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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Renault Grand Scénic: diversão em família no fim-de-semana do Carnaval

A Renault convidou-me para ir em família ao Fun Stand do novo Renault Grand Scénic e prometeu que ia ser uma experiência muito divertida. Vamos hoje ao evento (devo levar dois mascarados, espero que não dêem cabo do look do Fun Stand todo 😬) e em breve conto como foi. De qualquer modo, de 25 a 28 de Fevereiro, a Renault convida as famílias a irem conhecer o Renault Grand Scénic, o familiar da nova geração, com 7 lugares. E para demonstrar que este é o automóvel certo para as famílias, foi criado o Fun Stand, com várias experiências imersivas, interativas e de realidade virtual, criadas pelo OCUBO, cada uma delas relacionada com uma feature específica do carro. Pinturas criativas de luz, viagens por fantásticos mundos virtuais e uma dança sincronizada de bancos do Grand Scenic são algumas destas experiências, que prometem divertir todos os elementos da família. Ainda lá não fui mas quer-me parecer que pode ser um programa diferente para se fazer neste fim-de-semana de Carnaval (nós, pais, andamos sempre à procura de programas diferentes)... e não se preocupem: ninguém vos obriga a comprar o carro! (mas lá que é bem giro, isso é!) Amanhã conto tudooooo!

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Manel, presidente do Sporting

O meu filho Manel viu ontem o debate entre os dois candidatos a presidente do Sporting com um caderno na mão. Fartou-se de tirar notas. Não me surpreende. O meu filho Manel tem pelo Sporting uma verdadeira doença. Acorda e deita-se a cantar os cânticos das claques, já ensinou todos ao Mateus, sabe tudo sobre o clube, conhece todos os jogadores (não só do Sporting) a ponto de saber onde nasceram, em que outros clubes estiveram, que lesões já enfrentaram, que golos marcaram.

O meu filho Manel quer tirar Gestão mas eu sei que ele vai acabar a trabalhar em qualquer coisa que tenha a ver com futebol. Não é que isso me deixe particularmente feliz, mas sei que a ele o deixará. O meu filho não vê futebol como as outras pessoas "normais". Ele vive o futebol. Vive especialmente o Sporting com um fervor que não conseguirei jamais entender. De onde é que isto vem? Como é que isto aconteceu? O pai e o avô são sportinguistas mas nada como isto. Nada. 

O meu filho Manel não pôde ouvir ontem o debate em directo porque era o aniversário do pai, mas passou o dia (e a véspera e a antevéspera) a falar no assunto. Quando os avós se foram embora, pôs o debate e sentou-se, a tirar apontamentos. Parava a gravação sempre que havia barulho, pedia silêncio, estava seríssimo, enquanto nós todos o olhávamos, sem compreender. 

O meu filho tem cadernos onde escreve tácticas, desde que era minúsculo. E tem uma página de facebook (Mibster), onde fala de futebol.

No outro dia, dei com este texto dele sobre o jogo entre o Porto e o Sporting: 

"Por onde começar? Começar pelo minuto zero? Ou recomeçar do zero?
Para já começar por dizer que Sou Sporting até morrer.
Agora falando sobre os 90 minutos do jogo:
Primeira parte Porto,segunda parte Sporting. O Sporting a não conseguir lateralizar o jogo, e com processos defensivos débeis, assim como transições previsíveis taticamente.
Porto a explorar espaços vazios e a apostar forte em contra-ataques, nos quais conseguiu dois golos.
Segunda parte, como era de prever, o Sporting entrou com mais dinâmica de jogo, mais e melhor poder ofensivo, e cultura defensiva sólida. Porto mais defensivo, muito fechado, como também era esperar, acaba por sofrer um golo com justiça.
Alan Ruiz foi fundamental para chegar ao golo; A entrada de Esgaio mostrou a deficiência de jogo de Marvin Zeegelar; André André entrou para fechar Alan, e conseguiu, dando também largura ao meio-campo portista; Primeira parte da defesa do Sporting muito má posicionalmente; Casillas salvou o Porto, mérito do espanhol.
O jogo foi intenso, bem disputado, e acaba por ser um bom clássico. Parabéns ao @fcporto pela vitória!
Parabéns a equipa de arbitragem que esteve mais do que à altura do jogo.
Por último reforçar a ideia inicial:
Um leão nunca baixa a cabeça, só para beijar a camisola. Se Matematicamente é possível, então quem a pode negar?
É difícil? É!
Quase impossível? Sim!
Já acabou? NÃO!
AMO-TE @sportingclubedeportugal"

 

Não contrario isto, apesar de não compreender. Tento dar-lhe outras coisas, outras vivências, mais do que só futebol. Para que não se torne uma pessoa vazia do resto, apenas cheia de bola, que me parece sempre tão pouco. Uma coisa é certa: é isto que o faz vibrar como mais nada. 

Silêncio

Depois de "Manchester By The Sea", depois de "Eu, Daniel Blake", depois de "Lion, Um Longo Caminho Para Casa", ontem foi a vez de ir ver o "Silêncio", de Martin Scorsese. Um filme de uma beleza e de uma força e de uma dor incomensuráveis. E sim, ali há dor. Física e espiritual. Há tortura (não chinesa, mas japonesa) e há sofrimento e há morte, e é tudo filmado de forma crua e violenta. Mas, estranhamente, é belíssimo, poesia pura, fé no seu sentido mais profundo. Incompreensível, transcendente, fervoroso. A voz, do padre narrador, é pausada e quase sussurrada. E no meio da vegetação densa e permanentemente chuvosa e nublada do interior do Japão parece uma voz quase sobrenatural.

Dois padres portugueses vão ao Japão mais profundo para tentar perceber o que aconteceu a um terceiro padre, por se recusarem a acreditar nos boatos que sugerem que ele se converteu ao budismo e aos costumes locais. Quando lá chegam, testemunham a perseguição e os horrores de que são vítimas os cristãos e passam, eles próprios, pelo inferno (palavra muito apropriada). 

Silêncio merece, sem dúvida, o Óscar para a Fotografia, mas parece-me manifestamente pouco em termos de nomeações. É, sem dúvida, um grande filme.

 

 

 

Ontem

Ele fez anos. Não foi trabalhar. Passámos o dia juntos, com vagar. A pessoa esquece-se de como é bom estar, simplesmente estar, sem pressas, sem ter o que fazer a seguir. Sentimos o mesmo em Sevilha. Sentimos o mesmo sempre que viajamos, a dois. Como é bom passear de mão dada, conversar sem 658 interrupções por minuto. A pessoa esquece-se do quanto gosta disso. Do quanto gosta do outro. Na vertigem do dia-a-dia, a pessoa corre o risco de se esquecer, engolida pelo tanto que tem de fazer, como um rato frenético numa roda. Foi por isso que lhe ofereci uma viagem. A dois. Para usufruirmos daqui a uns tempos. Para não nos esquecermos de como é bom estar, simplesmente estar. De mão dada. A conversar ou em silêncio. Sem a voragem da vida. Que é necessária. Mas tão estúpida.

 

Workshop de amanhã

Bom...

O meu marido faz anos hoje. Tirou o dia para estarmos juntos. Ainda não fiz mais nada do que contactar vencedores do workshop de amanhã, que não podem ir pelas mais variadas razões.

De maneira que... ficamos assim: os primeiros a enviar email para sonia.morais.santos@gmail.com ganham a vez. O workshop foi adiado para as 20.30 porque eu tinha um evento antes e não me lembrei (a idade é lixada). Relembro: é amanhã, em Cascais.

Grata!

 

Maratona de Sevilha (só para quem tem pachorra para isto das corridas e para relatos grandes e lamechas)

Não estava bem preparada, não tinha corrido os quilómetros todos que devia, nem pouco mais ou menos. Fiz os treinos longos, é certo, mas faltaram-me aqueles treinos curtos em barda: vários de 5km, vários de 8km, vários de 10 e de 15 e de 20. Sabia disto, pensei não fazer a maratona, mas depois de ter acabado os longos com vida... olha, que se lixe, vamos a isto!

O fim-de-semana em Sevilha foi mesmo bom. Fomos na sexta de manhã, almoçámos com uma grande grupeta na Noélia, em Cabanas, e depois seguimos para o destino final. Deu para namorar, deu para descansar dos miúdos (e soube meeeesmo bem), deu para conviver com um grupo tão-tão giro, com pessoas de quem gosto muito, algumas há já algum tempo, outras há menos, mas todas boa gente com quem sabe bem estar. Tivemos um jantar incrível, com 50 pessoas, todas elas em véspera de maratona, umas já batidas nisto das maratonas, outras estreantes, outras apoiantes, umas que levaram os filhos, outras que os deixaram em casa... maravilhoso.

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A maratona em si... pois que foi mesmo sofrida. Quando fiz a primeira, em Lisboa, fiz sem sofrer. É claro que no final estava muito cansada mas nunca vi "o muro", nunca me senti extenuada, nunca achei que ia falecer a fazer aquilo. Já tinha ouvido relatos sobre maratonas muito dolorosas, até para quem já está batido nelas, mas como não me aconteceu à primeira acho que não vi bem o filme. 

Arranquei com pica e a uma velocidade superior à dos últimos treinos. Dentro de mim pensava que talvez estivesse a fazer asneira, que talvez não estivesse a fazer uma boa gestão do esforço, que talvez rebentasse antes de tempo, que talvez fosse melhor abrandar. Mas, por outro lado, estava a chatear-me abrandar. Queria manter-me naquele ritmo e, no meu íntimo, havia uma secreta - e muuuuuuito estúpida - ilusão de conseguir igualar ou bater o tempo que fiz na maratona de Lisboa (04h18m). Era uma ilusão mesmo muito estúpida, que só podia mesmo passar na cabeça de uma pessoa competitiva e maluca como eu, que até comigo compito. Como podia eu querer fazer melhor tempo que em 2015, em que tinha menos 4 quilos, e uma preparação física irrepreensível? Só mesmo no meu íntimo. Não partilhei esta estúpida ideia com ninguém, de tão estúpida que era. 😅

Aos 15km, claro, rebentei. Aliada ao cansaço generalizado, veio uma dor intensa no tendão de aquiles. Pensei: estou lixada. Como é que eu vou fazer 27km neste estado? Morta, cheia de dores, acabadíssima? O mister entrou em contacto com a incrível claque que estava em vários pontos para nos apoiar (não descrevo todos porque eram muitos e tenho medo de me esquecer de alguém, o que seria uma injustiça irreparável), e daí a nada já eu tinha 2 analégicos no bucho, entregues em mão por um dos apoiantes. 

Os 27 quilómetros que se seguiram foram penosos. Penosos é favor. Foram pa-vo-ro-sos. Não só pelo calcanhar (que entretanto deixou de doer tanto, graças aos analgésicos) mas porque psicologicamente quebrei. Só pensava que não ia conseguir. E perguntam vocês: e se não conseguisses? Vinha daí algum mal ao mundo? O degelo agravava-se? A mutilação genital feminina aumentava? A fome em África ia matar ainda mais crianças? A guerra na Síria nunca mais teria fim? Ou, num plano mais pessoal, o que acontecia? Matavam-te? Despediam-te? Retiravam-te as crianças por seres má mãe? Morria a tua família toda? Pois. Não. Nada. Não acontecia nada disto. Nada de importante. Mas quem se mete nestas coisas sabe que desistir só é opção se o caso for mesmo grave. A gente não se mete nisto para desistir, caneco. A gente mete-se nisto para se superar. Para chegar ao fim. Para fazermos uma coisa quem nem toda a gente faz. Chamem-lhe o que quiserem! Narcisismo, mania, síndrome do super-herói, devaneio, loucura, parvoíce. É convosco, e por mim está certo. Qualquer dos nomes que lhe queiram chamar. Porque eu própria não sei bem o que me move. Sei que tenho um prazer maluco em superar-me. Em fazer coisas que nunca antes havia imaginado ser capaz. Aaaaaah, caraças, que bom que é! 

E pronto. Foi com os olhos (e o corpo todo) posto neste objectivo da superação (ou da paranóia, whatever) que continuei. A Raquel Brinca, que consegue ser ainda mais obstinada que eu, foi o tempo inteiro focada em fazer-me chegar. Não me deixava parar, mesmo quando eu já só queria matá-la. Dizia-me palavras de incentivo, mesmo quando eu já só queria calá-la. Ia buscar águas e perguntava-me se já tinha tomado o gel certo e os sais e as gomas e o cacete, mesmo quando eu já só queria atirar-me para o chão. E foi o tempo inteiro a fazer a festa. A falar com as pessoas, a agradecer os aplausos, a pedir aplausos, a gritar o meu nome para que quem aplaudia gritasse o meu nome, a saltar, a rir. Acreditem no que vos digo: a mulher é uma força da natureza. 

O David Storch foi outro. Sempre ali ao lado, a incentivar, a dizer parvoíces que me faziam engasgar de rir, a rir-se dos 40 palavrões por minuto que eu despejava, a ir buscar água, a ser um pouco mais complacente do que a Raquel nas minhas paragens (juntos faziam uma espécie de dupla tipo good cop/bad cop). 

A entrada no centro da cidade, ao quilómetro 37, é apoteótica. Milhares de pessoas dos dois lados da rua, aos gritos, a torcerem por todos os que passam, de bofes de fora. Durante três ou quatro quilómetros é isto: gente e gente e mais gente a gritar o nosso nome e a dizer que está quase, que é já ali, que é nossa, que ninguém nos tira, que já está. A força disto... não se explica. Chorei como uma Madalena, assim a ponto de nem conseguir controlar a respiração. Sim, é verdade, sou a maior chorona da História. E o pior? Não me ralo.

A prova terminou no estádio olímpico de Sevilha. Cruzei a meta de mão dada com a Raquel (o David atrasou-se um bocadinho porque foi só à bancada pedir a namorada em casamento 😂 😍) e aí sim, foi uma choradeira épica. Estou até a pensar alterar o nome do blogue de Cocó na Fralda para Cocó-chorão, que é o que eu sou. Fizemos 04h38m. Nem sei como. Quer dizer, sei. Se não tivessem sido aquelas duas almas... provavelmente ainda lá estava agora.

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Durante o percurso só pensava no Ricardo. Tinha-o deixado para trás, com o Zé, e imaginava que, se eu estava a sofrer, talvez ele estivesse a morrer, já que sempre disse que não se sentia nada preparado para a maratona e que os treinos longos lhe custaram horrores. Quando o vi chegar, foi uma emoção. O Zé vinha na forma do costume (em festa) e, de facto, é impossível esmorecer com aquele homem ao lado. É outra força da natureza. Nunca vi criatura mais animada do que aquela, benza-o Deus. Obrigada pelo constante incentivo ao Cocó-man!

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Muito obrigada à claque fantástica composta por maridos, mulheres, amigos, tias, filhos que, durante todo o percurso, foram aparecendo para gritar o nosso nome. É que dá um alento mesmo bom. Obrigada ao Pau pelas fotos tão boas e pelo vídeo, imaginando eu como lhe custou estar sem correr. Obrigada ao mister, que andou meses a tentar que nós treinássemos mais, para que não sofrêssemos o que sofremos. Obrigada ao Vasco, "dealer" do grupo, que nos orientou nas drogas certas a tomar durante os 42 km, primeiro estas, depois as outras, só no fim as Rocktane (que me fizeram sempre cantar a Roxanne dos The Police, mesmo em estado comatoso). Obrigada à Raquel e ao David. Sem vocês... não sei se desistia (que eu sou um bicho choné) mas o mais certo era ainda lá estar agora. E, claro, obrigada à minha mãe que ficou a segurar as pontas com os miúdos em Lisboa. É a maior! Já agora, obrigada à Academia de Sobrevivência, que veio buscar o Martim e a Mada a casa no sábado e arranjou quem os trouxesse para casa no domingo, para eu não pedir à minha mãe mais esse esforço.

Muitos parabéns à Madalena Salgueiro e à Ana Lemos, que fizeram a sua primeira maratona em grande estilo! São maratonistas, raparigas!!!! Parabéns!!!! 

E pronto. Foi isto. Estou coxa, tenho os bofes de fora, tenho uma unha do pé mesmo a cair e outra julgo que vá pelo mesmo caminho. Em princípio não quero ouvir falar em maratonas nos próximos anos mas não prometo nada, que isto de correr é mais ou menos como parir. A gente jura que nunca mais e depois... bom, cá em casa é o que se vê. 😬

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Mudar de vida #3: Ana Varela

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Quem diria? Quem havia de dizer? Que a bióloga havia de dar lugar à lojista, que a cientista havia de se render à fantasia, que a investigadora podia arrumar a seriedade e dedicar-se à brincadeira e ao sonho? Quem diria? Quem havia de dizer?

Mas assim é. Assim foi.

Ana Varela tem 31 anos. Fez o curso de Biologia, em Coimbra, sem grande convicção. Seguiu-se o estágio em Biologia Celular. Ela, que tinha horror a ratos, avisou: "Tudo menos ratos". Teve azar. Na primeira semana, logo ratos. Pensou "isto não vai correr bem". Mas correu. Os colegas manuseavam os animais, chamavam-na no final. Claro que, pelo meio, faziam as brincadeiras da praxe. "Podes vir, Ana!" E a Ana vinha e havia ratinhos à solta na sala e gritos que os faziam perder-se de riso.

Com o passar do tempo, Ana aprendeu a gostar do trabalho em laboratório, e havia de ser boa no que fazia porque foi proposta para Doutoramento, candidatou-se às bolsas da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) e conseguiu. Escolheu um projecto para trabalhar durante 4 anos, o único do laboratório só com animais, quase nada de linhas celulares: "O projecto consistia em mimetizar uma cirurgia ao fígado, onde fazíamos um período de isquémia e reperfusão, com estratégias de redução do impacto da isquémia no fígado." Perceberam? Pronto. Falamos deste nível de conhecimento científico. 

Correu tudo muito bem e, depois de mais um ano de laboratório, a melhorar o currículo, Ana Varela conseguiu mais uma bolsa de pós-doc. Uma bolsa de três anos. Porém, ao fim de um ano, fechou a porta. Ou talvez seja melhor dizer: bateu com a porta. "O mundo da Ciência e da Investigação é muito competitivo. Há uma pressão incrível. E houve um dia em que olhei para a minha vida e pensei que não queria aquilo para mim. A vida, para mim, é mais do que o laboratório. Queria ir ao cinema, queria jantar fora, queria viajar, queria... viver!"

E assim, em Abril de 2015, saiu. Os pais apoiaram-na no momento da ruptura mas, depois, fizeram o que os pais fazem: aconselharam calma, temperança, cabeça fresca. Ana era Bióloga, estava envolvida em projectos científicos de grande complexidade, com moléculas e células à mistura, o laboratório onde estava trabalhava num projecto com a Fundação do Michael J.Fox... o que mais podem pedir uns pais? A filha tinha estudado tanto, trabalhado tanto para chegar ali. E agora largava tudo para fazer o quê?

Para viver. Não parece pouco, escrito assim. Resumido assim.

Em Outubro de 2015 nasce, então, a Lato Latinho. Uma loja de brinquedos e de artigos de festas infantis que pretende ser mais do que isso. "Um cantinho mágico onde ratinhos são príncipes e há bailarinas que são coelhos, onde lemos histórias, inventamos histórias e fazemos parte delas. Temos tido actividades para os mais pequeninos: apresentação de livros, hora do conto, conversas com cientistas... para que venham aprender e sorrir connosco! Porque não há nada melhor que brincar, sorrir...ser feliz!"

Nada a ligava ao universo infantil. Não é mãe, não tem sobrinhos, nada. Mas sentiu um apelo imenso pela fantasia, quase como se precisasse de um regresso ao imaginário, tão contrastante com o seu eu científico. A ciência trocada pela fantasia. A objectividade transformada em sonho. Já o nome "Lato Latinho" estava escrito no destino. Aliás, estava escrito na sua própria infância, pelo que fazia todo o sentido trazê-lo até este renascimento da menina por detrás da cientista. "Quando eu era pequenina não dizia os "erres". Substituía-os por "éles". E na terra onde nasci, em Valado dos Frades, toda a gente brincava com isso. Até que me ensinaram uma ladaínha, para eu aprender a dizer os "erres". Era assim: Se eu fosse um rato ratinho/ roía a tua roupa/ dava mais um saltinho/ e dava-te um beijinho na boca. Ora, eu não dizia "rato ratinho" mas sim "lato latinho". E as pessoas mais próximas começaram a tratar-me assim. Quando andava a pensar em que nome dar à loja, fui a uma loja lá da terra e a pessoa que me atendeu disse: "Então, Lato Latinho, o que vai ser?" Pronto. Fez-se luz."

Mas não há apenas esta curiosidade, do nome da infância recuperado agora que quis recuperar o seu lado infantil. Há também a questão dos ratos, a que tinha pavor, dos quais fugia no laboratório, agora transformados em reis no seu mundo de fantasia. Se isto não é um belíssimo e metafórico ajuste de contas com a vida... não sei então que será. 

Quem diria? Quem havia de dizer? Que era possível trocar as voltas ao destino de forma tão inesperadamente poética. É científico: a felicidade vale mais do que qualquer Ciência.

 

Lato Latinho: Avenida Afonso Henriques 32, Coimbra.

https://www.facebook.com/LatoLatinho/

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Fotografias: Raquel Brinca, HUG