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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Casas onde a cocó não se importava de morar #85

É um palacete T4+4. Ou seja, tem 8 assoalhadas, dstribuídas por 391m2. Não se enervem com as escadas porque tem elevador privativo. Fica na Junqueira.

Tem uma sala com 50m2 que dá para um terraço de 50m2. Depois tem mais 3 salas (não fosse uma não chegar), uma com 21m2 e duas com 15m2, uma cozinha com 21m2 e um wc social (tudo isto no Piso 1). 

No segundo piso, uma suite com 21m2 com closet, dois quartos com 17m2 e um quarto com 13m2, 2 WC completos.

Tem vista de rio, arrecadação, ar condicionado, vidros duplos e 2 lugares de estacioanamento

Custa 2.100.000 euros.

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Papeis, papelinhos, facturas, facturinhas, recibos, recibinhos, bilhetes, bilhetinhos

Admiro muito as pessoas que conseguem ter a casa sempre irrepreensível. Tudo no lugar, um lugar para tudo.

Eu sinto que travo um combate desigual com as coisas cá de casa. Arrumo uma cómoda, que foi acumulando papeladas e livros e facturas e presentes do Dia da Mãe e botões e ganchos e canetas e cenas diversas, e passado dias (poucos dias) já está tudo na mesma. O mesmo com as gavetas. De quando em vez passo-me da cabeça, despejo uma gaveta no meio do chão com estrépito, os miúdos olham-me como quem mira uma louca, e eu constato que sim, estou com um ar gaseado e a tender para o louco, o chão coberto de porcarias e eu a atirar para o lixo um sem número de coisas, e por vezes nessa fúria organizadora vai o que não interessa e também o que interessa, quero lá saber, EU QUERO É LIVRAR-ME DE COISAS!

Tenho para mim que existe uma multiplicação das cenas, que elas procriam, que estão determinadas em ocupar-me a casa, em ensandecer-me. Somos seis pessoas, cada uma com o seu lastro. É muito lastro para combater. Sinto que estou a perder esta batalha. 

Não vos acontece simplesmente não saberem onde arrumar determinado tipo de material? Ok, podemos arranjar caixas e agrupar por categorias. Mas... e as coisas soltas, que não se encaixam em qualquer categoria? Aaaaaaargh!

 

Fadas dos dentes

Aqui há tempos percebi que pagava, na minha dentista, muito mais do que todas as minhas amigas. Tudo começou com um desabafo que fiz sobre a fortuna que ia ter de pagar em implantes e a minha interlocutora ficou escandalizada com os valores que referi. Foi o princípio de tudo. Falei com mais outra amiga e os valores que pagava também eram incomparavelmente mais baixos e com outra, e com outra, e com outra. Mauuuuu!!!!! Então mas... mas... mas... A primeira das amigas a levantar esta lebre aconselhou-me a sua dentista, que ia adorar e coiso e tal, e eu fui lá mas cheia de peso na consciência por estar a trair a minha dentista de sempre (sou um bocado totó nestas coisas, é verdade). Acontece que não fiquei convencida. Ela tentou uma solução no meu dente-problema-do-momento que não resultou, passados dois dias estava tudo uma desgraça, e eu achei que estava para sempre órfã de dentista, a boca feita cemitério de dentes mortos, uma visão dantesca. Até que encontrei a minha vizinha de cima no elevador do nosso prédio. Por um acaso quase milagroso lembrei-me que era dentista, contei-lhe a minha história de súbita orfandade dentária e ela perguntou: "Então não queres que te marque uma consulta para ver isso?" Antes que me metesse noutra desilusão financeira quis saber os preços. E, lá estava: muito mais baixos do que os que eu pagava. Nem pensei duas vezes.

Foi assim que conheci a MdClínica. E porque é que faço um post sobre isto? Epá... porque eles merecem mesmo. Sim, eu pago as minhas consultas e tratamentos como qualquer pessoa, mas pago muito menos do que pagava antes. E, além desse facto (que não é nada despiciendo), adoro tudo: as instalações, a minha nova dentista - que é minha vizinha - Isabel Lopes (ela está sempre cheia de trabalho e não precisa de promoção mas é incrível e merece todos os louros - sorry, Isabel, não podia deixar escapar a oportunidade de agradecer todo o excelente trabalho nesta boca do demónio bem como o facto de ter salvo a minha mãe de uma infecção que a podia ter levado desta para melhor), a tecnologia de ponta, os outros dentistas que fazem trabalhos específicos (Dr. André Reis, Dr. Diogo Bezerra) e que são sempre tão cuidadosos, tão empenhados, a higienista que me fez a limpeza logo da primeira vez que lá fui (e que não magoou nadinha)... O facto de todos os gabinetes terem televisões no tecto (parece um pormenor mas é óptimo porque ajuda a distrair-nos dos tratamentos - não é que doam, na verdade nunca doem porque eles são super atentos e estão sempre a perguntar se está tudo bem - mas às vezes o que impressiona mesmo é estarmos a ver o batalhão de brocas e cenas assustadoras a entrarem para dentro da nossa boca).

Como se tudo isto não bastasse (e um dia destes posso dizer-vos especificamente todos os serviços que eles prestam - e são imensos), ainda descobri que a dentista de sempre dos meus filhos também lá dava consultas. Isso, meus amigos, foi um presente dos deuses! A Dr. Filipa Cordeiro dava consultas no consultório da minha dentista anterior e pior do que ter ficado órfã de dentista era deixar os meus filhos orfãos da sua dentista de sempre. Estava na disposição de ir atrás dela até Cascais, Gulpilhares ou Cabeceiras de Basto. Quando percebi que ela também fazia parte da equipa desta clínica ia chorando de emoção. 

E esta é uma questão que também merece elogio. Não só pela Drª Filipa, que além de excelente médica é um amor (acho que é impossível ter medo de ir ao dentista quando se tem uma dentista como ela), como pelo facto de a clínica das crianças estar separada da dos adultos (a MdKids é no 1º andar; a MdClínica fica no 6º). E não é só isto de haver um espaço pensado de raiz para os miúdos, decorado com ilustrações lindas do Paulo Galindro, como é digno de destaque o facto de os miúdos serem vistos por dentistas pediátricos e odontopediatras e não por dentistas de adultos - porque uma coisa é uma coisa e outra coisa... é outra coisa.  

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Por tudo isto... estou rendida. Absolutamente rendida. Não escrevi este post antes porque não quis precipitar-me. Quis deixar passar um tempo, alguns tratamentos (no meu caso concreto já vamos em 2 enxertos de osso, dois implantes, além de tratamentos de canais e pontes provisórias e o diabo a sete!), para ter a certeza que não estava com aquele deslumbramento dos primeiros tempos de relação. Não estava. Quanto mais tempo passa mais tenho para mim que ter ficado órfã de dentista foi o melhor que me aconteceu. Eu gostava muito dela (e era óptima profissional e custou-me horrores cortar esta relação tão antiga) mas aqui tenho tudo e mais alguma coisa sem ser preciso ponderar assaltar um banco ou meter-me na prostituição para poder ter os dentes todos direitinhos outra vez.

Os Papa-léguas #3 (Nelson Barreiros)

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Sempre ouviu dizer que não podia praticar desporto. Na escola, as recomendações da mãe ao professor de Educação Física faziam-no temer saltos e piruetas, jogos de bola ou correrias. Nelson Barreiros, atropelado aos 5 anos, tinha ficado sem baço, e sem baço - dizia a mãe (que, depois de quase o perder, só o queria proteger) - não havia lugar para desportos. Cresceu assim, afastado da actividade física, certo de que o carro que o havia colhido em criança teria levado consigo parte de quem era, forçado a um sossego perpétuo. O médico, de resto, alertara a mãe para decisões vindouras: "Quando crescer, ele que escolha um trabalho de escritório..."

Nelson obedeceu. Estudou Gestão de Empresas, enfiou-se num escritório, casou, teve um filho. Pelo caminho, esqueceu-se um bocadinho de si. Fazia refeições fora de horas, pouco regradas para quem, como ele, estava obrigado ao sofá. Em 2006 apanhou um susto. Estava hipertenso, tinha problemas nas articulações, estava sempre cansado. Pesava 110 quilos. Era uma bomba-relógio.

Com um filho de 8 anos, sentiu que a vida lhe escorria pelos dedos. Falou com uma colega que lhe marcou consulta num endocrinologista. Além da dieta, o médico prescreveu caminhadas. E Nelson começou, assim, a mudar o rumo da sua vida. Em seis semanas perdeu 7 quilos. Durante as caminhadas, via os que corriam. E foi tentando acelerar o passo. Principiou a correr. E a gostar. O médico desdramatizou o drama da falta de baço, que o ensombrara durante toda a vida. Tomou o gosto pela corrida. Sentia-se bem. Foi aumentado o tempo de actividade, os quilómetros, a velocidade. Em 2009 decidiu participar na sua primeira corrida. Escolheu a mini-maratona (7km) que atravessa a Ponte 25 de Abril. E em 2010 fez a Corrida do Tejo, a primeira de 10km. "Lembro-me de estar a correr e de ver o pessoal a correr na direcção contrária. Eram os que estavam a fazer 20km. E eu a pensar: 'Nunca na vida!!!! Esta gente é doida!!!' E afinal..."

Afinal depois dos 10, veio a primeira meia-maratona, em 2012, e a primeira maratona, em 2013. Para a estreia nos 42km, Nelson escolheu a Maratona de Lisboa. Pesava então 87kg. Terminou em 4h54m, lavado em lágrimas. "É uma emoção brutal. Vir a correr de Cascais e acabar em Lisboa... pensar em todo o treino, em todo o esforço, em toda a disciplina... ver o meu filho na meta, o meu treinador aos gritos... foi muito emocionante. Mas muito duro também. Pensei: nunca mais faço a maratona! Acabou!"

Está bem, abelha. Ficou dois anos remetido às meias-maratonas e aos trails, mas era certo e sabido que havia de voltar. Entretanto, foi aprendendo muito. Sobre o funcionamento do corpo, sobre os ténis a usar, sobre a passada. Juntou-se a quem sabia do assunto, leu, informou-se, aperfeiçoou-se. Em 2015, decidiu que estava pronto para uma nova maratona. Mas, desta vez, queria fazê-la sempre a correr. Sem paragens ou caminhadas pelo meio. Para isso era importante perder os quilos que lhe faltavam. De 110 para 87 já tinha sido um enorme salto mas era preciso chegar ao peso ideal. Consultou Sérgio Veloso, um fisiologista, compreendeu as complexidades do metabolismo, aprendeu sobre nutrição. Emagreceu 7 kg em 2 meses e hoje exibe uns atléticos 77 kg. Foi também nesse ano que apostou forte no reforço muscular e nos alongamentos. 

Nelson é determinado. Rigoroso. Disciplinadíssimo. Focado. Metódico. Quando mete uma coisa na cabeça, não se desvia um milímetro. Alguns exemplos prosaicos, mas claros: na despensa de sua casa há coisas que não pode comer. Ou melhor, pode, mas não quer, para não voltar ao que foi. O armário está trancado e é o filho quem tem a chave. Para que nunca ceda à tentação. Na porta do frigorífico está afixada uma fotografia sua com 110 quilos. Para que nunca se esqueça. Sempre que alguma peça de roupa lhe deixa de servir, não a guarda. Oferece. E compra o número abaixo. Para que nunca haja roupa larga à espera de uma recaída. Antes, quando chegava à Fuseta, onde faz férias, o seu primeiro pensamento era: "onde é que eu vou almoçar bem?". Hoje, quando lá chega a sua primeira preocupação é: "onde é que eu vou treinar bem?"

Foi em Novembro de 2015 que fez a sua segunda maratona, no Porto. Encantou-se. Pelo percurso, pelo apoio das pessoas. E conseguiu cumprir o objectivo: correu do primeiro ao último quilómetro e terminou em 4h12m, com o detalhe importante de ter feito um split negativo, isto é, correu a segunda parte da prova mais depressa do que a primeira parte (o que significa uma gestão de esforço notável). Correu-lhe tão bem que em Fevereiro de 2016 estava a fazer outra, em Sevilha, como novo recorde: 3h55m. E em Novembro do ano que acabou de passar, mais uma: de novo a Maratona do Porto, e um novo recorde de que se orgulhar - 3h48m.

O homem que não podia praticar desporto. Que cresceu assim, afastado da actividade física, certo de que o carro que o havia colhido em criança teria levado consigo parte de quem era, forçado a um sossego perpétuo. A primeira comparação que me surge é a de um sedento a quem oferecessem um jarro de água fresca. Mas depois, pensando melhor, não é justa, a comparação. Porque se assim fosse ele correria do mesmo modo que o sedento beberia água: sofregamente. E não é esse o caso. Nelson não é sôfrego, não é inconsequente nem inconsistente. Ele traça metas e trabalha muito para lá chegar. Com cabeça. Com muita cabeça. 

Diz que a mulher tem uma paciência de santa para aturar tanto treino, tanta ausência, tanto tempo dedicado ao que começou por ser um desporto e acabou a ser uma filosofia de vida. O filho, hoje com 18 anos, não comenta a azáfama do pai. Acha que se orgulha de si? - pergunto. Nelson encolhe os ombros, naquela dúvida que sempre nasce nos pais quando os filhos se enchem de si mesmos, incapazes de reconhecer feitos paternos. De uma coisa tem a certeza: a sua vida desportiva foi muito importante a nível profissional. "Estou mais disponível para o trabalho, mais bem disposto, mais activo, com mais vontade de enfrentar novos desafios. Tal como me desafio com os quilómetros, parece que também no trabalho sinto esse desejo, de me continuar sempre a desafiar". E, claro, reconhece a importância da corrida na vida social, na auto-estima, no prazer inequívoco em inspirar os outros.

Para o futuro, quer continuar a correr. Continuar a saltar obstáculos, a quebrar barreiras. Sonha com provas míticas como Londres ou Nova Iorque mas também com uma outra meta: fazer uma prova de três dígitos. 

Nelson já pesou 110 quilos. Já se cansou só de se virar no sofá. Hoje é, sem sombra de dúvida, outro homem. Um homem num novo paradigma. Um novo Nelson que nasceu, deixando para trás um outro, a quem haviam sentenciado - erradamente - uma vida de sossego perpétuo. Que teria sido dele, se não o tivessem limitado assim? Nunca saberemos. O que importa é o que conseguiu fazer por si próprio, e a felicidade que alcançou. Duas vidas numa só vida não é para todos. 

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 Fotografias: Raquel Brinca, HUG

(camisola com estrela em lantejoulas: Aficionata)

 

 

E, para que se perceba, eis o antes e o depois. 

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Um ovo na sala de aula

- Mãe, sabias que tenho um ovo na turma?

- Um ovo???

- Sim!

- Mas um ovo como?

- Um ovo, mãe, não sabes o que é um ovo?

- Sei o que é um ovo. Mas quê? Algum ninho numa janela? Um ovo que alguém levou para a sala? Um ovo como?

O Martim riu-se. E foi então que percebi que havia graçola a caminho.

- Não! É que há uma Ema na turma e nós chamamos-lhe gema. E depois há a Clara. Quando estão juntas são... o ovo da nossa turma!

 

😳 

 

(sim, já o admoestei por gozar com o nome da colega, já lhe perguntei se gostava que fosse com ele, já fiz todo esse trabalho que me compete; ele garante que é só uma brincadeirinha inofensiva, que as amigas até acham graça, mas pronto, levou o sermão de mãe expectável)

Storyline

Storyline é uma ideia de 3 amigas. Duas arquitectas que vivem para criar espaços bonitos e uma designer que adora dar vida às ideias através de bonecos (uma delas andou comigo na escola). Basicamente, a Storyline adapta histórias tradicionais e coloca-a numa linha, para pendurar na parede. 
Cá a casa chegaram duas caixinhas. Lá dentro, cartões, fio de pasteleiro e molas pequeninas. Numa das caixas a história é dos Três Porquinhos e tem a cara do Mateus. Na outra caixa a história é do Capuchinho Vermelho e vinha a capuchinha com a fotografia da Madalena. Um amor! Dizia o cartão que eles podiam pendurar a história no quarto pela ordem em que estava ou então trocá-la toda: "Fazer do lenhador o mau da fita? A avózinha uma fiteira? O lobo um animalzinho em dieta e como tal, com algum geniozinho?"

Achei a ideia apetitosa. E as histórias já estão penduradas. Para já estão com uma determinada ordem mas a graça é também podermos mudá-la quando nos apetecer (com as molas todas as trocas são possíveis).

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 Podem ver mais AQUI

 

(Quase) Toda uma Vida: Frei Bento Domingues

Foi ontem, no Pequeno Auditório do CCB. Chegámos um bocadinho atrasados e, à porta, o funcionário diz o que eu não esperava:

- Desculpe, mas já não há lugares.

- Como??

- Já não tenho mais lugares disponíveis.

- Para a entrevista da Anabela Mota Ribeiro ao Frei Bento Domingues? - perguntei com tom embaraçosamente incrédulo.

- Sim.

 

Abri a boca de espanto. Não é que a Anabela não seja fascinante nas perguntas (se é!) e que os seus entrevistados não sejam sempre interessantíssimos (se são!). Mas não é costume, infelizmente, uma sala esgotar em Portugal para um programa destes. Sorri, orgulhosa, e já estava a gerir interiormente a desilusão quando aparece uma senhora a dizer que ainda havia lugares para as laterais, se nós queríamos. Claro que queremos!!!! 

E que maravilha. Que deslumbre. Frei Bento Domingues, 82 anos, apresenta uma vida inteira em cada resposta, pelo que compreendi ontem que já viveu pelo menos umas trinta ou quarenta vidas inteiras. Nunca respondeu a uma questão sem contar uma história daquelas que agarram os interlocutores mais empedernidos e os comovem ou divertem ou ensinam. A forma que tem de falar da religião é totalmente livre, desempoeirada, quase subversiva (seguramente que para muitos será absolutamente subversiva).

Uma delícia ouvi-lo falar da sua infância: "A natureza da minha terra era esplendorosa [nasceu no Minho]. Mas era assustadora também. Só se falava em inferno, castigo, medo. A minha avó era especialista nisso." E, mais adiante, de novo. Quando Anabela lhe pergunta se pensa na morte, responde: "Claro! Mas quando era novo pensava muito mais!" Anabela surpreende-se e ele explica: "Estavam sempre a repetir: se morres em pecado mortal vais para o Inferno. Ora, uma pessoa sabia lá se estava ou se não estava! A catequese era um susto e dava-me muitos problemas. Tinha muito em que pensar. Diziam que os inimigos da alma eram o mundo, o demónio e a carne. O mundo? Bom, eu não o conhecia mas era tão bonita a minha terra... o demónio, tudo bem, percebia, era feio e chifrudo. A carne? O mal era ser pouca!"

Foram muitas as gargalhadas que fez a audiência dar. Como quando disse, a propósito de certos fundamentalismos: "Um Deus que manda matar??? Que se mate ele!"

Gostei de lhe sentir as dúvidas, a abertura total para a incerteza, para o questionamento, para o fim da infalibilidade. Sobre Fátima e o comércio adjacente e a promiscuidade entre credo e negócio, preferiu a ternura, definida numa frase belíssima que não vou mais esquecer: "Fátima é o cais de Portugal. É onde as pessoas se vão despedir dos que amaram e partiram, onde se vão despedir de pessoas e coisas que perderam. É onde vão chorar em conjunto as suas dores. É uma simbolologia, uma representação. Agora se Nossa Senhora apareceu aos pastorinhos ou não! Sei lá eu! Provavelmente sim, como aparece a tanta gente, até a mim. É preciso é estar atento. Somos demasiado desatentos de nós, da nossa vida, do nosso interior! E demasiado desatentos dos outros. Espero que Deus tenha muita capacidade de rir de tanta asneira que fazemos!"

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No próximo dia 5 de Fevereiro, às 17h, há mais (Quase) Toda uma Vida no CCB. E eu estou lá batida (logo às 16h, por causa das tosses).