voltou". Baixei a página, levantei-me, fui dar uma volta. Os meus colegas leram primeiro que eu e ficaram à minha espera, em ânsias pelo espectáculo da minha miséria. O fotógrafo Nuno Fox até tinha a máquina a postos, para registar o momento. Tramei-os. Li tudo, post e comentários, e engoli em seco. No fim, sorri. "Então?" - perguntaram, desiludidíssimos. "Não choras?"

Não chorei. Pelo menos lágrimas que se vissem. Há momentos que não são para partilhar com ninguém. Agora, pronto. Já estou em casa, tenho um pacote de lenços aqui ao lado, já tirei as lentes, que isto de chorar com lentes é muito desagradável, já me aconcheguei no sofá. E vou ler outra vez.

pedroroloduarte.blogs.sapo.pt

Um café com vista para o sossego

O cão pode ser o melhor amigo do Homem. Mas o Noobai é o melhor amigo das pessoas com filhos. Hoje passámos a tarde a bebericar vinho, a petiscar tostas e brusketas, demos a mão, olhámos a paisagem, conversámos. E eles ali mesmo ao lado. No cantinho preparado para as crianças, onde há brinquedos e um quadro de ardósia com giz e apagador, no qual o Manel escreveu: "A anita toca piano" e "Sporting 20, Belenenses 0".
Viva o Noobai.

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