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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Spa spa spa spa


Quem diz que o dinheiro não dá felicidade ou é estúpido ou merece ser pobre. Ou acumula, o que é ainda mais provável. Hoje estivémos no Spa do Ritz. Graças a uma prima que também é madrinha que também é afilhada que também é amiga que, neste momento, é também uma espécie de deus.
O Spa do Ritz não é deste mundo, é de outro qualquer muito melhor que este. A piscina é enorme e a água é morna, há camas em redor, mas mesmo camas, lindas, com colchões cobertos por turcos, roupões de seda revestidos a turco fino, cheiro a creme bom por toda a parte. Os balneários... como dizer isto? Eu podia viver naqueles balneários. Sim. Vivia ali, sim senhor. As toalhas em rolinho, o chá e as tâmaras ao dispor, o chuveiro que não é um chuveiro, são muitos chuveiros, o creme de banho, o Aloé Vera. O silêncio.
Nadámos na piscina, lemos deitados numa cama com vista para o jardim, fomos chamados pelos massagistas. Eu fiquei com a Sónia, ele ficou com o Diogo.
Durante uma hora e meia a Sónia massajou a Sónia e a Sónia agradeceu à Sónia pela pressão dos cotovelos nas omoplatas, obrigada, obrigada, obrigadinha, pelos dedos fincados nos ombros, no pescoço, na cabeça. Uma hora e meia de mãos e dedos e braços a deslizar pelo meu corpo, a deslizar com os óleos essenciais, jasmim, hortelã, e mais dois que não me lembro, uma musiquinha suave a tocar em fundo, os cheiros dos óleos a entrarem em mim. E depois umas pedras a ferver cobertas por uma toalha. E eu deitada por cima, o volume das pedras enroscado nas minhas costas, o calor a espalhar-se pelo meu corpo moído.
Saí da sala sem peso, sem corpo, só uma alma agradecida e tonta, um sorriso apoucado nos lábios, os olhos a meia haste, as pernas sem força nem equilíbrio, uma pobre baratita agradecida e feliz. Na sala de relaxamento encontrei o Ricardo, que me cumprimentou com uma voz que não era a dele, com um sorriso que não era o dele, com uma expressão que não era dele. E ali ficámos, bêbados, trôpegos, dois corpos sem peso, sem densidade, dois sorrisos estranhos.

Quem diz que o dinheiro não dá felicidade não é nada mais que estúpido. Lamento.

A vida social do Manel

Sábado, 23 Fevereiro
10.30 - Festa do Pedro
15.00 - Festa do Bruno
20.00 - Jantar do Pai

Domingo, 24 Fevereiro
11.00 - Festa da Maria Beatriz

Sábado, 1 Março
14.30 - Festa do António
15.00 - Festa da Joana

Terça, 4 Março
17.00 - Festa da Margarida

Domingo, 9 Março
15.00 - Festa da Carolina

Haja dinheiro para presentes.
Haja forças para uma agenda tão preenchida.

A vingança

Daqui a nada vou estar a ver o Ruca. Na Abrunheira. Não caibo em mim de felicidade. Se vir por lá a mãe dele vou espetar-lhe um pêssego nas ventas. E se vir a avó empurro-a. Hoje vou vingar as mulheres da minha família! Na Abrunheira.

Sem toalha mas com refego


Ora bem. Uma pessoa está gorda. Tem uns refegos aqui e além e, como já não tem 4 meses, já ninguém diz "Ah que refeguinho tão lindo, ai que coisa tão fôfinha!". De modo que uma pessoa cai em si. E diz: Sónia, tu põe-te a pau, tu faz alguma coisa por ti, antes que não haja nada a fazer. E vai daí e toca de fechar a boca, excepção feita às saladas, sopas e água. Muita água. E mais: toca de encher a mochilinha e rumar ao ginásio para abanar as carnes.
Ora muito bem. Uma pessoa dispõe-se a pagar 75 euros por mês para ir ao ginásio. Escolhe o Holmes Place porque está mesmo em frente ao trabalho, de maneira que fica difícil uma pessoa arranjar desculpas para não pôr lá o téni. E o que é que recebe em troca? Um bom serviço? Palmadinhas nas costas? Descontos especiais? Nah. Além da água dos duches estar frequentemente fria, além de sacarem dinheiro pela avaliação corporal (que a gente bem dispensava porque temos olhos e espelhos e balanças e roupa que deixou de servir, e tudo junto já dá para fazer uma avaliação bem completinha, completíssima, diria), acontece ainda a situação mais insólita. A pessoa (eu) chega, com esforço, ao balcão, vê uma fila de gente a bracejar e pensa: ó lá que temos molho. E tínhamos mesmo. Os senhores do Holmes Place não tinham... toalhas. Que bonito. Um cliente estava vermelho de ódio e temi que fosse preciso chamar os paramédicos. "Querem que me seque onde? Sim, onde? Que me ponha todo nu debaixo do secador? É isso?" Gritava, coberto de razão, o irado senhor. Eu gostei da imagem e decidi acrescentar outra: "Querem o quê? Que me sacuda como um cão, depois do banho?" Olhei à volta, e como as reacções foram positivas, resolvi atear ainda mais o fogo lembrando a água fria (parece um contrasenso mas não é). E foi giro porque todos começaram a uivar: "Sim, e a água também está sempre fria! Isto é tudo inadmissível!"
Conclusão: expeli um pouco da minha bílis, é verdade, sim senhor, e dá jeito. Mas não fiz ginástica porque não me estava a ver em pêlo debaixo do secador ou a sacudir as gotas de água como um canídeo. De modo que os meus refegos cá continuam ao contrário dos meus 75 euros. Claro que não me vim embora sem escrever palavras ácidas no livro de reclamações. Se alguma alminha que tem a bondade de ler este blog estava a pensar inscrever-se no Holmes Place, dê por bem empregue o tempo nestas paragens e não se meta nisso.

Mãe e filho


Gosto desta pintura.
Gosto muito de Klimt mas este "Mãe e Filho" chega mesmo a comover-me.
Os olhos fechados dela.
Os olhos fechados dele.
As mãos dela, protectoras.
A mão dele, pousada no peito dela.
As rosetas nas bochechas de ambos. Gosto de os imaginar rosados de muito rirem, depois de uma sessão de cócegas e beijinhos na barriga.
As mães e os filhos deviam ser sempre assim. Deviam poder dissolver-se assim. Fundir-se assim. A natureza da relação é essa. Pena que a vida às vezes desencaminhe a essência.

12 palavras apenas


Aflito co' as mãos nos bolsos, do oito e coisa, deixou-me o desafio. Escrever as minhas 12 palavras preferidas. É difícil. Muito difícil. Mas, assim de repente, aqui vai:
Pai. Porque o que me calhou em sorte não é mais que um progenitor. Porque me fez, faz e fará falta ter um pai. Porque, felizmente, encontrei um pai digno desse nome para os meus filhos. Perfeito. Pai a sério é o que está. Que cuida, trata, tapa, beija, abraça, brinca, ralha, fica. Sempre. Gosto da palavra e do peso da palavra pai.
Mãe. A primeira vez que me chamaram assim, Mãe, senti-me muito maior, senti-me enorme. E cresci. E dei muito, mas mesmo muito mais valor à minha mãe. A boca arredonda-se para dizer Mãe. E os olhos parecem fechar-se de um quentinho bom.
Galatazarai. Não sei se é assim que se escreve. Nem sei de onde é que esta equipa é. Uma pesquisa rápida no Google permitia obter a resposta. Mas não me importa. Gosto desta palavra porque é gira de dizer. Galatazarai. Parece uma praga. "Galatarazai para ti".
Colo. Gosto de colo. De me aninhar no colo de alguém. De aninhar gente amiga no meu colo. Gosto de ter um colo para onde correr. Gosto de ser o colo para onde há quem corra. Adoro ter os meus rapazes dentro do meu colo.
DNA. Sim, é a nossa identidade mais exclusiva, aquilo que temos de mais nosso. Mas não é por isso que o DNA consta desta lista. DNA foi uma casa onde fui feliz. Tão feliz que a felicidade que sobra parece não ser mais que infelicidade. DNA foi nome de suplemento, de entrevistas grandes, de reportagens maiores ainda, de fotografias que falavam mais que dez mil palavras. DNA, DNA, DNA.
Saudade. Ora, pois. A seguir a uma tinha de vir a outra. Saudade é bom e é mau. Se temos saudades é porque já vivemos coisas boas. Se temos saudades é porque nos faltam. Quem não sente saudades não é boa gente.
Casa. Gosto de estar em casa. Gostava de trabalhar em casa. Gosto de regressar a casa. A minha casa tem as coisas que me fazem sentir feliz. Gosto de mudar de casa. Gosto de ver casas, de imaginar a minha vida ali dentro, gosto de imaginar as minhas coisas naquele espaço novo e diferente. Gosto de desempacotar a vida dentro de uma casa nova e decidir onde fica cada coisa. Casa é ninho. Gosto do meu.
Viagem. Seja para onde for. Para o Algarve, para o Norte, para fora do país. Detesto voar mas o aeroporto é a antecâmara da viagem. Gosto de fazer as malas. Gosto quando vamos todos. Fico doente quando me despeço dos meus filhos. Gosto do que as viagens me trazem, da forma como me transformam. Gosto de regressar de viagem. Dos abraços. Dos reencontros. Das histórias que conto e que oiço contar.
Céu. Azul. Também pode ter núvens, desde que sejam brancas e não ameacem o sol. O céu é onde gosto de imaginar os meus avós. E as pessoas de quem gostei e gosto e que já cá não estão. Não acredito que estejam espojadas no céu mas finjo que sim. Gosto de olhar para o alto e imaginar que os meus pedidos vão ser concedidos. "Quero...ficar em casa a escrever. Para sempre." Plim. O céu ouve e concede. Era tão bom.
Bolota. Como Galatazarai. Gosto do som. Como de lagartixa, péroquet, castanhola, pipoca, minhoca.
Silêncio. Sinto-lhe a falta. Lembro-me vagamente de como era e era bom. Nem um grito, nem uma corneta, nem a televisão. Nada. Só o silêncio.
Amor. O meu. O amor verdadeiro. Ter vontade de abraçar o meu homem, oito anos depois de me ter vestido de branco e ter dito, a medo, que sim, ficaríamos juntos o resto da vida. Sempre achei que 'sempre' era demais. Era tempo a mais. Quanto mais tempo passa mais percebo o quanto estava errada.
Amor. Às vezes soa a ridículo, pirosão. Connosco não. Amor. Para sempre? Sim, senhor. Para sempre.

Madrugar e trabalhar por culpa da fada


Ontem à noite, enquanto o Manel dormia, deixámos um gigantesco embrulho aos pés da cama. Comprámos um quadro, de um lado ardósia, do outro uma espécie de porta-telas, para pôr folhas grandes e pintar com pincéis. De um lado um suporte para pôr o giz e o apagador, do outro um suporte para pousar as tintas e os pincéis.
Confesso que me incomoda sempre um bocado que as fadas e os Pais Natais desta vida fiquem com os louros das nossas ofertas. E por isso é que faço questão que o presente que o velho das barbas vem entregar no dia 24 nunca seja o mais giro de todos. O mais giro oferecemos nós.
Desta vez, porém, concedi.
De manhã o Manel chegou à nossa cama com a voz de quem acaba de chocar com um fantasma no corredor:
- Mãe... Mãe... está um embrulho enorme na minha cama...
- Ah sim? Boa, então a fada dos dentes sempre veio.
- Mas, mas, mas... A fada dos dentes é pequenina ou é grande?
- Errrh... Não sei. Nunca a vi. Porquê?
- Porque o presente é mesmo grande e pesado. Se ela for pequena, como é que conseguiu pôr aquilo no meu beliche?
- Bom, as fadas são mágicas, não é?
- Sim. E ela se calhar tem ajudantes.
- Pois, é natural que tenha.
Foi outra vez para o quarto. Cinco minutos depois voltou.
- Mãe? Mas a fada sabe onde é que se embrulham os presentes? O embrulho é da Toys 'r us.
- Errrh... As fadas devem ter imensas lojas de brinquedos lá na terra delas.
- Pois. Então as fadas existem mesmo?
- Parece que sim.

Esta conversa aconteceu às 8 da manhã. São nove e meia e já ouvi o pai rosnar, de volta de pedaços de madeira e parafusos, que a maldita fada podia ter tido a decência de montar o quadro.
Definitivamente, as fadas não nasceram para nos facilitar a vida.

Assim também eu!


Estamos a ver a Alice no País das Maravilhas. Tenho 34 anos e nunca percebi porque raio a Alice estava só a dormir. Ou seja, porque é que tudo não passou de um sonho. Lembro-me de ser pequena e de ficar enraivecida com o final. O quê? A estúpida da miúda, afinal, estava só a partir choco? Olha que porra! Isso também eu faço. Tenho sonhos bem malucos e então? Giro giro era se ela tivesse mesmo falado com um coelho apressado, se tivesse esticado e encolhido e conversado com flores e com um baralho de cartas chanfradas. Agora, a sonhar? A SONHAR?
Inútil!

Pela boca morre o pobre


E no fim perguntei:
- Quanto é?
A senhora demorou um pouco os olhos no ecrã do computador. O suficiente para eu começar a sentir um formigueiro no braço esquerdo.
- São duzentos euros.
As pernas fraquejaram. Senti calor. E frio. E calor. E frio. E não disfarcei:
- Duzentos euros? Duzentos euros? DUZENTOS EUROS?

Porquê? Sim, porquê? Porque é que eu não fui para dentista?

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